série do PECADO – o pecado dos pecados 1

PECADO 07

O PECADO DOS PECADOS I

(parte A)

Por isso, eu vos disse que morrereis nos vossos pecados;

porque, se não crerdes que EU SOU, morrereis nos vossos pecados.

João 8:24.

Definir um termo é sempre algo complicado, e alguns vocábulos são mais complexos do que outros. Dos termos mais difíceis de definição que encontramos no estudo da teologia, o pecado e a fé são dos principais, tanto em sua importância para a humanidade, como em sua abrangência e entendimento necessários.

A Bíblia afirma: Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram. Romanos 5:12. O apóstolo Paulo diz aqui neste texto que foi pelo homem que entrou o pecado no mundo. Mas como foi que o pecado entrou no homem? E, afinal de contas, o que é o pecado? Como podemos definir este termo?

Juridicamente podemos dizer que “o pecado designa todas as transgressões de uma Lei ou de princípios religiosos, éticos ou normas morais. Podem ser em palavras, ações (por dolo) ou por deixar de fazer o que é certo (por negligência ou omissão). Ou seja, onde há Lei, se manifesta o pecado”. Neste caso o pecado de Adão foi uma desobediência voluntária à ordem de Deus ou a quebra do pacto.

Sabemos que o homem comeu do fruto proibido depois que a mulher já havia saboreado um pedaço dele. Por que, então, ela não foi responsabilizada diretamente pela entrada do pecado no mundo? Se Eva foi quem comeu primeiro o fruto e a primeira a transgredir a ordem, qual o motivo por que ela não foi acusada de ser a causa do pecado.

Tudo indica que essa pendência está ligada ao que recebeu a ordem divina. Javé não falou diretamente com Eva, mas com Adão. Ele disse ao homem:

– De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás. Gênesis 2:16-17.

O Espírito Santo revelou ainda tempos depois, um detalhe interessante neste episódio:E Adão não foi iludido, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão. 1Timóteo 2:14. Ora, se toda transgressão às leis de Deus for pecado, por que então Eva não foi indiciada como a ré culpada e responsável pelo início do pecado na raça humana?

A acusação de Adão no processo só reforça o fato de que a ordem foi dada a ele e não a ela e que a obediência era uma matéria pessoal de fé. Eva recebeu os dados de segunda mão e não deu a atenção devida à palavra de Adão como sendo a palavra de Deus. Ainda que soubesse o que Javé havia dito, ela não deu o crédito devido à palavra de Javé.

Quando se examina este ponto, parece que o pecado não é tão-somente uma infração da lei em si mesma, mas uma contravenção firmada na incredulidade que queima invisivelmente como fogo de monturo por baixo. A ordem divina foi dada a Adão. Logo, ele era o recipiente que continha a palavra de Deus e aquele que poderia reagir com fé.

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Paulo, explicando aos romanos a manifestação da fé na experiência humana, articula com objetividade o tema, assim: a fé vem quando se ouve a palavra de Deus, Romanos 10:17, ou de um modo mais parafraseado, o surgimento da fé é uma conseqüência experimental na vida daquele que escuta na prática o que Deus está falando.

Escutar na prática significa exercitar o que se está escutando. Tiago diz que não basta ser ouvinte da palavra. A fé é o desempenho incorporado da palavra de Deus na vida do ouvinte. Fé é efeito de uma escuta atenciosa na fala de Deus, que resulta numa obediência voluntária e aprazível daquele que ouve esta palavra. Aliás, obediência por medo, interesse ou coação é vassalagem e no reino da graça não há parto a fórceps.

Javé é o Autor da fé livre e dependente dele mesmo, enquanto a sua palavra é a causa eficiente da fé. A prática bíblica sempre foi de uma vida baseada na palavra de Deus. Desde o principio o ser humano viveria somente pela fé. De fato, sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam. Hebreus 11:6.

Mas como alguém pode ter fé sem a palavra de Deus, uma vez que a fé surge do ouvir Deus falando? Ora, sem fé é impossível agradar a Deus e sem a palavra de Deus é impossível ter fé na pessoa de Deus. Desde o momento em que a fé passa a existir pelo ouvir atencioso do falar de Deus, o ouvir desatencioso dele faz surgir o oposto da fé.

Adão ouviu Deus falar, mas não deu o crédito necessário à palavra de Deus. A rebeldia é uma conseqüência da incredulidade. Antes do ato da transgressão vem a atitude de insubmissão como seqüela da descrença. O pecado é inicialmente ceticismo diante da palavra de Deus, fazendo em seguida, surgir a infração. O avesso da fé é o pecado.

Se a fé vem pelo ouvir atento e submisso do que Deus diz, a revelação progressiva no Novo Testamento mostra que o pecado é não escutar a voz de Deus por meio de Cristo Jesus. Vemos que Jesus é a encarnação do Verbo eterno e a voz humana de Javé. Viver em pecado é viver na incredulidade da palavra corporificada em Jesus.

Ouvir a Jesus na prática é viver pela fé e jamais viver no pecado, uma vez que o pecado é não crer nele. Veja o que ele disse a respeito do ministério do Espírito Santo: Quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo: do pecado, porque não crêem em mim; João 16:8-9. Segundo Jesus, o pecado é não ter fé nele.

Observando o texto que serve de base para as nossas considerações, vemos que Jesus foi muito incisivo quando disse: Por isso, eu vos disse que morrereis nos vossos pecados; porque, se não crerdes que EU SOU, morrereis nos vossos pecados. Para ele a causa da morte nos pecados ficava por conta da descrença na encarnação de Javé no Jesus histórico. Não crer no Eu Sou (Javé) é a essência do pecado.

(continua quarta-feira)

O velho mendigo do vale estreito, Glenio.

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série do PECADO 04.22 – o pecado do pecado II

PECADO 04

O PECADO DO PECADO

Jesus sabia muito bem que a vontade de Deus revelada aos homens era o padrão da vida bem-aventurada. Ele sempre se pautou pelos trilhos imutáveis desta vontade e deixou bem claro que o seu ministério se baseava no cumprimento dos propósitos de seu Pai. Eu nada posso fazer de mim mesmo; na forma por que ouço, julgo. O meu juízo é justo porque não procuro a minha própria vontade, e, sim, a daquele que me enviou. João 5:30. O Senhor não seguia suas próprias opiniões pessoais, uma vez que escolheu acompanhar o traçado delineado pela da vontade soberana do Pai. O reformador João Calvino insistia: Se queremos evitar a filosofia natural insensível, precisamos sempre começar com este princípio: tudo na natureza depende da vontade de Deus, e todo o curso da natureza é apenas o efeito contínuo de suas ordens. A vida do crente não é um passeio livre e desorientado, mas uma caminhada dirigida pelo guia habilidoso de sua fé, através da via sublime da imperiosa vontade divina.

O pecado do pecado é levar o homem a tentar prosseguir nesta vida pela sua própria vontade. Nada pode ser mais cativante para a alma, e nada pode conduzir ao maior cativeiro da alma, do que andar na sua vontade particular. Quando todas as nossas vontades são satisfeitas, nos tornamos profundamente descontentes. Quando algumas das nossas vontades são contrariadas, nos tornamos aborrecidos e abatidos. Se as vontades são todas atendidas, ficamos desgostosos, porque não temos mais desafios. Se as vontades são impedidas ficamos infelizes, porque não temos realização. Assim, podemos pensar como Christopher Nesse, se não existisse vontade, não existiria inferno. Mas Jesus colocou a ênfase da sua vontade no centro da vontade de Deus. A minha comida consiste em fazer a vontade daquele que me enviou, e realizar a sua obra. João 4:34. Segundo a Bíblia, o verdadeiro contentamento reside em viver de acordo com a vontade de Deus. O segredo da verdadeira felicidade consiste na renúncia da vontade egoísta e na submissão à vontade celestial. Então eu disseEis aqui estou, no rolo do livro está escrito a meu respeito; agrada-me fazer a tua vontade, ó Deus meu; dentro em meu coração está a tua lei. Salmo 40:7-8.

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O destaque relevante do ministério de Jesus foi sua submissão voluntária à vontade do Pai. Ele jamais pretendeu fazer alguma coisa fora dos desígnios e deliberações de Deus, e sua decisão final foi obedecer em tudo a vontade absoluta de seu Pai celestial. No momento crucial de sua existência aqui na terra, a luta em oração no Getsêmani esbarrava com esta vontade. Pai, se queres, passa de mim este cálice; contudo, não se faça a minha vontade, e, sim, a tua. Lucas 22:42. Mas ele via esta conformação com a vontade de Deus como a alternativa exclusiva de vencer toda força do pecado. Perfeitamente amoldado ao querer de Deus, o Senhor Jesus sabia com clareza, que para este mundo Deus tem planos, não problemas. Nunca ocorre pânico no céu.

