espírito da cruz 58 – dando fruto no buraco

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Spiros Zodhiates disse: As partes mais baixas da terra são quentes e férteis; as montanhas imponentes são frias e estéreis. Não há dúvida que, os lugares baixos podem ser comparados com pessoas espirituais, que se tornam mais férteis, quanto mais ao rés do chão elas estiverem. Não é no cume dos montes, mas no fundo dos vales que há vida fértil e abundante. Não é no alto da passarela, mas no quarto fechado que está o poder.

A vida espiritual, apesar de vir do alto, não se cultiva, na terra, em lugares altos e nem é adubada através dos aplausos de uma plateia. Tanto as boas obras, (esmolas), a oração e o jejum são todos cultivados em lugares discretos, fechados; sem observadores.

Os pregadores estão sempre em perigo por causa dos holofotes. A visibilidade pública do pregador é um problema para sua alma, e, corre um enorme risco de se tornar altivo diante dos elogios. Isso, normalmente, não acontece com intercessores de plantão, pois vivem diante de Deus, mas, anônimos, diante dos observadores.

A carne gosta de exposição. O chamado crente carnal é aquele que procura se exibir nas entrelinhas, de modo camuflado, como se fosse espiritual. Essa carência íntima de ser visto e comentado corre sutil nas veias da carnalidade, gerando muito jogo político; produzindo máscaras de hipocrisia. É por isso que há, na obra da cruz, algo que precisa exercer uma mortificação permanente na vida dos filhos de Deus.

Eu sei da empolgação que os louvores exercem na minha alma carente.

Eu até consigo disfarçar o sentimento de alegria, mas não é fácil esconder a vanglória que habita oculta no âmago do meu coração envaidecido. Mesmo que ninguém a veja e eu a disfarce com uma fisionomia de espiritualidade, a vanglória asilada em meu ser, me denuncia.

Certa ocasião eu percebi a sutileza da minha mente. Recebi um elogio polpudo de um amigo e fiz cara de indigente; com um discurso politicamente correto, me livrei logo da honra, mas, no interior, eu estava me deleitando. Neste momento, o Espírito Santo deu um toque: “estou crucificado com Cristo” – não é você quem vive, mas Cristo em você.

Muitos, de nós, na congregação, se nutrem da opinião alheia e quase nunca do que Deus diz. Estamos sempre buscando a aprovação de alguém e corremos para o altar a fim de sermos vistos e reconhecidos, jamais para adorar Àquele que nos aceitou. Isto é a grande tragédia da igreja de Laodiceia, ou a igreja do final dessa história eclesiástica.

A vida espiritual não é uma questão sensível, mas crível. Não é o que vejo ou o que sinto; é o que creio, e o que creio vem da revelação da palavra de Deus. Mendigos, a fertilidade da vida cristã, não é uma questão de distinção, mas, de dependência plena da graça de Deus. Não se trata de elevação, mas de quebrantamento. Não é notoriedade ou projeção, mas tão-somente Cristo vivendo em nós.

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.

espírito da cruz 51 – o fim do inveja

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Invidere, no latim, é não ver. A inveja é a cegueira da alma para si mesma, mas vê no outro o que lhe falta em sua biografia. O invejoso é o cego que se percebe invejado e nunca se vê invejando. Ele não se enxerga com olhos malignos, embora, o seu olhar de rabo de olho só consiga notar, no seu invejado, o que lhe desperta a cobiça.  

Os olhos do invejoso – o seca pimenteira – só veem, no êxito do invejado, a sua própria falência e incapacidade de se projetar, refletida no sucesso que ele gostaria de ter. O seu foco, no outro, decorre da sua incapacidade de se perceber inadequado.

O invejoso não se enxerga, contudo enxergue, com os olhos vermelhos, o êxito e as virtudes alheias que ele gostaria de ter e não tem. Ele não se vê, mas vê com nitidez e raiva aquilo que o outro tem de melhor, que lhe falta e se consome ao consumir alguém.

Um olho gordo vê o progresso alheio como uma testemunha do seu fracasso e, aí, tenta denegrir o êxito do outro com a baba ácida de suas críticas. Invejosos de plantão são vermes venenosos e corrosivos de todos que estão num patamar mais vantajoso.

Ninguém inveja desconhecidos e distantes. O seu alvo sempre vem envolto em alguma admiração de quem mora perto. A dor de cotovelo se instala contra aquele vizinho que prospera, sobressai e é bem visto. Inveja de fracasso, falência, doença – nem pensar! Nunca vi falar de alguém invejando uma pessoa feia.

Não há inveja de mendigo e falido.

A inveja é um sentimento mesquinho e perversão que enferruja a alma e corrói a vida de todo aquele que se compara aos outros e se percebe deficitário em algum item, que gostaria de possuir. “Espelho, espelho meu! Há alguém mais bonito do que eu”? Todo invejoso só inveja quem lhe sobressai. É a virtude do outro que o faz arder no seu vício.

Caim invejou Abel porque este foi aceito com sua oferta. Os irmãos de José se inflamaram de inveja por verem o moço se distinguir dos demais. O rei Saul tinha surtos psicóticos só em pensar no cântico das donzelas: – “Saul feriu aos milhares, porém, Davi, aos dez milhares“. – Como pode um fedelho, como esse, ser mais do que eu?

Como já vimos, a inveja é um sentimento medíocre advindo da comparação, da proximidade, da admiração e da falência. Quando eu me comparo com alguém próximo, e vejo nele algo que admiro, mas não percebo em mim, me torno esbraseado por dentro e ferino por fora, nesse quesito, pondo-me a destronar aquele que me ultrapassa.

Os pares de Daniel, quando viram a excelência de ancião, não tiveram dúvida: – chegou a hora de engendrar um plano para levá-lo à cova dos leões. A inveja sempre se pauta em extinguir aqueles que são alvos da sua gana. Talvez, o provérbio português nos dê algum sentido: “o invejoso nunca medrou (prosperou), nem quem perto dele morou”. É por aí mendiguinhos… só a cruz no invejoso!

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.

espírito da cruz 42 – sabe com quem tá falando?

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O pecado propõe nos elevar. A serpente inoculou no gênero humano o veneno da soberba. Adão e Eva, criaturas finitas, foram incitados a serem como Deus e, de lá pra cá, a raça ficou insuportável subindo em jiraus, palanques e altares na busca da distinção. Todos nós sofremos com a síndrome de pódio e gritamos, no íntimo, por visibilidade.

Você sabe quem eu sou? Idade é posto… Eu dei a minha vida por isso e devo o mínimo de atenção. Sou filho de… A minha família foi quem… E, por aí vão os argumentos mais disfarçados para nos colocar na berlinda e mostrar a nossa importância.

Cristo Jesus tem outra postura. Cristo é Deus, mas Jesus vive como homem no nível inferior da escala. Ele nasceu numa família simples e pobre, mas nunca ambicionou ser da casta dos nobres e ricos. Ele era um homem e não um status; um dos membros da Trindade que não se importava de ficar de cócoras lavando os pés sujos de gente altiva.

Sermos feitos como Jesus é o propósito da salvação, vejamos:  Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. Romanos 8:29.

“Mulas e rochas podem pregar. A nossa via é ser feito como Jesus. É o fim de tudo que fazemos. É o fim da pregação. É o fim da oração. É ser como Jesus.”

Tornar-se como Jesus é uma obra da graça, por meio do Espírito. Não se trata de um esforço humano para alcançar esse modelo, mas o desmanchar do estilo de Adão pela cruz. Se o espírito da cruz não nos desconstruir da mania de altar e dessa síndrome insidiosa de visibilidade pública, ninguém consegue viver a vida de Cristo.

“Bem, eu estudei aqui, estudei ali. Fiz isto e aquilo. – Não quero saber de nada. Você ama? Agora ele continua e diz: Aquele que ama a seu irmão está na luz. Sim aquele que ama o seu irmão não é salvo por causa do seu amor, mas demonstra que já foi salvo pelo poder de Deus manifestando o seu amor ao irmão.” O amor é um selo da salvação.

Ninguém é salvo porque ama, mas ama de fato porque foi salvo. Porém, aqui, não estou falando do “amor” carnal. As pessoas na China, que eu não conheço, são até fáceis de amar. Mas quanto mais perto fico das pessoas, mais difícil é amá-las.

Alguém disse: “É impossível ter um relacionamento adequado na vertical sem o ter na horizontal. Você não pode ter um grande, magnífico, poderoso relacionamento com Deus se as suas relações com as pessoas à sua volta não estiverem certas.” Se não amo ao irmão que vejo, como posso amar a Deus que não vejo? Perguntou João, o apóstolo.

Mendigos, não fomos chamados pelo Pai pra sermos um espetáculo de virtude e dons, mas para demonstrarmos o amor de Cristo derramado no nosso coração através do Espírito Santo que nos foi dado. É só isso, mas isso é tudo.

Do velho mendigo,

Glenio.

espírito da cruz 41 – a face no Facebook

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A necessidade de visibilidade pública, das tentações da carne, é uma das mais severas no sentido de ofuscar a manifestação de Cristo em nós. O filho de Deus pode ser usado por Ele, mas precisa de modo legítimo sair do foco dos holofotes. Nós podemos ser instrumentos da graça, o que não podemos ser – é ilustres iluminados. Isto é catastrófico.

Iluminados, sim. Ilustres, nunca. Os filhos precisam ficar face a face com o Pai, mas não precisam ficar se exibindo no Face. Devem ser pessoas do Book, gente do Livro da Verdade, todavia, sem se expor no Face-Book. Com toda a certeza, nós podemos usar o Face-Book para a comunicação, contudo, precisamos nos ocultar. Sair de cena.

As passarelas têm sido mais perigosas para os pregadores do que se imagina. Um amigo, que teve um tombo na cama, me disse: eu não caí quando adulterei; adulterei, quando aceitei que era o tal.

Foi o palco que o derrubou.

O cara, na crista da onda, tem muitas necessidades de se exibir e tenta se projetar até surfando nas areias do deserto.

Ser notável é um risco notório na vida de quase todos os mensageiros de Deus que se envolvem na pregação do evangelho. Não há pregador que não se fascine com a sua sombra vista do púlpito, pois a imagem dele se confunde com a mensagem. Mas o de que todos carecem, na verdade, é sair do palco. O pregador precisa ser pregado na cruz, para não ser tentado a pregar-se como se fosse o cerne da mensagem.

Um pregador distinto ou famoso é alguém que se encontra em perigo. Muitos e muitos têm sido esfacelados pela sua celebridade. Alguém me sussurrou: seja um fidalgo, mas nunca um esnobe. Parei e fui examinar a etimologia das palavras. Fidalgo é um filho de alguém, tem origem. Esnobe é gente sem nobreza, bancando a excelência do nobre.

Ser um fidalgo, no Reino de Deus, significa ser filho do Altíssimo. Tem genética do Alto. Mas o esnobe é uma gentalha caída tentando escalar um trono. O filho de Deus é Sua Alteza, o dependente. O esnobe carece da aprovação dos outros para se ver aceito.

