O ESPÍRITO DA CRUZ. 72 – Uma coisa é estar na igreja, outra bem diferente, é estar em Cristo!!!

Uma coisa é estar na igreja, outra bem diferente, é estar em Cristo. Se alguém estiver em Cristo estará na igreja, mas, pode ser que alguém só esteja na igreja e jamais estará em Cristo. Para estar na igreja basta o batismo nas águas, contudo, para estar em Cristo é preciso o batismo na morte. Sem a morte do ego com Cristo não há cristianismo.

A igreja é um organismo vivo, mas pode ser também apenas uma organização. Como organismo, a igreja é o corpo vivo de Cristo. Como organização, não passa de uma agremiação para fins lucrativos ou religiosos. Não devemos ficar confusos com isto.

A igreja orgânica tem organização, porém, não é uma mera instituição de ritos e formalidades. O que organiza esta comunidade é a vida de Cristo – agindo pelo Espírito, espiritualmente, em cada um dos seus membros. É uma casa de família onde a família se comunica com transparência e age em harmonia comunitária.

Religião e Evangelho são totalmente diferentes. A religião, no que diz respeito à reunião das pessoas, produz entidades corporativas a serviço do humanismo, enquanto o Evangelho investe na libertação das pessoas, para que vivam livres pela graça de Deus.

Jesus falou do trigo e do joio na igreja. O trigo é o filho de Deus e o joio, o filho do maligno. O Semeador plantou o trigo de dia e o impostor plantou o joio à noite. – Um é luz e o outro, trevas. Mas, Jesus disse que não era possível separar, agora, um do outro. O trigal vai ter que conviver no mesmo campo, nesta era, com a plantação do joio.

A cizânia ou joio é muito parecida com o trigo, mas eles são diferentes em três pontos importantes: na raiz, no porte e no fruto. A raiz da erva detinha fica bem arraigada ao solo; o joio está preso à terra ou ao mundo, enquanto o trigo pode ser arrancado com certa facilidade. O porte da cizânia é altivo e sempre cresce mais que o trigo, ficando com a sua espiga empinada, porque não tem grão, é xoxo. Só o trigo tem fruto de verdade.

O joio está na igreja, mas ele não gosta do trigo, nem da igreja. A sua atividade é confundir os ingênuos e gerar desordem. Porém, se alguém não gosta de igreja, nunca, jamais poderá fazer parte saudável de nenhuma igreja. A verdadeira igreja é formada pelo trigal que não entra na intriga do joio, mas vive integralmente para a glória de Pai.

Quem não gosta de igreja, não pode ser igreja. Ora, se não formos igreja, não somos filhos de Deus, mas, se formos filhos de Deus não há lugar para ressentimento ou amargura em nossos corações. A igreja de Deus não odeia a quem não gosta dela, ainda que seja perseguida ou dilapidada por seus inimigos.

Há muitos que se preocupam mais com o respeito humano do que com a plena aceitação em Cristo. Mendigos, “a igreja é a herdeira da cruz”, portanto, levemos o morrer de Jesus em nós, para que Sua vida se expresse também em nós.

Do velho mendigo, GP.

espírito da cruz 29 – a luz que inveja as luzes

Jesus disse: vós sois a luz do mundo. Ele não disse: tu és a luz do mundo. Sua fala é coletiva. Não se trata de uma simples candeia, mas de um candelabro. A única luz é Cristo, e nós somos as velas do candelabro. Tudo indica que essa proposta tem cunho de comunidade e jamais de vôo solo. Aliás, não há um menorá com uma vela solitária.

Você e eu não temos luz própria; nós somos como os planetas que refletem a luz do sol. A luminosidade no cristianismo é Cristo e, quando alumiamos, é, tão-somente, porque fomos iluminados. Cada um tem o seu brilho de acordo com a luz de Cristo em si mesmo. Ninguém brilha mais do que a projeção de Cristo em sua vida.

Apagar a vela do outro não faz a sua brilhar mais. É somente ridículo. A sua luz é o reflexo de Cristo em você, e nada mais. Cada um, no candelabro, tem a proporção de sua intensidade conforme a manifestação de Cristo. Uma vela tem seu brilho; duas têm o dobro; três tornam-se mais forte, mas apagar a vela do outro não faz a minha brilhar mais.