Ninguém poderá ser realmente feliz fora da vontade revelada de Deus. Mesmos as coisas que achamos sem a maior relevância, se forem determinadas por Deus, devemos levar em consideração. Por exemplo:

Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns, antes façamos admoestações, e tanto mais quanto vedes que o dia se aproximaHebreus 10:25.

Pode parecer bobagem, mas se a Bíblia mostra que é importante a igreja se reunir para os seus cultos de adoração e ensino, fica muito esquisito eu optar por outra atividade mais interessante naquela mesma ocasião. Não quero ser um legalista, mas quero estar afinado com a vontade de Deus. Se a palavra de Deus afirma que se deve perdoar setenta vezes sete, posso até admitir que o número é um tanto exagerado, mas não tenho outra alternativa sem me distanciar da vontade revelada de Deus. A arrogância do pecado, o pecado do pecado ou o erro do pecado é achar que posso determinar a minha existência por aquilo que considero significativo, fora da vontade expressa de Deus revelada na Bíblia.

Mesmo as pessoas mais dignas e todas aquelas livres de qualquer suspeita moral estarão pecando gravemente se estiverem fora da vontade divina demonstrada na palavra de Deus. Deste modo, ninguém pode afirmar que não peca. Por outro lado, se deliberadamente nos encastelarmos no sentimento de rebeldia voluntária, fica muito difícil defender a nossa participação na família de Deus. É impossível o homem não pecar, mas também é impossível conciliar a vida liberta de um salvo em Cristo, com a rebeldia voluntária aos fundamentos da vontade de Deus. É só pela graça divina que o crente pode obedecer as normas da vontade de Deus. Entretanto, a obediência cristã não é nenhuma escravidão ao legalismo dominador. É apenas a sujeição voluntária à vontade de Deus, de alguém que foi liberto pela graça de Cristo.

O velho mendigo do vale estreito, Glenio.

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série do PECADO 03.22 – o pecado do pecado I

PECADO 03

O PECADO DO PECADO 

Pois todos pecaram e carecem da glória de Deus. Romanos 3:23.

Se todos pecaram, todos são pecadores. O que é um pecador? O que é pecado? Muita gente não se considera um pecador, porque tem uma concepção errada de pecado. Pecado etimologicamente significa errar o alvo. O pecado do pecado é o conceito errado que temos do pecado. Para muitos, pecado é um crime ou alguma transgressão grave. Há uma grande multidão que não se acha na condição de pecador, uma vez que esta gente é correta moralmente. Uma mulher retrucou certa vez a um pregador que a chamou de pecadora. – “Eu não sou uma fubana ou biraia qualquer. Eu sou uma mulher de respeito”. O homem não a chamou de prostituta, mas de pecadora. Entretanto, a sua concepção de pecadora esbarrava num significado vulgar.

A dificuldade em compreender o conceito de pecado gera uma atitude de descaso para um ponto que é crucial na libertação do ser humano. O pecado é uma rebeldia em relação a Deus. Não se trata propriamente de uma violação da lei moral ou uma infração de alguma norma legal. O pecado é uma atitude de independência do homem com referência a Deus. Uma das definições bíblicas de pecado é incredulidade: Tudo o que não provém de fé é pecado. Romanos 14:23b. O significado que a Bíblia oferece para a fé está ligado à palavra de Deus. Fé é crer na palavra de Deus, apesar das evidências. O apóstolo Paulo declara: A fé vem pelo ouvir e o ouvir a palavra de Deus. Romanos 10:17. Biblicamente, fé e pecado são antônimos clássicos. Adão não cometeu nenhum dolo fraudulento quando transgrediu a palavra de Deus. Ele simplesmente pecou. Pecado não é crime que nos conduz à cadeia, mas uma oposição à palavra de Deus, que nos leva ao inferno.

PECADO 03a

A altivez do coração é a base da incredulidade, e esta, o fundamento da rebeldia. Por trás da rebeldia do pecado está a descrença na palavra de Deus e no fundo da incredulidade, o desejo soberbo de ser como Deus. Nossos primeiros pais não foram delinquentes imorais, mas insurgentes espirituais da ordenança divina. Eles não violaram o código de princípios e preceitos legais ou morais, tão somente não deram crédito à palavra de Deus. Como afirmava Thomas Merton, o pecado é a vontade de fazer o que Deus não quer, de conhecer o que ele não pretende e de amar o que ele não ama. O pecado é uma revolta contra Deus que leva o homem à pretensão de se tornar independente Dele.

Todas as vezes que nos rebelamos contra a vontade de Deus, revelada na sua palavra, cometemos pecado, uma vez que o pecado é rejeição do senhorio divino e desobediência à vontade de Deus. Toda insubordinação ao espírito da palavra de Deus é pecado. O rei Saul foi rejeitado como governante do povo de Israel, em razão de sua insurreição contra as ordens do Senhor. Deus havia autorizado a morte de todos os amalequitas e de todo o seu rebanho. Todavia, Sua Alteza o rei Saul, achou que podia preservar o melhor das ovelhas e bois para o seu sacrifício e poupar a vida do seu colega de cargo, o rei Agague. Nos alicerces do pecado estão os desejos de destronamento de Deus e entronização do eu.

Nós temos uma ideia deformada com respeito à seriedade da palavra de Deus. Muitas vezes achamos que não é coisa tão grave transgredir algumas determinações do Senhor, que nos parecem não muito sensatas. Freqüentemente assumimos o controle de certas situações impondo o nosso modo de pensar e achamos que tudo vai dar certo. Mas a Bíblia nos adverte:

Não vos enganeis: de Deus não se zomba;

pois aquilo que o homem semear, isso também ceifará.

Gálatas 6:7.

E como pontuou Paul Rees, entender a vontade de Deus é meu problema; levar a efeito a vontade de Deus é meu privilégio; minimizar o valor da vontade de Deus é meu perigo. A vontade de Deus é a única régua capaz de calcular as dimensões da vida plena, pois ela é a regra singular da natureza universal.

(continua quarta-feira)

O velho mendigo do vale estreito, Glenio.

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série do PECADO 02.22 – o pecado antes do pecado II

PECADO 02O PECADO ANTES DO PECADO

(continuação)

Ora, se Deus não pode tentar a ninguém e por isso não poderá ser um tentador, e se não havia ninguém para tentar naquela ocasião, logo a tentação deste Querubim foi auto-induzida pela sua condição de criatura volitiva que desejava ser o Criador. Na multiplicação do teu comércio, se encheu o teu interior de violência, e pecaste; pelo que te lançarei, profanado, fora do monte de Deus e te farei perecer, ó querubim da guarda, em meio ao brilho das pedras. Ezequiel 28:16.

Não aceitando ser quem era como criatura, Lúcifer se propõe a ser quem por essência nunca poderá ser. Essa sua inclinação soberba o transformou em Satanás, a raiz da tentação e o tentador por natureza. A iniqüidade financiou a corretagem do negócio e a selvageria interna desencadeou a transgressão. O pecado é um ato de atrevimento pirracento proveniente de uma atitude de inconformidade arrogante.

A inveja da criatura que deseja ser o Criador acabou por convertê-la num ser maligno e astuto. Lúcifer era muito inteligente, mas pouco sábio. A inveja é a negação da providência divina e a afirmação da calamidade. A. W. Tozer dizia: “na Bíblia, há referências aos ardis e à astúcia de Satanás. Mas, quando ele arriscou-se a destronar o Todo-Poderoso, tornou-se culpado de um ato de juízo tão terrível quanto imbecil”. A loucura pela grandeza e a inveja por não ser o único são as causas da queda luciferiana.

Só Deus é o único, mas a sua singularidade não é uma só pessoa. A grandeza e beleza da Trindade é a sua unidade na pluralidade. Ter uma única vontade numa coletividade é muito maior do que ser singular sob o perfil da individualidade.

A essência do pecado é a exaltação do invejoso. Assim, nos termos de Deus, o desejo de ser independente de Deus é a matéria prima do pecado. Aquele que ambiciona o trono da Divindade cai do mais alto pedestal que alguém poderia subir. A inveja do invejoso é o veneno que o intoxica lentamente até à sua ruína. A altura, a grandeza e a glória são as plataformas mais perigosas para o desfile de uma criatura ambiciosa. Nenhum dos seres criados conseguiu passar por estas vias sem o risco do orgulho particular e o tombo vertiginoso do pecado.

Por que olhais com inveja, ó montes elevados, o monte que Deus

escolheu para sua habitação?