Ninguém pode ser o que não é. Se somos fidalgos, somos filhos de Aba. Neste caso, fomos regenerados pelo Espírito Santo e feito filhos pela graça. Se somos esnobes, somos caricatura, e nada mais. É pura aparência de gente fake que não merece crédito.

Vance Havner costumava dizer: “A popularidade tem matado mais profetas do que a perseguição.” Esta, é consequência da verdade, aquela, da política. Ao buscarmos ser notados pelo auditório, ao invés de ser usados por Deus, já perdemos a credencial de ser ministro do Cristo, que deixou a sua glória para viver sem qualquer glamour.

Mendigos, o espírito da cruz nunca enfatiza o nosso brilho ministerial. Ninguém deve estar em um púlpito cristão, se tiver mais atento ao seu brilho pessoal, do que a luz que irradia do crucificado. Cuidado com lantejoula!

Do velho mendigo do vale estreito.

Glenio.

espírito da cruz 21 – a dieta do saber

Paulo disse: o saber entumece. São poucas as coisas que deixam as pessoas mais inchadas do que o conhecimento. Não, propriamente, a sabedoria, mas o saber dos que se acham detentores dele. A ciência dos fatos, sem a consciência da finitude humana, pode ser um prejuízo terrível para a concretização da verdadeira sabedoria.

Sócrates dizia: a única coisa que sei, é que nada sei. Aquele que sabe que não sabe, já sabe muito mais do que aquele que pensa que sabe, porque sabe um pouco das coisas que sabe. O melhor saber é aquele que não nos envaidece com o que se sabe.

Os mestres, na igreja, são eternos aprendizes. Uma marca dos discípulos de Jesus é a condição de ser ensinável. Se formos discípulos, seremos aprendizes. Alguns de nós fomos chamados para ensinar, porém, antes de sermos mestres, somos sempre alunos. No discipulado cristão não há lugar para os tais “doutores”.

Se o saber dos acadêmicos esnobes os envaidece, o saber dos “doutores” que se vêem sábios, na igreja, é insuportável. É triste quando vemos alguém querendo dar um pitaco no que nada sabe. Há coisas que podemos dar alguma noção, todavia há assuntos em que a árvore do conhecimento do bem e do mal nada tem a dizer.

Jeremy Taylor disse: ter orgulho do saber é o sinal da maior ignorância. Aquele que sabe, normalmente, percebe que não sabe tanto quanto o saber do assunto requer. O sábio, de verdade, não sabe que sabe o suficiente para ser considerado um sábio, sendo assim, continua humildemente matriculado na escola do permanente aprendizado.

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Por exemplo, Donald Nicholl disse: para saber o que é santidade, você precisa ser santo. Muito bem. E como é que alguém sabe que é santo? Esse é um assunto que a graça se encarrega. Ninguém, por si mesmo, pode se fazer santo. Mas, quando a graça o faz santo, esse santificado passa a conhecer o que é santidade, ainda que parcialmente.

Sim, qual foi o santo que se viu um santo perfeito? A santidade é um processo e nunca um estado. Não há santo acabado, mas em construção. O apóstolo João afirmou: aquele que é santo santifique-se ainda. Quem já subiu ao pódio da santidade e derramou a garrafa de Champanhe em sua própria cabeça? O santo sabe que é santo, mas nunca saberá em que grau se encontra da santidade evolutiva. Porém, não há santo paralítico.

Esse pensamento sábio, de John Metcalfe, pode nos ajudar no que diz respeito ao legítimo saber: Nada fará com que você deseje mais deixar de pecar do que saber que Cristo de fato tomou e remiu todos os seus pecados – passados, presentes e futuros.

Mendigos, não há maior conhecimento do que conhecer pessoalmente a obra e a pessoa de Cristo. Não se enfadem num saber que termina numa lápide, mas busque de coração conhecer a Cristo, e este crucificado.

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.

espírito da cruz 19 – sou rebelde, e dai?!

O espírito da cruz é o estilo da vida que Jesus demonstrou antes da sua morte. Ele viveu aqui, neste mundo, como um crucificado, pois a sua vontade humana dependia da boa e perfeita vontade do Seu Pai. Então, lhes falou Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que o Filho nada pode fazer de si mesmo, senão somente aquilo que vir fazer o Pai; porque tudo o que este fizer, o Filho também semelhantemente o faz. João 5:19.

Jesus não foi autônomo. Jamais andou por sua própria iniciativa, vejamos: Eu nada posso fazer de mim mesmo; pois na forma por que ouço, julgo. O meu juízo é justo, porque não procuro a minha própria vontade, e sim a daquele que me enviou. João 5:30.

A vontade de Jesus tinha como objetivo fazer a vontade do Pai. Ele vivia sob os efeitos da cruz. A sua única vontade estava conformada com a vontade de Deus. Jesus foi um homem que viveu 100% pela fé, como o barro nas mãos do oleiro. Quando a vontade do homem é conquistada pela vontade de Deus, então, o ser humano se torna liberto.

A liberdade dos filhos de Deus não se pauta pelo o direito de se fazer o que se quer, mas, sim, de fazer o que o Pai quer. Seja feita a Tua vontade é a lei da liberdade. O homem é mais livre quando controlado apenas pela vontade do Altíssimo.

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A liberdade cristã significa a capacidade de não violar a vontade de Deus, pois, estar de acordo com a Lei de Deus é o centro vital da vida de fé. A licenciosidade significa a insistência em fazer o que se deseja, portanto, é obstinação com o descontentamento, – a liberdade é transformada em licenciosidade pelo egoísmo.

O espírito da cruz é a marca de quem rendeu a sua vontade à vontade Divina. O crucificado com Cristo teve uma transformação. Morreu a sua psiquê rebelde, e, ainda, recebeu um espírito vivificado pela vida da ressurreição com Cristo.

Não entendo, de fato, como alguém que confessa a sua morte, ressurreição e a vida com Cristo, ainda queira fazer o que quer.  Alguém disse: uma perfeita conformidade com a vontade de Deus é a única liberdade soberana e completa. Não é possível que os salvos tenham a confissão de fé que contrarie uma obediência submissa ao seu Senhor.

O ser humano no pecado é escravo do pecado. A sua vontade encontra-se em total escravatura do seu querer egoísta. Mas, quando, liberto da condenação do pecado e transportado do império da trevas para o Reino da Luz, a sua vontade torna-se livre para fazer a vontade de Deus de boa vontade. Não existe nova criatura que seja insubmissa ou resistente em fazer, com alegria, a vontade de Deus.

Mendigos, a alegria é o resultado natural da obediência do cristão à vontade de Deus revelada. Cristão insubmisso ou rebelde ao princípio de autoridade estabelecido por Deus é anomalia.

Do velho mendigo da vale estreito,

Glenio.

espírito da cruz 15 – humilde com orgulho

Alguém disse: “engolir o orgulho raramente produz indigestão,” mas, às vezes, dá azia. Humildade fingida é como fogo na tela, é só imagem. Quero confessar: na minha história, há mais cara de humilde do que a coroa da sinceridade. Se alguém me desse um título de gente humilde, vou achar graça, embora, meu coração vá gritar: impostor!

Será que J. Blanchard está certo ao afirmar: “Deus pensa mais no homem que pensa menos em si.” Acho que precisamos analisar isso. Não creio que Deus pense como nós pensamos, nem que Ele avalie como nós avaliamos. Pensar menos em si pode ser o sinal de + para quem quer contabilizar a virtude, pois aquele que a tem, não poder saber que a tem, uma vez que, se souber, deixará de tê-la. Humildade não sobe em palco.

Segundo Agostinho de Hipona, a humildade é uma qualidade que aquele que a exibe, não tem nem noção que a tem, porque, se souber, vai se orgulhar dela, torna-a, de fato, inútil. A humildade nunca se reconhece, vendo-se num espelho.

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“Penso que a evidência principal da diferença entre a certeza verdadeira e uma falsa, baseia-se no fato de que a verdadeira produz humildade.” A questão é: a humildade nunca se percebe humilde. Ninguém, que for humilde de verdade, se enxergará como tal.

A única pessoa que foi humilde de verdade foi Jesus, porque Ele nunca firmou-se em si mesmo. Ele disse: Eu nada faço por mim mesmo. Eu só faço o que meu Pai faz, ou, eu faço o que meu Pai faz em mim e através de mim. Jesus viveu aqui 100% pela fé em Seu Pai. Isto é o verdadeiro espírito da cruz. Ele viveu em total dependência do Pai.

Humildade propagandeada, ainda que disfarçada de altruísmo, é embuste e um meio sutil de chamar a atenção para os méritos da dissimulação que vende, por baixo dos panos, o seu orgulho como se fosse o maior desprendimento. É a carência de significado incondicional do amor furioso de Abba que promove esse jogo ardiloso onde a altivez vem vestida com trajes rotos de humildade aparente.

Pede-me um sinal de humildade e eu te direi: um morto. Quem morreu não age com soberba, nem reage com falsidade. Jesus viveu sob os efeitos da cruz eterna, e veio para nos fazer morrer juntamente com Ele, a fim de nos fazer livres de nós mesmos. Se já morremos com Cristo, somos libertos da tirania de nosso ego altivo e camuflado.

“Da mesma forma como os rios fluem por vales e regiões mais baixas, também a raiz de todos os atos santos é nutrida pela humildade,” descendo, mas sem alarde. Não existe um tipo de humildade com glamour. O espírito da cruz jamais se exibe.

Vamos em frente neste ponto, mendigos da graça! Como dizia São Crisóstomo, “a humildade é a raiz, a mãe, a ama-de-leite, o alicerce e o vínculo de todas as virtudes,” embora com total e verdadeira discrição.

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.

espírito da cruz 13 – pomba ou pompa

Jesus fincou dois marcos como distintivos do ministério de seus discípulos: são simplicidade e prudência. Ele disse: sejam simples como as pombas e prudentes como as serpentes. A vida do cristão deve ser simplesmente uma simples representação visível da simplicidade de Cristo. Isso significa que não há complexidade no modo do cristão viver.

Tenho em minha casa um bando de pombas que tenta fazer os seus ninhos em lugares dos mais inconvenientes, para o bem estar da família. Mas, se alguém desmontar o ninho, é um trabalho incansável – elas vêm e fazem de novo. As pombas são simples ao máximo e nunca se ofendem. Estão lá fazendo as mesmas coisas o tempo todo.

Faça desta regra simples uma diretriz para sua vida: não ter nenhuma vontade que não seja a simples vontade de Deus. O que mais precisamos é simplesmente render a nossa vontade complexa à simplicidade da graça de Deus. Aqui é ser como as pombas.

O pecado nos tornou em seres complicados, que nunca se contentam e jamais se rendem, se não chegarem ao fim de suas forças. O fim de nós mesmos pode ser a era da simplicidade. Nós só descansamos quando saímos do palco e deixamos o governo da nossa vida nas mãos de quem pode dar sentido ao vôo das borboletas.

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As lagartas são vorazes e destruidoras, mas, por uma razão que a biologia não explica, elas morrem para vida que rasteja, a fim de voarem alto como borboletas. No fim, a história tipifica a obra da cruz. O ser humano complexo e destruidor precisa morrer para si mesmo e ressuscitar com a vida de Cristo. Com razão, M. Lutero estava certo ao dizer que, saindo de cena: o simples ordenhar de vacas pode ser feito para a glória de Deus.

