gotas de generosidade XVI

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São quase dois mil quilômetros de distância entre Londrina, PR, e Parnaguá, Sul do Piauí, onde temos um pedaço de terra, herança familiar. Viajamos boa parte desse trajeto pela Trasbrasiliana que vive entupida de carretas. Por ser um trecho perigoso e uma via longa, até ao destino, os nossos filhos pediram para pararmos de fazer esta viagem de carro.

Além da distância e do trânsito intenso, enfrentamos também o problema do combustível batizado. Neste País laico, mas de política sórdida da religião corrupta, até os fluídos são batizados. Por duas vezes ficamos no “prego” do diesel adulterado. O pior, em posto BR.

Maldito é o homem que confia no homem, brada o profeta Jeremias. Mas esse assunto é mais complicado do que uma leitura rápida pode nos mostrar. Essa maldição é mais do que confiar nos outros, pois ela aborda a autoconfiança. Eu não sou confiável.

– Como assim? Indaga o meritocrata. Nós estamos sujeitos a equívocos, erros, visão distorcida dos fatos. Isto, e muito mais, nos tornam fiascos da vida. Não é só o diesel da Petrobras que é adulterado. Eu também sou uma fraude quando pretendo demonstrar que sou o que não sou. Nada pode ser mais falso do que a aparência humana.

Uma das grandes rejeições da pessoa de Jesus é porque ele não julgava pela aparência. Vejam como o testavam:

E enviaram-lhe discípulos, juntamente com os herodianos, para dizer-lhe: Mestre, sabemos que és verdadeiro e que ensinas o caminho de Deus, de acordo com a verdade, sem te importares com quem quer que seja, porque não olhas a aparência dos homens.

Mateus 22:16.

Ainda bem que é assim a visão de Jesus. Mas, fariseus, saduceus e herodianos juntos, têm arapuca no pedaço.

Os fariseus são mestres da hipocrisia; saduceus, os maestros da anarquia; herodianos os magistrais petistas de então. Não falo dos ideólogos do PT, mas desta corja do poder que vive de aparência. Eles fingem que não se interessam por dinheiro público e que querem o bem do povo, mas ao assumir o poder, dilapidam o erário. São larápios velhos e velhacos.

Eu me arrepio com a ideia de ser apenas um ser batizado. Assim como há combustível adulterado, políticos ladrões, religiosos falsificados, também há crentes fajutos; e tudo só batizado. Fala de algo que não se vive. Por isso a generosidade vem para trabalhar com o coração e jamais com a fachada. Não existe escala que estabeleça os limites de quem é generoso, nem relatório que o descreva. É coisa do coração diante do amor de Deus.

A coisa é séria, mendiguinhos, e ninguém fica oculto diante do amor incondicional de Abba. Preferiria responder por minha mordomia medíocre perante um juiz severo; arranjaria alguns argumentos de defesa, mas tenho que prestar contas diante da generosidade da graça, e, neste caso, não há desculpas? Por que fui omisso com a abundância de que fui alvo?

De qualquer modo, no amor do Amado, do velho mendigo do vale estreito.

Glenio.

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gotas de generosidade IX

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Alguém me buzinou: “tem gente que não dá nada a ninguém; nem morta”. Respondi: – é necessário morrer primeiro para depois dar. Segundo Jesus, o grão de trigo precisa antes de tudo morrer a fim de frutificar. Essa é a lei da semeadura e da ceifa. Só a morte do ego pode patrocinar as dádivas generosas. Não há benevolência sem a falência do egoísmo.

Aliás, vamos alinhar o assunto com a doação de órgãos? Por que será que muita gente não quer doar os seus órgãos depois que morre? O que estaria por trás desta recusa? É no mínimo esquisito um vivo determinando as suas decisões depois da sua morte.

Quem morreu não deveria ter mais vontade para opinar o que fazer com os seus pertences. O problema é que, antes de morrer, essa pessoa já deliberou que jamais doaria parte do seu corpo para beneficiar a vida de alguém. Mas, por que razão?

Descobri que alguns têm medo de ficar deformados na ressurreição final. Foi assim que a jovem me surpreendeu: – se eu doar as minhas córneas vou permanecer cega por toda a eternidade. Indaguei: – como assim? – Cega; não poderei ver, pois doei os meus olhos.

– Quais os olhos que você doou? – Os meus? – Quais os seus? Foi aí que argumentei sobre a renovação das nossas células. Inquiri, – quantos anos você tem? – 29 anos. – Então, as células dos seus olhos já se renovaram quatro vezes. E aí? Qual é o da vez?

Cada sete anos, com exceção dos neurônios, todo o nosso organismo se recicla. Somos novos, novinhos, ainda que estejamos envelhecendo. Se eu morrer agora com os meus 68 anos, qual será o corpo que irá ressuscitar, já que o ralo levou para o esgoto quase 10 vezes o meu organismo? Eu não sou o mesmo que nasci. Que corpo voltará à vida?

Além do que, Deus, quando criou o mundo, criou do nada. Quem criou do nada tudo, pode ficar restrito a um corpo que agora não é quase nada do original? E o apêndice que foi retirado em 54 e a vesícula em 2002? Eu quero intactos na ressurreição. Bobagem.

Que Deus pequeno é este que não restaura os órgãos doados? Prefiro ficar com Jesus que foi capaz de se dar por inteiro para substituir pecadores podres e pobres, incapazes de abrir mão de sua córnea para dar visão a algum ceguinho carente.

Acredito que a questão da doação de órgãos está ligada ao velho egoísmo de sempre. Se não vou usar, outro não vai usufruir do que é meu. Pode apodrecer, mas eu não dou. Há muita gente que vive aprisionada num mundo muito apertado. Tenho pena deste tipo.

Alguns dão por humanismo; por solidariedade. O cristão dá por amor. Mas amor sem uma troca embutida. Por isso é preciso, antes de tudo, a morte do egoísta em Cristo para que ele possa abrir o seu coração à verdadeira generosidade.

Aqui, meus queridos mendigos, vai a receita do evangelho: de graça recebestes, de graça dai. Mateus 10:8.

No amor do Amado, do velho mendigo do vale estreito, Glenio.