O SENHOR habitará nele para sempre.

Salmos 68:16.

A inveja do anjo iluminado causou um desarranjo na ordem angelical e uma hecatombe cósmica. O plano da vida invisível agora estava poluído pelos desejos arrogantes de comparação, competição, complicação, condenação e conspiração.

Elevou-se o teu coração por causa da tua formosura,

corrompeste a tua sabedoria por causa do teu resplendor.

Pela multidão das tuas iniqüidades, pela injustiça do teu comércio,

profanaste os teus santuários.

Ezequiel 28:17a, 18a.

A atitude de insatisfação promoveu o ato de inobediência que vazou numa anarquia egoísta e universalmente interesseira. A oposição torna-se um fato na criatura volitiva. Se não sou o Criador, agora eu tenho o direito de não me conformar em não sê-lo, pois há um selo de rebelião instaurada no Cosmo. O Criador não criou a rebelião do pecado, mas criou um ser que não sendo o Criador quis ser igual a ele sem poder ser, já que era uma criatura. E querendo ser o Criador sem poder ser a causa não causada, acabou sendo a causa maligna de todas as causas que causam o mal no seio das outras criaturas que podem querer ser algo que não são.

Foi assim que o pecado entrou na raça humana. Deus criou Adão como homem e lhe deu uma vontade capaz de decidir. Uma criatura só será livre e responsável se puder deliberar aceitando sua condição de criatura, ou não se conformando com esta categoria.

Toda decisão exige alternativa. Se não houver opção não haverá liberdade e se não houver deliberação não existirá inocente nem culpado. Se não tenho escolha não tenho livre-arbítrio. Se me falta a capacidade de arbítrio, falta-me a competência para escolher e se estiver ausente a possibilidade de optar, então não serei livre nem responsável.

O Criador deu a Adão a condição de ser homem e a liberdade de aceitar esta característica humana ou não se afeiçoar à sua humanidade. Com estas qualidades, o Criador apresentou o cardápio para estabelecer a preferência.

E o SENHOR Deus lhe deu esta ordem: De toda árvore do jardim comerás livremente,

mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás;

porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás.

Gênesis 2:16-17.

Diante da alternativa a decisão pode ser tomada. A diferença entre o pecado de Lúcifer e o pecado de Adão é que o primeiro foi sem tentação externa, mas inerente ao próprio ser inconformado com o que era, enquanto o segundo foi consumado pela tentação do tentador que despertou no gênero humano o desejo de ser como Deus. Assim o pecado de Lúcifer é uma aversão ínsita e endógena, isto é, incitada e gerada pelo ser da própria criatura, mas o de Adão foi por sedução exterior. Todavia os resultados são sempre os mesmos, morte ou separação de Deus. O diferencial neste caso é que para a raça humana há recurso através da encarnação do Verbo divino. O Deus-Homem pode desfazer na cruz o que Satanás incorporado na serpente fez no Jardim. O pecado no plano espiritual não tem acordo. O inferno foi preparado para o Diabo e os seus anjos. O pecado no terreno da carne tem o seu Cordeiro expiatório.

No dia seguinte, viu João a Jesus, que vinha para ele, e disse:

Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!

João 1:29.

O pecado antes do pecado é a inveja, o orgulho e a arrogância de ser o que não é, e, ao mesmo tempo, agir por conta própria como se fosse Deus. O pecado depois do pecado é a tentação teomaníaca que nos leva a presunção da independência de Deus, tentando-nos como se fôssemos deuses. O pecado anterior não tem Salvador nem salvação. O pecado posterior tem a manifestação do Deus que se fez Homem para libertar o homem que aposta ser como deus, assumindo o controle de sua existência. Graças ao Pai pela encarnação do Filho e pela revelação do Espírito Santo na vida dos seus filhos, que foram salvos da condenação do pecado, estão sendo salvos do poder do pecado e serão salvos da presença do pecado. Aleluia.

O velho mendigo do vale estreito, Glenio.

série do PECADO 01.22 – o pecado antes do pecado I

PECADO 01

O PECADO ANTES DO PECADO

Perfeito eras nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado até que se achou iniquidade em ti. Ezequiel 28:15.

Tudo o que Deus criou era perfeito. Elohim é o nome do Criador que jamais será uma criatura. Este nome é o plural da Divindade. A Bíblia aponta para um Deus triúno ou o ser coletivo do Divino. Deus é único, mas não é solitário, além de ser eternamente solidário. A Trindade é o plural das vontades e o testemunho de uma unidade governamental. Há um só Deus manifesto em três pessoas vivendo um só propósito. O Deus trino, se bem que triúno, nunca foi criado. Se ele fosse criado não seria Criador e sim criatura. A causa que tem causa nunca será uma causa não causada.

Ora, se não houver a causa que cause tudo sem que tenha uma causa que lhe tenha causado, então não haverá o Criador, pois tudo será criatura, já que toda causa tem a sua causa. Elohim é a causa sem causa e o Criador de tudo. Sendo ele perfeito como Criador só poderia criar uma criatura perfeita, como criatura. Mas a criatura perfeita, dotada de vontade própria, poderia querer ser como o Criador. Ela nunca poderá ser o Criador, pois ela é de fato uma criatura, embora possa desejar ser como o Criador.

O Criador será sempre o Criador, uma vez que, por necessidade ontológica, isto é, do ser enquanto ser, neste caso, o ser Criador não poderá ter causa, e ainda, por imperativo lógico, é uma causa sem causa causando todas as causas, pois se tivesse alguma causa seria uma criatura causada e não o Criador causador.

Por outro lado, a criatura sempre será criatura, já que é uma causa causada e não a causa causadora. Contudo, a criatura em sua presunção conta com a chance de se apresentar na pretensão de equivalência ao Criador. Mesmo sendo uma criatura, ela tem a faculdade de ambicionar ser como o Criador.

Antes da concepção do átomo houve a criação sem retoque do mundo imaterial. A realidade espiritual precede a realidade física. Os seres angélicos foram criados primeiro do que a matéria. Deus evidenciou uma ordem de tronos antes de criar a ordem dos elétrons, prótons e nêutrons. A existência incorpórea vem antes da mecânica quântica.

Na hierarquia da organização espiritual foi criado um Querubim guardião dos arranjos celestiais, um ente luminoso cheio de sabedoria e formosura. Entretanto, este ser denominado de Lúcifer, movido por sua ambição pessoal e não satisfeito em ser criatura, tenta escalar o trono do Criador e assentar-se como Deus. Tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu; acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono e no monte da congregação me assentarei, nas extremidades do Norte; subirei acima das mais altas nuvens e serei semelhante ao Altíssimo. Isaías 14:13-14. Sua ideia é subir, ascender, exaltar-se.

Este personagem angélico lindo e pleno de predicados foi criado perfeito como criatura, mas ele não era o Criador. Como já vimos e por exigência ôntica, isto é, do ser em si mesmo, só o Criador não tem causa. Mas Lúcifer não aceita a sua condição de criatura e quer ser o Criador.

Além do que este assunto é também difícil de entender. Como um ser perfeito, vivendo num ambiente perfeito em companhia de seres perfeitos poderia ficar insatisfeito em ser o que era? Parece que o problema encontra-se na vontade. Ele ficou inconformado por ser uma criatura e quis ser o Criador. Ele foi criado como um Querubim de alto nível, mas quer ser o Criador Supremo e a causa de todas as causas.

Uma criatura perfeita querendo ser a perfeição do Criador triúno faz aparecer em si mesma a iniquidade, ou seja, o inconformismo de ser o que é querendo ser o que nunca será de fato, a ponto de se insurgir e comandar uma rebelião que arrastou um terço dos anjos.

A sua cauda arrastava a terça parte das estrelas do céu, as quais ele lançou para a terra; e o dragão se deteve em frente da mulher que estava para dar à luz, a fim de lhe devorar o filho quando nascesse.

Apocalipse 12:4.

Antes de haver o ato de rebeldia, Lúcifer fez nascer e cultivou uma atitude arrogante de insatisfação ingênita, isto é, gerada por ele próprio e em si mesmo, que desencadeou a obstinação hostil de uma criatura inconformada e incontida. Esta pose atrevida pode ser designada como o princípio da iniquidade e a madre enrustida do pecado. Antes do seu ato de oposição houve um anseio de auto-coroação e independência do Criador.

A Bíblia é categórica quando afirma que o pecado surgiu em razão de uma tentação e que esta nasce dos desejos incontroláveis do ser tentado: Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta. Ao contrário, cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz. Então, a cobiça, depois de haver concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte. Tiago 1:13-15.

