espírito da cruz 54 – teste de caráter

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Alguém me disse: – ladrão não é apenas quem rouba o carro, mas quem furta o parafuso. Desonesto não é só o político que desvia as verbas públicas, mas ainda, aquele que pública, nos seus escritos, o pensamento alheio, como se fosse seu.

Ian Barclay disse sobre isso: – “Uma das características da rebelião espiritual é trilhar caminhos escusos.” O ser caído é um ser corrupto por natureza. Se não vemos sua real identidade, é porque esse ser caído vive como um ser caiado. A aparência fascina…

Tive um professor na universidade, que veio a ser ilustre membro da Academia Brasileira de Letras. Um dia encontrei uma colega, brilhante estudante, que havia feito um trabalho curricular extraordinário para a cadeira daquele professor, e ela me contou que o dito cujo havia colocado o seu trabalho em um dos seus livros como se fosse dele.

Para William S. Plumer – “Nenhuma iniquidade da terra é mais comum do que o engano em suas várias formas.” Nós somos uma fraude do pecado. O ser humano falseia nas mínimas coisas, por isso, a Bíblia é enfática:  maldito é o homem que confia em si.

A honestidade não está vinculada à quantidade, mas ao caráter.

Se eu apanho pouco ou muito, sem o consentimento do dono, eu sou desonesto. Quando deixo de dar o troco de dez centavos ou sonego o imposto de milhares, usando truque e trambique, com recibos mentirosos, sou tão corrupto como os quadrilheiros do petrolão ou mensalão.

Jesus disse: Quem é fiel no pouco também é fiel no muito; e quem é injusto no pouco também é injusto no muito. Lucas 16:10. Um jovem estava sendo treinado para vir à presidência da empresa. Um dia, quando servia sua bandeja no refeitório da firma, teve a ideia de esconder um tablete de manteiga debaixo da folha de alface, de tal modo, que não fosse percebida pela pessoa do caixa. Aparentemente nada deu errado.

No outro dia ele foi chamado ao gabinete do presidente, que atenciosamente o comunicou da sua pretenção de torná-lo presidente da empresa. Os olhos daquele moço brilharam e ele ficou entusiamadíssimo com a possibilidade. Então, o presidente concluiu: infelizmente, ontem, quando você preparava a sua bandeja, no refeitório, você colocou o tablete de manteiga debaixo da folha de alface, mas eu estava logo atrás e vi tudo e vi o seu caráter, pois quem não é fiel no pouco, não é fiel no muito.

A história do jovem que escorregou no tablete de manteiga, não é tão incomum assim. A diferença é que, em muitos casos, não somos surpreendidos. A desonestidade é  adâmica e endêmica, mas, nem sempre é percebida.

Mendigos, o espírito da cruz tem a ver com a nossa verdadeira identidade. Não é o que pensam de mim e nem o que tento demonstrar, mas apenas o que sou mediante a obra de Cristo, isto é, não eu, mas Cristo.

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.

espírito da cruz 53 – o buraco negro

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Li um pensamento que pode ser assim resumido: – procuramos significado para as nossas vidas nas coisas temporais, mas acabamos descobrindo que elas são inúteis e incapazes de trazer satisfação para o nosso vazio existencial. Há um vácuo no íntimo dos seres humanos, que grita por uma resposta além das paredes da terceira dimensão.

Como disse Blaise Pascal, filósofo francês, – nós temos um buraco do tamanho de Deus, em nossos corações, que não será preenchido com coisa alguma além de Deus. É por isso que há uma insatisfação profunda naquele que não recebeu a Cristo como a sua única revelação de Deus, capaz de satisfazer a sua fome de significado.

Nós vamos ficar sempre descontentes se procurarmos nos contentar com tudo aquilo que for apenas temporal. A nossa carência é de cunho eterno. O pão pode saciar a fome física, mas só o Pão espiritual pode compensar o vazio da alma. A vida biológica, se bem nutrida, pode sentir-se bem, mas a vida emocional, se não for bem mitigada, acabará numa angustia crônica de proporções alarmantes. Só Cristo pode matar a fome da alma.

