espírito da cruz 24 – eu não quero Deus!

O espírito da cruz antecede ao fato histórico do Calvário. Antes da crucificação e morte de Cristo Jesus, Ele já vivia no espírito, como crucificado, pois vivia a renúncia de si mesmo, ou na abdicação de Sua própria vontade. Jesus dependia da Trindade.

Aliás, o princípio que governa a Trindade é a unidade. Mas, como três pessoas podem ser um só Deus? Temos que admitir, por necessidade lógica, que essas pessoas tiveram que abnegar as suas próprias vontades para terem uma única Vontade, e isto, só será possível, se o princípio da cruz estiver em vigor. É a declinação de si mesmo.

A vontade é o centro da personalidade e a sua força fundamental. Mas a minha vontade é, também, a causa das minhas lutas. Como conciliar a minha má vontade com a perfeita vontade de Deus, para que eu possa fazer de boa vontade a Sua vontade? Eis, a grande luta de qualquer pessoa que queira viver de acordo com a vontade Divina.

Foi J. Denham Smith quem declarou: O pecador, em sua natureza pecaminosa, nunca poderá gozar de uma vontade que concorde com Deus. A nossa vontade egoísta e insatisfeita, quando não é realizada, só se sente bem, se for soberana. Caso contrário, ela se rebela numa conspiração do inconformismo que se retrata na murmuração e na crítica.

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A vontade que queira a vontade de Deus acima do seu próprio querer, é de fato o maior milagre que pode acontecer na vida de um ser humano. Ninguém quer a Deus por decisão pessoal. Ninguém o quer porque quer. Com certeza esse querer foi conquistado e convencido a querer de boa vontade, uma vez que, querer por obrigação, de má vontade, é uma total contradição do que se compreende o que é a livre vontade.

Sabemos que a vontade da raça caída não é livre. Todos nós nascemos com a nossa vontade escrava do pecado. Como pois, um escravo viciado em seu próprio querer, pode querer de boa vontade, um querer que contraria esse seu querer egoísta?

Só um milagre. Foi João Calvino quem disse: querer é humano; querer o que é mau é próprio da natureza decaída, mas querer o que é bom é próprio da graça. Não há a menor possibilidade do meu querer vaidoso querer o que Deus quer, se a graça não fizer esse convencimento miraculoso. Só lembrando: querer por obrigação é subserviência.

Quando oro: seja feita a Tua vontade, assim na terra como no céu, tenho que admitir, que a minha vontade arrogante foi convencida graciosamente a querer voluntária e livremente a vontade de Deus como sendo a minha vontade. Isso é milagre da graça.

Olá, Mendigos! a vontade é o fator decisivo em tudo o que fazemos. Em todas as esferas da vida, ela estabelece alternativas. Mas, a vontade está viciada e dopada dela mesma. Como essa vontade drogada de si, pode querer de boa vontade fazer livremente a vontade de Deus? Só o milagre da cruz.

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.

A Grande Ausência: onde está Deus no sofrimento?

Pode Deus ser onipotente e benevolente se Ele permite coisas terríveis? Como pode um cristão manter sua fé diante da grande ausência de Deus?

Onze anos após o trágico ato terrorista em 11 de setembro de 2001 o matemático e professor da Universidade de Oxford, John Lennox, trabalha com a famosa questão do filósofo grego Epicuro diante da Universidade de Columbia, Nova Iorque. Diferente das abordagens convencionais para o problema, Lennox foca sua apresentação na parte emocional do problema, pouco lembrada pelos pensadores desde o apogeu da Razão no século XVII.

 

Tradução e Legendas: Ministério de Comunicação da Primeira Igreja Batista em Londrina.

Tradução e Reprodução autorizada por: The Veritas Forum.

feridas que nunca saram (parte 2)

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Perdoar é um imperativo da salvação e uma expressão categórica do amor liberto de regras, que nos salvaguarda de qualquer conduta determinada pelo dever. Uma vez libertos da tirania do ego, pela nossa morte e ressurreição com Cristo, ganhamos a condição de vivermos fora de comportamentos predeterminados e esperados por legalistas de plantão, a fim de manifestarmos a vida de Cristo, como o padrão de nosso viver.

Aquele que perdoa, motivado pela vida de Cristo em seu ser, pode conviver com o seu agressor, se isto for para a glória do Pai; bem como, viver distante, longe, fora do seu relacionamento, se também for para a mesma glória do Pai.

A questão básica agora, não é o nosso bem estar em si mesmo, mas a glória daquele que nos libertou de qualquer camisa de força. A norma que conduz a conduta cristã sempre será:

Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus.

1 Coríntios 10:31.

O pecado nos destituiu da glória de Deus, porém a salvação nos converteu para o centro desta glória Divina. Nós não vivemos mais para a nossa própria glória, uma vez que fomos regenerados para glorificar Aquele que nos aceitou integralmente pela sua graça.

Nenhum cristão é compelido a perdoar. Não há perdão a fórceps e ninguém é forçado a indultar. Na verdade, todo cristão foi gerado pelo Pai, para perdoar como o Pai. Se eu não perdoar de fato, primeiramente, estou assegurando que não sou filho de Deus; depois, me torno um prisioneiro de profunda amargura, e as minhas feridas nunca saram.

Alguns dizem que já perdoaram, mas não conseguem esquecer. Quero apenas lembrar a estes que assim pensam: esquecer como ausência de memória, talvez só por Alzheimer. Podemos rememorar os fatos, o que não podemos é lembrá-los com azedume. Precisamos, antes de tudo, ser desintoxicados da reminiscência amargurada.

O problema real não se encontra na lembrança em si mesma, mas na lambança fermentada pelos sentimentos purulentos da infecção do individualismo. O ego ferido costuma se transformar numa pústula segregando o pus da arrogância fétida, que contamina todos que estiverem por perto. A alma dolorida é malcheirosa; supura e dá asco.

Sem o perdão custeado pela graça de Cristo de modo irrestrito e unilateral, as feridas nunca saram e o seu contágio pela baba que escorre da boca que geme, acaba infectando a família, os conhecidos e até os que se propunham a ser amigos, que aos poucos, vão saindo de fininho para não ficarem contaminados e aleijados.

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O perdão é imprescindível para a boa saúde. Conversei com um amigo, alcançado agora pela graça depois de uma traição familiar, que me contou: “a pior coisa que fiz foi falar mal da minha ex-esposa após a nossa separação sofrida”. Enquanto ele mantinha a dor da infidelidade como álibi do seu vitimismo, desabafava a peçonha da amargura e se contorcia em desgosto na tentativa de expiar a sua vingança.

Só o perdão pode sarar as feridas abertas. Apenas o perdão total pode conceder o verdadeiro arrependimento. Então, alguém me pergunta se Deus perdoou a todos em Cristo. – Sim, com certeza, o perdão de Deus é ecumênico. Ela continua a indagar: por que, pois, as pessoas que foram perdoadas, não se arrependem todas?Quando, pela graça de Deus, ele pode liberar o perdão, as coisas mudaram. Vejo agora na sua vida um sopro de amor que só pode vir do trono do Pai. A pessoa que não perdoa vive, aqui, num inferno, infernizando os outros e sem esperança de alcançar o céu.