(continua quarta-feira)

O velho mendigo do vale estreito, Glenio.

feridas que nunca saram (parte 2)

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Perdoar é um imperativo da salvação e uma expressão categórica do amor liberto de regras, que nos salvaguarda de qualquer conduta determinada pelo dever. Uma vez libertos da tirania do ego, pela nossa morte e ressurreição com Cristo, ganhamos a condição de vivermos fora de comportamentos predeterminados e esperados por legalistas de plantão, a fim de manifestarmos a vida de Cristo, como o padrão de nosso viver.

Aquele que perdoa, motivado pela vida de Cristo em seu ser, pode conviver com o seu agressor, se isto for para a glória do Pai; bem como, viver distante, longe, fora do seu relacionamento, se também for para a mesma glória do Pai.

A questão básica agora, não é o nosso bem estar em si mesmo, mas a glória daquele que nos libertou de qualquer camisa de força. A norma que conduz a conduta cristã sempre será:

Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus.

1 Coríntios 10:31.

O pecado nos destituiu da glória de Deus, porém a salvação nos converteu para o centro desta glória Divina. Nós não vivemos mais para a nossa própria glória, uma vez que fomos regenerados para glorificar Aquele que nos aceitou integralmente pela sua graça.

Nenhum cristão é compelido a perdoar. Não há perdão a fórceps e ninguém é forçado a indultar. Na verdade, todo cristão foi gerado pelo Pai, para perdoar como o Pai. Se eu não perdoar de fato, primeiramente, estou assegurando que não sou filho de Deus; depois, me torno um prisioneiro de profunda amargura, e as minhas feridas nunca saram.

Alguns dizem que já perdoaram, mas não conseguem esquecer. Quero apenas lembrar a estes que assim pensam: esquecer como ausência de memória, talvez só por Alzheimer. Podemos rememorar os fatos, o que não podemos é lembrá-los com azedume. Precisamos, antes de tudo, ser desintoxicados da reminiscência amargurada.

O problema real não se encontra na lembrança em si mesma, mas na lambança fermentada pelos sentimentos purulentos da infecção do individualismo. O ego ferido costuma se transformar numa pústula segregando o pus da arrogância fétida, que contamina todos que estiverem por perto. A alma dolorida é malcheirosa; supura e dá asco.

Sem o perdão custeado pela graça de Cristo de modo irrestrito e unilateral, as feridas nunca saram e o seu contágio pela baba que escorre da boca que geme, acaba infectando a família, os conhecidos e até os que se propunham a ser amigos, que aos poucos, vão saindo de fininho para não ficarem contaminados e aleijados.

Cruz

O perdão é imprescindível para a boa saúde. Conversei com um amigo, alcançado agora pela graça depois de uma traição familiar, que me contou: “a pior coisa que fiz foi falar mal da minha ex-esposa após a nossa separação sofrida”. Enquanto ele mantinha a dor da infidelidade como álibi do seu vitimismo, desabafava a peçonha da amargura e se contorcia em desgosto na tentativa de expiar a sua vingança.

Só o perdão pode sarar as feridas abertas. Apenas o perdão total pode conceder o verdadeiro arrependimento. Então, alguém me pergunta se Deus perdoou a todos em Cristo. – Sim, com certeza, o perdão de Deus é ecumênico. Ela continua a indagar: por que, pois, as pessoas que foram perdoadas, não se arrependem todas?Quando, pela graça de Deus, ele pode liberar o perdão, as coisas mudaram. Vejo agora na sua vida um sopro de amor que só pode vir do trono do Pai. A pessoa que não perdoa vive, aqui, num inferno, infernizando os outros e sem esperança de alcançar o céu.

Esta é uma tese teológica que também traz, pelo menos, duas respostas modelares. Alguns dizem que é uma questão da eleição divina. Se a pessoa é eleita por Deus, então ela se arrependerá. Outros sustentam que isto depende só da vontade do sujeito.

Acredito que há um mistério no assunto que envolve as duas partes. Não creio na eleição fatalista que escolhe alguém para a perdição, embora creia na eleição em Cristo para a salvação, que implica na decisão responsável daquele que foi vivificado pelo poder da pregação da Palavra de Cristo. Urge um milagre de vivificação antes da conversão.

mysterium fidei ou o enigma da fé ainda continua sem um esclarecimento por se tratar de um assunto não revelado: As coisas encobertas pertencem ao SENHOR, nosso Deus, porém as reveladas nos pertencem, a nós e a nossos filhos, para sempre, para que cumpramos todas as palavras desta lei. Deuteronômio 29:29 .

Aliás, o que se sabe de verdade é que um perdoado, que não se considera arrogantemente como se fosse Deus, arrepende-se; e, arrependido de fato, perdoa e fica curado. Amém.

 O velho mendigo do vale estreito, Glenio.

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inimigos da cruz de Cristo II

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(continuação final)

Terceiro: a glória deles está na sua infâmia. Se há um fulgor que se realça no procedimento dos inimigos da cruz de Cristo é o investimento na desonra dos outros. Os oponentes do evangelho vivem saboreando o prato podre da vergonha alheia. Eles se estimulam com as fofocas e se nutrem das sujeiras que gostam de destacar. Como abutres, apreciam a carniça e se deleitam naquilo que causa embaraço e infâmia em alguém.

Uma vez que o evangelho se agrada em cobrir com amor as feridas da vergonha, os contrários às boas notícias se especializam em espalhar o seu mau cheiro por todo lugar. O ódio excita contendas, mas o amor cobre todas as transgressões. Provérbios 10:12.

Uma das peculiaridades do evangelho é garantir com amor a decência do humilhado. Não se trata de encobrir o pecado alheio, mas de assumi-lo como sendo seu, enquanto avoca para si a dívida do devedor. Acima de tudo, porém, tende amor intenso uns para com os outros, porque o amor cobre multidão de pecados. 1 Pedro 4:8.

É bom ressaltar. Não é encobrir o pecado, mas cobri-lo. Não se trata de ocultação de cadáver, mas de tomar a dívida do culpado, pagando-a como se fosse sua própria dívida. Foi assim que o nosso Senhor Jesus Cristo fez conosco.

A glória dos inimigos da cruz de Cristo visa detonar a imagem dos trôpegos, tornando-os motivo de escândalo perante os outros. Os humanistas se aperfeiçoam num moralismo esnobe e numa religiosidade mascarada, para, em seguida, deslustrar todos os que pisam na bola. Eles se vangloriam com o fracasso dos outros.

Quarto: só se preocupam com as coisas terrenas. Se você quiser reconhecer um inimigo da cruz de Cristo na igreja, veja a sua ênfase. A sua agenda enfoca apenas os assuntos relacionados com o aqui e o agora. Eles são terrenos e vivem enterrados com as preocupações das coisas que o fogo vai consumir. Só pensam nos eventos perecíveis.

Essa mentalidade rasteira valoriza somente os tesouros do chão. Para eles o patrimônio econômico é mais importante do que os bens eternos. O dinheiro da “igreja” vale mais do que a salvação de uma alma. O saldo da conta bancária na terra tem mais significado do que os depósitos em pessoas, enviados para o “banco celestial”. Eles não aquilatam a estima que Abba nutre pelas pessoas carentes e perdidas.

Os inimigos da cruz de Cristo, que andam entre nós, são humanistas de carteirinha, gente de bons antecedentes criminais, mas também, são os mentores da não pregação do evangelho de Cristo crucificado. Eles procuram impedir a proclamação da nossa morte e ressurreição com Cristo, e, quando não conseguem, adaptam a mensagem usando uma linguagem semelhante, enquanto boicotam os pregadores nos bastidores.

Com disse anteriormente: não basta pregar a mensagem correta de Cristo crucificado. É preciso ter também o espírito de um crucificado. O discurso da cruz deve ser seguido pelo curso de uma vida que traz as marcas da co-crucificação. A teologia certa da cruz de Cristo carece da certeza de que fomos realmente crucificados com ele.

Os piores inimigos da cruz de Cristo estão no seio da igreja. O mundo é um adversário ferrenho da pessoa de Cristo, enquanto os falsos cristãos são os inimigos ferozes, mais persistentes da obra de Cristo, embora, permaneçam disfarçados como discípulos.

O apóstolo disse que eles eram muitos, quando a população do mundo era pequena e os números da igreja bem menores do que agora. Não vamos subestimar a taxa nos dias de hoje. Acredito que temos uma multidão incalculável dos inimigos da cruz de Cristo convivendo com santos na igreja contemporânea. Por isso mesmo, precisamos de cuidado e acuidade espiritual para podermos não entrar no seu jogo.

