espírito da cruz 62 – entre cordeiros e lobos

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Um cordeiro, à margem do regato, bebia sossegado, quando apareceu um lobo um pouco acima, reclamando da água turva. Sem saber como poderia tornar lamacenta a água, o cordeirinho, surpreso, contesta a possibilidade, já que encontrava-se a abaixo.

O fato deixou o lobo sem argumento, e, logo procurou outro pretexto.

– Então, foi no ano passado.

– Como? Eu nem era nascido.

– Com certeza foi seu irmão, insiste o lobo.

– Mas eu não tenho irmão, retruca o cordeiro.

– Ah! Agora sei, foi seu avô.

Esta velha fábula de Esopo reflete a motivação das intrigas. Temos que achar a mola que estimule nossas impertinências. Os lobos sempre serão inimigos de cordeiros e, muitas vezes, sem razões, acharão uma razão irrazoável para arrasar o rebanho. Nesse mundo do “homo lupus homini” – em que o homem é o lobo do homem, a coisa é similar.

Há dois tipos de seres humanos: os lupanóides e os cordeiríneos. Os primeiros são descendentes do velho lobo, que mata, rouba e destrói, enquanto o outros procedem da geração do Cordeiro imolado no Calvário. Lobos jamais se dão com cordeiros.

O lobo e o cordeiro não pastam juntos. A comida de lobo é carne sangrando; a dos cordeiros, é a relva verdejante junto às águas de descanso. O menu define o apetite. Sabe-se que um lobo pode vestir-se de ovelha, mas o seu cardápio não muda. Ele nunca come feno. A malícia faz parte de sua refeição. Os lobos são cruéis na sua carnificina.

Jamais ouvi falar de cordeiros que tivessem prazer em carnalidade. E quando deram farinha de osso aos bovinos e ovinos, gerou a doença da vaca louca. O Pão nosso de cada dia é o único alimento do rebanho do Altíssimo. Nunca soube de um cordeiro se restaurando em alguma carniçaria, pois as ovelhas de Deus se alimentam de Cristo.

A única carne que comem é a de Cristo e o único sangue que bebem é o de Cristo. A vida é Cristo. O pão é Cristo. O vinho é Cristo. A meta é Cristo e somente Cristo.

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Quando vejo lupanóides, no meio do redil, disfarçados de ovelhas e, dando a entender que podemos comer algo além de Cristo, me assusta ver cordeiríneos, jovens, abanar o rabo em sinal de aprovação ao cardápio do humanismo. Temo que assim como a serpente enganou a Eva com a sua astúcia, muitos sejam corrompidos na mentes e se apartem da simplicidade e da pureza devidas a Cristo.

Os lobos querem perturbar o rebanho com afirmações que subtraem de Cristo a sua suficiência. Todos nós temos que estar bem vigilantes, pois satanás usou Pedro para retirar Jesus da via Crucis. Não restam dúvidas que todos nós estamos sujeitos aos ardis do engano. Por isso, precisamos ter os ouvidos atentos a todo sibilo do humanismo no seio da igreja. Se conhece a ovelha de Cristo, não tanto pelo berro afinada, mas pela lã lanosa do amor revelado por Cristo.

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.

espírito da cruz 9 – calar ou falar

Vou insistir nesta migalha com o que disse Matthew Henry: “Um leão na causa de Deus precisa ser um cordeiro em sua própria causa.” Se faço apologia feroz no que diz respeito ao Reino de Deus, sou um advogado, sem causa, no que me diz respeito.

Acredito que o espírito da cruz não signifique paspalhice ou covardia, quando a defesa são os princípios eternos do Evangelho. Mesmo assim, não precisamos ser do tipo agressivo ou mesmo guerrilheiro, mas, também, nada de passividade aqui. Mansidão fala do desapego dos bens pessoais, nunca, porém, do descaso como o Reino de Cristo.

O mártir é como um cordeiro em sua defesa, mas como um leão firme em seu testemunho da mensagem do Evangelho. Falando de si é dócil, embora ruja ao pregar a mensagem inegociável de Cristo. Não se importa consigo, mas importa-se com sua fé.

Alguém disse que um cristão não se defende, nem reivindica seus direitos, mas não se cala quando tem que anunciar a Cristo e os seus propósitos. Ele nada tem para se justificar, já que foi justificado, por Cristo, contudo, nada justifica o seu silêncio diante das injustiças neste mundo destoante dos princípios do Evangelho.

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O espírito da cruz não é a fragilidade ou a timidez diante da perseguição cruel no mundo, do mesmo modo, que não é uma guerrilha por causa dos valores ligados aos interesses pessoais. Quem já foi crucificado com Cristo não tem o que requerer para si, muito menos, o medo da morte. “O que faz um mártir não é o sangue, mas a causa“.

Calar, quando se devia falar pode ser tão prejudicial, quanto falar, quando se devia calar. O espírito da cruz nos mantém adequados nas duas posturas. O silêncio, no momento oportuno, é tão contundente como o discurso que não pode ser calado. Tudo vai depender da condução e da motivação determinada pelo trono da graça.

Foi o ilustre poeta inglês cego, John Milton, quem viu com clareza: “Os mártires abalaram os poderes das trevas com a força irresistível da fraqueza“. Porque viveu a sua vida sem a luz do sol, podia entender o que são as trevas. Quando vivemos na fraqueza é que podemos ver o poder de Deus capaz de abalar as estruturas das ogivas nucleares.