A simplicidade é o estilo de vida de quem é de cima. É a encarnação da vida de Cristo em quem tenha sido crucificado com Cristo. Se a pomba fala duma gente simples, a pompa, só fala de gente que se orgulha dos seus méritos terrenos, contrapondo-se aos dons da graça. A maioria de nós tem uma necessidade enorme de holofotes ou vitrines.

A singeleza de coração é um reflexo do espírito da cruz agindo nas entranhas e na mente dos filhos de Abba. Uma alma orgulhosa não se satisfaz com coisa alguma, mas a alma simples faz festa com algodão doce, já que é uma alma de criança.

Entretanto, Jesus abordou, também, a prudência das serpentes. Não se vê por aí serpentes transitando sem motivos específicos. Elas só saem quando vão alimentar-se ou cruzar. Só atacam para pegar a presa e quando estiverem ameaçadas. É prudente, no mínimo, ser prudente como as cobras, que nunca atacam quem não lhes intimidam.

A defesa do santo nunca deve estar ligada aos interesses pessoais, ainda que, muitas vezes, até poderia. O crente só faz apologia da fé. Atenção mendigos, se vocês já foram justificados, nunca se justifiquem, ok?

Do velho mendigo do vale estreito, Glenio.

espírito da cruz 8 – obediência?

Eric Alexander disse: “A evidência do conhecimento de Deus é a obediência a Ele.” Mas jamais uma obediência movida a medo, vergonha, culpa, interesse ou dever. A obediência, com esses traços e essa cara, ou é vassalagem ou negociata.

A obediência cristã nunca será uma escravidão a um legalismo dominador, mas a submissão voluntária à vontade divina, sob o estímulo do amor. Para tanto é necessário  que a minha vontade seja conquistada pela vontade de Deus. Se a minha vontade não for vencida pela vontade divina, não haverá qualquer significado na minha

A cruz de Cristo precisa crucificar o desejo da minha vontade soberba obediência, a ponto do meu querer egoísta poder querer sobretudo o querer de Deus. Quando eu quiser tudo o que for da vontade de Deus, então a minha vontade se contentará com a vontade d’Ele, de tal maneira, que a minha alegria será fazer de boa vontade a Sua vontade.

Obedecer de má vontade é tirania. Obedecer voluntariamente é um milagre da graça que me faz querer de boa vontade fazer a vontade de Deus. “É só pela graça divina que o homem pode obedecer à lei de Deus,” com sua vontade disposta a obedecer.

Precisamos compreender o que bem disse R. B. Kuiper: “Antes de serem atos do homem, fé e obediência são dons de Deus.” E, eu acrescento a essa lista, também, o arrependimento. O homem natural não é dotado de fé, nem será capaz de arrepender-se por si mesmo e muito menos de obedecer a Deus, de quem ele se esconde e foge.

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Alguém disse que a obediência é o lado positivo do arrependimento. E qual é o negativo? Virar as costas para o pecado. Outro disse que o arrependimento pode ser visto como a confirmação da fé autêntica, enquanto essa é uma dádiva da eleição graciosa. Eu gosto de pensar que os três: fé, arrependimento e obediência são dons eternos dados na eternidade pelo Pai aos Seus filhos e requeridos na história deles.

Na vida espiritual nós não temos nada, se do céu não nos for dado. Assim, a fé, o arrependimento e a obediência são dádivas na vida daqueles que foram convocados de modo decisivo pela graça irresistível do Pai, crucificados juntamente com Cristo e guiados pelo poder do Espírito Santo. Estes atributos não são naturais de Adão.

Dito isto, podemos afirmar, categoricamente, que a rebeldia e insubmissão são contrárias ao espírito da cruz. As ovelhas de Cristo estão marcadas com cravos nas suas orelhas e nas patas: o que ouvem, obedecem. Aquelas que obedecem voluntária, livre e  sinceramente dedicam-se para obedecer totalmente, vivendo em comunidade.

Mendigos! Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns; antes,  admoestemo-nos; o Dia se aproxima (Hb 10:25). Obediência não é a essência, mas é uma evidência do relacionamento correto com Deus.

No amor do Amado,
do velho mendigo do vale estreito, Glenio.

espírito da cruz 7 – orgulhoso de ser humilde

Ser um crucificado com Cristo é viver sob os efeitos do espírito da cruz. Pois é: isto quer dizer que, não basta confessar com os lábios, é preciso levar nos lombos a cruz como estilo de vida. O espírito da cruz encarna a condição de um crucificado.

Não estou falando de uma perfeição na conduta, mas da perfeita condução na vida espiritual dos sinais dos cravos. Há muitos de nós que falam um discurso adequado, embora desdigam tudo com o modo de viver. A boca fala certo e a vida desmancha tudo.

Quero, porém, reiterar: não estou me referindo a uma vida sem jaça ou sem um defeito ou problema, mas a uma vida sem jactância, com a altivez, no madeiro.

O espírito da cruz, antes de promover em nós, uma vida santa, promove a vida quebrantada, pois santidade sem quebrantamento é pura arrogância. Nada pode ser mais falso do que um santo empinado ou emproado. Santificação sem quebrantamento é uma contradição de termos, tanto como dizer que um pecador é humilde de espírito.

Subindo-ou-descendo

Muitas pessoas pensam que estão quebrantadas, quando estão apenas sob o manto roto da aparência, fingindo pobreza ou baixa estima para chamar a atenção do seu modo de viver, mantido para impressionar a turma da arquibancada. Nós precisamos mais do que traços de humildade, precisamos de um quebrantamento no pó e na cinza.

O Deus de cócoras, como o escravo de terceira categoria, é o modelo autêntico deste tipo de humilhação que expressa quebrantamento. E aqui, não basta demonstrar ter uma mente humilde, é preciso ser um ente quebrantado. O espírito da cruz tem que agir no íntimo e levar o sujeito a sujeitar-se a ser humilhado com desprendimento e festa.

Jesus disse com total precisão: qualquer, pois, que a si mesmo se exaltar, será humilhado; e qualquer que a si mesmo se humilhar, será exaltado. Mateus 23.12. Agora, a questão: como posso me humilhar sem sentir-me orgulhoso de ser humilde? Este é o xis do problema: o quebrantamento genuíno, que o espírito da cruz deve promover.

Um pregador eloquente e estudioso subiu ao púlpito como um pavão, cheio de si, sabendo que havia se preparado convenientemente, todavia, o seu sermão foi trágico. De cabeça baixa, sem disfarçar a humilhação, passou próximo de um velho crente que o ajudou com essas palavras: “se você subisse como desceu, teria descido como subiu”.

Não quero apenas, em minha vida, o discurso da cruz, eu quero a encarnação do seu curso. A grande mensagem do Evangelho é o Verbo encarnado que foi ao Calvário para me salvar de mim mesmo e a sua perfeita atualização é a minha crucificação diária levando o morrer de Jesus em meu modo de viver.

Mendigos, não fomos chamados ao pódio a fim de sermos condecorados, mas ao porão para limpar os pés dos falidos como nós.

No amor do Amado,
do velho mendigo do vale estreito, Glenio.

espírito da cruz 6 – no cemitério não há sindicato

O conceito de ressurreição com Cristo é mais facilmente aceito pela maioria da gente que transita pela igreja, do que o tema anterior da nossa co-crucificação com Ele. É mais agradável admitir o ganho de uma nova vida do que a perda da nossa antiga.

O ser humano não gosta de pensar no fim de si mesmo. Sair do controle é um baque para o velho Adão. É preferível admitir uma soma que permita o convívio do velho com o novo do que subtrair Adão para manter só Cristo. Mas, não há a menor alternativa, pois a vida cristã não se trata de uma composição, e sim, de uma substituição.

Contudo, para compreendermos isto, é necessário percebermos que nossa co-morte é algo feito para nós e nunca algo que fazemos em nosso favor. Cremos que tudo foi feito por Cristo, cabendo a nós receber seus benefícios como um dom da graça.

Os filhos de Deus creem que o seu velho homem foi crucificado com Cristo, por isso, levam em seu viver diário o morrer de Jesus como expressão de sua fé numa obra já consumada, gerando paz com Deus; enquanto os legalistas se mortificam para, de algum modo, apaziguarem a Deus por seus esforços e terem, assim, de que se gloriar.

João Nascimento

O espírito da cruz nos mantém em estado de dependência plena na suficiência de Cristo, tanto no sentido de nossa redenção como de nosso progresso. Tudo, na fé em Cristo, é totalmente pela graça e nada que não seja de graça tem valor no Reino de Deus. Contudo, não confunda a graça plena de Cristo com a indolência de gente indisposta.

Achar que podemos fazer alguma coisa na vida cristã sem a total dependência da graça é desconhecer o espírito da cruz. Cuidado Mendiguinhos: “O orgulho, no sentido religioso, é a atitude de autonomia, de autodeterminação e de independência de Deus.

Assim, só uma pessoa fraca, na vida cristã, pode ser de fato forte. É a astenia plena ou a fraqueza total mediante a morte com Cristo, que promove a dependência real na suficiência de Jesus Cristo ressuscitado. Não há cristianismo autêntico sem a morte do velho Adão que nos comandava. É preciso tirar o tirano para Cristo viver em nós.

O verdadeiro arrependimento começa na humilhação do coração e termina na transformação da vida. Por outro lado, uma vida transformada é uma vivência humilde em perfeita humilhação diante de Deus e dos homens. O cristão que foi transformado dos pés à cabeça, não somente se humilha, como também não faz caso de ser humilhado.

Um cadáver vestido ou desnudo não se envergonha. Mortos não se defendem de qualquer tipo de injúria. Nos cemitérios não há sindicatos. Se já morremos com Cristo, por que ainda nos defendemos quando somos acusados ou vilipendiados? Meus amados mendigos, nós carecemos de um exame necrológico. Morremos ou é apenas um ataque cataléptico? Onde está o atestado de óbito?

No amor do Amado,
do velho mendigo do vale estreito, Glenio.

espírito da cruz 5 – turbulência a bordo

Hoje estou enfrentando uma forte tentação. Toda tentação é humana e ataca especialmente os filhos de Deus. A vida de Jesus antes de ser anunciada a sua filiação de modo claro como o Filho de Deus é pouco conhecida. Nada se sabe de sua luta pessoal e de suas tentações. Mas, logo que o Pai proclamou: este é o meu Filho Amado em quem tenho todo o meu prazer, o inferno investiu contra Ele com uma fúria atroz.

Jesus não venceu o Diabo com sua força pessoal, mas com a fé sustentada pelo Pai mediante a Palavra inspirada pelo Espírito Santo. Ele viveu aqui num estado de total dependência do Pai. Jesus, o homem histórico, não se valeu de Sua natureza Divina para sustentar os conflitos de Sua natureza terrena. Viveu aqui no espírito da cruz.