É triste vermos ventos canalizados nos candelabros. Uns sopram daqui pra lá e outros de lá pra cá, todos querendo ver a chama da luz que nos incomoda se apagar.

Não posso admitir que o vagalume brilhe mais do que eu, disse a lagarta fluorescente.

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Os irmãos de José o venderam por inveja. O apóstolo Paulo foi perseguido por inveja. Esse é um sentimento cruel e uma broca voraz na madeira da alma, carcomendo o ser, por dentro e deformando por fora. O escritor e pregador chinês Watchman Nee disse: invejar o chamado de outra pessoa, pode destruir o seu próprio chamado. É algo fora de propósito cultivar carrapicho no jardim, mas é muito mais escandaloso alimentar a inveja.

Antonio Salieri foi um grande músico e um dos mestres de piano do inigualável  Mozart. Ele não suportou o virtuosismo do aluno e a inveja o abateu. Tornou-se vítima de sua amargura crônica, perdendo-se na crítica azeda, enquanto a história o descreve dum modo irônico, apenas como “o invejoso”. O pedestal da altivez o removeu do castiçal.

Já disseram que a inveja fornece a lama que o fracasso atira contra o sucesso, mas o barro lamacento que foi atirado é só perda de terreno daquele que atirou. É triste a biografia dos invejosos. Thomas Brooks afirmava: a inveja tortura as afeições, incomoda a mente, inflama o sangue, corrompe o coração, devasta o espírito; e, assim, se torna, ao mesmo tempo, torturadora e carrasco do homem. É triste ler a biografia dos invejosos.

A igreja é um candelabro, jamais a fogueira das vaidades. É um castiçal com as muitas velas iluminando todas, ao mesmo tempo, sem competição ou comparação. É uma comunidade de estímulo e encorajamento, onde o invejoso não tem vez, pois o espírito da cruz vai destronando qualquer desejo de singularidade. Mendigos, não há espaço para a inveja nessa caminhada da mendicância da graça.

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.

retorno ao primeiro amor e às primeiras obras II

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Como pode a igreja de Éfeso abandonar o primeiro amor, se o seu amor veio do próprio Deus? Eis uma questão bastante sutil. Ao amar preferencialmente o corpo de Cristo, pode-se cair na ilusão de que se está amando extensiva e intensamente o próprio Cabeça do corpo, Cristo. Admitindo-se a unidade entre Cristo e a igreja, podemos tropeçar numa conclusão equivocada de um amor igualitário. Mas, cautela com a lógica.

É verdade que: ao amarmos a Cristo, acima de tudo e de todos, amamos também a Sua igreja com profundo amor. Mas, o contrário não é verdadeiro. Pois, quando amamos a Sua igreja, de modo preferencial, necessariamente, não quer dizer que amamos a Cristo acima de qualquer razão. Aqui é que reside o grande risco da confusão humanista.

É bem verdade que:

Se alguém disser: Amo a Deus, e odiar a seu irmão, é mentiroso; pois aquele que não ama a seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê. 1 João 4:20.

Parece a contradição da tese. Parece, mas o amor procedente de Deus é a prova concreta de que, se amarmos os irmãos, só os amamos com o Seu amor.

O perigo de nos acostumarmos com o sagrado é perdermos o valor incondicional do amor de Deus para conosco. Ele nos amou primeiro e eternamente. Mas agora o grande risco é nós ficarmos acostumados com o sagrado, que acabamos longe desse relacionamento pessoal e inseparável com o próprio Deus, que nos ama com amor eterno e infinito.

Supondo que ao amarmos preferencialmente os irmãos, estamos amando intensamente a Deus, podemos elaborar a heresia de que a salvação está na igreja, como aconteceu no passado, ou, como outros que sustentam agora na prática, o fato de que a comunhão da igreja acaba substituindo a relação amorosa e pessoal do filho com o seu Abba.

Como voltar à consciência desse amor na experiência dos filhos de Deus? A Bíblia mostra que Deus é a única fonte ou a causa de toda boa dádiva e Ele jamais ficou estressado e nunca mudou. Toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não pode existir variação ou sombra de mudança. Tiago 1:17.

