espírito da cruz 59 – o rei oculto

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O orgulho espiritual é o mais dissimulado dos pecados, pois vem sempre bem camuflado de humildade. Poucos de nós tem a percepção de sua altivez pessoal. Não há mimetismo mais ardilosa do que o orgulho espiritual vestido com trapos e fiapos.

Eu não confio na minha humildade. Muitas vezes me arrasto no discurso, mas, a minha cabeça busca uma coroa no trono. Falo mansamente, embora a minha pretensão de ser visto, esteja gritando no íntimo. Digo que sou mendigo e reajo como Sua Alteza. É um paradoxo essa vida de ser um pobre de espírito. Minha fala é de humildade, todavia, o bafo de um dragão-de-Komodo denúncia meu orgulho espiritual.

O orgulho é o desejo pervertido pela notoriedade. Sou soberbo mesmo quando estou me escondendo sob os mantos da invisibilidade, a fim de que os outros saibam que eu sou um “ilustre” desconhecido. Fico assustado quando tomo uma foto de um grupo em que estou ali no meio e logo me vejo procurando a mim mesmo para olhar como estou.

Tenho pedido ao Senhor que me revele quem sou de verdade. Muitas vezes eu finjo que sou humilde, mas quando vejo minha imagem refletida no espelho do poço, logo percebo o narcisismo da modéstia rubra de brio. Eu acho que tenho direito e que devo ser tratado com deferência. Minha humildade sempre traja roupas de gala.

Vi pseudo mendigo dançando a baiana porque o seu contracheque não refletia a expectativa do seu cachê. Vi a minha conduta arrogante diante da cena julgando o outro com presunção de quebrantamento. Orgulho na ação e na reação – tudo com cara e traje de singeleza. Que coisa mais ridícula é a postura da distinção presumida.

Sto. Agostinho disse: a humildade é a qualidade que aquele que tem não sabe que tem, pois se souber, ficará orgulhoso de tê-la. Orgulho é tão persistente e resistente, que até com a humildade ele quer levar vantagem. É impossível alguém ser humilde, sem o risco de se orgulhar com sua humildade. Ouvi um missionário orar: Senhor, orgulho-me da minha humildade. Como pode? Água e fogo se aniquilam; ou a água apaga o fogo ou o fogo consome a água. Orgulho e humildade são incompatíveis.

Só o espírito da cruz tem condições de produzir a verdadeira humildade, sem promover o orgulho. Não se trata apenas de uma doutrina certa da cruz, mas do espírito da cruz. Se não houver a morte para si mesmo, não há lugar para Deus em nós mesmos. Precisamos mais do que conceitos corretos. Precisamos morrer para os nossos direitos.

Fui a um velório em que a viúva não se conformava com a morte do marido, e, em desespero, arrancava maços de cabelos do defunto. O morto tinha sido um homem muito forte, mas, não esboçou nenhuma reação. Mendigos, nós já morremos em Cristo? No espírito da cruz não há lugar para a soberba.

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.

espírito da cruz 15 – humilde com orgulho

Alguém disse: “engolir o orgulho raramente produz indigestão,” mas, às vezes, dá azia. Humildade fingida é como fogo na tela, é só imagem. Quero confessar: na minha história, há mais cara de humilde do que a coroa da sinceridade. Se alguém me desse um título de gente humilde, vou achar graça, embora, meu coração vá gritar: impostor!

Será que J. Blanchard está certo ao afirmar: “Deus pensa mais no homem que pensa menos em si.” Acho que precisamos analisar isso. Não creio que Deus pense como nós pensamos, nem que Ele avalie como nós avaliamos. Pensar menos em si pode ser o sinal de + para quem quer contabilizar a virtude, pois aquele que a tem, não poder saber que a tem, uma vez que, se souber, deixará de tê-la. Humildade não sobe em palco.

Segundo Agostinho de Hipona, a humildade é uma qualidade que aquele que a exibe, não tem nem noção que a tem, porque, se souber, vai se orgulhar dela, torna-a, de fato, inútil. A humildade nunca se reconhece, vendo-se num espelho.

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“Penso que a evidência principal da diferença entre a certeza verdadeira e uma falsa, baseia-se no fato de que a verdadeira produz humildade.” A questão é: a humildade nunca se percebe humilde. Ninguém, que for humilde de verdade, se enxergará como tal.

A única pessoa que foi humilde de verdade foi Jesus, porque Ele nunca firmou-se em si mesmo. Ele disse: Eu nada faço por mim mesmo. Eu só faço o que meu Pai faz, ou, eu faço o que meu Pai faz em mim e através de mim. Jesus viveu aqui 100% pela fé em Seu Pai. Isto é o verdadeiro espírito da cruz. Ele viveu em total dependência do Pai.

Humildade propagandeada, ainda que disfarçada de altruísmo, é embuste e um meio sutil de chamar a atenção para os méritos da dissimulação que vende, por baixo dos panos, o seu orgulho como se fosse o maior desprendimento. É a carência de significado incondicional do amor furioso de Abba que promove esse jogo ardiloso onde a altivez vem vestida com trajes rotos de humildade aparente.

Pede-me um sinal de humildade e eu te direi: um morto. Quem morreu não age com soberba, nem reage com falsidade. Jesus viveu sob os efeitos da cruz eterna, e veio para nos fazer morrer juntamente com Ele, a fim de nos fazer livres de nós mesmos. Se já morremos com Cristo, somos libertos da tirania de nosso ego altivo e camuflado.

“Da mesma forma como os rios fluem por vales e regiões mais baixas, também a raiz de todos os atos santos é nutrida pela humildade,” descendo, mas sem alarde. Não existe um tipo de humildade com glamour. O espírito da cruz jamais se exibe.

Vamos em frente neste ponto, mendigos da graça! Como dizia São Crisóstomo, “a humildade é a raiz, a mãe, a ama-de-leite, o alicerce e o vínculo de todas as virtudes,” embora com total e verdadeira discrição.

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.