A visão espiritual desta comunidade é: Conhecer a Cristo crucificado e fazê-lo conhecido em todo o lugar por meio da graça. Não podemos nos intimidar com as pressões, nem deixar por menos esta mensagem. Que o Senhor nos dê intrepidez para anunciar com toda ousadia a sua morte e ressurreição, bem como, a nossa morte e ressurreição juntamente com ele, no espírito de humildade e mansidão do próprio Cristo.

Rogo, pelas misericórdias do Pai, para que não percamos de vista a ênfase divina na pessoa de Cristo e na sua obra graciosa realizada na cruz. O humanismo, com todas as suas táticas satânicas, vai sempre, disfarçado, disputar um lugar no seio da igreja, promovendo algo semelhante ao cristianismo e trazendo muita confusão na vida dos ingênuos e desavisados. Quem tem ouvidos [para ouvir, ouça. Mateus 13:9. Amém.

o velho mendigo do vale estreito, Glenio.

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inimigos da cruz de Cristo I

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Paulo, o apóstolo censurado pelos estigmas da cruz, censura aqui, afirmando com lágrimas, que há muita gente adversária da cruz de Cristo. Este antagonismo não é ranhetice de um povo estranho ou de uma turma forasteira. Trata-se da aversão visceral de uma tropa de elite da própria igreja. É um pessoal disfarçado que anda entre os filhos de Deus.

Os opositores da cruz de Cristo não são tipos exóticos, isto é, estrangeiros. São endógenos, forjados nos intestinos da comunidade. É gente da própria igreja e não do mundo. É um grupo que tem a linguagem correta, mas um espírito de hostilidade.

Paulo se refere a eles como muitos. Não se iludam: o pelotão é grande. A tática do “velho capitão” é infiltrar o maior número possível de agentes secretos na igreja de Cristo. Estes têm a farda de anjos, mas as entranhas são de demônios. São crentes na passarela e hereges nos bastidores. O discurso pode ser perfeito, mas o concurso é puro despeito.

O apóstolo chora diante deste quadro triste. Em sua biografia, nós o vemos cantar louvores debaixo da taca; mas ele não suporta a dor causada pelos adversários da cruz de Cristo. A farsa do humanismo é um lamento inconsolável para quem sabe discernir o valor da salvação eterna, patrocinada por Cristo crucificado.

Na lamentação do apóstolo, nos percebemos algumas particularidades destes antagonistas mascarados. Ele destaca alguns traços para nos ajudar a identificar os opositores da cruz de Cristo no seio da igreja. Vejamos como Paulo os percebe:

O destino deles é a perdição, o deus deles é o ventre,

e a glória deles está na sua infâmia,

visto que só se preocupam com as coisas terrenas.

Filipenses 3:19.

Primeiro: O destino deles é a perdição. A palavra destino, no grego, é telos, que pode ser traduzida também como: propósito. O intento dos inimigos da cruz de Cristo é a não salvação dos perdidos. Apesar de estarem na igreja, eles não são salvos e, sendo assim, o seu encargo principal é impedir aqueles que seriam salvos, de serem salvos. Eles procuram ocultar a mensagem da cruz, para que os perdidos não sejam alcançados pela graça.

Nem sempre é uma ocultação teológica. Eles até pregam a mensagem, mas o espírito como anunciam não é de um crucificado: são invejosos e disputam um lugar no espaço como se precisasse de reconhecimento dos irmãos.

Por outro lado, se Deus tivesse outro meio para a salvação dos pecadores fora de Cristo crucificado e não tenha usado este método, então, temos que admitir que Deus seja mau, muito mau, porque submeteu o seu Filho a um sofrimento atroz, tendo ele outra escolha. Porém, se esta é a única opção, não há como não apresentá-la aos perdidos, já que esta é a alternativa sine qua non para a salvação dos pecadores.

Como os inimigos da cruz de Cristo são o joio no meio do trigo; ou os lobos com peles de cordeiros; eles não somente fingem que são salvos, como também atrapalham a salvação dos perdidos. A finalidade deles é a perdição dos pecadores. Não pregam o evangelho em sua essência, pois o que os motiva é a condenação eterna dos incrédulos.

Jesus definiu a turma destes ímpios com esta censura severa: Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque fechais o reino dos céus diante dos homens; pois vós não entrais, nem deixais entrar os que estão entrando! Mateus 23:13.

Lamento dizer: quem não evangeliza ou promove a evangelização dos perdidos, por meio de Cristo crucificado, é um inimigo figadal da cruz de Cristo.

Segundo: o deus deles é o ventre. Aqui temos a base de sua adoração. Os contendedores da cruz de Cristo são viscerotômicos, isto é, vivem da veneração de suas entranhas. São pessoas devotas aos seus apetites, endeusando as suas ambições carnais.

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O culto dos adversários do evangelho da graça é movido aos instintos intestinais e aos desejos da carne. Eles vivem de bajulação com o objetivo de satisfazer a sua fome de reconhecimento. A ênfase do louvor neste preito encontra-se na personalidade pública e nunca no altar privativo diante do Senhor. Paulo diz que eles cultuam a koilia, isto é, a concavidade vazia de um estômago faminto por fama, mas que come qualquer porcaria.

Eles não sabem discernir o Pão do céu do pão dormido; o pão duro do humanismo. Não sabem distinguir o Maná de Deus do menu da religião; a ceia do Senhor, dos brioches da revolução francesa; o Pão nosso de cada dia, que é Cristo, do sustento diário.

A propina também faz parte deste culto idólatra do deus guloso. Desde Esaú, que vendeu a sua primogenitura por um prato de comida, até os esfomeados pós-modernistas, que negociam a ênfase da cruz por uma posição no pódio religioso, a tática é a mesma. É a profanação do sagrado e a secularização do santo.

O “deus ventre” é ainda ventríloquo, pois a sua boca fala inspirando a marionete da hipocrisia religiosa. Ao sonegar a pregação da cruz de Cristo, o divo das feições falsificadas promove a conduta humanista como se fosse o verdadeiro estilo de vida cristã. Essa é a tática mais perigosa dos inimigos da cruz de Cristo: a proclamação do humanitarismo como se fosse o cristianismo em sua essência.

(continua quarta-feira)

Velho mendigo do vale estreito, Glenio.

o poder do Evangelho na prática I

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A vergonha cora uns e descora outros. Quem tem brio, diante do vexame, fica rubro, ou, quem sabe, vermelho por fora e irado por dentro. Quem não tem, deixa os tímidos pálidos, por isso, aquilo que nos envergonha é ridículo, por todos os lados.

A religião estimula o mérito ao máximo, enquanto desperta no íntimo a vergonha, quando se pisa na bola. Aquele que não alcança a nota de aprovação na escola do êxito, acaba sofrendo, envergonhado, por não poder desempenhar a contento. É triste e cansativo viver sob a cobrança de um modelo inatingível.

A vergonha também financia a hipocrisia pelos bastidores. As máscaras que usamos no dia a dia servem para esconder as cicatrizes da alma ou a nossa falta de aceitação. Usamos disfarces para não mostrar aquilo que nos desabona.

O evangelho não exige a performance do ego, uma vez que a única vida que vence é a de Cristo. Logo, esse modo do viver cristão se trata de uma vida substituída e nunca de uma existência desenvolvida a custo do esforço pessoal. Nada de mérito por aqui.

O evangelho é a boa notícia da nova Aliança. É o assunto da graça e o tema radical do sacrifício do Cordeiro de Deus, que promove a alforria e aceitação do pecador; tudo patrocinado pela morte e ressurreição de Cristo Jesus.

No evangelho não há espaço para a vergonha. O fracassado é aceito pelos méritos de Cristo e nunca pelo seu sucesso pessoal. O falido teve a sua conta paga de modo cabal, bem como o débito perdoado de uma vez para sempre. A sua dívida não só foi quitada, como a sua responsabilidade por pagá-la ficou sem efeito. No reino da graça não há prestações a pagar, nem Serviço de Proteção ao Crédito.

O evangelho aborda a libertação do devedor pecaminoso através da sua morte e a ressurreição juntamente com Cristo. Trata-se de uma obra de poder descomunal e fora de série, pois, mediante a graça, liberta o pecador da sua incredulidade, isto é: do pecado dos pecados. Assim, o bastardo e endividado se torna aceito como filho legítimo.

O apóstolo Paulo vê no evangelho o poder de Deus. Para ele esse poder se cristaliza na mensagem da cruz.

Certamente, a palavra da cruz é loucura para os que se perdem, mas para nós, que somos salvos, poder de Deus.

Coríntios 1:18.

A salvação do pecador incrédulo é mediante a fé, e esta, é um milagre da graça, por meio da vida e obra de Cristo Jesus. Ninguém nasce neste mundo portando um mínimo de fé. Ela nos é dada pelo ouvir da palavra de Cristo, e este, crucificado.