Todo esse processo tem em Deus a razão, o meio e a finalidade. Sabemos que a vida cristã, do começo ao fim, é toda originada em Deus, promovida por Ele e vai, totalmente, para Ele. Foi assim que Paulo a definiu: Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém! Romanos 11:36.

(continuação…)

O homem natural encontra-se morto em delitos e pecados, sendo incapaz de crer, bem como, arrepender-se. Tudo o que é espiritual provem inteiramente de Deus. Portanto, o que Ele ordena, promove e processa. Logo, ao afirmar: Arrepende-te, e pratica as primeiras obras. Apocalipse 2:5, é porque Ele nos capacita e nos inclina para isso.

 

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Quando eu volto ao estágio do primeiro amor é porque fui reconduzido por Aquele que me ama loucamente e me quer no convívio dos seus afetos incondicionais. Não sou capaz de me voltar para Deus, sem que o próprio Deus queira-me atrair para a sua comunhão e, assim, me “sequestre” graciosamente para Si mesmo.

Somente o Deus Soberano, que me ama soberanamente, pode capturar o meu coração volúvel como uma biruta tonta e distraído com muitas coisas para esse relacionamento vivo e pessoal com Ele. O amor incondicional do Amado é a causa do meu amor por meu Amado, gerando o retorno ao primeiro amor e à prática das primeiras obras.

A vida cristã começa em Deus na eternidade, passa pelo tempo, na história, e continua por toda a eternidade centralizada na suficiência eficaz e eficiente do próprio Deus. Toda a salvação do ser humano vem dEle, passa por meio dEle e vai para Ele.

Nós precisamos entender que a Trindade é totalmente responsável por tudo o que diz respeito à nossa caminhada espiritual de eternidade a eternidade. No evangelho, a Trindade faz tudo pelo homem e faz o homem fazer tudo o que lhe cabe por meio dEla.

Como dizia o pegador e teólogo do séc. XVII, Jonathan Edwards: “Na graça eficaz nós não somos meramente passivos, nem ainda Deus faz uma parte e nós o resto. Mas é Deus quem faz tudo, e nós, também, fazemos tudo. Deus produz tudo em nós e nós agimos fazendo tudo que ele opera em nós e através de nós”.

Uma vez que o Espírito Santo afirma, pelo apóstolo Paulo:

porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade.

Filipenses 2:13,

então, Edwards acrescenta nesse processo da graça eficaz: “Deus é o único autor e fonte adequada; e nós somos somente os co-autores ou coadjuvantes desta fonte. Assim, nós somos em diferentes aspectos, totalmente passivos e totalmente ativos.”

Sendo assim, o retorno ao primeiro amor e às primeiras obras significa o estado de graça em que somos totalmente dependentes da suficiência Divina, e, por isso, inteiramente passivos; sendo, porém, ao mesmo tempo, completamente ativos, fazendo sempre aquilo que somos movidos e habilitados pelo poder soberano da Trindade em nossas vidas.

“De retorno ao primeiro amor e às primeiras obras” fala desse chamado eficaz aos filhos de Deus que se envolveram com o humanismo travestido de cristandade, para, finalmente, desembaraçá-los das suas teias insidiosas, fazendo-os dependentes, integralmente, da suficiente graça da Trindade Divina.

Aleluia! Amém.

Velho mendigo, Glenio.

Olhares incandescentes sob odores indulgentes I

Ao anjo da igreja em Tiatira escreve: Estas coisas diz o Filho de Deus, que tem os olhos como chama de fogo e os pés semelhantes ao bronze polido: Apocalipse 2:18.

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Em todo o livro do Apocalipse esta é a única vez em que Jesus se identifica como o Filho de Deus. É significativo observar este detalhe, já que esta igreja, portadora de mui grandes qualidades, tem a agulha da sua bússola apontada para a flexibilidade de alguns princípios inegociáveis. O Senhor está dando o fundamento de sua autoridade aqui.

O Filho de Deus tem Pai, mas não tem mãe. Cristo é o filho eterno do Pai. Jesus é o filho do homem, encarnação do Verbo por meio de Maria, mas ela não é a mãe de Deus como foi proposto pela mentalidade jesabeliana desta igreja.