Conheci um jovem que queria muito ser rico. Achava que se ficasse rico, seria a pessoa mais feliz do mundo. Era um jovem trabalhador e experto e acabou ficando rico, muito rico, mas nunca o vi feliz. Hoje, está sempre reclamando de tudo. – Lembro-me que queria ter um carro de rico e quando o encontrei com um carrão desses, ele estava ali se lamentando que o carro não preenchia as suas expectativas.

Anos depois encontrei-o com outro carro bem superior e eu o perguntei: – que tal? Agora você está feliz com esse carraço? – Não, foi a sua resposta seca. O que quero agora é uma Ferrari, enquanto eu não tiver uma, não ficarei contente. Foi aí que lhe disse: você nunca será feliz com nada desse mundo, pois a sua carência é bem maior e nenhum bem terreno poderá compensar o vazio de sua alma insaciável com o que é terreno.

A Bíblia afirma que Deus pôs a eternidade no coração do ser humano, logo, só o que é eterno pode preencher o sentido da vida. Tentar compensar o vazio de Deus com aquilo que é apenas terreno, é angustiante. Nada que não seja eterno pode satisfazer, de fato, a existência humana, pois, “O homem, em sua natureza decaída, é um insatisfeito e frustrado perseguidor de arco-íris.”

Se Jesus não lhe bastar, nada lhe bastará.

A grande necessidade do meu coração é a suficiência do coração de Cristo. O coração do ser humano não poder ser satisfeito sem a plenitude do coração de Deus. “O golpe fatal para o progresso é a auto-satisfação.” Se eu não for satisfeito por aquilo que é eterno, serei um eterno insatisfeito, com tudo aquilo que é temporal.

Mendigos, onde estão fazendo os seus investimentos? – A pessoa satisfeita em Cristo é a única satisfeita no mundo.

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.

espírito da cruz 52 – livres pra crer?

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Adão e Eva foram os únicos seres humanos, antes do pecado, que tiveram seu livre arbítrio. Tinham opção para crer ou rebelar-se contra Deus. Podiam escolher entre a árvore da Vida e a da ciência do bem e do mal. Foram criados com a capacidade de crer e também de não crer na palavra de Deus. Só assim eles seriam livres para decidir.

Porém, com o pecado, eles se tornaram mortos, espiritualmente, e escravos da incredulidade radical, sem nenhuma possibilidade de querer a Deus. Daí em diante toda a raça humana tornou-se depravada pelo pecado e incapaz de crer em Deus.

Alguém já disse: “Se um homem caído pudesse desejar, ele mesmo, ser salvo, com a mesma facilidade poderia mudar de idéia e desejar perder a salvação.” Se a nossa vontade, corrompida pelo pecado, fosse a base de nossa decisão salvadora, com certeza ela poderia mudar de idéia no meio do caminho e nós desistiríamos da decisão anterior.

Segundo João Calvino: – “o querer é humano; querer o que é mau é próprio da  natureza decaída, mas querer o que é bom é próprio da graça.” O ser humano caído, até pode escolher entre os ramos do bem e do mal, da árvores do conhecimento, mas nunca escolherá a Árvore da Vida, se antes não for convencido pelo Espírito Santo.

A fé não é um atributo da espécie caída. O que governa a raça adâmica são as realidades sensoriais e a fé não faz parte deste mundo tridimensional das sensações. Ela é o olho que vê o mundo invisível, como bem disse o escritor da carta aos Hebreus:

a fé é o alicerce firme do que se espera e a convicção permanente do que não se vê.

O ser humano no pecado é um incrédulo por natureza. Sendo assim, ele jamais poderá crer, se antes não for vivificado pela Palavra. É preciso ter vida espiritual, para que ele possa reagir de modo espiritual. A fé é concedida pela graça aos crentes em Jesus.