Esta é uma tese teológica que também traz, pelo menos, duas respostas modelares. Alguns dizem que é uma questão da eleição divina. Se a pessoa é eleita por Deus, então ela se arrependerá. Outros sustentam que isto depende só da vontade do sujeito.

Acredito que há um mistério no assunto que envolve as duas partes. Não creio na eleição fatalista que escolhe alguém para a perdição, embora creia na eleição em Cristo para a salvação, que implica na decisão responsável daquele que foi vivificado pelo poder da pregação da Palavra de Cristo. Urge um milagre de vivificação antes da conversão.

mysterium fidei ou o enigma da fé ainda continua sem um esclarecimento por se tratar de um assunto não revelado: As coisas encobertas pertencem ao SENHOR, nosso Deus, porém as reveladas nos pertencem, a nós e a nossos filhos, para sempre, para que cumpramos todas as palavras desta lei. Deuteronômio 29:29 .

Aliás, o que se sabe de verdade é que um perdoado, que não se considera arrogantemente como se fosse Deus, arrepende-se; e, arrependido de fato, perdoa e fica curado. Amém.

 O velho mendigo do vale estreito, Glenio.

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inimigos da cruz de Cristo I

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Paulo, o apóstolo censurado pelos estigmas da cruz, censura aqui, afirmando com lágrimas, que há muita gente adversária da cruz de Cristo. Este antagonismo não é ranhetice de um povo estranho ou de uma turma forasteira. Trata-se da aversão visceral de uma tropa de elite da própria igreja. É um pessoal disfarçado que anda entre os filhos de Deus.

Os opositores da cruz de Cristo não são tipos exóticos, isto é, estrangeiros. São endógenos, forjados nos intestinos da comunidade. É gente da própria igreja e não do mundo. É um grupo que tem a linguagem correta, mas um espírito de hostilidade.

Paulo se refere a eles como muitos. Não se iludam: o pelotão é grande. A tática do “velho capitão” é infiltrar o maior número possível de agentes secretos na igreja de Cristo. Estes têm a farda de anjos, mas as entranhas são de demônios. São crentes na passarela e hereges nos bastidores. O discurso pode ser perfeito, mas o concurso é puro despeito.

O apóstolo chora diante deste quadro triste. Em sua biografia, nós o vemos cantar louvores debaixo da taca; mas ele não suporta a dor causada pelos adversários da cruz de Cristo. A farsa do humanismo é um lamento inconsolável para quem sabe discernir o valor da salvação eterna, patrocinada por Cristo crucificado.

Na lamentação do apóstolo, nos percebemos algumas particularidades destes antagonistas mascarados. Ele destaca alguns traços para nos ajudar a identificar os opositores da cruz de Cristo no seio da igreja. Vejamos como Paulo os percebe:

O destino deles é a perdição, o deus deles é o ventre,

e a glória deles está na sua infâmia,

visto que só se preocupam com as coisas terrenas.

Filipenses 3:19.

Primeiro: O destino deles é a perdição. A palavra destino, no grego, é telos, que pode ser traduzida também como: propósito. O intento dos inimigos da cruz de Cristo é a não salvação dos perdidos. Apesar de estarem na igreja, eles não são salvos e, sendo assim, o seu encargo principal é impedir aqueles que seriam salvos, de serem salvos. Eles procuram ocultar a mensagem da cruz, para que os perdidos não sejam alcançados pela graça.

Nem sempre é uma ocultação teológica. Eles até pregam a mensagem, mas o espírito como anunciam não é de um crucificado: são invejosos e disputam um lugar no espaço como se precisasse de reconhecimento dos irmãos.

Por outro lado, se Deus tivesse outro meio para a salvação dos pecadores fora de Cristo crucificado e não tenha usado este método, então, temos que admitir que Deus seja mau, muito mau, porque submeteu o seu Filho a um sofrimento atroz, tendo ele outra escolha. Porém, se esta é a única opção, não há como não apresentá-la aos perdidos, já que esta é a alternativa sine qua non para a salvação dos pecadores.

Como os inimigos da cruz de Cristo são o joio no meio do trigo; ou os lobos com peles de cordeiros; eles não somente fingem que são salvos, como também atrapalham a salvação dos perdidos. A finalidade deles é a perdição dos pecadores. Não pregam o evangelho em sua essência, pois o que os motiva é a condenação eterna dos incrédulos.

Jesus definiu a turma destes ímpios com esta censura severa: Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque fechais o reino dos céus diante dos homens; pois vós não entrais, nem deixais entrar os que estão entrando! Mateus 23:13.

Lamento dizer: quem não evangeliza ou promove a evangelização dos perdidos, por meio de Cristo crucificado, é um inimigo figadal da cruz de Cristo.

Segundo: o deus deles é o ventre. Aqui temos a base de sua adoração. Os contendedores da cruz de Cristo são viscerotômicos, isto é, vivem da veneração de suas entranhas. São pessoas devotas aos seus apetites, endeusando as suas ambições carnais.

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O culto dos adversários do evangelho da graça é movido aos instintos intestinais e aos desejos da carne. Eles vivem de bajulação com o objetivo de satisfazer a sua fome de reconhecimento. A ênfase do louvor neste preito encontra-se na personalidade pública e nunca no altar privativo diante do Senhor. Paulo diz que eles cultuam a koilia, isto é, a concavidade vazia de um estômago faminto por fama, mas que come qualquer porcaria.

Eles não sabem discernir o Pão do céu do pão dormido; o pão duro do humanismo. Não sabem distinguir o Maná de Deus do menu da religião; a ceia do Senhor, dos brioches da revolução francesa; o Pão nosso de cada dia, que é Cristo, do sustento diário.

A propina também faz parte deste culto idólatra do deus guloso. Desde Esaú, que vendeu a sua primogenitura por um prato de comida, até os esfomeados pós-modernistas, que negociam a ênfase da cruz por uma posição no pódio religioso, a tática é a mesma. É a profanação do sagrado e a secularização do santo.

O “deus ventre” é ainda ventríloquo, pois a sua boca fala inspirando a marionete da hipocrisia religiosa. Ao sonegar a pregação da cruz de Cristo, o divo das feições falsificadas promove a conduta humanista como se fosse o verdadeiro estilo de vida cristã. Essa é a tática mais perigosa dos inimigos da cruz de Cristo: a proclamação do humanitarismo como se fosse o cristianismo em sua essência.

(continua quarta-feira)

Velho mendigo do vale estreito, Glenio.

o poder do Evangelho na prática I

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A vergonha cora uns e descora outros. Quem tem brio, diante do vexame, fica rubro, ou, quem sabe, vermelho por fora e irado por dentro. Quem não tem, deixa os tímidos pálidos, por isso, aquilo que nos envergonha é ridículo, por todos os lados.