A maior concentração das ogivas celestiais na terra ou o arsenal das dinamites divinas encontra-se na obra da cruz. Nunca houve maior poder de Deus entre os homens do que o poder da renúncia de Cristo diante da encarnação e da morte.

Aquele que teve todo poder para criar o universo, e que tinha toda a capacidade na terra para resistir àqueles que o levaram à cruz, e não o fez, é porque estava investido de um poder muito maior do que a preservação de sua identidade.

Quem é onipotente e tem todo o poder para vencer os seus inimigos, bem mais fracos, e se deixa ser vencido por esses adversários, tem que ser movido por um poder maior do que todo o poder da criação e preservação de sua imagem divina.

O Deus Criador do mundo, quando se deixou ser crucificado pela criatura imunda e presunçosa, foi muito mais poderoso, ou, melhor dizendo, exerceu muito mais do seu poder na redenção do pecador, do que em seu processo criacionista do universo. O Onipotente passivo sobre a cruz é o máximo da revelação de Deus aos homens.

O poder da renúncia divina ou da submissão de Cristo diante da morte, sim, de uma morte vil e cruel como a da cruz, é muito superior a todo poder que ele exerceu no momento da criação do cosmos.

A obra de Cristo crucificado é extremamente gloriosa e mais extraordinária do que tudo o que se pode imaginar neste mundo. Nenhum poder pode ser maior do que aquele exercido por Deus ao ser humilhado para salvar o indigno pecador, acionado e determinado por um amor incondicional.

Foi por isso que o apóstolo Paulo considerou a obra da cruz como sendo o poder de Deus por excelência, embora os gregos, em sua sabedoria, a consideram uma loucura, e os judeus, em busca de sinais e espetáculos, a vejam como um escândalo.

(continua semana que vem…)

O velho mendigo do vale estreito, Glenio.

gotas de generosidade XV

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Estou agora na varanda da casa de uma propriedade no sul do Piauí. Esta é uma época cruel de seca brava e o cinza toma conta da região verdosa de outra estação. A beleza outrora da temporada das chuvas some por encanto na secura das árvores. Quase tudo fica aparentemente sem vida. Aos olhos superficiais vive-se aqui num mundo morto.

Eu nasci neste rincão seco e isolado do Brasil, que nem sei se é Brasil e tão pouco Piauí, já que continua sempre esquecido dos políticos de todos os matizes. Embora, para mim, esse é o velho Paraíso perdido, uma lembrança simbólica do Éden.

Segundo a arqueóloga francesa radicada no Brasil, Niède Guidon, a primeira fogueira da história do homem se deu bem aqui no Piauí. Com este pano de fundo arqueológico sou tendencioso para denominá-lo de meu Paraíso, pois é assim que o vejo.

Um amigo que o visitou no auge do estio, me sussurrou com ironia: – como você pode denominar esse torrão morto de Paraíso?  Mal sabe ele dos milagres dos céus. Deus, o Todo-Poderoso, todo ano, esconde a beleza do sertão como o manto cinzento das matas secas. Isto não é um truque de mágico, é apenas uma habilidade soberana do Criador.

Quando vêm as primeiras águas, porém, o cenário muda repentinamente, e, de um dia pro outro, aquele panorama triste da morte se reveste com a verdura da ressurreição. É algo de beleza indescritível. A vida exuberante toma conta da natureza e o Paraíso oculto eclode em esplendor, gerando abundância no mapa.

O sertão sofrido é muito generoso.

A vida que nasce da morte é generosa. Todo cristão legítimo também é produto da tumba vazia e da vida abundante da ressurreição. Não há filhos de Deus em tons cinzas; eles são como o Fênix que ressurge das cinzas, recobertos da vida plena que vence a morte, por isso mesmo, são a espécie da generosidade. Filho de Deus mesquinho é improvável.

O sertão com certeza floresce depois das primeiras águas. Bem-aventurado o homem cuja força está em ti, em cujo coração se encontram os caminhos aplanados, o qual, passando pelo vale árido, faz dele um manancial; de bênçãos o cobre a primeira chuva. Salmos 84:5-6. O vale árido ou vale de Baca é o vale das lágrimas que regam as dores que vão às portas da aurora onde a esperança faz a sua morada cada manhã. A primeira chuva da ressurreição é a causa de uma vida plena de amor, esbanjando generosidade.

A geografia desta região árida é uma boa metáfora para a interpretação da vida cristã em sua realidade espiritual. Antes éramos secos e improdutivos, mas quando foi crucificado o nosso velho Adão com Cristo, ganhamos na madrugada do primeiro dia da nova semana da redenção a vida generosa capaz de fazer desses indigentes miseráveis, os mendigos mais generosos com o porte de Sua Alteza, no Reino da graça. Vale a pena experimentar este tipo de biografia.

Do velho mendigo do vale estreito, Glenio.

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Conservando o meu nome e não negando a minha fé… 1

Ao anjo da igreja em Pérgamo escreve: Estas coisas diz aquele que tem a espada afiada de dois gumes: Apocalipse 2:12.

Esta é a terceira carta às igrejas da Ásia Menor, hoje, Turquia. Provavelmente, Pérgamo seja o terceiro período da história eclesiástica. Estamos examinando estas igrejas, além de suas características locais, levando em conta uma interpretação da filosofia histórica. Acreditamos que cada igreja do Apocalipses represente uma época determinada da história universal da igreja.

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Pérgamo quer dizer “torre alta” ou “inteiramente unido”, significando, neste caso, tal como se fosse casamento. De qualquer maneira, há aqui os dois sentidos correndo com sutileza por entre as linhas do texto. O sinal de elevação que se percebe no trono de Satanás e, o conceito da união de casamento, pela doutrina de Balaão, que vamos ver no decorrer do estudo.

Conheço o lugar em que habitas, onde está o trono de Satanás, e que conservas o meu nome e não negaste a minha fé, ainda nos dias de Antipas, minha testemunha, meu fiel, o qual foi morto entre vós, onde Satanás habita. Apocalipse 2:13. Será o humanismo uma pista para alturas? Satanás é o alpinista mais perspicaz do universo. O Evereste é fichinha para ele.

Em Pérgamo, na Grécia antiga, atual Bergama, na Turquia, havia um altar de mármore; uma magnífica estrutura dedicada a Zeus, a principal figura do panteão, que foi construída no século II a.C, e que, hoje, se encontra restaurada no Museu Pergamon em Berlim, na Alemanha. Havia também uma biblioteca que rivalizava-se com a de Alexandria, no Egito.

Essa biblioteca foi um dos principais acervos da ciência no mundo antigo. E por causa de sua projeção bem como da rivalidade com a de Alexandria, o Egito deixou de exportar papiro para a Grécia. Diante da crise, sem ter onde escrever seus livros, foi nesta cidade que começou-se a usar couro de cabra e de ovelha em lugar do papiro, daí o nome pergaminho.

Além do altar de Zeus e da biblioteca, havia um templo imponente a Esculápio, o deus curador da medicina, que tem como símbolo a serpente e ainda o primeiro templo da Grécia antiga dedicado a um César, neste caso, César Augusto, o modelo da governabilidade da ordem romana.

O promontório onde estava construída a cidade exibia os traços de exaltação, tanto em seus altares aos deuses pagãos, como no culto à pessoa do Imperador. A ciência e a magia da serpente, ali adoradas, apontavam para o escorregão do Éden. O zumbido de Zeus, o sibilo da Serpente, a influência da biblioteca e o culto altivo ao Kaiser são indícios claros do trono de Satanás em Pérgamo.

A proposta da serpente, no Jardim, foi tornar o ser humano como Deus, levando-o a revel por meio do cardápio proibido. Usando o conhecimento do bem e do mal e promovendo o culto à personalidade, assistimos ao espetáculo mais trágico do governo luciferiano no seio de uma humanidade sedenta por glorificação, mérito e pódio. Todos os elementos da queda se fazem bem presentes nesse endereço na terra dos pergaminhos marcados pela vaidade.

Foi nesse cenário sinuoso, encima do rastro suntuoso da cobra, que essa igreja manteve-se firme à sua identidade em Cristo. Diante do trono de Satanás, Jesus diz à liderança dessa igreja, mesmo sob o perigo dos altares: conservas o meu nome e não negaste a minha fé. Vemos a igreja de Pérgamo como uma cristã autêntica, identificada pelo nome do Cristo, subsistindo pela  em Cristo, dada pelo próprio Cristo. Veja: não negaste a minha fé.