Cristo, a segunda pessoa da Trindade, esvaziou-se de Sua glória ao tornar-se o Jesus histórico. Cristo era 100% Deus, embora vivesse por aqui 100% como homem. Jesus não foi um homem garantido pela natureza Divina, mesmo que Cristo nunca tenha se ausentado de sua história. Era a vida de um homem que confiava em Deus.

O homem de Nazaré viveu totalmente pela fé, por isso, Ele foi denominado de o Autor e o Consumador da fé. Ele viveu o tempo todo como homem sob o espírito da cruz, isto é, renunciando a Sua vontade humana e dependendo completamente do Pai.

O princípio da cruz é um modo de ser de auto-esvaziamento e, ao mesmo tempo, de total dependência do alto. Jesus renunciava Sua vontade humana enquanto se nutria da vontade de Seu Abba. Negava-se a si mesmo para gozar da aceitação do Pai.

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Alguém disse: “os tesouros no céu são armazenados somente na proporção em que são renunciados os tesouros na terra.” Negar-nos a nós mesmos, por todo tempo de nossa existência, não é nada comparado com a aprovação da Trindade, de eternidade a eternidade. Ser aceito com um amor incondicional nos habilita a renunciar aquilo que é apenas circunstancial e provisório. O espírito da cruz desconsidera o perecível.

Quem foi aceito pelo Deus eterno pode dispensar muito bem a aprovação de meros mortais. O espírito da cruz leva em consideração os tesouros eternos. Foi assim com Moisés, no Egito, que vendo as riquezas eternas toma suas decisões, preferindo ser maltratado junto com o povo de Deus a usufruir prazeres transitórios do pecado.

Minhas tentações são profundas e reais. Sou fraco e incapaz de vencê-las, todavia tenho como apólice Alguém que me segura. Porque não temos sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; antes, foi ele tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado. Mendiguinhos, se forem feitos do mesmo barro que eu, não se aflijam durante a turbulência do voo, pois o Piloto, além de ser o melhor Capitão é a Aeronave.

No amor do Amado,
do velho mendigo do vale estreito, Glenio.

espírito da cruz 2 – não basta acreditar

No mundo da carne, a vida antecede a morte. No âmbito da vida cristã, a morte precede a vida. Se alguém nascer nesse planeta, terá que morrer um dia. A vida da carne, por causa do pecado, encontra-se destinada a morrer. Ninguém nasce para viver, embora todos vivam aqui para morrer. Além do que, sem a morte da carnalidade, não haverá vida espiritual, por isso o espírito da cruz vem antes da criação do universo.

Quando Deus esvaziou-se, assumindo a natureza humana, veio a este mundo na condição de alguém sujeito ao espírito da cruz. Ele não veio para viver a vida humana, mas, para crucificar a natureza do pecado, infestada na raça de Adão. Se, ao nascermos, neste mundo, estamos destinados à morte, por causa do pecado, ao morrermos na cruz com Cristo, estaremos designados à vida eterna por meio da ressurreição de Cristo.

A obra da salvação do ser humano encontra-se circunscrita no âmbito da morte do pecador juntamente com Cristo. Mas não basta acreditar que morremos com Cristo, é preciso crer que continuamos mortos para o pecado e que Cristo é a nossa vida.

Jesus viveu na terra sob os efeitos da cruz eterna. Ele não fazia o que queria, mas queria o que já tinha sido determinado antes da fundação do mundo no Conselho da Trindade Divina. Jesus viveu 100% pela fé na dependência do Pai e do Espírito Santo.

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A cruz não é apenas um tribunal de execução, ela é uma via de conduta. Todos que foram crucificados com Cristo precisam viver sob os efeitos permanentes da morte na cruz, para o pecado, levando sempre no seu corpo, a mortificação do Senhor Jesus, a fim de que a Sua vida se manifeste no modo de viver de cada um que nEle crê.

Na experiência de Jesus, o espírito da cruz antecedia à cruz do Calvário. Sua vida era de renúncia e de abnegação. O espírito da cruz em nossa experiência procede e vem de nossa morte juntamente com Cristo, todavia, se expressa, no dia a dia, como o nosso estilo de vida, na qualidade de filhos de Deus.

Para mim, o sinal que evidencia a autenticidade do novo nascimento, se é que há um, não é tanto a confissão de que fomos crucificados com Cristo, ainda que isto seja fundamental, mas é o espírito da cruz agindo em nosso mondo de ser.

Richard Baxter dizia: “A cruz precisa ser carregada; não temos liberdade de passar por cima dela ou de evitá-la.” Mas, não confunda carregar a cruz com levar suas cargas. Os fardos são pesos da existência humano, a cruz é o fim dos direitos humanos. Quem já tomou a sua cruz não busca o seu currículo sob a visibilidade pública.

Se o espírito da cruz não agir em nós através da obra da cruz feita por Cristo, ninguém segue a Cristo de verdade. A pregação ortodoxa da cruz não garante o espírito da cruz, mas este, sustenta aquela.

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.

espírito da cruz 1 – sem qualquer glamour

Não vivo preocupado com a pregação correta, ainda que isso seja essencial. O que me chama a atenção, antes de tudo, é o espírito da cruz esculpido no caráter do mensageiro que se diz crucificado. O pregador da cruz deve trazer os sinais da cruz.

Se o meu ego não estiver crucificado com Cristo, de algum modo, irei botar as mangas de fora, quer no palco, quer nos bastidores. Quando o eu não estiver de fato crucificado, buscarei, de alguma maneira a esgueirar-me por entre a multidão, a fim de ser reconhecido. Um eu bem disfarçado, como se estivesse mortinho, é bem mais perigoso do que qualquer ego arrogante do mercado. Do ponto de vista do perfeito discernimento espiritual, é preferível um ego vivinho da Silva, sem máscara, do que um, fingindo-se de morto, mas vivaldino, querendo levar vantagens na pista.

A simples doutrina da Co-morte com Cristo tem produzido um bando tagarela de papagaios de gaiola que declaram-se crucificados, porém vivem como se fossem carcarás que “pegam, matam e comem”. O discurso dessa gente é corretíssimo e legal, mas o curso da vida é torto e cheia de artimanhas. É preciso cautela.

A vida espiritual autêntica não busca a visibilidade pública, uma vez que vive diante do trono para publicar as virtudes dAquele que a chamou das trevas para a sua maravilhosa luz. Quem foi realmente crucificado com Cristo não se preocupa com a sua imagem perante a platéia, mas com a glória do Cordeiro imolado. Mathew Henry dizia que “a primeira lição da escola de Cristo é a abnegação”.

O espírito da cruz não se exibe, pois tem como missão anunciar Cristo crucificado,

sem qualquer necessidade de ser visto, pessoalmente. É um espírito sem glamour.

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Alguém já disse que negar coisas a si mesmo é bem diferente de negar-se a si mesmo diante de coisas que lhe fazem digno e das pessoas que podem dar-lhe boa dose de prestígio. Assim, nada é mais aviltante para o ego do que o seu anonimato.

O espírito da cruz tira o crucificado do palco e o põe no sepulcro. Como dizia  G. B. Cheever “À medida que o homem morre para o eu, ele cresce em vida diante de Deus.” Quando o ego some, Cristo assume a vida dos filhos da ressurreição.

Uma irmã sussurrou-me: não confio naquele pregador. – Por que? – Tudo o que ele fala é certo, mas o seu estilo é político, além do que, esnobe. Ele tem a doutrina correta, mas uma ambição desmedida, no sotaque. Ainda que ele fale sobre a obra da cruz, a sua fala denuncia, no fundo, o seu desejo de pódio. O seu espírito é mais de trono do que de cruz. O comentário é pertinente e precisa de atenção especial.

Concordo com A. W. Tozer que “há uma doce teologia do coração que só se aprende na escola da renúncia.

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.

migalhas para mendigos 5 – a negação do inegável ego

Por algum tempo de minha vida eu quis ser alguém. Eu queria ser importante e visto por uma platéia que me admirasse. As minhas carências gritavam por atenção especial.

Foi uma época muito cansativa porque vivia em busca da aprovação dos outros. Se eu fosse reconhecido, isto me dava gás para tentar ser visto e ainda realizar as façanhas que me aprovassem. Mas, se não, que tristeza era ver-me catando os farelos dos falsos elogios, para poder sobreviver como um pseudo artista da decepção.

Alguém já disse que: “quando o eu não é negado, ele, necessariamente, é adorado”. O problema é como negá-lo. Se sou eu quem o nega, eu acabo ficando tão orgulhoso por tal conquista, que, neste caso, a negação torna-se uma negação da ação de negá-lo. Sim, minha vaidade ao negá-lo fica tão evidente que nego que o neguei.

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O ego é inegável por meio da ação do ego. Tudo aquilo que eu faço, mesmo quando faço para negar-me, ganha pontos no meu currículo. Meu auto-esvaziamento pode ser um motivo sutil de me auto-promover. Assim, por traz da minha negação existe um perigo real de ser reconhecida a minha humildade inchada. No fundo, o que busco é ser admirado.

Não creio na seriedade do ego. A Bíblia diz que nosso coração é desesperadamente corrupto e enganoso. É, ou não é?  E, se for? Então, nada do que eu tente fazer encontra-se fora deste diagnóstico. Por isso, não é bom confiar em nada que eu faça por mim.

Alguém pode achar isto muito radical. De fato o é. É a raiz de nossa natureza caída. Somos uma raça podre na essência. Nosso eu não é confiável, nem mesmo, quando ele se desestima, já que não desiste de contabilizar os seus ganhos nas perdas. Só mesmo um gnóstico em seu humanismo pode apoiar o morte do ego promovida pelo ego.

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Não creio que eu seja capaz de renunciar-me sem a graça plena realizando a minha morte na cruz com Cristo. Somente um morto pode ser despojado. A negação do meu ego é o produto da minha crucificação com Cristo, realizado, contra a minha vontade, por uma ação soberana da Trindade. Quando, pela graça, creio que fui crucificado com Cristo, aí, e só aí, posso negar o meu ego sem o risco da auto valorização do meu esforço pessoal.

Alguém foi lá na mosca. “A vida oferece apenas duas alternativas: crucificação com Cristo ou autodestruição sem Ele”. Ninguém consegue se esvaziar, sem que antes passe por sua morte juntamente com Cristo. A morte do ego com Cristo é a base da negação do egoísmo. Não mais eu, mas Cristo é a única solução da necessidade de reconhecimento.

Mendiguinhos, não caiam nessa ilusão de que o eu se esvazia sem querer se encher antes de algum prestígio. O cristão é apenas um morto com Cristo que vive pela vida de Cristo, mortificando, pelo poder do Espírito Santo, os feitos da carne. Se não vêem isso, não viram nada da fé cristã.

No amor do Amado,

do velho mendigo do vale estreito, Glenio.

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migalhas para mendigos 1 – evitando a cruz

Olá, mendigos da graça!

É só para chover no molhado. No sertão, onde há pouca chuva, é sempre bem-vindo um chuvisco sobre o outro. Na secura, melhor é lamber que cuspir. Vamos lamber e molhar.