Gosto de pensar nessa semelhança apresentada por C. S. Lewis: o sol nos dá a luz para vermos o sol, assim como Jesus, o Verbo Divino, nos dá a fé para cremos nEle.  Sem a luz não temos a nossa visibilidade e sem o Logos de Deus não temos a nossa fé. Se Jesus disse a alguns crentes: “a tua fé de salvou” é porque eles receberam a sua fé ao “olharem” para o Autor e Consumador da fé. E, se olharam, é porque a graça os fez olhar.

A fonte da fé é Jesus; o veículo da fé é o Logos de Deus; a autoridade da fé a revelação de Deus; a sustentação da fé é o Espírito de Deus; a garantia da fé é a graça de Deus; a validade da fé é a eternidade de Deus e o propósito da fé – os filhos de Deus.

Mendigos, a fé são os olhos que veem a Cristo com os óculos de Cristo e, por isso, suas asas voam até Ele mesmo. Nunca haverá fé sem a revelação de Cristo e não há revelação dEle sem a ação da Palavra e do Espírito Santo. Jesus é o único autor da fé e sem Ele ninguém poderá crer nEle. É isso.

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.

espírito da cruz 51 – o fim do inveja

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Invidere, no latim, é não ver. A inveja é a cegueira da alma para si mesma, mas vê no outro o que lhe falta em sua biografia. O invejoso é o cego que se percebe invejado e nunca se vê invejando. Ele não se enxerga com olhos malignos, embora, o seu olhar de rabo de olho só consiga notar, no seu invejado, o que lhe desperta a cobiça.  

Os olhos do invejoso – o seca pimenteira – só veem, no êxito do invejado, a sua própria falência e incapacidade de se projetar, refletida no sucesso que ele gostaria de ter. O seu foco, no outro, decorre da sua incapacidade de se perceber inadequado.

O invejoso não se enxerga, contudo enxergue, com os olhos vermelhos, o êxito e as virtudes alheias que ele gostaria de ter e não tem. Ele não se vê, mas vê com nitidez e raiva aquilo que o outro tem de melhor, que lhe falta e se consome ao consumir alguém.

Um olho gordo vê o progresso alheio como uma testemunha do seu fracasso e, aí, tenta denegrir o êxito do outro com a baba ácida de suas críticas. Invejosos de plantão são vermes venenosos e corrosivos de todos que estão num patamar mais vantajoso.

Ninguém inveja desconhecidos e distantes. O seu alvo sempre vem envolto em alguma admiração de quem mora perto. A dor de cotovelo se instala contra aquele vizinho que prospera, sobressai e é bem visto. Inveja de fracasso, falência, doença – nem pensar! Nunca vi falar de alguém invejando uma pessoa feia.

Não há inveja de mendigo e falido.

A inveja é um sentimento mesquinho e perversão que enferruja a alma e corrói a vida de todo aquele que se compara aos outros e se percebe deficitário em algum item, que gostaria de possuir. “Espelho, espelho meu! Há alguém mais bonito do que eu”? Todo invejoso só inveja quem lhe sobressai. É a virtude do outro que o faz arder no seu vício.

Caim invejou Abel porque este foi aceito com sua oferta. Os irmãos de José se inflamaram de inveja por verem o moço se distinguir dos demais. O rei Saul tinha surtos psicóticos só em pensar no cântico das donzelas: – “Saul feriu aos milhares, porém, Davi, aos dez milhares“. – Como pode um fedelho, como esse, ser mais do que eu?

Como já vimos, a inveja é um sentimento medíocre advindo da comparação, da proximidade, da admiração e da falência. Quando eu me comparo com alguém próximo, e vejo nele algo que admiro, mas não percebo em mim, me torno esbraseado por dentro e ferino por fora, nesse quesito, pondo-me a destronar aquele que me ultrapassa.