A religião estimula o mérito ao máximo, enquanto desperta no íntimo a vergonha, quando se pisa na bola. Aquele que não alcança a nota de aprovação na escola do êxito, acaba sofrendo, envergonhado, por não poder desempenhar a contento. É triste e cansativo viver sob a cobrança de um modelo inatingível.

A vergonha também financia a hipocrisia pelos bastidores. As máscaras que usamos no dia a dia servem para esconder as cicatrizes da alma ou a nossa falta de aceitação. Usamos disfarces para não mostrar aquilo que nos desabona.

O evangelho não exige a performance do ego, uma vez que a única vida que vence é a de Cristo. Logo, esse modo do viver cristão se trata de uma vida substituída e nunca de uma existência desenvolvida a custo do esforço pessoal. Nada de mérito por aqui.

O evangelho é a boa notícia da nova Aliança. É o assunto da graça e o tema radical do sacrifício do Cordeiro de Deus, que promove a alforria e aceitação do pecador; tudo patrocinado pela morte e ressurreição de Cristo Jesus.

No evangelho não há espaço para a vergonha. O fracassado é aceito pelos méritos de Cristo e nunca pelo seu sucesso pessoal. O falido teve a sua conta paga de modo cabal, bem como o débito perdoado de uma vez para sempre. A sua dívida não só foi quitada, como a sua responsabilidade por pagá-la ficou sem efeito. No reino da graça não há prestações a pagar, nem Serviço de Proteção ao Crédito.

O evangelho aborda a libertação do devedor pecaminoso através da sua morte e a ressurreição juntamente com Cristo. Trata-se de uma obra de poder descomunal e fora de série, pois, mediante a graça, liberta o pecador da sua incredulidade, isto é: do pecado dos pecados. Assim, o bastardo e endividado se torna aceito como filho legítimo.

O apóstolo Paulo vê no evangelho o poder de Deus. Para ele esse poder se cristaliza na mensagem da cruz.

Certamente, a palavra da cruz é loucura para os que se perdem, mas para nós, que somos salvos, poder de Deus.

Coríntios 1:18.

A salvação do pecador incrédulo é mediante a fé, e esta, é um milagre da graça, por meio da vida e obra de Cristo Jesus. Ninguém nasce neste mundo portando um mínimo de fé. Ela nos é dada pelo ouvir da palavra de Cristo, e este, crucificado.

A maior concentração das ogivas celestiais na terra ou o arsenal das dinamites divinas encontra-se na obra da cruz. Nunca houve maior poder de Deus entre os homens do que o poder da renúncia de Cristo diante da encarnação e da morte.

Aquele que teve todo poder para criar o universo, e que tinha toda a capacidade na terra para resistir àqueles que o levaram à cruz, e não o fez, é porque estava investido de um poder muito maior do que a preservação de sua identidade.

Quem é onipotente e tem todo o poder para vencer os seus inimigos, bem mais fracos, e se deixa ser vencido por esses adversários, tem que ser movido por um poder maior do que todo o poder da criação e preservação de sua imagem divina.

O Deus Criador do mundo, quando se deixou ser crucificado pela criatura imunda e presunçosa, foi muito mais poderoso, ou, melhor dizendo, exerceu muito mais do seu poder na redenção do pecador, do que em seu processo criacionista do universo. O Onipotente passivo sobre a cruz é o máximo da revelação de Deus aos homens.

O poder da renúncia divina ou da submissão de Cristo diante da morte, sim, de uma morte vil e cruel como a da cruz, é muito superior a todo poder que ele exerceu no momento da criação do cosmos.

A obra de Cristo crucificado é extremamente gloriosa e mais extraordinária do que tudo o que se pode imaginar neste mundo. Nenhum poder pode ser maior do que aquele exercido por Deus ao ser humilhado para salvar o indigno pecador, acionado e determinado por um amor incondicional.

Foi por isso que o apóstolo Paulo considerou a obra da cruz como sendo o poder de Deus por excelência, embora os gregos, em sua sabedoria, a consideram uma loucura, e os judeus, em busca de sinais e espetáculos, a vejam como um escândalo.

(continua semana que vem…)

O velho mendigo do vale estreito, Glenio.

gotas de generosidade XVI

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São quase dois mil quilômetros de distância entre Londrina, PR, e Parnaguá, Sul do Piauí, onde temos um pedaço de terra, herança familiar. Viajamos boa parte desse trajeto pela Trasbrasiliana que vive entupida de carretas. Por ser um trecho perigoso e uma via longa, até ao destino, os nossos filhos pediram para pararmos de fazer esta viagem de carro.

Além da distância e do trânsito intenso, enfrentamos também o problema do combustível batizado. Neste País laico, mas de política sórdida da religião corrupta, até os fluídos são batizados. Por duas vezes ficamos no “prego” do diesel adulterado. O pior, em posto BR.

Maldito é o homem que confia no homem, brada o profeta Jeremias. Mas esse assunto é mais complicado do que uma leitura rápida pode nos mostrar. Essa maldição é mais do que confiar nos outros, pois ela aborda a autoconfiança. Eu não sou confiável.

– Como assim? Indaga o meritocrata. Nós estamos sujeitos a equívocos, erros, visão distorcida dos fatos. Isto, e muito mais, nos tornam fiascos da vida. Não é só o diesel da Petrobras que é adulterado. Eu também sou uma fraude quando pretendo demonstrar que sou o que não sou. Nada pode ser mais falso do que a aparência humana.

Uma das grandes rejeições da pessoa de Jesus é porque ele não julgava pela aparência. Vejam como o testavam:

E enviaram-lhe discípulos, juntamente com os herodianos, para dizer-lhe: Mestre, sabemos que és verdadeiro e que ensinas o caminho de Deus, de acordo com a verdade, sem te importares com quem quer que seja, porque não olhas a aparência dos homens.

Mateus 22:16.

Ainda bem que é assim a visão de Jesus. Mas, fariseus, saduceus e herodianos juntos, têm arapuca no pedaço.

Os fariseus são mestres da hipocrisia; saduceus, os maestros da anarquia; herodianos os magistrais petistas de então. Não falo dos ideólogos do PT, mas desta corja do poder que vive de aparência. Eles fingem que não se interessam por dinheiro público e que querem o bem do povo, mas ao assumir o poder, dilapidam o erário. São larápios velhos e velhacos.

Eu me arrepio com a ideia de ser apenas um ser batizado. Assim como há combustível adulterado, políticos ladrões, religiosos falsificados, também há crentes fajutos; e tudo só batizado. Fala de algo que não se vive. Por isso a generosidade vem para trabalhar com o coração e jamais com a fachada. Não existe escala que estabeleça os limites de quem é generoso, nem relatório que o descreva. É coisa do coração diante do amor de Deus.