Estou deitado numa rede, sem sono, cercado de insetos atraídos pela luz do iPad, no sul do Piauí e, pensando na jornada rumo à Nova Jerusalém. A coisa está afunilando, o anjo com a trombeta me parece pronto para o toque. Prepare-se!…

Não vejo alternativa para a vida cristã, senão pelo esvaziamento. Morte para o ego, sim! Preciso desse quebrantamento radical. É imprescindível. Não vejo as mínimas condições para o esvaziamento a não ser pela cruz, levando o morrer de Jesus em nosso modo de viver, diariamente, para que a Sua vida se manifeste em nós. A morte do ego é saudável.

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Isso não é teoria, nem filosofia ou teologia especulativa. Sem a cruz em nosso ser, sendo carregada nos lombos da alma, ninguém pode seguir a Cristo de fato. Ninguém!

Precisamos, a cada instante, da revelação do Espírito e da consciência de que não somos ninguém, nem podemos nada, ainda que, por vezes, possamos ser usados por Deus a fim de realizar algumas coisas de valor em Seu reino, segundo a Sua vontade.

Todavia, é bom que se diga: essas coisas, Ele faz até mesmo usando jumentos. Por favor, não se irrite com isto, uma vez que a cruz pode dar fim cabal nesta zanga besta movido a grandeza. É só a turma do pódio que fica brava com tais comentários.

Um morto está morto, mesmo quando estiver sendo levado no caixão. Continua mortinho. Ele está morto para os louvores que lhe fazem e morto para as críticas que recebe.

“A cruz precisa ser carregada; não temos liberdade de passar por cima dela ou de evitá-la.”

Quem passa pela cruz, morre. Quem já morreu com Cristo, não vive mais para si mesmo. Não há lugar para os descendentes de Adão na casa de Abba. Eles têm que morrer.

Um morto em Cristo não tem direitos, nem privilégios, ainda que esteja de férias, não vive num picnic desfrutando de um feriado universal. “Carregar a cruz é a escolha consciente de uma alternativa dolorosa motivada pelo amor a Cristo.” Mas, se o amamos, nada será penoso para quem ama. O amor não cobra o que dá, além do que, não precisa pagar o que recebe. Conquanto, para isso, aquele que ama, precisa morrer para si mesmo.

Como dizia F. Fenelon, “Não há outra forma de viver esta vida cristã a não ser mediante uma contínua morte para o eu.” E Lutero ainda acrescenta, “Deus cria a partir do nada. Portanto, enquanto o homem não se reduzir a nada, Deus não poderá fazer nada com ele.” Só que, neste caso, ouso corrigir Lutero, dizendo: enquanto o homem não for, por Deus, reduzido a nada, Deus nada poderá fazer com ele. Senhor! reduza-nos a nada para a Tua glória. Amém.

No amor do Amado do velho mendigo do Vale Estreito, Glenio.

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Fazer, saber, ter ou ser, eis a questão.

To-Guy

Glória Àquele que se encarnou para que sejamos quem somos.

Se eu sou o que faço, então nunca faço o que sou,

porquanto o que faço jamais se transformou no que sou,

ainda que eu seja apenas uma pessoa, embora muitíssimo amada!

Se eu sou o que sei, então deveras não sei quem sou,

uma vez que, o que sei não é o que sou.

Ora, se eu não uma pessoa amada, não sei como isso se fez

em minha vida.

Se eu sou o que tenho, com certeza não tenho o que sou, pois,

se tivesse o que sou, só teria a mim mesmo como a pessoa

amada que é.

Como não sou pessoa com o que faço, nem com o que sei,

muito menos, com o que tenho, então devo me contentar em ser

pessoa com o que sou, ou seja, sendo amado pelo Único que é.

Só esse amor incondicional de Quem é, sem o menor risco de deixar

de ser, pode tornar a pessoa carente, como eu, satisfeita, sendo quem é

no amor eterno que nunca pode mudar.

Neste caso, eu sou quem sou no amor do Amado, que ama por amor

sem um motivo que não seja apenas o Seu amor, acima de qualquer

outro motivo. Veja que o amor, por uma razão que não

seja amar, não tem razão de ser chamado amor.

Na cruz o amor se revela ao encarnar-se no Ser que quer amar e

amar por amor, para que todos os amados doa amor encarnado se

percebam assim tão amados por esse amor, que a única razão de se

verem amados de fato e de verdade seja o amor que não tem outra

razão, senão amar os Seus por esse amor que não tem troca de

favores.

Aleluia! Somos amados. Basta!

Ora, se o amor for assim, então, deixe de lado o velhusco vestido

com seus trajes encarnados e olhe com atenção Aquele que se

encarnou por amor a gente com nós, carentes de afetos eternos.

Feliz Natal desse Amor encarnado e 2014 encarnando amor.

 

Do velho mendigo do vale estreito, mas amado,

Glenio.

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série do PECADO – o pecado dos pecados 1

PECADO 07

O PECADO DOS PECADOS I

(parte A)

Por isso, eu vos disse que morrereis nos vossos pecados;

porque, se não crerdes que EU SOU, morrereis nos vossos pecados.

João 8:24.

Definir um termo é sempre algo complicado, e alguns vocábulos são mais complexos do que outros. Dos termos mais difíceis de definição que encontramos no estudo da teologia, o pecado e a fé são dos principais, tanto em sua importância para a humanidade, como em sua abrangência e entendimento necessários.

A Bíblia afirma: Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram. Romanos 5:12. O apóstolo Paulo diz aqui neste texto que foi pelo homem que entrou o pecado no mundo. Mas como foi que o pecado entrou no homem? E, afinal de contas, o que é o pecado? Como podemos definir este termo?

Juridicamente podemos dizer que “o pecado designa todas as transgressões de uma Lei ou de princípios religiosos, éticos ou normas morais. Podem ser em palavras, ações (por dolo) ou por deixar de fazer o que é certo (por negligência ou omissão). Ou seja, onde há Lei, se manifesta o pecado”. Neste caso o pecado de Adão foi uma desobediência voluntária à ordem de Deus ou a quebra do pacto.

Sabemos que o homem comeu do fruto proibido depois que a mulher já havia saboreado um pedaço dele. Por que, então, ela não foi responsabilizada diretamente pela entrada do pecado no mundo? Se Eva foi quem comeu primeiro o fruto e a primeira a transgredir a ordem, qual o motivo por que ela não foi acusada de ser a causa do pecado.

Tudo indica que essa pendência está ligada ao que recebeu a ordem divina. Javé não falou diretamente com Eva, mas com Adão. Ele disse ao homem:

– De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás. Gênesis 2:16-17.

O Espírito Santo revelou ainda tempos depois, um detalhe interessante neste episódio:E Adão não foi iludido, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão. 1Timóteo 2:14. Ora, se toda transgressão às leis de Deus for pecado, por que então Eva não foi indiciada como a ré culpada e responsável pelo início do pecado na raça humana?

A acusação de Adão no processo só reforça o fato de que a ordem foi dada a ele e não a ela e que a obediência era uma matéria pessoal de fé. Eva recebeu os dados de segunda mão e não deu a atenção devida à palavra de Adão como sendo a palavra de Deus. Ainda que soubesse o que Javé havia dito, ela não deu o crédito devido à palavra de Javé.

Quando se examina este ponto, parece que o pecado não é tão-somente uma infração da lei em si mesma, mas uma contravenção firmada na incredulidade que queima invisivelmente como fogo de monturo por baixo. A ordem divina foi dada a Adão. Logo, ele era o recipiente que continha a palavra de Deus e aquele que poderia reagir com fé.

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Paulo, explicando aos romanos a manifestação da fé na experiência humana, articula com objetividade o tema, assim: a fé vem quando se ouve a palavra de Deus, Romanos 10:17, ou de um modo mais parafraseado, o surgimento da fé é uma conseqüência experimental na vida daquele que escuta na prática o que Deus está falando.

Escutar na prática significa exercitar o que se está escutando. Tiago diz que não basta ser ouvinte da palavra. A fé é o desempenho incorporado da palavra de Deus na vida do ouvinte. Fé é efeito de uma escuta atenciosa na fala de Deus, que resulta numa obediência voluntária e aprazível daquele que ouve esta palavra. Aliás, obediência por medo, interesse ou coação é vassalagem e no reino da graça não há parto a fórceps.

Javé é o Autor da fé livre e dependente dele mesmo, enquanto a sua palavra é a causa eficiente da fé. A prática bíblica sempre foi de uma vida baseada na palavra de Deus. Desde o principio o ser humano viveria somente pela fé. De fato, sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam. Hebreus 11:6.

Mas como alguém pode ter fé sem a palavra de Deus, uma vez que a fé surge do ouvir Deus falando? Ora, sem fé é impossível agradar a Deus e sem a palavra de Deus é impossível ter fé na pessoa de Deus. Desde o momento em que a fé passa a existir pelo ouvir atencioso do falar de Deus, o ouvir desatencioso dele faz surgir o oposto da fé.

Adão ouviu Deus falar, mas não deu o crédito necessário à palavra de Deus. A rebeldia é uma conseqüência da incredulidade. Antes do ato da transgressão vem a atitude de insubmissão como seqüela da descrença. O pecado é inicialmente ceticismo diante da palavra de Deus, fazendo em seguida, surgir a infração. O avesso da fé é o pecado.

Se a fé vem pelo ouvir atento e submisso do que Deus diz, a revelação progressiva no Novo Testamento mostra que o pecado é não escutar a voz de Deus por meio de Cristo Jesus. Vemos que Jesus é a encarnação do Verbo eterno e a voz humana de Javé. Viver em pecado é viver na incredulidade da palavra corporificada em Jesus.

Ouvir a Jesus na prática é viver pela fé e jamais viver no pecado, uma vez que o pecado é não crer nele. Veja o que ele disse a respeito do ministério do Espírito Santo: Quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo: do pecado, porque não crêem em mim; João 16:8-9. Segundo Jesus, o pecado é não ter fé nele.

Observando o texto que serve de base para as nossas considerações, vemos que Jesus foi muito incisivo quando disse: Por isso, eu vos disse que morrereis nos vossos pecados; porque, se não crerdes que EU SOU, morrereis nos vossos pecados. Para ele a causa da morte nos pecados ficava por conta da descrença na encarnação de Javé no Jesus histórico. Não crer no Eu Sou (Javé) é a essência do pecado.

(continua quarta-feira)

O velho mendigo do vale estreito, Glenio.

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série do PECADO 04.22 – o pecado do pecado II

PECADO 04

O PECADO DO PECADO

Jesus sabia muito bem que a vontade de Deus revelada aos homens era o padrão da vida bem-aventurada. Ele sempre se pautou pelos trilhos imutáveis desta vontade e deixou bem claro que o seu ministério se baseava no cumprimento dos propósitos de seu Pai. Eu nada posso fazer de mim mesmo; na forma por que ouço, julgo. O meu juízo é justo porque não procuro a minha própria vontade, e, sim, a daquele que me enviou. João 5:30. O Senhor não seguia suas próprias opiniões pessoais, uma vez que escolheu acompanhar o traçado delineado pela da vontade soberana do Pai. O reformador João Calvino insistia: Se queremos evitar a filosofia natural insensível, precisamos sempre começar com este princípio: tudo na natureza depende da vontade de Deus, e todo o curso da natureza é apenas o efeito contínuo de suas ordens. A vida do crente não é um passeio livre e desorientado, mas uma caminhada dirigida pelo guia habilidoso de sua fé, através da via sublime da imperiosa vontade divina.