Temos que entender: a fé não é um talento natural. Ninguém nasce portando fé quando vem a este mundo. Todos nós somos incrédulos por descendência adâmica. Se alguém estiver crendo, temos que admitir que houve um milagre nesta pessoa. A fé é um dom de Deus e nunca um predicado do velho Adão. Se a fé fosse nossa, a salvação jamais seria pela graça somente, uma vez que a nossa fé daria a sua contrapartida, sujeita à vanglória.

Antipas, a testemunha fiel, foi um exemplo de fé e coragem, enfrentando o modelo altivo do humanismo soberbo, a ponto de perder a sua vida no ninho da serpente. O martírio deste cristão revela uma postura firme de oposição ao culto voltado ao personalismo, tão em voga na época, como nos tempos de Laodicéia, ou seja, na era da pós-modernidade.

Satanás se nutre da poeira em redemoinho, isto é, do pó elevado às alturas. Explicando: se a Serpente só come pó, então esse pó que lhe dá energia é o desejo da auto-latria do ser humano em exaltação aos píncaros da glória; é a divinização da criatura que se vê na dimensão do Criador. Isto é o que podemos descrever como sendo o trono de Satanás no coração da raça humana.

O extermínio de Antipas é o primeiro registro de um cristão asiático martirizado pela fé e um grão de trigo que tem rendido muitos frutos. Pouco sabemos sobre ele, mas, muitos na história têm sido animados por seu exemplo. É preferível ser um dilacerado pelas feras e ferido pelas armas a se armar de honras pessoais no culto da vanglória humanista.

Essa igreja, porém, tinha alguns senões em seus bastidores: Tenho, todavia, contra ti algumas coisas, pois que tens aí os que sustentam a doutrina de Balaão, o qual ensinava a Balaque a armar ciladas diante dos filhos de Israel para comerem coisas sacrificadas aos ídolos e praticarem a prostituição. Apocalipse 2:14.

Se a presunção de excelência conduzia ao trono de Satanás, a doutrina de Balaão levava à idolatria e promovia a mistura entre o santo e o profano. Aqui temos a conspiração pelos laços do casamento misturado. Não podendo amaldiçoar a quem Deus já abençoou, o profeta inoculou a idéia idólatra da prostituição espiritual, através do casamento com as moabitas.

Sociedade entre os filhos Deus e os filhos do maligno nunca deu certo. Não há comunhão entre luz e trevas. O trigo e o joio não são a mesma coisa. Por mais semelhantes que sejam, o Cristianismo não flerta com o humanismo. Não há menor compatibilidade entre eles.

Satanás é o técnico dos humanistas. Jesus Cristo é a vida dos cristãos. O humanismo exalta o ser humano para fazê-lo auto-suficiente nos altares do mérito, enquanto o Cristianismo verdadeiro humilha Deus numa cruz, a fim de torná-lo solidário com a humanidade, na plena libertação do ensimesmamento da raça adâmica. Aqui vemos duas realidades absolutamente contrárias e irreconciliáveis.

Cristianismo e humanismo não jogam frescobol. Não dançam juntos e não fazem acordo. “No Cristianismo, a soberania do Deus triúno é o ponto de partida, e este Deus fala através de sua Palavra infalível. No humanismo, a soberania do homem e do Estado é o ponto de partida, e é a palavra dos homens da elite e da ciência que deve ser ouvida”.

O Cristianismo, ao valorizar o ser humano, precisa crucificar os membros do humanismo. Por outro lado, o humanismo ao deificar o homem, anula o valor da cruz de Cristo. Os dois jamais participam juntos do mesmo banquete. Não há qualquer confraternização entre eles.

Leon Tolstoi dizia com um bom e vivo sotaque de fé cristã: “O cristianismo, no seu verdadeiro significado, destrói o Estado.” E eu apenas concluo na minha total insignificância: o humanismo, em sua loucura e em sua paixão desenfreada, destrona e dispensa a Trindade de seus projetos.

Segundo Judas, provavelmente o irmão do Senhor, este processo humanista tem três mentores principais de trágicas consequências, mas… Ai deles! Porque prosseguiram pelo caminho de Caim, e, movidos de ganância, se precipitaram no erro de Balaão, e pereceram na revolta de Corá. Judas 1:11. A perseguição, o erro por ganância e a revolta. (Caím, Balaão e Corá).

Além da mistura encontramos ainda o mesmo balaio de gatos que apareceu no primeiro período da história da igreja, em Éfeso. Outrossim, também tu tens os que da mesma forma sustentam a doutrina dos nicolaítas. Apocalipse 2:15.

Talvez aqui em Pérgamo, nesse casamento infeliz do humanismo com esse cristianismo imaturo, tenha sido o local onde os enfezados nicolaítas ganharam, ainda mais, o gás para se desenvolverem como o cancro do clericalismo asfixiante dessa religiosidade humanista.

Os nicolaítas são os controladores do povo. Nunca foram lavadores de pés, como Jesus, antes, são dominadores do rebanho e caçadores de tronos. Vivem por aí tosando a lã das ovelhas; bebendo o leite dos cordeiros; comendo a carne e a gordura das cevadas, mas nunca curam as feridas; foi assim que o profeta Ezequiel os descreveu. É um grupo mui antigo, mas continua vivo e ativo nos dias atuais.

Essa igreja representa um período confuso da história, que começa com as atrapalhadas clássicas do imperador Constantino, ano 313, e vai até ao surgimento do catolicismo em seu modelo romano, com o Papa Leão I (Magno) – de 440 a 461. Nessa época assistimos ao casamento misto entre o babilonismo e a “fé” cristã conspurcada pelos altares idólatras com imagens e imagináveis glorificações.

Agora chegamos, nesta carta, ao convite firme da mudança de mentalidade e a uma ameaça parecida com a do anjo, no episódio de Balaão: Portanto, arrepende-te; e, se não, venho a ti sem demora e contra eles pelejarei com a espada da minha boca. Apocalipse 2:16. Tanto os humanistas camuflados de santos como os controladores profissionais vestidos de mantos sagrados precisam emendar-se de coração, sentindo pesar pelos seus pecados no seio da igreja.

Jesus exorta ao arrependimento, mostrando sua disposição de extirpar, com a espada afiada que sai da sua boca, a presunção dos idólatras; a arrogância dos adoradores no culto ao personalismo; a trama da turma que mistura o sagrado com o secular; além dos dominadores sufocantes do seu rebanho. O assunto é bem sério e o caráter é urgente.

Quem tiver juízo e também ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: Ao vencedor, dar-lhe-ei do maná escondido, bem como lhe darei uma pedrinha branca, e sobre essa pedrinha escrito um nome novo, o qual ninguém conhece, exceto aquele que o recebe. Apocalipse 2:17. Aqui não vemos uma sociedade secreta, mas um segredo revelado.

Sem a eleição do Pai não há vivificação pelo Filho; sem a vivificação do Filho não há a conversão pelo Espírito; sem a conversão por meio do Espírito não há o banquete para o insurgente na casa do Amor incondicional da Trindade.

Fica claro que o maná que satisfaz a fome da alma ávida de sentido, bem como o registro de nascimento no cartório do céu, dando identidade à nova criatura, só serão viáveis àqueles que, mediante a graça plena, os receberam por decisão moral de um ser responsável, convencido pelo Espírito Santo.

O período de Pérgamo foi a época marcante de semeadura da confusão lenta e sutil rumo à fortaleza de Anu, sob os auspícios tenebrosos da filosofia babilônica. Foi o casamento misto da igreja com o humanismo aspirando aos altares da idolatria, embora, nessa igreja altiva, houvesse quem se mantivesse firme ao nome de Cristo e não negasse a fé dada por Cristo.

Esse tempo cruel do culto à personalidade e do governo da casta meritocrata do clericalismo, além de ser uma era imponente de prostituição eclesiástica, foi a maior tragédia na história da igreja. Mas, graças à Trindade, mesmo nesse período ensombrado, houve suficiente graça, como sempre, para promover a substituição da vida adâmica pela vida de Cristo. Glória ao Soberano Senhor. Aleluia. Amém.

O velho mendigo, Glenio.

Feridas que nunca saram

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Cura-me, SENHOR, e serei curado, salva-me, e serei salvo; porque tu és o meu louvor. Jeremias 17:14.

Do ponto de vista de Deus, quem vem primeiro no processo da salvação: o arrependimento ou o perdão? Esta é uma questão fundamental que tem, pelo menos, duas respostas correndo pelos corredores da investigação teológica.

Os estudiosos, de tendência humanista, acham que o perdão é fruto do arrependimento. Você precisa se arrepender primeiro, para que seja perdoado depois.