A coisa é séria, mendiguinhos, e ninguém fica oculto diante do amor incondicional de Abba. Preferiria responder por minha mordomia medíocre perante um juiz severo; arranjaria alguns argumentos de defesa, mas tenho que prestar contas diante da generosidade da graça, e, neste caso, não há desculpas? Por que fui omisso com a abundância de que fui alvo?

De qualquer modo, no amor do Amado, do velho mendigo do vale estreito.

Glenio.

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provados pelo fogo I

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Amados, não se surpreendam com o fogo que surge entre vocês para os provar, como se algo estranho lhes estivesse acontecendo. 1Pedro 4:12 NVI.

A vida cristã não é um convescote, isto é, um piquenique em final de semana. Não se trata de uma colônia de férias, nem de uma viagem de turismo. Apesar da paz interior imensurável, fruto da justificação pela graça, a fé cristã aponta para uma jornada em meio a uma grande turbulência externa. Há tribulação e provas em todas as estradas.

A vocação de Cristo nos convoca para uma vivência de contradições. Temos paz, sim, mas vivemos em guerra, o tempo todo. Somos amados pelo nosso Pai, embora os inimigos de Cristo não nos deixem sossegar com o seu ódio velado ou em chamas.

Nem um cristão autêntico encontra-se isento das labaredas da perseguição. Aliás, uma das evidências da legitimidade da fé cristã é a fogueira, ora com brasas ardentes, ora inflamada pelo fogaréu desvairado das vaidades. E, nesse caso, o calor das emoções vaidosas é mais cruel do que a quentura do fogo, além do que, dura muito mais tempo e faz as suas vítimas padecerem lentamente chamuscadas pelo “pavio curto”.

A temporada das fogueiras abrasadoras na história da igreja foi uma época truculenta em que os filhos de Deus foram incinerados enquanto alumiavam como lamparinas nos pátios de execução. Foram incendiados como tochas vivas manifestando a luz radiante que habitava em seus corações inflamados de amor. Ainda hoje, em alguns lugares deste mundo tenebroso, temos cenas horrorosas como estas do inferno de Dante.

Sei que esta tortura é atroz. Contudo, há no meio da congregação do povo de Deus, uma turma desapiedada que costuma atear o fogo das paixões para azucrinar as entranhas da vida comunitária. Foi neste sentido que Pedro se referiu ao fogacho.

Mas esse braseiro tem uma finalidade muito especial: provar. Para uma pessoa ser aprovada na fé é preciso ser provada pelo fogo. A própria Palavra de Deus foi também purificada pelo fogo.

As palavras do SENHOR são palavras puras, prata refinada em cadinho de barro, depurada sete vezes. Salmos 12:6.

A fé é um dom gracioso desta Palavra purificada pelo fogo. Quando recebemos, pela graça, a Palavra de Deus, a fé vem junto. O Verbo que se encarnou, acaba encarnando, através dos ouvidos que O ouvem, a vida que nasceu da tumba. E, consequentemente, a fé surge como expressão real, mas subjetiva, dessa obra plena do Deus-homem. Ela é uma evidência implícita da vida de Cristo em nosso novo ser.

Ninguém nasce nesse mundo portando fé no seu currículo. A fé é uma dádiva divina, nunca, jamais um atributo natural do velho Adão. Todavia, ela precisa ser testada, uma vez recebida, para que possamos saber se, de fato, essa é a fidis Dei ou é a feérica abusiva produzida pela fidúcia de um fedelho arrogante qualquer que se propõe a ser fecundo neste assunto da invisibilidade fenomenológica.

Isto quer dizer que o terreno da fé sai dos limites tridimensionais do campo material e vai para o nível do invisível. A fé é uma visão que nunca pode ser vista pelo cego que anda na escuridão da meia noite contemplando a aurora que ainda não surgiu.

Segundo as Escrituras, podemos defini-la assim: Ora, a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não veem. Hebreus 11:1. Ela é uma esperança, logo, é imperceptível do ponto de vista sensório, pois esperança constatada não pode ser esperada. É uma visão cega ou uma certeza invisível. Contudo, precisa ser provada e o fogo ardente é um laboratório de comprovação.

A confiança requer testes de autenticidade. A pessoa dizer que crê em Cristo é uma declaração muito importante, todavia, deve ser confirmada. Nem todo aquele que diz ser Cristo o seu Salvador é, de fato, verdadeiro crente. Se não passar primeiro pelo controle de qualidade, fica difícil afirmar que se trata de um filho de Abba.

O escritor de Provérbios faz uma analogia muito interessante: O crisol prova a prata, e o forno, o ouro; mas aos corações prova o SENHOR. Provérbios 17:3. Será que isso aqui tem alguma relação com o fogo que surge no meio de nós para nos provar?

A têmpera do caráter cristão é forjada nas altas temperaturas. As fogueiras das aflições são atiçadas pelo Acrisolador Divino a fim de promover a purificação de suas joias eternas. Quando estamos sendo depurados e reagimos com gemidos e lamúrias é prova incontestável de que ainda não passamos no teste de qualidade.

Para nos aprovar em sua comunhão permanente, o Pai providencia os meios necessários para que os acendedores de lareira aqueçam o ambiente ao máximo com as chamas ardentes das aflições, até que nós possamos confiar somente nEle como a última razão do nosso conforto e descanso espiritual.

O culto dos aprovados começa na fornalha super aquecida. Os três amigos de Daniel passaram no vestibular da adoração em meio as labaredas à sétima potência. Foi neste ambiente hostil que eles se perceberam confiantes nAquele que sempre saneia o nosso coração cheio de direitos e repleto de exigências pessoais.

Velho mendigo do vale, Glenio.

(continua sexta-feira)

gotas de generosidade XV

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Estou agora na varanda da casa de uma propriedade no sul do Piauí. Esta é uma época cruel de seca brava e o cinza toma conta da região verdosa de outra estação. A beleza outrora da temporada das chuvas some por encanto na secura das árvores. Quase tudo fica aparentemente sem vida. Aos olhos superficiais vive-se aqui num mundo morto.

Eu nasci neste rincão seco e isolado do Brasil, que nem sei se é Brasil e tão pouco Piauí, já que continua sempre esquecido dos políticos de todos os matizes. Embora, para mim, esse é o velho Paraíso perdido, uma lembrança simbólica do Éden.

Segundo a arqueóloga francesa radicada no Brasil, Niède Guidon, a primeira fogueira da história do homem se deu bem aqui no Piauí. Com este pano de fundo arqueológico sou tendencioso para denominá-lo de meu Paraíso, pois é assim que o vejo.

Um amigo que o visitou no auge do estio, me sussurrou com ironia: – como você pode denominar esse torrão morto de Paraíso?  Mal sabe ele dos milagres dos céus. Deus, o Todo-Poderoso, todo ano, esconde a beleza do sertão como o manto cinzento das matas secas. Isto não é um truque de mágico, é apenas uma habilidade soberana do Criador.

Quando vêm as primeiras águas, porém, o cenário muda repentinamente, e, de um dia pro outro, aquele panorama triste da morte se reveste com a verdura da ressurreição. É algo de beleza indescritível. A vida exuberante toma conta da natureza e o Paraíso oculto eclode em esplendor, gerando abundância no mapa.