O pecado do pecado é levar o homem a tentar prosseguir nesta vida pela sua própria vontade. Nada pode ser mais cativante para a alma, e nada pode conduzir ao maior cativeiro da alma, do que andar na sua vontade particular. Quando todas as nossas vontades são satisfeitas, nos tornamos profundamente descontentes. Quando algumas das nossas vontades são contrariadas, nos tornamos aborrecidos e abatidos. Se as vontades são todas atendidas, ficamos desgostosos, porque não temos mais desafios. Se as vontades são impedidas ficamos infelizes, porque não temos realização. Assim, podemos pensar como Christopher Nesse, se não existisse vontade, não existiria inferno. Mas Jesus colocou a ênfase da sua vontade no centro da vontade de Deus. A minha comida consiste em fazer a vontade daquele que me enviou, e realizar a sua obra. João 4:34. Segundo a Bíblia, o verdadeiro contentamento reside em viver de acordo com a vontade de Deus. O segredo da verdadeira felicidade consiste na renúncia da vontade egoísta e na submissão à vontade celestial. Então eu disseEis aqui estou, no rolo do livro está escrito a meu respeito; agrada-me fazer a tua vontade, ó Deus meu; dentro em meu coração está a tua lei. Salmo 40:7-8.

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O destaque relevante do ministério de Jesus foi sua submissão voluntária à vontade do Pai. Ele jamais pretendeu fazer alguma coisa fora dos desígnios e deliberações de Deus, e sua decisão final foi obedecer em tudo a vontade absoluta de seu Pai celestial. No momento crucial de sua existência aqui na terra, a luta em oração no Getsêmani esbarrava com esta vontade. Pai, se queres, passa de mim este cálice; contudo, não se faça a minha vontade, e, sim, a tua. Lucas 22:42. Mas ele via esta conformação com a vontade de Deus como a alternativa exclusiva de vencer toda força do pecado. Perfeitamente amoldado ao querer de Deus, o Senhor Jesus sabia com clareza, que para este mundo Deus tem planos, não problemas. Nunca ocorre pânico no céu.

Ninguém poderá ser realmente feliz fora da vontade revelada de Deus. Mesmos as coisas que achamos sem a maior relevância, se forem determinadas por Deus, devemos levar em consideração. Por exemplo:

Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns, antes façamos admoestações, e tanto mais quanto vedes que o dia se aproximaHebreus 10:25.

Pode parecer bobagem, mas se a Bíblia mostra que é importante a igreja se reunir para os seus cultos de adoração e ensino, fica muito esquisito eu optar por outra atividade mais interessante naquela mesma ocasião. Não quero ser um legalista, mas quero estar afinado com a vontade de Deus. Se a palavra de Deus afirma que se deve perdoar setenta vezes sete, posso até admitir que o número é um tanto exagerado, mas não tenho outra alternativa sem me distanciar da vontade revelada de Deus. A arrogância do pecado, o pecado do pecado ou o erro do pecado é achar que posso determinar a minha existência por aquilo que considero significativo, fora da vontade expressa de Deus revelada na Bíblia.

Mesmo as pessoas mais dignas e todas aquelas livres de qualquer suspeita moral estarão pecando gravemente se estiverem fora da vontade divina demonstrada na palavra de Deus. Deste modo, ninguém pode afirmar que não peca. Por outro lado, se deliberadamente nos encastelarmos no sentimento de rebeldia voluntária, fica muito difícil defender a nossa participação na família de Deus. É impossível o homem não pecar, mas também é impossível conciliar a vida liberta de um salvo em Cristo, com a rebeldia voluntária aos fundamentos da vontade de Deus. É só pela graça divina que o crente pode obedecer as normas da vontade de Deus. Entretanto, a obediência cristã não é nenhuma escravidão ao legalismo dominador. É apenas a sujeição voluntária à vontade de Deus, de alguém que foi liberto pela graça de Cristo.

O velho mendigo do vale estreito, Glenio.

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série do PECADO 03.22 – o pecado do pecado I

PECADO 03

O PECADO DO PECADO 

Pois todos pecaram e carecem da glória de Deus. Romanos 3:23.

Se todos pecaram, todos são pecadores. O que é um pecador? O que é pecado? Muita gente não se considera um pecador, porque tem uma concepção errada de pecado. Pecado etimologicamente significa errar o alvo. O pecado do pecado é o conceito errado que temos do pecado. Para muitos, pecado é um crime ou alguma transgressão grave. Há uma grande multidão que não se acha na condição de pecador, uma vez que esta gente é correta moralmente. Uma mulher retrucou certa vez a um pregador que a chamou de pecadora. – “Eu não sou uma fubana ou biraia qualquer. Eu sou uma mulher de respeito”. O homem não a chamou de prostituta, mas de pecadora. Entretanto, a sua concepção de pecadora esbarrava num significado vulgar.

A dificuldade em compreender o conceito de pecado gera uma atitude de descaso para um ponto que é crucial na libertação do ser humano. O pecado é uma rebeldia em relação a Deus. Não se trata propriamente de uma violação da lei moral ou uma infração de alguma norma legal. O pecado é uma atitude de independência do homem com referência a Deus. Uma das definições bíblicas de pecado é incredulidade: Tudo o que não provém de fé é pecado. Romanos 14:23b. O significado que a Bíblia oferece para a fé está ligado à palavra de Deus. Fé é crer na palavra de Deus, apesar das evidências. O apóstolo Paulo declara: A fé vem pelo ouvir e o ouvir a palavra de Deus. Romanos 10:17. Biblicamente, fé e pecado são antônimos clássicos. Adão não cometeu nenhum dolo fraudulento quando transgrediu a palavra de Deus. Ele simplesmente pecou. Pecado não é crime que nos conduz à cadeia, mas uma oposição à palavra de Deus, que nos leva ao inferno.

PECADO 03a

A altivez do coração é a base da incredulidade, e esta, o fundamento da rebeldia. Por trás da rebeldia do pecado está a descrença na palavra de Deus e no fundo da incredulidade, o desejo soberbo de ser como Deus. Nossos primeiros pais não foram delinquentes imorais, mas insurgentes espirituais da ordenança divina. Eles não violaram o código de princípios e preceitos legais ou morais, tão somente não deram crédito à palavra de Deus. Como afirmava Thomas Merton, o pecado é a vontade de fazer o que Deus não quer, de conhecer o que ele não pretende e de amar o que ele não ama. O pecado é uma revolta contra Deus que leva o homem à pretensão de se tornar independente Dele.

Todas as vezes que nos rebelamos contra a vontade de Deus, revelada na sua palavra, cometemos pecado, uma vez que o pecado é rejeição do senhorio divino e desobediência à vontade de Deus. Toda insubordinação ao espírito da palavra de Deus é pecado. O rei Saul foi rejeitado como governante do povo de Israel, em razão de sua insurreição contra as ordens do Senhor. Deus havia autorizado a morte de todos os amalequitas e de todo o seu rebanho. Todavia, Sua Alteza o rei Saul, achou que podia preservar o melhor das ovelhas e bois para o seu sacrifício e poupar a vida do seu colega de cargo, o rei Agague. Nos alicerces do pecado estão os desejos de destronamento de Deus e entronização do eu.

Nós temos uma ideia deformada com respeito à seriedade da palavra de Deus. Muitas vezes achamos que não é coisa tão grave transgredir algumas determinações do Senhor, que nos parecem não muito sensatas. Freqüentemente assumimos o controle de certas situações impondo o nosso modo de pensar e achamos que tudo vai dar certo. Mas a Bíblia nos adverte:

Não vos enganeis: de Deus não se zomba;

pois aquilo que o homem semear, isso também ceifará.

Gálatas 6:7.

E como pontuou Paul Rees, entender a vontade de Deus é meu problema; levar a efeito a vontade de Deus é meu privilégio; minimizar o valor da vontade de Deus é meu perigo. A vontade de Deus é a única régua capaz de calcular as dimensões da vida plena, pois ela é a regra singular da natureza universal.

(continua quarta-feira)

O velho mendigo do vale estreito, Glenio.

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série do PECADO 02.22 – o pecado antes do pecado II

PECADO 02O PECADO ANTES DO PECADO

(continuação)

Ora, se Deus não pode tentar a ninguém e por isso não poderá ser um tentador, e se não havia ninguém para tentar naquela ocasião, logo a tentação deste Querubim foi auto-induzida pela sua condição de criatura volitiva que desejava ser o Criador. Na multiplicação do teu comércio, se encheu o teu interior de violência, e pecaste; pelo que te lançarei, profanado, fora do monte de Deus e te farei perecer, ó querubim da guarda, em meio ao brilho das pedras. Ezequiel 28:16.

Não aceitando ser quem era como criatura, Lúcifer se propõe a ser quem por essência nunca poderá ser. Essa sua inclinação soberba o transformou em Satanás, a raiz da tentação e o tentador por natureza. A iniqüidade financiou a corretagem do negócio e a selvageria interna desencadeou a transgressão. O pecado é um ato de atrevimento pirracento proveniente de uma atitude de inconformidade arrogante.

A inveja da criatura que deseja ser o Criador acabou por convertê-la num ser maligno e astuto. Lúcifer era muito inteligente, mas pouco sábio. A inveja é a negação da providência divina e a afirmação da calamidade. A. W. Tozer dizia: “na Bíblia, há referências aos ardis e à astúcia de Satanás. Mas, quando ele arriscou-se a destronar o Todo-Poderoso, tornou-se culpado de um ato de juízo tão terrível quanto imbecil”. A loucura pela grandeza e a inveja por não ser o único são as causas da queda luciferiana.

Só Deus é o único, mas a sua singularidade não é uma só pessoa. A grandeza e beleza da Trindade é a sua unidade na pluralidade. Ter uma única vontade numa coletividade é muito maior do que ser singular sob o perfil da individualidade.

A essência do pecado é a exaltação do invejoso. Assim, nos termos de Deus, o desejo de ser independente de Deus é a matéria prima do pecado. Aquele que ambiciona o trono da Divindade cai do mais alto pedestal que alguém poderia subir. A inveja do invejoso é o veneno que o intoxica lentamente até à sua ruína. A altura, a grandeza e a glória são as plataformas mais perigosas para o desfile de uma criatura ambiciosa. Nenhum dos seres criados conseguiu passar por estas vias sem o risco do orgulho particular e o tombo vertiginoso do pecado.

Por que olhais com inveja, ó montes elevados, o monte que Deus

escolheu para sua habitação?

O SENHOR habitará nele para sempre.

Salmos 68:16.

A inveja do anjo iluminado causou um desarranjo na ordem angelical e uma hecatombe cósmica. O plano da vida invisível agora estava poluído pelos desejos arrogantes de comparação, competição, complicação, condenação e conspiração.

Elevou-se o teu coração por causa da tua formosura,

corrompeste a tua sabedoria por causa do teu resplendor.