Esta é uma igreja marcante, uma comunidade de escol, contudo, acabou por escorregar no intolerável. Apesar de suas virtudes basilares, tropeçou na prostituição espiritual e moral. Vejam suas qualidades: Conheço as tuas obras, o teu amor, a tua fé, o teu serviço, a tua perseverança e as tuas últimas obras, mais numerosas do que as primeiras. Apocalipse 2:19. Tudo isso aqui não foi suficiente para mantê-la pura e fora do prostíbulo, no panteão do humanismo.

Essa igreja padrão aqui foi posta agora no paredão: Tenho, porém, contra ti o tolerares que essa mulher, Jezabel, que a si mesma se declara profetisa, não somente ensine, mas ainda seduza os meus servos a praticarem a prostituição e a comerem coisas sacrificadas aos ídolos. Apocalipse 2:20.

Fico mais confortável em estudar estas igrejas sob o foco da filosofia histórica e vejo, neste caso, não só a cronologia da época, na cidade de Tiatira, como sua expressão no decorrer da história eclesiástica. Concordo com alguns estudiosos que esta igreja aqui incorpora o pensamento pós Constantino, com a sua enxurrada de idolatria cultural. É a era do casamento misto do Cristianismo com o velho humanismo babilônico.

No seu aspecto local, a igreja desta cidade, que significa odores fortes, foi movida pela mentalidade sindicalista de suas várias indústrias e, em seu modelo global, pela pira industrializada do sindicalismo da religiosidade pagã. Jezabel, a profetisa; seja ela uma criatura grega da época, seja o espírito da mulher de Acabe, acabou por embriagar e emprenhar a Noiva como o culto à Samíramis, a rainha do céu, gerando grande maldição.

Este período histórico é de mais ou menos mil anos de hegemonia, onde a igreja católica teve todo tempo dado pelo Filho de Deus para se arrepender do adultério com o humanismo babélico, porém, não o fez. Dei-lhe tempo para que se arrependesse; ela, todavia, não quer arrepender-se da sua prostituição. Apocalipse 2:21.

A questão é: quem vai para a cama pelo simples prazer da volúpia carnal, se não compungir-se, em seu coração, será compelido a deitar-se pelo constrangimento e pela dor, no CTI. Eis que a prostro de cama, bem como em grande tribulação os que com ela adulteram, caso não se arrependam das obras que ela incita. Apocalipse 2:22. Parece que está bem evidente: Deus tem contas sérias a acertar com essa igreja idólatra e adúltera. Não me venham com diplomacia ecumênica. Os dez mandamentos são claros e a idolatria é pecado que nos distancia de Deus.

A idolatria conduziu Israel ao desterro perpétuo e Judá à escravatura babilônica por 70 anos. Nada pode ser mais falso do que um ídolo. Como disse Matthew Henry, “os ídolos são chamados falsos porque desfiguram a Deus, considerando que Ele tem um corpo, quando na verdade Ele é Espírito, além do que, um deus fabricado não é Deus”.

Mas não pense que a idolatria seja apenas de pau e pedra. Dr. A. W. Tozer foi exato ao dizer: “a essência da idolatria está em ter pensamentos indignos acerca de Deus. Um ídolo na mente é tão ofensivo a Deus quanto um ídolo na mão”.

O apóstolo João termina a 1ª carta assim: Filhinhos, guardai-vos dos ídolos. 1 João 5:21. Qualquer tipo de ídolo; tanto os fabricados como os idealizados são perversos e contrários à fé cristã. Não podemos idolatrar nada, nem ninguém. Nem objetos, nem ideias, nem pessoas. Todas as imagens que tentam representar a divindade, acabam por desfigurá-la de sua realidade espiritual.

Olhos em chamas de fogo, vendo os corações, não se deleitam nas aparências e nos ídolos. Não finjam ser o que não são. Não creiam num deusinho que vocês possam explicar. O Deus que transcende, trata, acima de tudo, com o nosso íntimo. Matarei os seus filhos, e todas as igrejas conhecerão que eu sou aquele que sonda mentes e corações, e vos darei a cada um segundo as vossas obras. Apocalipse 2:23.

Atenção ao culto dedicado ao personalismo! Todo cuidado é pouco com adoração voltada às personalidades da congregação. Nenhum ser humano merece veneração ou honras de altar. Este é um assunto que pertence apenas ao Criador, nunca à criatura.