Os pares de Daniel, quando viram a excelência de ancião, não tiveram dúvida: – chegou a hora de engendrar um plano para levá-lo à cova dos leões. A inveja sempre se pauta em extinguir aqueles que são alvos da sua gana. Talvez, o provérbio português nos dê algum sentido: “o invejoso nunca medrou (prosperou), nem quem perto dele morou”. É por aí mendiguinhos… só a cruz no invejoso!

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.

espírito da cruz 50 – o desafeto com o dinheiro

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Alguém disse: “Poucas coisas testam mais profundamente a espiritualidade de uma pessoa, do que a maneira como ela usa o dinheiro.” Este é um assunto difícil de ser abordado, porque muito acham que o dinheiro não tem “personalidade” e é neutro.

Mas a coisa é mais complicada do que vemos. A única realidade que Jesus se utilizou para comparar com a Divindade foi um tal Mamom. Tirando a máscara desse cara, vemos que se trata do dinheiro ou das riquezas. Jesus o chamou de senhor, ainda que ele seja escrito com letra minúscula, a sua dominação é de dimensão maiúscula.

O dinheiro não é um mero objeto, nem uma simples coisa. Ele tem vida própria e exerce poder de afeto, admiração, conquista e domínio sobre os sujeitos do seu ciclo de relacionamento. Sem respirar, ele inspira uma galera enorme e a faz transpirar em busca do seus favores. O dinheiro tem mais adeptos do que todas as religiões e esportes deste mundo, governado pelas suas propostas de realização. É um senhor apaixonante.

Porque o amor ao dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmos se atormentaram com muitas dores. 1Timóteo 6:10. Neste caso, o dindin ganha status pessoal, já que amar se relaciona com pessoas. Se alguém é levado a dizer: eu amo a minha bicicleta, ele está concedendo à sua bike uma identidade pessoal. As coisas, no máximo, podem ser apreciadas, mas nunca amadas.

Uma vez ouvi alguém dizer: – eu adoro esta comida, então, pontuei: as coisas a gente gosta, as pessoas amamos, mas só a Deus podemos adorar. Amar ao dinheiro é, de fato, o mesmo que torná-lo pessoa.

Se o amamos ele se torna sujeito de nosso afeto.

O dinheiro, como sujeito do afeto humano, acaba se convertendo num senhor e consumidor de escravos. Amar o dinheiro é tê-lo como um roedor de nossa emoção, sem contudo, poder corresponder à nossa carência de afeto pessoal. Ele se torna num ditador de exigências e abutre de nossas entranhas, porque: tememos perdê-lo, se o tivermos um pouco mais e ambicionamos muito ganhá-lo, se ele for escasso, em nosso bolso.

O amor requer algum tipo de reciprocidade. A questão é: – como se consegue a contrapartida relacional com o dinheiro? – Alguém pode amar a “prata”, porém, ela nunca poderá corresponder esse amor. Dinheiro gera paixão, mas jamais se viu apaixonado por alguém. Ele dá poder às pessoas, embora não tenha poder para amá-las e contentá-las.

Perguntaram a um velho bilionário, quanto era o suficiente para uma pessoa se contentar com o que tem? – só um pouquinho a mais, foi sua resposta. Um pouquinho…

Olá, Mendigos! Nós, os que vivemos da esmola da graça, precisamos aprender a nos contentar com a suficiência da graça. A maior riqueza é de contentamento, tornando imateriais as nossas posses materiais.

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.

espírito da cruz 49 – graça soberana

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Muitos acreditam que graça é Deus fazendo uma parte e o ser humano a outra. Que Deus pode até fazer a maioria, mas a pessoa caída tem que fazer a sua parte. Essa é a opinião de muitos, contudo, a definição de graça, que mais fala ao meu coração, é:  – Deus dando e fazendo tudo a quem nada merece, nem tem condições de merecer.