O sertão sofrido é muito generoso.

A vida que nasce da morte é generosa. Todo cristão legítimo também é produto da tumba vazia e da vida abundante da ressurreição. Não há filhos de Deus em tons cinzas; eles são como o Fênix que ressurge das cinzas, recobertos da vida plena que vence a morte, por isso mesmo, são a espécie da generosidade. Filho de Deus mesquinho é improvável.

O sertão com certeza floresce depois das primeiras águas. Bem-aventurado o homem cuja força está em ti, em cujo coração se encontram os caminhos aplanados, o qual, passando pelo vale árido, faz dele um manancial; de bênçãos o cobre a primeira chuva. Salmos 84:5-6. O vale árido ou vale de Baca é o vale das lágrimas que regam as dores que vão às portas da aurora onde a esperança faz a sua morada cada manhã. A primeira chuva da ressurreição é a causa de uma vida plena de amor, esbanjando generosidade.

A geografia desta região árida é uma boa metáfora para a interpretação da vida cristã em sua realidade espiritual. Antes éramos secos e improdutivos, mas quando foi crucificado o nosso velho Adão com Cristo, ganhamos na madrugada do primeiro dia da nova semana da redenção a vida generosa capaz de fazer desses indigentes miseráveis, os mendigos mais generosos com o porte de Sua Alteza, no Reino da graça. Vale a pena experimentar este tipo de biografia.

Do velho mendigo do vale estreito, Glenio.

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retorno ao primeiro amor e às primeiras obras II

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Como pode a igreja de Éfeso abandonar o primeiro amor, se o seu amor veio do próprio Deus? Eis uma questão bastante sutil. Ao amar preferencialmente o corpo de Cristo, pode-se cair na ilusão de que se está amando extensiva e intensamente o próprio Cabeça do corpo, Cristo. Admitindo-se a unidade entre Cristo e a igreja, podemos tropeçar numa conclusão equivocada de um amor igualitário. Mas, cautela com a lógica.

É verdade que: ao amarmos a Cristo, acima de tudo e de todos, amamos também a Sua igreja com profundo amor. Mas, o contrário não é verdadeiro. Pois, quando amamos a Sua igreja, de modo preferencial, necessariamente, não quer dizer que amamos a Cristo acima de qualquer razão. Aqui é que reside o grande risco da confusão humanista.

É bem verdade que:

Se alguém disser: Amo a Deus, e odiar a seu irmão, é mentiroso; pois aquele que não ama a seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê. 1 João 4:20.

Parece a contradição da tese. Parece, mas o amor procedente de Deus é a prova concreta de que, se amarmos os irmãos, só os amamos com o Seu amor.

O perigo de nos acostumarmos com o sagrado é perdermos o valor incondicional do amor de Deus para conosco. Ele nos amou primeiro e eternamente. Mas agora o grande risco é nós ficarmos acostumados com o sagrado, que acabamos longe desse relacionamento pessoal e inseparável com o próprio Deus, que nos ama com amor eterno e infinito.

Supondo que ao amarmos preferencialmente os irmãos, estamos amando intensamente a Deus, podemos elaborar a heresia de que a salvação está na igreja, como aconteceu no passado, ou, como outros que sustentam agora na prática, o fato de que a comunhão da igreja acaba substituindo a relação amorosa e pessoal do filho com o seu Abba.

Como voltar à consciência desse amor na experiência dos filhos de Deus? A Bíblia mostra que Deus é a única fonte ou a causa de toda boa dádiva e Ele jamais ficou estressado e nunca mudou. Toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não pode existir variação ou sombra de mudança. Tiago 1:17.

Todo esse processo tem em Deus a razão, o meio e a finalidade. Sabemos que a vida cristã, do começo ao fim, é toda originada em Deus, promovida por Ele e vai, totalmente, para Ele. Foi assim que Paulo a definiu: Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém! Romanos 11:36.

(continuação…)

O homem natural encontra-se morto em delitos e pecados, sendo incapaz de crer, bem como, arrepender-se. Tudo o que é espiritual provem inteiramente de Deus. Portanto, o que Ele ordena, promove e processa. Logo, ao afirmar: Arrepende-te, e pratica as primeiras obras. Apocalipse 2:5, é porque Ele nos capacita e nos inclina para isso.

 

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Quando eu volto ao estágio do primeiro amor é porque fui reconduzido por Aquele que me ama loucamente e me quer no convívio dos seus afetos incondicionais. Não sou capaz de me voltar para Deus, sem que o próprio Deus queira-me atrair para a sua comunhão e, assim, me “sequestre” graciosamente para Si mesmo.

Somente o Deus Soberano, que me ama soberanamente, pode capturar o meu coração volúvel como uma biruta tonta e distraído com muitas coisas para esse relacionamento vivo e pessoal com Ele. O amor incondicional do Amado é a causa do meu amor por meu Amado, gerando o retorno ao primeiro amor e à prática das primeiras obras.

A vida cristã começa em Deus na eternidade, passa pelo tempo, na história, e continua por toda a eternidade centralizada na suficiência eficaz e eficiente do próprio Deus. Toda a salvação do ser humano vem dEle, passa por meio dEle e vai para Ele.

Nós precisamos entender que a Trindade é totalmente responsável por tudo o que diz respeito à nossa caminhada espiritual de eternidade a eternidade. No evangelho, a Trindade faz tudo pelo homem e faz o homem fazer tudo o que lhe cabe por meio dEla.

Como dizia o pegador e teólogo do séc. XVII, Jonathan Edwards: “Na graça eficaz nós não somos meramente passivos, nem ainda Deus faz uma parte e nós o resto. Mas é Deus quem faz tudo, e nós, também, fazemos tudo. Deus produz tudo em nós e nós agimos fazendo tudo que ele opera em nós e através de nós”.

Uma vez que o Espírito Santo afirma, pelo apóstolo Paulo:

porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade.

Filipenses 2:13,

então, Edwards acrescenta nesse processo da graça eficaz: “Deus é o único autor e fonte adequada; e nós somos somente os co-autores ou coadjuvantes desta fonte. Assim, nós somos em diferentes aspectos, totalmente passivos e totalmente ativos.”

Sendo assim, o retorno ao primeiro amor e às primeiras obras significa o estado de graça em que somos totalmente dependentes da suficiência Divina, e, por isso, inteiramente passivos; sendo, porém, ao mesmo tempo, completamente ativos, fazendo sempre aquilo que somos movidos e habilitados pelo poder soberano da Trindade em nossas vidas.

“De retorno ao primeiro amor e às primeiras obras” fala desse chamado eficaz aos filhos de Deus que se envolveram com o humanismo travestido de cristandade, para, finalmente, desembaraçá-los das suas teias insidiosas, fazendo-os dependentes, integralmente, da suficiente graça da Trindade Divina.

Aleluia! Amém.

