espírito da cruz 63 – eu peco e Deus me pega

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O ser humano caiu por sua própria conta e permanece caído, em sua natureza, indo para a condenação eterna por sua inteira responsabilidade. Mas se alguém for salvo, será apenas pela graça de Deus. A queda é nossa. A salvação é divina.

Deus não criou o homem para que caísse, ainda que a queda já fosse prevista, pois, o Cordeiro havia sido imolado deste a fundação do mundo. Adão caiu por sua conta própria e nunca por pre-determinação divina. Deus não é o promotor da queda, contudo, é o único autor da salvação.

O desastre é nosso. A restauração é dEle.

O ser humano quando caiu, caiu totalmente. Não há nada no pecador que não esteja essencialmente depravado e espiritualmente morto. O homem natural, morto, pelo pecado, não quer e nunca buscará a Deus. Ele está desconectado de qualquer interesse por Deus. Mas, se ele vier a busca-Lo, é porque foi vivificado por Deus, para tal.

A vivificação operada pelo Espírito Santo num morto espiritual caído, antecede a sua reação espiritual. É milagre divino ter vida espiritual capaz de se voltar para Deus. A alma pode ter alguns sentimentos semelhantes às reações espirituais, mas nada disso é espiritual, de fato. As emoções podem até acompanhar a fé e o arrependimento, embora as emoções sejam meros produtos da alma e nunca da vida espiritual.

Na vida espiritual não se sente, se crê. Não funciona na terceira dimensão, mas no plano invisível e eterno. Se não formos vivificados antes, pelo Espírito de Deus, jamais poderemos nos manifestar no âmbito espiritual. Não há fé salvífica na terceira dimensão, nem arrependimento de si mesmo, num homem incrédulo. É puro milagre.

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A fé e o arrependimento são, antes de tudo, graças divinas, mas, também, são reações espirituais das novas criaturas. São, ao mesmo tempo, dons de Deus e respostas responsáveis do novo homem. São presentes da graça e graciosos deveres dos filhos de Deus. São sementes plantadas do céu, que nascem em busca do céu.

Se nós não temos fome espiritual é porque não temos vida espiritual. Se temos apenas curiosidade do transcendente, isto não significa que fomos vivificados. Uma mera curiosidade é da alma caída, mas a fome espiritual é do espírito vivificado. “Se houver em nossa vida qualquer coisa mais desejável do que o anseio por Deus, então, ainda não foi implantada em nós a vida espiritual”. Podemos ser religiosos, nunca filhos do Altíssimo.

Mendigos, não confundam os sentimentos da alma com o entendimento que é produto da palavra pelo espírito vivificado. O velho homem é servo do pecado e tudo nele cheira morte. Não há vida espiritual num bebê caído e, se alguém reage, espiritualmente, é porque foi regenerada pelo Espírito Santo. Não há resposta espiritual em uma pessoa que não nasceu do alto. É isto, e tenho dito.

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.

espírito da cruz 49 – graça soberana

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Muitos acreditam que graça é Deus fazendo uma parte e o ser humano a outra. Que Deus pode até fazer a maioria, mas a pessoa caída tem que fazer a sua parte. Essa é a opinião de muitos, contudo, a definição de graça, que mais fala ao meu coração, é:  – Deus dando e fazendo tudo a quem nada merece, nem tem condições de merecer.

Se a graça for 100% do agir de Deus, então, 100% de nossa reação será 100% pela graça. Não é que não reajo, porém, quando reajo, reajo movido 100% pela graça.

A questão é: se eu antes não buscava a Deus e agora o busco, se não o queria e agora o quero, o que me fez mudar de opinião? – Se minha vontade não o desejava, por que o deseja agora? Eis a questão. Como um morto espiritual pode ter vida espiritual?

Qual é a vontade do feto na sua formação e qual é a parte de um morto na sua ressuscitação? A criança é gerada e gestada sem a menor expressão do seu querer e as pessoas que Jesus ressuscitou não tiveram qualquer contribuição nisso.