Neste caso, eles fazem do arrependimento uma espécie de penitência ou, melhor dizendo, uma moeda de troca. Se você fizer a sua parte, então Deus fará a dele. Você será perdoado, desde que se arrependa do seu pecado antes da concessão do perdão.

Esta é uma corrente muito apreciada pela meritocracia humana. As pessoas ‘nobres’ se veem participantes e diretamente responsáveis pelo perdão, com uma parcela notável de contrição pessoal, valorizando a consternação como se fosse sua contrapartida no negócio que envolve a salvação dos seus pecados.

Por outro lado, para os investigadores bíblicos que têm a graça como o pressuposto básico e essencial para a crença cristã, o arrependimento é consequência do perdão. Nós nos arrependemos porque fomos perdoados graciosamente por Deus.

Segundo esta turma graciosa, é a bondade de Deus que nos concede o arrependimento. Ou desprezas a riqueza da sua bondade, e tolerância, e longanimidade, ignorando que a bondade de Deus é que te conduz ao arrependimento? Romanos 2:4.

Estes crentes no evangelho da graça plena percebem que o perdão é uma ação graciosa e incondicional de Deus, que antecede todas as reações espirituais humanas, e acaba, no final das contas, constrangendo o pecador a se arrepender por pura gratidão. O perdão gracioso gera sempre um arrependimento grato.

Como disse Alice Clay, “nada neste mundo vil e em ruínas ostenta a suave marca do Filho de Deus tanto quanto o perdão”. Foi nesse juízo que Alexandre Pope concluiu: “errar é humano – perdoar é divino”; logo, a anistia libera a culpa e gera arrependimento.

Ora, se não mereço e sou absolvido da culpa pelo sacrifício de Cristo em meu favor, então, só tenho que considerar este amor furioso e apaixonado como a causa capaz de me convencer da minha rebeldia, concedendo-me o arrependimento, graciosamente.

Esta posição me cativa ao extremo, pois vejo sempre em minha vida uma incapacidade total de corresponder ao favor imerecido. Por falar nisso, quero ressaltar aqui e agora: favor merecido me cheira a comércio, negociata, troca ou até mesmo, a favorecimento movido por admiração. Há, neste caso, algumas vantagens rolando pela esteira.

Se a obra de Deus for realmente pela graça plena, como creio que é, então, o perdão antecederá, obrigatoriamente, ao arrependimento. Sendo assim, somos perdoados imerecidamente e nos arrependemos do pecado por misericórdia e graça de Deus.

Portanto, se fomos perdoados graciosamente pela graça do Pai, temos também neste formato gracioso o modelo existencial do nosso perdão. “Quem de graça foi perdoado, pela mesma graça perdoa”. No reino espiritual é comum a genética do Pai se manifestar essencialmente na conduta do filho.

Aliás, podemos dizer, espiritualmente falando: “tal pai, tal filho”. Ou; os que não perdoam são filhos do Diabo, que, como cobra, sempre cobra e de contínuo se vinga. Enquanto isso, os filhos de Abba estão permanentemente dispostos a perdoar pela operação eficaz do Espírito Santo, tal como o seu Pai.

Todos os que foram perdoados pela graça, foram ao mesmo tempo, transformados em instrumentos vivos de perdão. Suportai- vos uns aos outros, perdoai- vos mutuamente, caso alguém tenha motivo de queixa contra outrem. Assim como o Senhor vos perdoou, assim também perdoai vós. Colossenses 3:13.

Ninguém vive neste mundo sem trombadas, contusões e feridas; por outro lado, nenhum cristão verdadeiro permanece com a ferida sangrando. Não podemos evitar as lesões, embora possamos, pela graça do nosso Pai, perdoar os agressores.

“Não é possível haver saúde mental e espiritual sem que haja perdão verdadeiro e total”. Diante desta frase, alguém me perguntou: o perdão implica no convívio com o agressor? Não, necessariamente. O perdão implica, sim, na absolvição do agressor, para que o próprio agredido não se torne uma ferida que nunca sare.

Mas isto, não significa uma convivência obrigatória com aquela pessoa que o feriu. Não há compulsão para quem se tornou livre pelo amor incondicional de Deus.

Perdoar é um imperativo da salvação e uma expressão categórica do amor liberto de regras, que nos salvaguarda de qualquer conduta determinada pelo dever. Uma vez libertos da tirania do ego, pela nossa morte e ressurreição com Cristo, ganhamos a condição de vivermos fora de comportamentos predeterminados e esperados por legalistas de plantão, a fim de manifestarmos a vida de Cristo, como o padrão de nosso viver.

Aquele que perdoa, motivado pela vida de Cristo em seu ser, pode conviver com o seu agressor, se isto for para a glória do Pai; bem como, viver distante, longe, fora do seu relacionamento, se também for para a mesma glória do Pai.

A questão básica agora, não é o nosso bem estar em si mesmo, mas a glória daquele que nos libertou de qualquer camisa de força. A norma que conduz a conduta cristã sempre será: Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus. 1 Coríntios 10:31.

O pecado nos destituiu da glória de Deus, porém a salvação nos converteu para o centro desta glória Divina. Nós não vivemos mais para a nossa própria glória, uma vez que fomos regenerados para glorificar Aquele que nos aceitou integralmente pela sua graça.

Nenhum cristão é compelido a perdoar. Não há perdão a fórceps e ninguém é forçado a indultar. Na verdade, todo cristão foi gerado pelo Pai, para perdoar como o Pai. Se eu não perdoar de fato, primeiramente, estou assegurando que não sou filho de Deus; depois, me torno um prisioneiro de profunda amargura, e as minhas feridas nunca saram.

Alguns dizem que já perdoaram, mas não conseguem esquecer. Quero apenas lembrar a estes que assim pensam: esquecer como ausência de memória, talvez só por Alzheimer. Podemos rememorar os fatos, o que não podemos é lembrá-los com azedume. Precisamos, antes de tudo, ser desintoxicados da reminiscência amargurada.

O problema real não se encontra na lembrança em si mesma, mas na lambança fermentada pelos sentimentos purulentos da infecção do individualismo. O ego ferido costuma se transformar numa pústula segregando o pus da arrogância fétida, que contamina todos que estiverem por perto. A alma dolorida é malcheirosa; supura e dá asco.

Sem o perdão custeado pela graça de Cristo de modo irrestrito e unilateral, as feridas nunca saram e o seu contágio pela baba que escorre da boca que geme, acaba infectando a família, os conhecidos e até os que se propunham a ser amigos, que aos poucos, vão saindo de fininho para não ficarem contaminados e aleijados.

O perdão é imprescindível para a boa saúde. Conversei com um amigo, alcançado agora pela graça depois de uma traição familiar, que me contou: “a pior coisa que fiz foi falar mal da minha ex-esposa após a nossa separação sofrida”. Enquanto ele mantinha a dor da infidelidade como álibi do seu vitimismo, desabafava a peçonha da amargura e se contorcia em desgosto na tentativa de expiar a sua vingança.

Quando, pela graça de Deus, ele pode liberar o perdão, as coisas mudaram. Vejo agora na sua vida um sopro de amor que só pode vir do trono do Pai. A pessoa que não perdoa vive, aqui, num inferno, infernizando os outros e sem esperança de alcançar o céu.

Só o perdão pode sarar as feridas abertas. Apenas o perdão total pode conceder o verdadeiro arrependimento. Então, alguém me pergunta se Deus perdoou a todos em Cristo. – Sim, com certeza, o perdão de Deus é ecumênico. Ela continua a indagar: por que, pois, as pessoas que foram perdoadas, não se arrependem todas?

Esta é uma tese teológica que também traz, pelo menos, duas respostas modelares. Alguns dizem que é uma questão da eleição divina. Se a pessoa é eleita por Deus, então ela se arrependerá. Outros sustentam que isto depende só da vontade do sujeito.

Acredito que há um mistério no assunto que envolve as duas partes. Não creio na eleição fatalista que escolhe alguém para a perdição, embora creia na eleição em Cristo para a salvação, que implica na decisão responsável daquele que foi vivificado pelo poder da pregação da Palavra de Cristo. Urge um milagre de vivificação antes da conversão.

O mysterium fidei ou o enigma da fé ainda continua sem um esclarecimento por se tratar de um assunto não revelado: As coisas encobertas pertencem ao SENHOR, nosso Deus, porém as reveladas nos pertencem, a nós e a nossos filhos, para sempre, para que cumpramos todas as palavras desta lei. Deuteronômio 29:29 .

Aliás, o que se sabe de verdade é que um perdoado, que não se considera arrogantemente como se fosse Deus, arrepende-se; e, arrependido de fato, perdoa e fica curado.

Glênio.