Velho mendigo, Glenio.

Feridas que nunca saram

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Cura-me, SENHOR, e serei curado, salva-me, e serei salvo; porque tu és o meu louvor. Jeremias 17:14.

Do ponto de vista de Deus, quem vem primeiro no processo da salvação: o arrependimento ou o perdão? Esta é uma questão fundamental que tem, pelo menos, duas respostas correndo pelos corredores da investigação teológica.

Os estudiosos, de tendência humanista, acham que o perdão é fruto do arrependimento. Você precisa se arrepender primeiro, para que seja perdoado depois.

Neste caso, eles fazem do arrependimento uma espécie de penitência ou, melhor dizendo, uma moeda de troca. Se você fizer a sua parte, então Deus fará a dele. Você será perdoado, desde que se arrependa do seu pecado antes da concessão do perdão.

Esta é uma corrente muito apreciada pela meritocracia humana. As pessoas ‘nobres’ se veem participantes e diretamente responsáveis pelo perdão, com uma parcela notável de contrição pessoal, valorizando a consternação como se fosse sua contrapartida no negócio que envolve a salvação dos seus pecados.

Por outro lado, para os investigadores bíblicos que têm a graça como o pressuposto básico e essencial para a crença cristã, o arrependimento é consequência do perdão. Nós nos arrependemos porque fomos perdoados graciosamente por Deus.

Segundo esta turma graciosa, é a bondade de Deus que nos concede o arrependimento. Ou desprezas a riqueza da sua bondade, e tolerância, e longanimidade, ignorando que a bondade de Deus é que te conduz ao arrependimento? Romanos 2:4.

Estes crentes no evangelho da graça plena percebem que o perdão é uma ação graciosa e incondicional de Deus, que antecede todas as reações espirituais humanas, e acaba, no final das contas, constrangendo o pecador a se arrepender por pura gratidão. O perdão gracioso gera sempre um arrependimento grato.

Como disse Alice Clay, “nada neste mundo vil e em ruínas ostenta a suave marca do Filho de Deus tanto quanto o perdão”. Foi nesse juízo que Alexandre Pope concluiu: “errar é humano – perdoar é divino”; logo, a anistia libera a culpa e gera arrependimento.

Ora, se não mereço e sou absolvido da culpa pelo sacrifício de Cristo em meu favor, então, só tenho que considerar este amor furioso e apaixonado como a causa capaz de me convencer da minha rebeldia, concedendo-me o arrependimento, graciosamente.

Esta posição me cativa ao extremo, pois vejo sempre em minha vida uma incapacidade total de corresponder ao favor imerecido. Por falar nisso, quero ressaltar aqui e agora: favor merecido me cheira a comércio, negociata, troca ou até mesmo, a favorecimento movido por admiração. Há, neste caso, algumas vantagens rolando pela esteira.

Se a obra de Deus for realmente pela graça plena, como creio que é, então, o perdão antecederá, obrigatoriamente, ao arrependimento. Sendo assim, somos perdoados imerecidamente e nos arrependemos do pecado por misericórdia e graça de Deus.

Portanto, se fomos perdoados graciosamente pela graça do Pai, temos também neste formato gracioso o modelo existencial do nosso perdão. “Quem de graça foi perdoado, pela mesma graça perdoa”. No reino espiritual é comum a genética do Pai se manifestar essencialmente na conduta do filho.

Aliás, podemos dizer, espiritualmente falando: “tal pai, tal filho”. Ou; os que não perdoam são filhos do Diabo, que, como cobra, sempre cobra e de contínuo se vinga. Enquanto isso, os filhos de Abba estão permanentemente dispostos a perdoar pela operação eficaz do Espírito Santo, tal como o seu Pai.

Todos os que foram perdoados pela graça, foram ao mesmo tempo, transformados em instrumentos vivos de perdão. Suportai- vos uns aos outros, perdoai- vos mutuamente, caso alguém tenha motivo de queixa contra outrem. Assim como o Senhor vos perdoou, assim também perdoai vós. Colossenses 3:13.

Ninguém vive neste mundo sem trombadas, contusões e feridas; por outro lado, nenhum cristão verdadeiro permanece com a ferida sangrando. Não podemos evitar as lesões, embora possamos, pela graça do nosso Pai, perdoar os agressores.

“Não é possível haver saúde mental e espiritual sem que haja perdão verdadeiro e total”. Diante desta frase, alguém me perguntou: o perdão implica no convívio com o agressor? Não, necessariamente. O perdão implica, sim, na absolvição do agressor, para que o próprio agredido não se torne uma ferida que nunca sare.

Mas isto, não significa uma convivência obrigatória com aquela pessoa que o feriu. Não há compulsão para quem se tornou livre pelo amor incondicional de Deus.

Perdoar é um imperativo da salvação e uma expressão categórica do amor liberto de regras, que nos salvaguarda de qualquer conduta determinada pelo dever. Uma vez libertos da tirania do ego, pela nossa morte e ressurreição com Cristo, ganhamos a condição de vivermos fora de comportamentos predeterminados e esperados por legalistas de plantão, a fim de manifestarmos a vida de Cristo, como o padrão de nosso viver.

Aquele que perdoa, motivado pela vida de Cristo em seu ser, pode conviver com o seu agressor, se isto for para a glória do Pai; bem como, viver distante, longe, fora do seu relacionamento, se também for para a mesma glória do Pai.

A questão básica agora, não é o nosso bem estar em si mesmo, mas a glória daquele que nos libertou de qualquer camisa de força. A norma que conduz a conduta cristã sempre será: Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus. 1 Coríntios 10:31.

O pecado nos destituiu da glória de Deus, porém a salvação nos converteu para o centro desta glória Divina. Nós não vivemos mais para a nossa própria glória, uma vez que fomos regenerados para glorificar Aquele que nos aceitou integralmente pela sua graça.

Nenhum cristão é compelido a perdoar. Não há perdão a fórceps e ninguém é forçado a indultar. Na verdade, todo cristão foi gerado pelo Pai, para perdoar como o Pai. Se eu não perdoar de fato, primeiramente, estou assegurando que não sou filho de Deus; depois, me torno um prisioneiro de profunda amargura, e as minhas feridas nunca saram.

Alguns dizem que já perdoaram, mas não conseguem esquecer. Quero apenas lembrar a estes que assim pensam: esquecer como ausência de memória, talvez só por Alzheimer. Podemos rememorar os fatos, o que não podemos é lembrá-los com azedume. Precisamos, antes de tudo, ser desintoxicados da reminiscência amargurada.

O problema real não se encontra na lembrança em si mesma, mas na lambança fermentada pelos sentimentos purulentos da infecção do individualismo. O ego ferido costuma se transformar numa pústula segregando o pus da arrogância fétida, que contamina todos que estiverem por perto. A alma dolorida é malcheirosa; supura e dá asco.