Se a graça for 100% do agir de Deus, então, 100% de nossa reação será 100% pela graça. Não é que não reajo, porém, quando reajo, reajo movido 100% pela graça.

A questão é: se eu antes não buscava a Deus e agora o busco, se não o queria e agora o quero, o que me fez mudar de opinião? – Se minha vontade não o desejava, por que o deseja agora? Eis a questão. Como um morto espiritual pode ter vida espiritual?

Qual é a vontade do feto na sua formação e qual é a parte de um morto na sua ressuscitação? A criança é gerada e gestada sem a menor expressão do seu querer e as pessoas que Jesus ressuscitou não tiveram qualquer contribuição nisso.

O novo nascimento não é mera resposta humana ao propósito Divino, mas um milagre da graça na vivificação de um morto espiritual. Antes de qualquer resposta de um escolhido, ao chamado divino, ele precisa ser vivificado pelo poder da Palavra.

Sabemos que muitos são chamados, mas poucos escolhidos. Sabemos que a proclamação é universal, mas a fé é particular, dependente 100% da graça, uma vez que, não há nada num ser caído, totalmente perverso e morto espiritual que o credencie a crer.

A vida precede às reações do ser vivo. A criança precisa ser gerada antes dela reagir com os instintos de ser humano. A vida espiritual antecede às respostas espirituais. Primeiro, a Palavra gera vida espiritual, para que o gerado de novo reaja espiritualmente.

Se um ser caído tiver a fé em si mesmo, então essa fé caída servirá de moeda de troca para a salvação do pecador e a graça deixará de ser graça. Então, o ser humano não faz nada para a sua salvação? Sim. A nova criatura reage espiritualmente conforme a ação da graça em sua vida. Ela crê e arrepende-se, porque foi vivificada pela graça.

Temos visto que somos vivificados pela Palavra, (Salmo 119:25, 50)  –  que a fé vem pelo ouvir a Palavra, (Romanos 10:17) e que – a bondade de Deus é que nos conduz ao arrependimento, (Romanos 2:4).

Tudo isto depende da ação da graça plena, antes de qualquer reação da nossa parte, embora seja imprescindível, a nossa resposta.

A vida pela graça é que produz em nós tanto o querer como o realizar. Sabe-se que a vida cristã não sou eu quem a vive, mas é Cristo quem a vive em mim, logo, Cristo é a Vida vivida através de mim. Isso tudo é graça e tudo é dEle, por Ele e para Ele.

Trocarei o coração de vocês. Tirarei o de pedra e darei o de carne, crucificarei o Adão e lhes darei Cristo e farei que vivam.

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.

espírito da cruz 48 – eu em três partes

Uma alma satisfeita é uma festa permanente de contentamento. A falta de bom ânimo e satisfação são responsáveis pelo desequilíbrio das emoções. O espírito abatido é a causa da enfermidade da alma e do adoecimento do corpo. O ser humano é tricotômico e as três partes: espírito, alma e corpo precisam viver em harmonia. Mas…

Se o corpo padece com as dores, é muito provável que a alma esteja enferma, em razão do espírito encontrar-se abatido. Tudo começou com a separação espiritual. Foi no Éden que o espírito foi desligado da sua fonte de vida e tornou-se sem alento em si, e, daí pra frente, a alma tomou as rédeas da existência. A psique é quem manda no pedaço.

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O ser humano vive, racional e emocionalmente, governado por sua alma. Tudo nele é medido e aceito pelo seu entendimento e por suas emoções. Se não puder explicar ou sentir, então, não pode ser admitido como válido. Assim, a alma precisa estar lúcida e bem equilibrada para poder determinar o melhor rumo do sujeito na estrada da existência.

Há três tipos de vida que estimulam a existência. – A vida bios mobiliza o corpo, a vida psique anima a alma e a vida zoe vivifica o espírito. Quando nossos pais, no jardim, caíram, a vida zoe, que depende de Deus, foi desconectada e o ser humano passou a ter sua história dirigida apenas pela bios e psique, contaminadas pelo pecado.