O novo nascimento não é mera resposta humana ao propósito Divino, mas um milagre da graça na vivificação de um morto espiritual. Antes de qualquer resposta de um escolhido, ao chamado divino, ele precisa ser vivificado pelo poder da Palavra.

Sabemos que muitos são chamados, mas poucos escolhidos. Sabemos que a proclamação é universal, mas a fé é particular, dependente 100% da graça, uma vez que, não há nada num ser caído, totalmente perverso e morto espiritual que o credencie a crer.

A vida precede às reações do ser vivo. A criança precisa ser gerada antes dela reagir com os instintos de ser humano. A vida espiritual antecede às respostas espirituais. Primeiro, a Palavra gera vida espiritual, para que o gerado de novo reaja espiritualmente.

Se um ser caído tiver a fé em si mesmo, então essa fé caída servirá de moeda de troca para a salvação do pecador e a graça deixará de ser graça. Então, o ser humano não faz nada para a sua salvação? Sim. A nova criatura reage espiritualmente conforme a ação da graça em sua vida. Ela crê e arrepende-se, porque foi vivificada pela graça.

Temos visto que somos vivificados pela Palavra, (Salmo 119:25, 50)  –  que a fé vem pelo ouvir a Palavra, (Romanos 10:17) e que – a bondade de Deus é que nos conduz ao arrependimento, (Romanos 2:4).

Tudo isto depende da ação da graça plena, antes de qualquer reação da nossa parte, embora seja imprescindível, a nossa resposta.

A vida pela graça é que produz em nós tanto o querer como o realizar. Sabe-se que a vida cristã não sou eu quem a vive, mas é Cristo quem a vive em mim, logo, Cristo é a Vida vivida através de mim. Isso tudo é graça e tudo é dEle, por Ele e para Ele.

Trocarei o coração de vocês. Tirarei o de pedra e darei o de carne, crucificarei o Adão e lhes darei Cristo e farei que vivam.

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.

espírito da cruz 8 – obediência?

Eric Alexander disse: “A evidência do conhecimento de Deus é a obediência a Ele.” Mas jamais uma obediência movida a medo, vergonha, culpa, interesse ou dever. A obediência, com esses traços e essa cara, ou é vassalagem ou negociata.

A obediência cristã nunca será uma escravidão a um legalismo dominador, mas a submissão voluntária à vontade divina, sob o estímulo do amor. Para tanto é necessário  que a minha vontade seja conquistada pela vontade de Deus. Se a minha vontade não for vencida pela vontade divina, não haverá qualquer significado na minha

A cruz de Cristo precisa crucificar o desejo da minha vontade soberba obediência, a ponto do meu querer egoísta poder querer sobretudo o querer de Deus. Quando eu quiser tudo o que for da vontade de Deus, então a minha vontade se contentará com a vontade d’Ele, de tal maneira, que a minha alegria será fazer de boa vontade a Sua vontade.

Obedecer de má vontade é tirania. Obedecer voluntariamente é um milagre da graça que me faz querer de boa vontade fazer a vontade de Deus. “É só pela graça divina que o homem pode obedecer à lei de Deus,” com sua vontade disposta a obedecer.

Precisamos compreender o que bem disse R. B. Kuiper: “Antes de serem atos do homem, fé e obediência são dons de Deus.” E, eu acrescento a essa lista, também, o arrependimento. O homem natural não é dotado de fé, nem será capaz de arrepender-se por si mesmo e muito menos de obedecer a Deus, de quem ele se esconde e foge.

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Alguém disse que a obediência é o lado positivo do arrependimento. E qual é o negativo? Virar as costas para o pecado. Outro disse que o arrependimento pode ser visto como a confirmação da fé autêntica, enquanto essa é uma dádiva da eleição graciosa. Eu gosto de pensar que os três: fé, arrependimento e obediência são dons eternos dados na eternidade pelo Pai aos Seus filhos e requeridos na história deles.