Sem o perdão custeado pela graça de Cristo de modo irrestrito e unilateral, as feridas nunca saram e o seu contágio pela baba que escorre da boca que geme, acaba infectando a família, os conhecidos e até os que se propunham a ser amigos, que aos poucos, vão saindo de fininho para não ficarem contaminados e aleijados.

O perdão é imprescindível para a boa saúde. Conversei com um amigo, alcançado agora pela graça depois de uma traição familiar, que me contou: “a pior coisa que fiz foi falar mal da minha ex-esposa após a nossa separação sofrida”. Enquanto ele mantinha a dor da infidelidade como álibi do seu vitimismo, desabafava a peçonha da amargura e se contorcia em desgosto na tentativa de expiar a sua vingança.

Quando, pela graça de Deus, ele pode liberar o perdão, as coisas mudaram. Vejo agora na sua vida um sopro de amor que só pode vir do trono do Pai. A pessoa que não perdoa vive, aqui, num inferno, infernizando os outros e sem esperança de alcançar o céu.

Só o perdão pode sarar as feridas abertas. Apenas o perdão total pode conceder o verdadeiro arrependimento. Então, alguém me pergunta se Deus perdoou a todos em Cristo. – Sim, com certeza, o perdão de Deus é ecumênico. Ela continua a indagar: por que, pois, as pessoas que foram perdoadas, não se arrependem todas?

Esta é uma tese teológica que também traz, pelo menos, duas respostas modelares. Alguns dizem que é uma questão da eleição divina. Se a pessoa é eleita por Deus, então ela se arrependerá. Outros sustentam que isto depende só da vontade do sujeito.

Acredito que há um mistério no assunto que envolve as duas partes. Não creio na eleição fatalista que escolhe alguém para a perdição, embora creia na eleição em Cristo para a salvação, que implica na decisão responsável daquele que foi vivificado pelo poder da pregação da Palavra de Cristo. Urge um milagre de vivificação antes da conversão.

O mysterium fidei ou o enigma da fé ainda continua sem um esclarecimento por se tratar de um assunto não revelado: As coisas encobertas pertencem ao SENHOR, nosso Deus, porém as reveladas nos pertencem, a nós e a nossos filhos, para sempre, para que cumpramos todas as palavras desta lei. Deuteronômio 29:29 .

Aliás, o que se sabe de verdade é que um perdoado, que não se considera arrogantemente como se fosse Deus, arrepende-se; e, arrependido de fato, perdoa e fica curado.

Glênio.

a trindade familiar

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A Trindade Divina criou o ser humano como uma pessoa tridimensional, a fim de conviver numa trindade familiar. Elohim é triúno e fez o gênero humano, macho e fêmea, mas, tricotômico, composto de: corpo, alma e espírito, para viver em trivalência relacional. Este ser equilibrado deveria coexistir em comunidade humanamente afetiva.

O único lance que destoou na criação física foi a solidão. Apesar de Deus ser exclusivo e indivisível, Ele se manifesta em três pessoas. Não há exílio na dimensão metafísica. O ser Divino é singular e coletivo, ao mesmo tempo. Deus é individual em sua essência e social em sua comunicação. No céu há um ser unitário, mas, também, não solitário. A Trindade é a unidade do anseio coletivo.

Nada pode ser maior do que três pessoas vivendo em plena comunhão. A conciliação das vontades é imensamente maior do que uma única vontade absoluta. Ser três pessoas agindo em irrestrita sintonia tem uma dimensão infinita e mais significativa do que ser uma pessoa com sua vontade soberana agindo por conta própria. O mistério da triunidade fala da onipotência demonstrada no concerto eterno do pluralismo volitivo. Um Deus em três pessoas com uma só vontade.

A coesão Triúna propõe a integridade da pessoa humana e a conexão da família. Antes de o pecado entrar na história da humanidade, Elohim, o Deus trinitário, instituiu a vida em família. O molde familiar é a própria concordância da Trindade. O Pai, o Filho e o Espírito Santo são arquétipos transcendentais da coerência relacional entre a paternidade, a maternidade e a prole.

A família é o plural do sujeito ou o coletivo da pessoa. Assim como na Trindade, a vida do lar deveria se ajustar pelo acordo das vontades. O problema foi o pecado. O egoísmo tomou conta das personalidades e a comunhão desandou em contestações. Instaurou-se a confusão dos desejos e o caos social.

A vida doméstica que, em tese, seria uma orquestra sinfônica, acabou, no final das contas, descompassada e desafinada. O conflito das vontades tornou-se a regra do jogo. Agora, o consenso familiar é uma conquista complicada. Viver em união é algo complexo que exige combinações constantes de todos os membros. As vontades obesas não conseguem se encaixar em lugares apertados, além do que, conciliar é uma das artes mais difíceis para a sobrevivência social. Uma família unida é coisa rara, e, viver, com o mínimo de atrito, é das artes mais difíceis, exigindo perícia e paciência.

Mas a lei da unidade deve ser definida assim: “viva de tal maneira que, se todas as pessoas fossem como você e todas as vidas fossem vividas como a sua, a terra seria um paraíso”. Portanto, não há opção: a cruz é o único passaporte do ego. A morte do egoísmo é a sentença e a ressurreição em vida nova, a chance. Não eu, mas Cristo é a solução definitiva para a família.

O velho mendigo do vale estreito, Glenio.

o sotaque teológico

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Um dos maiores castigos dados à humanidade neste mundo é a diversidade das línguas. Os bichos, no planeta Terra, têm a mesma forma de comunicação, mas os seres humanos se atrapalham sempre, com a variedade dos idiomas. É a única raça com multidões de dialetos.

Além das linguagens diferentes, há também, no mesmo idioma, expressões localizadas e sotaques regionais, tornando a comunicação uma arte complexa. Veja, por exemplo, as palavras chibolete e sibolete na história bíblica. No livro dos Juízes vemos que 42 mil efraimitas morreram por causa destas palavras. (Leia com atenção Juízes 12:1-7.)

O problema mais sério, contudo, é o sotaque teológico. Há muita gente por aí matando e morrendo porque não sabe discernir entre a pregação da graça plena anunciada de modo gracioso, dessa insana pregação da lei disfarçada de graça. Aqui, todo cuidado é pouco.

Um amigo foi a um restaurante refinado com cardápio excelente e lhe serviram um prato ultra salgado. Ele devolveu o pedido, pedindo ao garçom a opinião do chefe. Nem todo chefe é tão criterioso assim, mas esse veio e confessou que errara na dosagem. Será que os pregadores confessam que puseram peso demais nos ombros dos ouvintes?

Se ao pregar, percebo que o povo saiu com um fardo nas costa, concluo: não lhes falei do evangelho. Toda pregação que gera peso ou cria um sentimento de troca de favores não se trata da mensagem suave e leve de Jesus. Ainda que tenhamos lutas no caminho rumo à Nova Jerusalém, nunca carregamos peso, muito menos, temos preço a pagar.