Pela multidão das tuas iniqüidades, pela injustiça do teu comércio,

profanaste os teus santuários.

Ezequiel 28:17a, 18a.

A atitude de insatisfação promoveu o ato de inobediência que vazou numa anarquia egoísta e universalmente interesseira. A oposição torna-se um fato na criatura volitiva. Se não sou o Criador, agora eu tenho o direito de não me conformar em não sê-lo, pois há um selo de rebelião instaurada no Cosmo. O Criador não criou a rebelião do pecado, mas criou um ser que não sendo o Criador quis ser igual a ele sem poder ser, já que era uma criatura. E querendo ser o Criador sem poder ser a causa não causada, acabou sendo a causa maligna de todas as causas que causam o mal no seio das outras criaturas que podem querer ser algo que não são.

Foi assim que o pecado entrou na raça humana. Deus criou Adão como homem e lhe deu uma vontade capaz de decidir. Uma criatura só será livre e responsável se puder deliberar aceitando sua condição de criatura, ou não se conformando com esta categoria.

Toda decisão exige alternativa. Se não houver opção não haverá liberdade e se não houver deliberação não existirá inocente nem culpado. Se não tenho escolha não tenho livre-arbítrio. Se me falta a capacidade de arbítrio, falta-me a competência para escolher e se estiver ausente a possibilidade de optar, então não serei livre nem responsável.

O Criador deu a Adão a condição de ser homem e a liberdade de aceitar esta característica humana ou não se afeiçoar à sua humanidade. Com estas qualidades, o Criador apresentou o cardápio para estabelecer a preferência.

E o SENHOR Deus lhe deu esta ordem: De toda árvore do jardim comerás livremente,

mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás;

porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás.

Gênesis 2:16-17.

Diante da alternativa a decisão pode ser tomada. A diferença entre o pecado de Lúcifer e o pecado de Adão é que o primeiro foi sem tentação externa, mas inerente ao próprio ser inconformado com o que era, enquanto o segundo foi consumado pela tentação do tentador que despertou no gênero humano o desejo de ser como Deus. Assim o pecado de Lúcifer é uma aversão ínsita e endógena, isto é, incitada e gerada pelo ser da própria criatura, mas o de Adão foi por sedução exterior. Todavia os resultados são sempre os mesmos, morte ou separação de Deus. O diferencial neste caso é que para a raça humana há recurso através da encarnação do Verbo divino. O Deus-Homem pode desfazer na cruz o que Satanás incorporado na serpente fez no Jardim. O pecado no plano espiritual não tem acordo. O inferno foi preparado para o Diabo e os seus anjos. O pecado no terreno da carne tem o seu Cordeiro expiatório.

No dia seguinte, viu João a Jesus, que vinha para ele, e disse:

Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!

João 1:29.

O pecado antes do pecado é a inveja, o orgulho e a arrogância de ser o que não é, e, ao mesmo tempo, agir por conta própria como se fosse Deus. O pecado depois do pecado é a tentação teomaníaca que nos leva a presunção da independência de Deus, tentando-nos como se fôssemos deuses. O pecado anterior não tem Salvador nem salvação. O pecado posterior tem a manifestação do Deus que se fez Homem para libertar o homem que aposta ser como deus, assumindo o controle de sua existência. Graças ao Pai pela encarnação do Filho e pela revelação do Espírito Santo na vida dos seus filhos, que foram salvos da condenação do pecado, estão sendo salvos do poder do pecado e serão salvos da presença do pecado. Aleluia.

O velho mendigo do vale estreito, Glenio.

série do PECADO 01.22 – o pecado antes do pecado I

PECADO 01

O PECADO ANTES DO PECADO

Perfeito eras nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado até que se achou iniquidade em ti. Ezequiel 28:15.

Tudo o que Deus criou era perfeito. Elohim é o nome do Criador que jamais será uma criatura. Este nome é o plural da Divindade. A Bíblia aponta para um Deus triúno ou o ser coletivo do Divino. Deus é único, mas não é solitário, além de ser eternamente solidário. A Trindade é o plural das vontades e o testemunho de uma unidade governamental. Há um só Deus manifesto em três pessoas vivendo um só propósito. O Deus trino, se bem que triúno, nunca foi criado. Se ele fosse criado não seria Criador e sim criatura. A causa que tem causa nunca será uma causa não causada.

Ora, se não houver a causa que cause tudo sem que tenha uma causa que lhe tenha causado, então não haverá o Criador, pois tudo será criatura, já que toda causa tem a sua causa. Elohim é a causa sem causa e o Criador de tudo. Sendo ele perfeito como Criador só poderia criar uma criatura perfeita, como criatura. Mas a criatura perfeita, dotada de vontade própria, poderia querer ser como o Criador. Ela nunca poderá ser o Criador, pois ela é de fato uma criatura, embora possa desejar ser como o Criador.

O Criador será sempre o Criador, uma vez que, por necessidade ontológica, isto é, do ser enquanto ser, neste caso, o ser Criador não poderá ter causa, e ainda, por imperativo lógico, é uma causa sem causa causando todas as causas, pois se tivesse alguma causa seria uma criatura causada e não o Criador causador.

Por outro lado, a criatura sempre será criatura, já que é uma causa causada e não a causa causadora. Contudo, a criatura em sua presunção conta com a chance de se apresentar na pretensão de equivalência ao Criador. Mesmo sendo uma criatura, ela tem a faculdade de ambicionar ser como o Criador.

Antes da concepção do átomo houve a criação sem retoque do mundo imaterial. A realidade espiritual precede a realidade física. Os seres angélicos foram criados primeiro do que a matéria. Deus evidenciou uma ordem de tronos antes de criar a ordem dos elétrons, prótons e nêutrons. A existência incorpórea vem antes da mecânica quântica.

Na hierarquia da organização espiritual foi criado um Querubim guardião dos arranjos celestiais, um ente luminoso cheio de sabedoria e formosura. Entretanto, este ser denominado de Lúcifer, movido por sua ambição pessoal e não satisfeito em ser criatura, tenta escalar o trono do Criador e assentar-se como Deus. Tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu; acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono e no monte da congregação me assentarei, nas extremidades do Norte; subirei acima das mais altas nuvens e serei semelhante ao Altíssimo. Isaías 14:13-14. Sua ideia é subir, ascender, exaltar-se.

Este personagem angélico lindo e pleno de predicados foi criado perfeito como criatura, mas ele não era o Criador. Como já vimos e por exigência ôntica, isto é, do ser em si mesmo, só o Criador não tem causa. Mas Lúcifer não aceita a sua condição de criatura e quer ser o Criador.

Além do que este assunto é também difícil de entender. Como um ser perfeito, vivendo num ambiente perfeito em companhia de seres perfeitos poderia ficar insatisfeito em ser o que era? Parece que o problema encontra-se na vontade. Ele ficou inconformado por ser uma criatura e quis ser o Criador. Ele foi criado como um Querubim de alto nível, mas quer ser o Criador Supremo e a causa de todas as causas.

Uma criatura perfeita querendo ser a perfeição do Criador triúno faz aparecer em si mesma a iniquidade, ou seja, o inconformismo de ser o que é querendo ser o que nunca será de fato, a ponto de se insurgir e comandar uma rebelião que arrastou um terço dos anjos.

A sua cauda arrastava a terça parte das estrelas do céu, as quais ele lançou para a terra; e o dragão se deteve em frente da mulher que estava para dar à luz, a fim de lhe devorar o filho quando nascesse.

Apocalipse 12:4.

Antes de haver o ato de rebeldia, Lúcifer fez nascer e cultivou uma atitude arrogante de insatisfação ingênita, isto é, gerada por ele próprio e em si mesmo, que desencadeou a obstinação hostil de uma criatura inconformada e incontida. Esta pose atrevida pode ser designada como o princípio da iniquidade e a madre enrustida do pecado. Antes do seu ato de oposição houve um anseio de auto-coroação e independência do Criador.

A Bíblia é categórica quando afirma que o pecado surgiu em razão de uma tentação e que esta nasce dos desejos incontroláveis do ser tentado: Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta. Ao contrário, cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz. Então, a cobiça, depois de haver concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte. Tiago 1:13-15.

(continua quarta-feira)

O velho mendigo do vale estreito, Glenio.

feridas que nunca saram (parte 2)

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Perdoar é um imperativo da salvação e uma expressão categórica do amor liberto de regras, que nos salvaguarda de qualquer conduta determinada pelo dever. Uma vez libertos da tirania do ego, pela nossa morte e ressurreição com Cristo, ganhamos a condição de vivermos fora de comportamentos predeterminados e esperados por legalistas de plantão, a fim de manifestarmos a vida de Cristo, como o padrão de nosso viver.

Aquele que perdoa, motivado pela vida de Cristo em seu ser, pode conviver com o seu agressor, se isto for para a glória do Pai; bem como, viver distante, longe, fora do seu relacionamento, se também for para a mesma glória do Pai.

A questão básica agora, não é o nosso bem estar em si mesmo, mas a glória daquele que nos libertou de qualquer camisa de força. A norma que conduz a conduta cristã sempre será:

Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus.

1 Coríntios 10:31.

O pecado nos destituiu da glória de Deus, porém a salvação nos converteu para o centro desta glória Divina. Nós não vivemos mais para a nossa própria glória, uma vez que fomos regenerados para glorificar Aquele que nos aceitou integralmente pela sua graça.

Nenhum cristão é compelido a perdoar. Não há perdão a fórceps e ninguém é forçado a indultar. Na verdade, todo cristão foi gerado pelo Pai, para perdoar como o Pai. Se eu não perdoar de fato, primeiramente, estou assegurando que não sou filho de Deus; depois, me torno um prisioneiro de profunda amargura, e as minhas feridas nunca saram.

Alguns dizem que já perdoaram, mas não conseguem esquecer. Quero apenas lembrar a estes que assim pensam: esquecer como ausência de memória, talvez só por Alzheimer. Podemos rememorar os fatos, o que não podemos é lembrá-los com azedume. Precisamos, antes de tudo, ser desintoxicados da reminiscência amargurada.

O problema real não se encontra na lembrança em si mesma, mas na lambança fermentada pelos sentimentos purulentos da infecção do individualismo. O ego ferido costuma se transformar numa pústula segregando o pus da arrogância fétida, que contamina todos que estiverem por perto. A alma dolorida é malcheirosa; supura e dá asco.

Sem o perdão custeado pela graça de Cristo de modo irrestrito e unilateral, as feridas nunca saram e o seu contágio pela baba que escorre da boca que geme, acaba infectando a família, os conhecidos e até os que se propunham a ser amigos, que aos poucos, vão saindo de fininho para não ficarem contaminados e aleijados.

Cruz

O perdão é imprescindível para a boa saúde. Conversei com um amigo, alcançado agora pela graça depois de uma traição familiar, que me contou: “a pior coisa que fiz foi falar mal da minha ex-esposa após a nossa separação sofrida”. Enquanto ele mantinha a dor da infidelidade como álibi do seu vitimismo, desabafava a peçonha da amargura e se contorcia em desgosto na tentativa de expiar a sua vingança.