Essa igreja é uma comunidade heterogênea ou híbrida. É uma colcha de retalhos: Digo, todavia, a vós outros, os demais de Tiatira, a tantos quantos não têm essa doutrina e que não conheceram, como eles dizem, as coisas profundas de Satanás: Outra carga não jogarei sobre vós; Apocalipse 2:24. Vê-se aqui trigo e joio semeados no mesmo campo como se fossem da mesma cultura. É bom abrir os olhos.

Satanás é esperto fingindo-se ser anjo de luz. Sua tese principal visa transformar o velho Adão em Deus e as suas profundezas focalizam, acima de tudo, na justiça do ser humano ou na justiça humanista como se fosse a realidade espiritual de cima.

(continua quinta-feira)

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Conservando o meu nome e não negando a minha fé… 2 (fim)

[o texto é o mesmo, mas o velho mendigo do vale estreito finaliza esta mensagem].

Ao anjo da igreja em Pérgamo escreve: Estas coisas diz aquele que tem a espada afiada de dois gumes: Apocalipse 2:12.

Esta é a terceira carta às igrejas da Ásia Menor, hoje, Turquia. Provavelmente, Pérgamo seja o terceiro período da história eclesiástica. Estamos examinando estas igrejas, além de suas características locais, levando em conta uma interpretação da filosofia histórica. Acreditamos que cada igreja do Apocalipses represente uma época determinada da história universal da igreja.

Pérgamo quer dizer “torre alta” ou “inteiramente unido”, significando, neste caso, tal como se fosse casamento. De qualquer maneira, há aqui os dois sentidos correndo com sutileza por entre as linhas do texto. O sinal de elevação que se percebe no trono de Satanás e, o conceito da união de casamento, pela doutrina de Balaão, que vamos ver no decorrer do estudo.

Conheço o lugar em que habitas, onde está o trono de Satanás, e que conservas o meu nome e não negaste a minha fé, ainda nos dias de Antipas, minha testemunha, meu fiel, o qual foi morto entre vós, onde Satanás habita. Apocalipse 2:13. Será o humanismo uma pista para alturas? Satanás é o alpinista mais perspicaz do universo. O Evereste é fichinha para ele.

Em Pérgamo, na Grécia antiga, atual Bergama, na Turquia, havia um altar de mármore; uma magnífica estrutura dedicada a Zeus, a principal figura do panteão, que foi construída no século II a.C, e que, hoje, se encontra restaurada no Museu Pergamon em Berlim, na Alemanha. Havia também uma biblioteca que rivalizava-se com a de Alexandria, no Egito.

Essa biblioteca foi um dos principais acervos da ciência no mundo antigo. E por causa de sua projeção bem como da rivalidade com a de Alexandria, o Egito deixou de exportar papiro para a Grécia. Diante da crise, sem ter onde escrever seus livros, foi nesta cidade que começou-se a usar couro de cabra e de ovelha em lugar do papiro, daí o nome pergaminho.

Além do altar de Zeus e da biblioteca, havia um templo imponente a Esculápio, o deus curador da medicina, que tem como símbolo a serpente e ainda o primeiro templo da Grécia antiga dedicado a um César, neste caso, César Augusto, o modelo da governabilidade da ordem romana.

O promontório onde estava construída a cidade exibia os traços de exaltação, tanto em seus altares aos deuses pagãos, como no culto à pessoa do Imperador. A ciência e a magia da serpente, ali adoradas, apontavam para o escorregão do Éden. O zumbido de Zeus, o sibilo da Serpente, a influência da biblioteca e o culto altivo ao Kaiser são indícios claros do trono de Satanás em Pérgamo.

A proposta da serpente, no Jardim, foi tornar o ser humano como Deus, levando-o a revel por meio do cardápio proibido. Usando o conhecimento do bem e do mal e promovendo o culto à personalidade, assistimos ao espetáculo mais trágico do governo luciferiano no seio de uma humanidade sedenta por glorificação, mérito e pódio. Todos os elementos da queda se fazem bem presentes nesse endereço na terra dos pergaminhos marcados pela vaidade.