Renunciar um mundo caído por um Reino eterno não é perda de coisa alguma. Deixar os tesouros do Egito, mesmo que tenhamos que passar por agruras no deserto, não se pode comparar com as riquezas da sublimidade de Cristo. Não me venham com a apelação de Pedro: deixei tudo para te seguir. Qual é a recompensa? – Um barco velho e redes rotas?

Metade do reino pela cabeça de João Batista foi o cachê da dançarina. Porém, nada pode compensar o preço pago no Calvário. Não existe troco no Reino de Deus. Se nego tudo deste mundo, nada pode se equiparar ao valor de uma alma. Não compreendeu ainda?

Ouvi um camelô negociando do púlpito: você tem que pagar o preço. Deus só o abençoa se você saldar o débito. – Gritei em meu íntimo: picareta! Mesmo o ouro refinado, o colírio e as roupas brancas que se pode comprar, é tudo financiado pela graça, ou seja, é tudo de graça, sem dinheiro e sem preço. Cara! não é caro, é graça sobre graça.

Volto ao terreno molhado. Se abro mão de tudo o que tenho neste mundo, por causa do Reino de Deus, não perdi nada que não fosse provisório ou passageiro. A abnegação de tudo que sou e tenho é nada diante da grandeza da herança como filho de Deus. Por isso, não me ponha peso, onde Cristo já levou a carga.

Do velho mendigo do vale estreito, Glenio.

Abba na Trindade

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A Trindade divina é composta de três pessoas distintas, mas não de três deuses. A Escritura Sagrada é monoteísta, embora o Deus bíblico se revele em caráter trinitariano: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. A palavra trindade não é encontrada na Bíblia, todavia a realidade espiritual da Trindade se manifesta de modo pleno em muitos textos e contextos das Escrituras.

Houve um dia em que a Trindade se mostrou nitidamente aos homens.

E aconteceu que, ao ser todo o povo batizado, também o foi Jesus; e, estando ele a orar, o céu se abriu, e o Espírito Santo desceu sobre ele em forma corpórea como pomba; e ouviu-se uma voz do céu: Tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo. Lucas 3:21-22.

Há alguma dúvida no exposto?

Ora, se Jesus é o Filho, logo ele tem um Pai. Abba é a palavra aramaica para pai e é o vocábulo vital da encarnação e proclamação do Filho. Cristo se encarnou no Jesus histórico, a fim de revelar aos filhos o amor eterno do Pai. A principal revelação do Filho é de um Pai para os seus filhos.

Abba é a primeira pessoa da Trindade na ordem das referências, não obstante a identidade do Pai, do Filho e do Espírito seja idêntica. Nenhum deles é maior do que os outros. O Pai não é anterior ao Filho e este não vem antes do Espírito. Deus é eterno e na eternidade não existe nem começo nem fim. A essência do eterno é absoluta e atemporal, destarte há só um Deus individual e indivisível, mas coletivo, como pessoas in aeternum.

“O Pai não é de ninguém – não é nem gerado, nem procedente. O Filho é eternamente gerado do Pai. O Espírito Santo é eternamente procedente do Pai e do Filho”. São eternamente “co-dependentes”. Tornando essa ideia um pouco mais simples, o que distingue os três membros é a paternidade eterna do Pai, a filiação eterna do Filho e a procedência eterna do Espírito Santo. O que é eterno não teve início, nem terá jamais um termo.

O Pai tem sido eternamente o Pai. O Filho tem sido eternamente o Filho. O Espírito Santo tem sido eternamente o Espírito Santo. Apesar dos três serem distintos em funções, como pessoas, eles são unos em essência e no eterno propósito. Há um ser único com um único intuito. A vontade de Abba e fazer a vontade do Filho. A vontade do Filho é realizar a vontade do Pai. A vontade do Pai e do Filho é cumprir a vontade do Espírito Santo. A vontade do Espírito Santo é satisfazer a vontade do Pai e do Filho.

Abba é tudo, de todos. O Filho é tudo, por todos. O Espírito Santo é tudo, para todos, e vice-versa. A Trindade, porém, em Abba é a causa, no Filho é o agente e no Espírito Santo é o objetivo. Tudo começa, continua e culmina na trilogia divina: Porque dEle, por meio dEle e para Ele são todas as coisas. Glória, pois a Ele, eternamente. Amém.

O velho mendigo do vale estreito, Glenio.

a Trindade.

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Elohim é o sujeito gramatical da primeira oração bíblica e esta seria a ordem direta da passagem. Elohim criou os céus e a terra, no princípio. O sujeito na língua hebraica é Elohim que significa Deus, mas encontra-se no plural. Aqui aparece uma fumaça branca da revelação do Deus trinitário e um mistério para a razão. Agostinho comentou:

“se pedirem que definamos a Trindade, podemos dizer que ela não é isto, nem aquilo”.

É impossível a mente finita explicar o infinito e a relativa, o absoluto.

Quando indagaram a John Wesley, pregador inglês do sec. XVII, como poderia esclarecer este assunto da Trindade, ele, ao observar com cuidado o ambiente da casa onde estavam reunidos, contrapôs: “diga-me como; nesta sala há três velas, mas somente uma luz, e eu explicarei a forma da existência divina”.

Ainda que a Trindade seja inexplicável, eu concordo com A. W. Tozer: “o amor e a fé sentem-se em casa no mistério da divindade. Que a razão se ajoelhe do lado de fora, reverentemente”. Mesmo sem a aclaração do tema, os filhos de Abba se prostram em adoração diante da Trindade Santa, pois ela satisfaz a coesão do coletivo e, ao mesmo tempo, a comunhão entre os distintos.

A Trindade expressa a realidade espiritual de um só Deus, manifestado em três pessoas. É uma coletividade una e, ao mesmo tempo, uma singularidade plural. São três e são trinos. Esta tri-unidade é a associação perfeita das individualidades, em que cada um se dá a si mesmo em favor dos outros, sem qualquer competição entre eles. Não há torneio no trono divino. No céu não tem olimpíadas patrocinando medalhas. O Pai, o Filho e o Espírito Santo não concorrem entre si.

O modelo da Trindade é a matriz dos relacionamentos santos. Os três são um e cada um se desvela com prazer a serviço dos outros. Uma pessoa sã é um ser inteiro, não esquizofrênico. O convívio saudável é um vínculo entre pessoas sãs ou integrais. Um indivíduo são e salvo é um santo, uma vez que as três palavras têm a mesma raiz. Por isso, as relações santas são aquelas que promovem unidade sadia na diversidade. Elohim é o plural da concordância divina e a harmonia do seu conjunto.

Na aritmética da Onipotência o produto de 3×1=1 e a soma de 1+1+1=1. Um é o dígito da unidade composta, o algarismo de Deus como ser uno e do unigênito. Três é o número da plenitude divina e do testemunho perfeito. A Trindade aponta para a união na variedade e o magnífico intercâmbio das vontades. Este é o padrão da comunidade dos santos na interação das desigualdades. Senhor! Dá-nos a graça de conviver em comunhão, para nos doar em amor!

O velho mendigo do vale estreito, Glenio.