Na vida espiritual nós não temos nada, se do céu não nos for dado. Assim, a fé, o arrependimento e a obediência são dádivas na vida daqueles que foram convocados de modo decisivo pela graça irresistível do Pai, crucificados juntamente com Cristo e guiados pelo poder do Espírito Santo. Estes atributos não são naturais de Adão.

Dito isto, podemos afirmar, categoricamente, que a rebeldia e insubmissão são contrárias ao espírito da cruz. As ovelhas de Cristo estão marcadas com cravos nas suas orelhas e nas patas: o que ouvem, obedecem. Aquelas que obedecem voluntária, livre e  sinceramente dedicam-se para obedecer totalmente, vivendo em comunidade.

Mendigos! Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns; antes,  admoestemo-nos; o Dia se aproxima (Hb 10:25). Obediência não é a essência, mas é uma evidência do relacionamento correto com Deus.

No amor do Amado,
do velho mendigo do vale estreito, Glenio.

série do PECADO – o pecado dos pecados 7 (parte um)

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O PECADO DOS PECADOS VII

(parte um)

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Mas aquele que tem dúvidas é condenado se comer, porque o que faz

não provém de fé; e tudo o que não provém de fé é pecado.

Romanos 14:23.

 Temos trabalho aqui nesta série de estudos com a acepção do pecado apresentada por Jesus, que o define como a incredulidade em relação à sua pessoa. (João 16:9). Para Jesus, pecado é não crer nele, logo, a libertação do pecado é viver pela fé nele.

O apóstolo Paulo alegou que tudo o que não provém de fé é pecado. Portanto, tudo o que procede da fé, com certeza, não é o pecado. Ele também disse que a fé surge quando se ouve a palavra de Cristo. A fé está ligada à pessoa de Cristo, pois ele é o seu autor e consumador. Todos nós nascemos neste mundo onde a realidade é tridimensional e encontra-se contaminado pelo pecado, ateus ou incrédulos no que diz respeito a Cristo Jesus como o Salvador e Senhor do ser humano.

Alexandre MacLaren referiu-se ao tema, assim: “a fé é a visão do olho interior”. Fé (do grego: pistia e do latim: fides) é a firme convicção da verdade, sem a menor necessidade ou evidência de qualquer prova, simplesmente pela irrestrita confiança que se deposita na pessoa que disse a verdade. Ainda que a fé não seja ilógica ou absurda, ela transcende os limites da lógica humana ao se firmar nos preceitos da imutabilidade do Absoluto.

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A ciência precisa da sustentação dos fatos, a fim de dar sustentação aos fatos. Algo só é cientifico se for provado, comprovado e confirmado. Uma teoria não é ciência, ainda que tenha nexo em suas alegações. A fé não é uma teoria, nem uma comprovação de fatos, embora a sua convicção seja inabalável. Enquanto a ciência labora suas demonstrações no terreno físico, a fé elabora sua convicção num plano metafísico. Isto não significa que a fé seja menos real do que a ciência.

A realidade visível deste mundo é constituída primariamente por uma realidade imaterial e invisível. A matéria palpável é formada de átomos, que não podem ser vistos, nem mesmo com os mais potentes microscópios. Talvez, cientificamente, possamos dizer o mesmo que a Bíblia diz, teologicamente:

Pela fé, entendemos que foi o universo formado pela palavra de Deus,

de maneira que o visível veio a existir das coisas que não aparecem.

Hebreus 11:3.

Os cientistas descobriram através das leis matemáticas, físicas e químicas que o átomo é formado por um núcleo de carga elétrica positiva, em torno do qual se movimentam partículas minúsculas e invisíveis de massa negativamente eletrizadas: os elétrons. No núcleo há dois tipos de partículas: prótons, que são eletricamente positivos, e nêutrons, que não têm carga elétrica.

