espírito da cruz 51 – o fim do inveja

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Invidere, no latim, é não ver. A inveja é a cegueira da alma para si mesma, mas vê no outro o que lhe falta em sua biografia. O invejoso é o cego que se percebe invejado e nunca se vê invejando. Ele não se enxerga com olhos malignos, embora, o seu olhar de rabo de olho só consiga notar, no seu invejado, o que lhe desperta a cobiça.  

Os olhos do invejoso – o seca pimenteira – só veem, no êxito do invejado, a sua própria falência e incapacidade de se projetar, refletida no sucesso que ele gostaria de ter. O seu foco, no outro, decorre da sua incapacidade de se perceber inadequado.

O invejoso não se enxerga, contudo enxergue, com os olhos vermelhos, o êxito e as virtudes alheias que ele gostaria de ter e não tem. Ele não se vê, mas vê com nitidez e raiva aquilo que o outro tem de melhor, que lhe falta e se consome ao consumir alguém.

Um olho gordo vê o progresso alheio como uma testemunha do seu fracasso e, aí, tenta denegrir o êxito do outro com a baba ácida de suas críticas. Invejosos de plantão são vermes venenosos e corrosivos de todos que estão num patamar mais vantajoso.

Ninguém inveja desconhecidos e distantes. O seu alvo sempre vem envolto em alguma admiração de quem mora perto. A dor de cotovelo se instala contra aquele vizinho que prospera, sobressai e é bem visto. Inveja de fracasso, falência, doença – nem pensar! Nunca vi falar de alguém invejando uma pessoa feia.

Não há inveja de mendigo e falido.

A inveja é um sentimento mesquinho e perversão que enferruja a alma e corrói a vida de todo aquele que se compara aos outros e se percebe deficitário em algum item, que gostaria de possuir. “Espelho, espelho meu! Há alguém mais bonito do que eu”? Todo invejoso só inveja quem lhe sobressai. É a virtude do outro que o faz arder no seu vício.

Caim invejou Abel porque este foi aceito com sua oferta. Os irmãos de José se inflamaram de inveja por verem o moço se distinguir dos demais. O rei Saul tinha surtos psicóticos só em pensar no cântico das donzelas: – “Saul feriu aos milhares, porém, Davi, aos dez milhares“. – Como pode um fedelho, como esse, ser mais do que eu?

Como já vimos, a inveja é um sentimento medíocre advindo da comparação, da proximidade, da admiração e da falência. Quando eu me comparo com alguém próximo, e vejo nele algo que admiro, mas não percebo em mim, me torno esbraseado por dentro e ferino por fora, nesse quesito, pondo-me a destronar aquele que me ultrapassa.

Os pares de Daniel, quando viram a excelência de ancião, não tiveram dúvida: – chegou a hora de engendrar um plano para levá-lo à cova dos leões. A inveja sempre se pauta em extinguir aqueles que são alvos da sua gana. Talvez, o provérbio português nos dê algum sentido: “o invejoso nunca medrou (prosperou), nem quem perto dele morou”. É por aí mendiguinhos… só a cruz no invejoso!

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.