Foi nesse cenário sinuoso, encima do rastro suntuoso da cobra, que essa igreja manteve-se firme à sua identidade em Cristo. Diante do trono de Satanás, Jesus diz à liderança dessa igreja, mesmo sob o perigo dos altares: conservas o meu nome e não negaste a minha fé. Vemos a igreja de Pérgamo como uma cristã autêntica, identificada pelo nome do Cristo, subsistindo pela  em Cristo, dada pelo próprio Cristo. Veja: não negaste a minha fé.

Temos que entender: a fé não é um talento natural. Ninguém nasce portando fé quando vem a este mundo. Todos nós somos incrédulos por descendência adâmica. Se alguém estiver crendo, temos que admitir que houve um milagre nesta pessoa. A fé é um dom de Deus e nunca um predicado do velho Adão. Se a fé fosse nossa, a salvação jamais seria pela graça somente, uma vez que a nossa fé daria a sua contrapartida, sujeita à vanglória.

Antipas, a testemunha fiel, foi um exemplo de fé e coragem, enfrentando o modelo altivo do humanismo soberbo, a ponto de perder a sua vida no ninho da serpente. O martírio deste cristão revela uma postura firme de oposição ao culto voltado ao personalismo, tão em voga na época, como nos tempos de Laodicéia, ou seja, na era da pós-modernidade.

Satanás se nutre da poeira em redemoinho, isto é, do pó elevado às alturas. Explicando: se a Serpente só come pó, então esse pó que lhe dá energia é o desejo da auto-latria do ser humano em exaltação aos píncaros da glória; é a divinização da criatura que se vê na dimensão do Criador. Isto é o que podemos descrever como sendo o trono de Satanás no coração da raça humana.

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O extermínio de Antipas é o primeiro registro de um cristão asiático martirizado pela fé e um grão de trigo que tem rendido muitos frutos. Pouco sabemos sobre ele, mas, muitos na história têm sido animados por seu exemplo. É preferível ser um dilacerado pelas feras e ferido pelas armas a se armar de honras pessoais no culto da vanglória humanista.

Essa igreja, porém, tinha alguns senões em seus bastidores: Tenho, todavia, contra ti algumas coisas, pois que tens aí os que sustentam a doutrina de Balaão, o qual ensinava a Balaque a armar ciladas diante dos filhos de Israel para comerem coisas sacrificadas aos ídolos e praticarem a prostituição. Apocalipse 2:14.

Se a presunção de excelência conduzia ao trono de Satanás, a doutrina de Balaão levava à idolatria e promovia a mistura entre o santo e o profano. Aqui temos a conspiração pelos laços do casamento misturado. Não podendo amaldiçoar a quem Deus já abençoou, o profeta inoculou a idéia idólatra da prostituição espiritual, através do casamento com as moabitas.

Sociedade entre os filhos Deus e os filhos do maligno nunca deu certo. Não há comunhão entre luz e trevas. O trigo e o joio não são a mesma coisa. Por mais semelhantes que sejam, o Cristianismo não flerta com o humanismo. Não há menor compatibilidade entre eles.

Satanás é o técnico dos humanistas. Jesus Cristo é a vida dos cristãos. O humanismo exalta o ser humano para fazê-lo auto-suficiente nos altares do mérito, enquanto o Cristianismo verdadeiro humilha Deus numa cruz, a fim de torná-lo solidário com a humanidade, na plena libertação do ensimesmamento da raça adâmica. Aqui vemos duas realidades absolutamente contrárias e irreconciliáveis.

Cristianismo e humanismo não jogam frescobol. Não dançam juntos e não fazem acordo. “No Cristianismo, a soberania do Deus triúno é o ponto de partida, e este Deus fala através de sua Palavra infalível. No humanismo, a soberania do homem e do Estado é o ponto de partida, e é a palavra dos homens da elite e da ciência que deve ser ouvida”.

O Cristianismo, ao valorizar o ser humano, precisa crucificar os membros do humanismo. Por outro lado, o humanismo ao deificar o homem, anula o valor da cruz de Cristo. Os dois jamais participam juntos do mesmo banquete. Não há qualquer confraternização entre eles.

Leon Tolstoi dizia com um bom e vivo sotaque de fé cristã: “O cristianismo, no seu verdadeiro significado, destrói o Estado.” E eu apenas concluo na minha total insignificância: o humanismo, em sua loucura e em sua paixão desenfreada, destrona e dispensa a Trindade de seus projetos.