Destituído da vida espiritual, o homem deixou de contar com o transcendente e a sua compreensão limitou-se aos sentidos e estímulos biológicos, portanto, limitado aqui, ao plano material e sujeito ao abatimento no espírito, a depressão na alma e dor no corpo.

O espírito abatido deprime a alma, que envelhece os ossos, e estes, adoecem o corpo.

O rei Salomão disse: – O coração alegre é bom remédio, mas o espírito abatido faz secar os ossos. Provérbios 17:22. O espírito sem uma alternativa do alto é como uma lareira sem chaminé, a fumaça toda contamina o ambiente interno e intoxica as pessoas. A alma, que conta apenas com suas forças, está sujeita às mais profundas enfermidades.

Desprovida da vida espiritual, a raça adâmica é sustentada por uma alma aflita que, com frequência, torna-se enfermiça, adoecendo o corpo. A alma ansiosa e agitada é sempre a via psicossomática das doenças agudas e crônicas. Como disse, muito bem, o salmista – enquanto eu mantinha escondidos os meus pecados, o meu corpo definhava de tanto gemer. Salmos 32:3. As doenças são, na maioria, frutos de nossa culpa.

O médico Dr. S. I. McMillen disse: – “A ciência médica reconhece que emoções como medo, tristeza, inveja, ambição, ressentimento e ódio são responsáveis pela maioria de nossas doenças. Os cálculos variam de 60% a quase 100%.”

Mendigos – incluo-me nessa estatística dolorosa e clamo ao Homem das dores que cure as minhas feridas. Só Ele pode curar-me.

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.

espírito da cruz 47 – não há nada em mim

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A porta da vida cristã é Cristo, e este, crucificado. Ninguém será um convertido sem antes passar por essa porta: Cristo morreu para eu morrer com Ele. Para gozar desta Vida espiritual, preciso passar pela morte do meu eu. Não mais eu, mas Cristo.

Não estou falando da morte do física, mas a morte do egoísmo. Não se trata, e não se deve pensar que a morte do ego, com Cristo, seja uma anulação da personalidade ou o sumiço do ser pessoal. Nada disso. Trata-se da substituição de uma vida autoritária, autoconfiante e autocentrada, pela vida liberta de si e centrada em Deus. Só pela graça.

O cristão não é alguém tentando viver a Vida de Cristo, antes, é próprio Cristo vivendo nele. É a vida da ressurreição depois de termos morrido na cruz com Cristo. Essa porta é a vida psique crucificada com Cristo, que se abre no caminho a ser trilhado, a Vida santa de Cristo ressuscitado, se expressando no seu modo de ser e de agir.

Ser cristão não é ser apenas um imitador de Cristo, mas ser como réplica dele, ou seja, viver pelo modo de ser do próprio Cristo, que vive nele. Não é fazer tão-somente o que Ele fez, mas, é Ele fazendo, em nós, somente o que ele faz. Não sou eu, é Cristo.

O ser humano, no pecado, está morto em seu espírito, porém, vive movido pela  sua vida bios e psique. Ele encontra-se radicalmente contaminado pelo pecado. Não há o menor indício de vida espiritual e nada que o habilite a receber a nova vida.

O morto, espiritualmente, não tem qualquer reação espiritual para corresponder a uma ação espiritual. Ele só está vivo biológica e psicologicamente. Não há nada de vida espiritual nele, assim, como, em Lázaro, na sepultura, não havia vida física para que ele pudesse corresponder ao chamado de Jesus. Lázaro foi ressurrecto pelo poder de Jesus.