Só o perdão pode sarar as feridas abertas. Apenas o perdão total pode conceder o verdadeiro arrependimento. Então, alguém me pergunta se Deus perdoou a todos em Cristo. – Sim, com certeza, o perdão de Deus é ecumênico. Ela continua a indagar: por que, pois, as pessoas que foram perdoadas, não se arrependem todas?Quando, pela graça de Deus, ele pode liberar o perdão, as coisas mudaram. Vejo agora na sua vida um sopro de amor que só pode vir do trono do Pai. A pessoa que não perdoa vive, aqui, num inferno, infernizando os outros e sem esperança de alcançar o céu.

Esta é uma tese teológica que também traz, pelo menos, duas respostas modelares. Alguns dizem que é uma questão da eleição divina. Se a pessoa é eleita por Deus, então ela se arrependerá. Outros sustentam que isto depende só da vontade do sujeito.

Acredito que há um mistério no assunto que envolve as duas partes. Não creio na eleição fatalista que escolhe alguém para a perdição, embora creia na eleição em Cristo para a salvação, que implica na decisão responsável daquele que foi vivificado pelo poder da pregação da Palavra de Cristo. Urge um milagre de vivificação antes da conversão.

mysterium fidei ou o enigma da fé ainda continua sem um esclarecimento por se tratar de um assunto não revelado: As coisas encobertas pertencem ao SENHOR, nosso Deus, porém as reveladas nos pertencem, a nós e a nossos filhos, para sempre, para que cumpramos todas as palavras desta lei. Deuteronômio 29:29 .

Aliás, o que se sabe de verdade é que um perdoado, que não se considera arrogantemente como se fosse Deus, arrepende-se; e, arrependido de fato, perdoa e fica curado. Amém.

 O velho mendigo do vale estreito, Glenio.

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feridas que nunca saram (parte 1)

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Do ponto de vista de Deus, quem vem primeiro no processo da salvação: o arrependimento ou o perdão? Esta é uma questão fundamental que tem, pelo menos, duas respostas correndo pelos corredores da investigação teológica.

Os estudiosos, de tendência humanista, acham que o perdão é fruto do arrependimento. Você precisa se arrepender primeiro, para que seja perdoado depois.

Neste caso, eles fazem do arrependimento uma espécie de penitência ou, melhor dizendo, uma moeda de troca. Se você fizer a sua parte, então Deus fará a dele. Você será perdoado, desde que se arrependa do seu pecado antes da concessão do perdão.

Esta é uma corrente muito apreciada pela meritocracia humana. As pessoas ‘nobres’ se veem participantes e diretamente responsáveis pelo perdão, com uma parcela notável de contrição pessoal, valorizando a consternação como se fosse sua contrapartida no negócio que envolve a salvação dos seus pecados.

Por outro lado, para os investigadores bíblicos que têm a graça como o pressuposto básico e essencial para a crença cristã, o arrependimento é consequência do perdão. Nós nos arrependemos porque fomos perdoados graciosamente por Deus.

Segundo esta turma graciosa, é a bondade de Deus que nos concede o arrependimento.

Ou desprezas a riqueza da sua bondade,

e tolerância, e longanimidade, ignorando que a bondade de

Deus é que te conduz ao arrependimento?

Romanos 2:4.

Estes crentes no evangelho da graça plena percebem que o perdão é uma ação graciosa e incondicional de Deus, que antecede todas as reações espirituais humanas, e acaba, no final das contas, constrangendo o pecador a se arrepender por pura gratidão. O perdão gracioso gera sempre um arrependimento grato.

Como disse Alice Clay, “nada neste mundo vil e em ruínas ostenta a suave marca do Filho de Deus tanto quanto o perdão”. Foi nesse juízo que Alexandre Pope concluiu: “errar é humano – perdoar é divino”; logo, a anistia libera a culpa e gera arrependimento.

Ora, se não mereço e sou absolvido da culpa pelo sacrifício de Cristo em meu favor, então, só tenho que considerar este amor furioso e apaixonado como a causa capaz de me convencer da minha rebeldia, concedendo-me o arrependimento, graciosamente.

Esta posição me cativa ao extremo, pois vejo sempre em minha vida uma incapacidade total de corresponder ao favor imerecido. Por falar nisso, quero ressaltar aqui e agora: favor merecido me cheira a comércio, negociata, troca ou até mesmo, a favorecimento movido por admiração. Há, neste caso, algumas vantagens rolando pela esteira.

Se a obra de Deus for realmente pela graça plena, como creio que é, então, o perdão antecederá, obrigatoriamente, ao arrependimento. Sendo assim, somos perdoados imerecidamente e nos arrependemos do pecado por misericórdia e graça de Deus.

Portanto, se fomos perdoados graciosamente pela graça do Pai, temos também neste formato gracioso o modelo existencial do nosso perdão. “Quem de graça foi perdoado, pela mesma graça perdoa”. No reino espiritual é comum a genética do Pai se manifestar essencialmente na conduta do filho.

Aliás, podemos dizer, espiritualmente falando: “tal pai, tal filho”. Ou; os que não perdoam são filhos do Diabo, que, como cobra, sempre cobra e de contínuo se vinga. Enquanto isso, os filhos de Abba estão permanentemente dispostos a perdoar pela operação eficaz do Espírito Santo, tal como o seu Pai.

Todos os que foram perdoados pela graça, foram ao mesmo tempo, transformados em instrumentos vivos de perdão. Suportai- vos uns aos outros, perdoai- vos mutuamente, caso alguém tenha motivo de queixa contra outrem. Assim como o Senhor vos perdoou, assim também perdoai vós. Colossenses 3:13.

Ninguém vive neste mundo sem trombadas, contusões e feridas; por outro lado, nenhum cristão verdadeiro permanece com a ferida sangrando. Não podemos evitar as lesões, embora possamos, pela graça do nosso Pai, perdoar os agressores.

“Não é possível haver saúde mental e espiritual sem que haja perdão verdadeiro e total”. Diante desta frase, alguém me perguntou: o perdão implica no convívio com o agressor? Não, necessariamente. O perdão implica, sim, na absolvição do agressor, para que o próprio agredido não se torne uma ferida que nunca sare.

Mas isto, não significa uma convivência obrigatória com aquela pessoa que o feriu. Não há compulsão para quem se tornou livre pelo amor incondicional de Deus.

(continua quarta-feira)

O velho mendigo do vale estreito, Glenio.

inimigos da cruz de Cristo II

31

(continuação final)

Terceiro: a glória deles está na sua infâmia. Se há um fulgor que se realça no procedimento dos inimigos da cruz de Cristo é o investimento na desonra dos outros. Os oponentes do evangelho vivem saboreando o prato podre da vergonha alheia. Eles se estimulam com as fofocas e se nutrem das sujeiras que gostam de destacar. Como abutres, apreciam a carniça e se deleitam naquilo que causa embaraço e infâmia em alguém.

Uma vez que o evangelho se agrada em cobrir com amor as feridas da vergonha, os contrários às boas notícias se especializam em espalhar o seu mau cheiro por todo lugar. O ódio excita contendas, mas o amor cobre todas as transgressões. Provérbios 10:12.

Uma das peculiaridades do evangelho é garantir com amor a decência do humilhado. Não se trata de encobrir o pecado alheio, mas de assumi-lo como sendo seu, enquanto avoca para si a dívida do devedor. Acima de tudo, porém, tende amor intenso uns para com os outros, porque o amor cobre multidão de pecados. 1 Pedro 4:8.

É bom ressaltar. Não é encobrir o pecado, mas cobri-lo. Não se trata de ocultação de cadáver, mas de tomar a dívida do culpado, pagando-a como se fosse sua própria dívida. Foi assim que o nosso Senhor Jesus Cristo fez conosco.

A glória dos inimigos da cruz de Cristo visa detonar a imagem dos trôpegos, tornando-os motivo de escândalo perante os outros. Os humanistas se aperfeiçoam num moralismo esnobe e numa religiosidade mascarada, para, em seguida, deslustrar todos os que pisam na bola. Eles se vangloriam com o fracasso dos outros.

Quarto: só se preocupam com as coisas terrenas. Se você quiser reconhecer um inimigo da cruz de Cristo na igreja, veja a sua ênfase. A sua agenda enfoca apenas os assuntos relacionados com o aqui e o agora. Eles são terrenos e vivem enterrados com as preocupações das coisas que o fogo vai consumir. Só pensam nos eventos perecíveis.

Essa mentalidade rasteira valoriza somente os tesouros do chão. Para eles o patrimônio econômico é mais importante do que os bens eternos. O dinheiro da “igreja” vale mais do que a salvação de uma alma. O saldo da conta bancária na terra tem mais significado do que os depósitos em pessoas, enviados para o “banco celestial”. Eles não aquilatam a estima que Abba nutre pelas pessoas carentes e perdidas.

Os inimigos da cruz de Cristo, que andam entre nós, são humanistas de carteirinha, gente de bons antecedentes criminais, mas também, são os mentores da não pregação do evangelho de Cristo crucificado. Eles procuram impedir a proclamação da nossa morte e ressurreição com Cristo, e, quando não conseguem, adaptam a mensagem usando uma linguagem semelhante, enquanto boicotam os pregadores nos bastidores.

Com disse anteriormente: não basta pregar a mensagem correta de Cristo crucificado. É preciso ter também o espírito de um crucificado. O discurso da cruz deve ser seguido pelo curso de uma vida que traz as marcas da co-crucificação. A teologia certa da cruz de Cristo carece da certeza de que fomos realmente crucificados com ele.

Os piores inimigos da cruz de Cristo estão no seio da igreja. O mundo é um adversário ferrenho da pessoa de Cristo, enquanto os falsos cristãos são os inimigos ferozes, mais persistentes da obra de Cristo, embora, permaneçam disfarçados como discípulos.

O apóstolo disse que eles eram muitos, quando a população do mundo era pequena e os números da igreja bem menores do que agora. Não vamos subestimar a taxa nos dias de hoje. Acredito que temos uma multidão incalculável dos inimigos da cruz de Cristo convivendo com santos na igreja contemporânea. Por isso mesmo, precisamos de cuidado e acuidade espiritual para podermos não entrar no seu jogo.

A visão espiritual desta comunidade é: Conhecer a Cristo crucificado e fazê-lo conhecido em todo o lugar por meio da graça. Não podemos nos intimidar com as pressões, nem deixar por menos esta mensagem. Que o Senhor nos dê intrepidez para anunciar com toda ousadia a sua morte e ressurreição, bem como, a nossa morte e ressurreição juntamente com ele, no espírito de humildade e mansidão do próprio Cristo.

Rogo, pelas misericórdias do Pai, para que não percamos de vista a ênfase divina na pessoa de Cristo e na sua obra graciosa realizada na cruz. O humanismo, com todas as suas táticas satânicas, vai sempre, disfarçado, disputar um lugar no seio da igreja, promovendo algo semelhante ao cristianismo e trazendo muita confusão na vida dos ingênuos e desavisados. Quem tem ouvidos [para ouvir, ouça. Mateus 13:9. Amém.

o velho mendigo do vale estreito, Glenio.

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