Esta é uma teoria da física quântica comprovada pelo poder da fissura e desintegração atômicas, mas o átomo em sua estrutura nuclear não é, de modo algum, visível. Parece que, neste caso, a ciência e a fé se apoiam numa realidade invisível similar. O poder da anti-matéria é espantoso tanto para a física como para a teologia. A energia invisível do átomo ou o poder imaterial e espiritual da palavra de Deus encontram-se por trás da realidade visível da criação.

A questão básica é que no âmbito da fé não se carece de prova, enquanto a ciência subsiste sempre duvidando, em busca de uma prova. A fé é a ousadia da alma em avistar além do que é possível enxergar, porque distingue com clareza a invisibilidade do poder de Deus.

Para o crente, Cristo é o autor e o consumador da fé. O Cristo espiritual ou imaterial vivendo no Jesus histórico é a sustentação improvável da fé consistente. Assim como não podemos ver a estrutura das partículas atômicas, mas podemos constatar o poder atômico de uma bomba nuclear, assim, também, não podemos demonstrar tangivelmente o autor da fé, embora não possamos negar os seus efeitos práticos na vida dos que creem.

A ênfase, nestes estudos, se baseia no pecado como sendo a incredulidade diante da palavra, da pessoa e da obra de Cristo Jesus. Pecado é não crer em Jesus como o Cristo. É o ceticismo diante de Javé Elohim em sua manifestação humana. É a descrença no Messias encarnado no Jesus de Nazaré. Se eu não viera, nem lhes houvera falado, pecado não teriam; mas, agora, não têm desculpa do seu pecado. João 15:22. Depois da corporificarão de Cristo, a humanidade perdeu a condição de explicar o seu ateísmo em virtude da imaterialidade divina. Deus se tornou concreto.

Nele que nos salva de si, por si e para si,

o velho mendigo do vale estreito, Glenio.

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série do PECADO – o pecado dos pecados 6 (parte dois)

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O PECADO DOS PECADOS VI

(parte dois)

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(continuação…) Como temos visto nesta série de estudos, o pecado dos pecados é não crer em Cristo. Logo, aquele que crê em Cristo não precisa se justificar dos seus pecados, uma vez que já foi justificado pela sua obra no Calvário. Precisa sim, arrepender-se de si mesmo e confessar-se incrédulo. Além disso, não precisa ser aceito pelas suas obras de justiça própria, nem santificado por meio de sua atuação, visto que até as nossas obras são geradas em Deus. Aquele que faz o bem se chega para a luz, a fim de que sejam manifestas as suas obras, que têm sido feitas em Deus. João 3:21 (TB).

Nós não somos salvos pelas obras de justiça praticadas por nós, nem santificados pelas nossas boas obras. No processo da nossa santificação, por meio da vida de Cristo, conduzida pelo Espírito Santo, em nosso espírito, nós manifestamos boas obras, em razão da apropriação da vida divina em nosso novo coração, pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas. Efésios 2:10.

Toda a nossa vida espiritual depende de Cristo, do começo ao fim. Errar o alvo é não estar sujeito pela fé à pessoa e obra de Cristo. Enquanto vivermos neste corpo corruptível, nós não obteremos a perfeição em nosso viver. Paulo tinha consciência disto muito bem:Não que eu o tenha já recebido ou tenha já obtido a perfeição; mas prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus. Filipenses 3:12.

O apóstolo Paulo tinha convicção de que Jesus já o havia conquistado, não obstante ele ainda não se encontrava pronto. Ele se via como uma obra inacabada. Era uma pessoa em processo de construção. Contudo, a sua peregrinação tinha um alvo firme e imutável: Irmãos, quanto a mim, não julgo havê-lo alcançado; mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para as que diante de mim estão, prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus. Filipenses 3:13-14.