A salvação do pecador, morto, em delitos e pecados, é uma ação espiritual de Deus em favor dele, que não tem nada espiritual que possa corresponder. Se ele estiver, de fato, morto, espiritualmente, então, ele precisará ser vivificado antes de poder reagir de modo espiritual. Neste caso ele precisa ser ressuscitado, espiritualmente, para reagir com as faculdades espirituais.

Creio que fé e arrependimento são atributos espirituais.

Alguns dizem que a graça é de Deus, mas a fé é nossa. Ora, se a fé for nossa, isto é, do pecador caído, então, temos uma fé contaminada, pelo pecado, servindo de liga à salvação pela graça, e, assim, temos uma fé poluída sendo o elo de um favor imerecido, que faz a graça deixar de ser graça, já que, a fé humana se torna uma moeda de troca.

O cristão é um milagre da graça. Ele foi vivificado e convencido pelo Espírito de Deus através da Palavra, para poder reagir espiritualmente. Mendigos, se a fé salvadora e o arrependimento de nós mesmos fizerem parte de nossa natureza caída, então, a nossa salvação estará perigo permanente. Pense nisso.

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.

espírito da cruz 46 – o mais doce pecado

Criticas

Há uma turma grande especialista em detalhes. Essa galera deleita-se em tudo o que é diferente de sua concepção ou da sua cultura estratificada, para criticar. Os erros e os defeitos alheios são matéria prima para a indústria da malícia e da maledicência.

O criticismo é filho da idealização. Só quem é fake imagina a perfeição estética, mas, neste caso, muitas vezes, descarta a perfeição ética. O que vale é a aparência, a lã sem bolinhas, a etiqueta, a maquiagem e o glamour. Este é o mundão da fantasia, da cara pintada, da imaginação e das novelas. Essa gente é dura com as deficiências e deficiente com a misericórdia. Critica o defeito alheio, embora escancare seu déficit de amor.

É muito mais fácil julgar, do que ser transparente. Macaco nunca olha pro rabo, bem como, a turma articulada que condena os outros, com suas críticas cruéis, enquanto joga com arte, pra baixo do tapete, os seus defeitos escondidos nas sutilezas.

Contudo, o apóstolo à gentalha foi bem lá no alvo: Portanto, és indesculpável, ó homem, quando julgas, quem quer que sejas; porque, no que julgas a outro, a ti mesmo te condenas; pois praticas as próprias coisas que condenas. Romanos 2:1. Viu só!

O sujeito que parece muito preocupado em criticar os outros, normalmente está mais ativo em ocultar as suas falhas, enquanto gera uma áurea para se auto promover.

Na opinião abalizada de Thomas Manton:

“A censura é um pecado agradável, todavia, extremamente complacente com nossa natureza.”

É ridículo coar mosquitos e ao mesmo tempo engolir camelos; ver o argueiro no olho alheio, enquanto tem uma lasca no seu. É triste conviver com inspetor de controle de qualidade, sempre vendo falhas.

Todos nós temos cicatrizes, mas há um grande grupo que procura disfarça-las. Fala-se dos outros, para despistar-los de nossas feridas. Mas, é exatamente aqui que nós todos precisamos do espírito da cruz. Ninguém fica de fora. Todos necessitamos, tanto de misericórdia para perceber os defeitos alheios, como para revelar a nossa falência.

Alimentar-se da desgraça do próximo, nunca poderia ser algo patrocinado pelo bom banquete da graça, tampouco deixar de ser gracioso com os trôpegos e claudicantes da jornada áspera deste mundo de terremotos e vulcões.

Mendigos, não esqueçam a história das pessoas. Quando estiverem sentados, na cadeira, como terapeutas, não olvidem a cultura do examinado, nem a sua família, sua infância, seus traumas, com os seus trancos e barrancos, pois tudo isso é, exatamente, o histórico que define a história da pessoa. Não podemos desconsiderar a trágica trajetória.

Jamais devemos ser omissos em analisar as falhas de quem for, se o objetivo for o amor. Porém se a nossa avaliação não estiver encharcada de amor, nós precisamos com urgência sair do consultório.