Segundo Judas, provavelmente o irmão do Senhor, este processo humanista tem três mentores principais de trágicas consequências, mas… Ai deles! Porque prosseguiram pelo caminho de Caim, e, movidos de ganância, se precipitaram no erro de Balaão, e pereceram na revolta de Corá. Judas 1:11. A perseguição, o erro por ganância e a revolta. (Caím, Balaão e Corá).

Além da mistura encontramos ainda o mesmo balaio de gatos que apareceu no primeiro período da história da igreja, em Éfeso. Outrossim, também tu tens os que da mesma forma sustentam a doutrina dos nicolaítas. Apocalipse 2:15.

Talvez aqui em Pérgamo, nesse casamento infeliz do humanismo com esse cristianismo imaturo, tenha sido o local onde os enfezados nicolaítas ganharam, ainda mais, o gás para se desenvolverem como o cancro do clericalismo asfixiante dessa religiosidade humanista.

Os nicolaítas são os controladores do povo. Nunca foram lavadores de pés, como Jesus, antes, são dominadores do rebanho e caçadores de tronos. Vivem por aí tosando a lã das ovelhas; bebendo o leite dos cordeiros; comendo a carne e a gordura das cevadas, mas nunca curam as feridas; foi assim que o profeta Ezequiel os descreveu. É um grupo mui antigo, mas continua vivo e ativo nos dias atuais.

Essa igreja representa um período confuso da história, que começa com as atrapalhadas clássicas do imperador Constantino, ano 313, e vai até ao surgimento do catolicismo em seu modelo romano, com o Papa Leão I (Magno) – de 440 a 461. Nessa época assistimos ao casamento misto entre o babilonismo e a “fé” cristã conspurcada pelos altares idólatras com imagens e imagináveis glorificações.

Agora chegamos, nesta carta, ao convite firme da mudança de mentalidade e a uma ameaça parecida com a do anjo, no episódio de Balaão: Portanto, arrepende-te; e, se não, venho a ti sem demora e contra eles pelejarei com a espada da minha boca. Apocalipse 2:16. Tanto os humanistas camuflados de santos como os controladores profissionais vestidos de mantos sagrados precisam emendar-se de coração, sentindo pesar pelos seus pecados no seio da igreja.

Jesus exorta ao arrependimento, mostrando sua disposição de extirpar, com a espada afiada que sai da sua boca, a presunção dos idólatras; a arrogância dos adoradores no culto ao personalismo; a trama da turma que mistura o sagrado com o secular; além dos dominadores sufocantes do seu rebanho. O assunto é bem sério e o caráter é urgente.

Quem tiver juízo e também ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: Ao vencedor, dar-lhe-ei do maná escondido, bem como lhe darei uma pedrinha branca, e sobre essa pedrinha escrito um nome novo, o qual ninguém conhece, exceto aquele que o recebe. Apocalipse 2:17. Aqui não vemos uma sociedade secreta, mas um segredo revelado.

Sem a eleição do Pai não há vivificação pelo Filho; sem a vivificação do Filho não há a conversão pelo Espírito; sem a conversão por meio do Espírito não há o banquete para o insurgente na casa do Amor incondicional da Trindade.

Fica claro que o maná que satisfaz a fome da alma ávida de sentido, bem como o registro de nascimento no cartório do céu, dando identidade à nova criatura, só serão viáveis àqueles que, mediante a graça plena, os receberam por decisão moral de um ser responsável, convencido pelo Espírito Santo.

O período de Pérgamo foi a época marcante de semeadura da confusão lenta e sutil rumo à fortaleza de Anu, sob os auspícios tenebrosos da filosofia babilônica. Foi o casamento misto da igreja com o humanismo aspirando aos altares da idolatria, embora, nessa igreja altiva, houvesse quem se mantivesse firme ao nome de Cristo e não negasse a fé dada por Cristo.

Esse tempo cruel do culto à personalidade e do governo da casta meritocrata do clericalismo, além de ser uma era imponente de prostituição eclesiástica, foi a maior tragédia na história da igreja. Mas, graças à Trindade, mesmo nesse período ensombrado, houve suficiente graça, como sempre, para promover a substituição da vida adâmica pela vida de Cristo. Glória ao Soberano Senhor. Aleluia.