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Ainda que Paulo não fosse uma pessoa completa e acabada, era alguém que dirigia sem o olhar fixo no retrovisor, olvidando-se do seu passado, mas avançando sempre para o seu alvo, Cristo. Aqui vemos um pecador vivendo sem pecar, isto é, sem errar o alvo. Todos, pois, que somos perfeitos, tenhamos este sentimento; e, se, porventura, pensais doutro modo, também isto Deus vos esclarecerá. Filipenses 3:15. Parece um paradoxo: Paulo não é perfeito, mas é perfeito. Só parece. Ele não era perfeito em si, todavia o seu alvo perfeito era perfeitamente o seu único alvo.

Ora, se pecar é errar o alvo e o alvo de Deus para o ser humano é Cristo Jesus, então viver no pecado é não crer em Cristo como o seu exclusivo e satisfatório Salvador e Senhor. Aquele que não tem como seu alvo crer e depender apenas de Cristo para sua salvação, santificação e glorificação, vive no pecado, sem a perfeição de Cristo como a sua garantia eterna de perfeição.

Jó era um homem justo em sua justiça de aspecto imaculável, mas não cria suficientemente na justiça legítima de Javé para a sua plena justificação. Ele passou a maior parte do livro se justificando diante das acusações dos seus amigos justíssimos. Só quando Eliú, o seu amigo gracioso, começou a falar da misericórdia de Deus, Jó se calou, para depois ouvir Javé falar com ele.

Depois disto, o SENHOR, do meio de

um redemoinho, respondeu a Jó:

Jó 38:1.

Javé sabatinou aquele justo indignado com setenta perguntas, e ele, justamente, tirou zero como nota de aprovação. Sem mérito para ser aprovado, ele se confessa como indigno e reconhece que falou do que não entendia. Sou indigno; que te responderia eu? Ponho a mão na minha boca. Jó 40:4. Aqui está o boletim de qualificação dos discípulos de Javé. Quando eles são reprovados em seus valores pessoais, então serão aprovados pela graça de Deus em Cristo.

Quando o homem é um nada diante o trono de Deus, Cristo é tudo para ele. Jó não se arrependeu de coisa alguma errada que tivesse praticado, mas arrependeu-se de si mesmo em sua autoconfiança. Ele havia errado o alvo crendo em si e afirmou: eu conhecia Javé só de ouvir falar. Toda a sua teologia era teórica e através de terceiros. Eram noções da escola dominical e não de relação pessoal com Deus. Por isso, me abomino e me arrependo no pó e na cinza. Jó 42:6.

Deus fez de Jó o seu alvo porque Jó havia perdido o alvo de Deus de vista. O pecado dos pecados é a autoconfiança evidenciada na justiça própria e esta é pesadíssima. A salvação do pecado é olhar para Cristo como o único alvo de Deus e este fardo é de pouco peso. Olhai para mim e sede salvos, vós, todos os limites da terra; porque eu sou Deus, e não há outro. Isaías 45:22.

No amor sempiterno de Cristo,

o velho mendigo do vale estreito, Glenio.

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feridas que nunca saram (parte 1)

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Do ponto de vista de Deus, quem vem primeiro no processo da salvação: o arrependimento ou o perdão? Esta é uma questão fundamental que tem, pelo menos, duas respostas correndo pelos corredores da investigação teológica.

Os estudiosos, de tendência humanista, acham que o perdão é fruto do arrependimento. Você precisa se arrepender primeiro, para que seja perdoado depois.

Neste caso, eles fazem do arrependimento uma espécie de penitência ou, melhor dizendo, uma moeda de troca. Se você fizer a sua parte, então Deus fará a dele. Você será perdoado, desde que se arrependa do seu pecado antes da concessão do perdão.