Gosto de pensar que a “fé é o meio pelo qual as fraquezas do homem tomam posse da força de Deus”. Se eu nada posso, mas, pela graça, me aproprio do pleno poder do Altíssimo, então, me torno onipotente dentro de Sua vontade. Ninguém e nem qualquer coisa pode fazer coisa alguma, fora da permissão divina, na vida dos que confiam n’Ele.

Senhores Mendigos, quem pode destruir uma vida que foi alcançada pelo amor do Abba? Citei, recentemente, em um velório, o que alguém disse: “A morte não passa de um incidente físico em uma carreira imortal.” Se nós ganhamos a revelação do alto de que temos a vida eterna, quem nos matará?

 

No amor do Amado,

do velho mendigo do vale estreito, Glenio.

série do PECADO – o pecado dos pecados 3

PECADO 11

O PECADO DOS PECADOS III

(parte hum)

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No dia seguinte, viu João a Jesus, que vinha para ele,

e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!

João 1:29.

As Escrituras descrevem que o pecado entrou no mundo através de um homem. Penetrou na raça humana por meio da incredulidade de Adão diante da palavra de Javé Elohim. Contudo, no mesmo instante em que João Batista viu Jesus, teve a revelação de que se encontrava diante daquele que veio como o Cordeiro de Deus, a fim de tirar o pecado do mundo.

Já vimos em estudos precedentes, que o pecado é antes de tudo a descrença perante a palavra de Javé Elohim. A transgressão da ordem Divina só foi possível porque Adão não creu na ordem que lhe fora dada. O ato de desobediência foi antecedido por uma atitude de incredulidade.

Ressaltamos, também, que Jesus definiu o pecado como sendo ausência de confiança em sua pessoa. Para Jesus o pecado é não crer nele. (João 16:9). Entendo que esta é a definição mais ajustada de pecado que temos na Bíblia. Primeiro, porque esta acepção dimana daquele que fez o ser humano. Segundo, porque as outras se explicam por meio desta.

A incredulidade subjetiva envolvendo a pessoa e a palavra de Javé Elohim é a causa objetiva da iniquidade, da transgressão ou desobediência, da rebeldia, da omissão, bem como de todas as atitudes e de todos os atos pecaminosos de um ser finito e presumivelmente autônomo. Como afirmou Stephen Charnock, “a incredulidade foi o primeiro pecado, e o orgulho, seu primogênito”.

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Ora, se a descrença ante a palavra de Javé Elohim é o pecado dos pecados, então a fé em Jesus e sua obra, fé essa, produzida através da palavra viva de Aba, apregoada pela graça no poder do Espírito Santo é a salvação do pecado e o triunfo sobre os pecados na vida dos filhos de Deus.

Quando Javé Elohim se encarnou no Jesus histórico ficamos diante da dimensão humana da Divindade e diante do mistério inexplicável da fé, onde Deus e o Homem convivem reunidos numa mesma pessoa. Deste modo, assim como Adão teve a chance de crer na palavra de Javé Elohim diante daquela árvore, nós também a temos na presença da pessoa e obras de Jesus.

Certa ocasião, quando Jesus explicava o problema da incredulidade e rebeldia do mundo contra ele, disse algo muito interessante em relação aos seus feitos:

Se eu não tivesse feito entre eles tais obras, quais nenhum outro fez, pecado não teriam; mas, agora, não somente têm eles visto, mas também odiado, tanto a mim como a meu Pai.

João 15:24.

Qual a afinidade entre as obras que Jesus realizou e a existência do pecado? Como é que os judeus contemporâneos de Jesus não creram em Jesus diante dos seus feitos inigualáveis?

A obra que Jesus realizou entre eles ninguém conseguiu realizar antes dele. Nem Moisés, nem Elias, nem qualquer dos profetas fizeram algo parecido com o que Jesus fez no meio do seu povo, mas, mesmo assim, eles não creram nele. Se Jesus não tivesse feito o que fez, eles não teriam o problema com a incredulidade, mas agora não havia desculpa. Deus estava entre eles realizando feitos notáveis, contudo não puderam crer ou não quiseram crer.

A fé é um assunto ligado unicamente à pessoa de Javé Elohim, seus atos e a sua palavra. Fé não é um sentimento, nem uma explicação lógica. Apesar da fé não ser ilógica, nem irracional, ela transcende à compreensão humana, ultrapassando todas as evidências dos sentidos.

Há três tipos de gente no mundo: os caçadores de sinais, os pesquisadores alucinados e ensoberbecidos, e os crentes. Visto como, na sabedoria de Deus, o mundo não o conheceu por sua própria sabedoria, aprouve a Deus salvar os que creem pela loucura da pregação. Porque tanto os judeus pedem sinais, como os gregos buscam sabedoria; mas nós pregamos a Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os gentios; mas para os que foram chamados, tanto judeus como gregos, pregamos a Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus. 1 Coríntios 1:21-24.

Jesus fez sinais inéditos na presença da sua raça encachaçada por prodígios. Os judeus viram estes portentos incomuns, mas ao invés de crerem em Jesus, eles passaram a odiá-lo, além de odiarem a seu Pai. Eles não conseguiam enxergar além das evidências, pois viviam no pecado. Neste sentido, viver no pecado é conviver com a incredulidade. O perímetro do pecado é o ateísmo prático, o ceticismo birrento, a dúvida pirrônica e a descrença soberba.

(continua…)

O velho mendigo do vale estreito, Glenio.

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