Esta é uma corrente muito apreciada pela meritocracia humana. As pessoas ‘nobres’ se veem participantes e diretamente responsáveis pelo perdão, com uma parcela notável de contrição pessoal, valorizando a consternação como se fosse sua contrapartida no negócio que envolve a salvação dos seus pecados.

Por outro lado, para os investigadores bíblicos que têm a graça como o pressuposto básico e essencial para a crença cristã, o arrependimento é consequência do perdão. Nós nos arrependemos porque fomos perdoados graciosamente por Deus.

Segundo esta turma graciosa, é a bondade de Deus que nos concede o arrependimento.

Ou desprezas a riqueza da sua bondade,

e tolerância, e longanimidade, ignorando que a bondade de

Deus é que te conduz ao arrependimento?

Romanos 2:4.

Estes crentes no evangelho da graça plena percebem que o perdão é uma ação graciosa e incondicional de Deus, que antecede todas as reações espirituais humanas, e acaba, no final das contas, constrangendo o pecador a se arrepender por pura gratidão. O perdão gracioso gera sempre um arrependimento grato.

Como disse Alice Clay, “nada neste mundo vil e em ruínas ostenta a suave marca do Filho de Deus tanto quanto o perdão”. Foi nesse juízo que Alexandre Pope concluiu: “errar é humano – perdoar é divino”; logo, a anistia libera a culpa e gera arrependimento.

Ora, se não mereço e sou absolvido da culpa pelo sacrifício de Cristo em meu favor, então, só tenho que considerar este amor furioso e apaixonado como a causa capaz de me convencer da minha rebeldia, concedendo-me o arrependimento, graciosamente.

Esta posição me cativa ao extremo, pois vejo sempre em minha vida uma incapacidade total de corresponder ao favor imerecido. Por falar nisso, quero ressaltar aqui e agora: favor merecido me cheira a comércio, negociata, troca ou até mesmo, a favorecimento movido por admiração. Há, neste caso, algumas vantagens rolando pela esteira.

Se a obra de Deus for realmente pela graça plena, como creio que é, então, o perdão antecederá, obrigatoriamente, ao arrependimento. Sendo assim, somos perdoados imerecidamente e nos arrependemos do pecado por misericórdia e graça de Deus.

Portanto, se fomos perdoados graciosamente pela graça do Pai, temos também neste formato gracioso o modelo existencial do nosso perdão. “Quem de graça foi perdoado, pela mesma graça perdoa”. No reino espiritual é comum a genética do Pai se manifestar essencialmente na conduta do filho.

Aliás, podemos dizer, espiritualmente falando: “tal pai, tal filho”. Ou; os que não perdoam são filhos do Diabo, que, como cobra, sempre cobra e de contínuo se vinga. Enquanto isso, os filhos de Abba estão permanentemente dispostos a perdoar pela operação eficaz do Espírito Santo, tal como o seu Pai.

Todos os que foram perdoados pela graça, foram ao mesmo tempo, transformados em instrumentos vivos de perdão. Suportai- vos uns aos outros, perdoai- vos mutuamente, caso alguém tenha motivo de queixa contra outrem. Assim como o Senhor vos perdoou, assim também perdoai vós. Colossenses 3:13.

Ninguém vive neste mundo sem trombadas, contusões e feridas; por outro lado, nenhum cristão verdadeiro permanece com a ferida sangrando. Não podemos evitar as lesões, embora possamos, pela graça do nosso Pai, perdoar os agressores.

“Não é possível haver saúde mental e espiritual sem que haja perdão verdadeiro e total”. Diante desta frase, alguém me perguntou: o perdão implica no convívio com o agressor? Não, necessariamente. O perdão implica, sim, na absolvição do agressor, para que o próprio agredido não se torne uma ferida que nunca sare.

Mas isto, não significa uma convivência obrigatória com aquela pessoa que o feriu. Não há compulsão para quem se tornou livre pelo amor incondicional de Deus.

(continua quarta-feira)

O velho mendigo do vale estreito, Glenio.