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.

espírito da cruz 45 – não me vejo um santo

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“Reputação é o que os homens pensam que você é; caráter é o que Deus sabe o que você é.” Minha reputação pode até ser apreciada por alguns, mas, se alguém souber a verdadeira realidade dos meus pensamentos, com certeza, não vai dar-me o crédito.

Muitas vezes, eu me esforço para ser adequado, todavia, não consigo pensar e proceder com a mesma pureza que idealizo. Eu me imagino santo, porém me vejo sujo. A minha hipótese de santidade não bate com a minha máscara de hipocrisia e isso me torna desanimado comigo mesmo. Não consigo ser o que sonho e meu pesadelo me incomoda.

Quando miro-me num espelho sem espectador, eu vejo os sinais das espinhas, e sofro com essas marcas que não posso apaga-las, contudo, se houver alguém mirando- me, passo base para disfarçar. Tenho medo que me descubram e não admirem-me.

No fundo, tenho mais medo dos outros do que de Deus. E me parece razoável. Deus já sabe de tudo e não tem expectativa a meu respeito. Ele conhece as cicatrizes das minhas espinhas e sabe o que as causou. Sabe que a queda é um tombo cósmico, – além do que, suas consequências são mais profundas do que supomos. E quê catástrofe!!!

Desventurado homem que sou, quem me livrará desse defunto podre? – É certo que não vejo saída em mim, com meu o cadáver atado a mim, tampouco consigo crer que Deus esteja interessado em me libertar dessa carniça.

Então, só espero por um milagre.

O milagre de Deus querer me desatar de mim, já que meu querer na consegue querer o que Deus quer. Minha vontade está comprometida com os meus desejos carnais, caídos, que não podem se desprender para querer o que Deus quer. Aí grito: – nunca quis te querer e nem posso te querer, mas, se tu me quiseres, porque queres me querer, – e se não for jogo de palavras, – conquista meu querer, para que eu te queira como me queres.

O meu nome é Ego; pra Contigo, eu sou mais resistente do que brilhante, e pra com meus desejos, mais frágil do que casca do ovo. Eu me debato e estrebucho contra o – “seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu”, entretanto, não precisa ser uma tentação fogosa… lá se vai minha concupiscência querendo ser satisfeita.

A batalha mais cruel da vida não será superior à guerra da volúpia. Se os meus desejos não forem crucificados, não há nada que seja capaz de dominá-los. Meu Ego não tem capacidade para vencer os seus desejos egotistas. Como ninguém pode se crucificar – só a crucificação do Ego com Cristo, pode libertar o Ego da sua lascívia incontrolável.

Mendigos! – “Se todos os nossos desejos fossem satisfeitos, a maioria dos nossos prazeres seria destruída.” Satisfazer todos os desejos do egoísmo, é tornar o Ego do egotista permanentemente insatisfeito buscando o arco-íris. Só nossa co-morte na cruz com Cristo pode nos libertar do Ego. Tenho dito.

Do velho mendigo do vale estrito,

Glenio.

espírito da cruz 44 – Crente: pomba e serpente

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Já disseram que – “é melhor ser ingênuo do que engenhoso”. A simplicidade faz parte do ministério cristão. Para Jesus, duas são as virtudes necessárias ao ministro: Eis que eu vos envio como ovelhas para o meio de lobos; sede, portanto, prudentes como as serpentes e símplices como as pombas. Mateus10:16.

O Mestre usa dois bichos, com duas características ímpares, para distinguir os membros do seu staff. A equipe dos remadores de Cristo precisam do estilo das serpentes e da pose das pombas. Precisam de invisibilidade e singeleza de coração.

Cautela e caldo de galinha não faz mal a ninguém. As víboras são cautelosas. Elas não se exibem, nem queimam etapas. Só saem para se alimentar e cruzar. Não é de praxe vê-las passeando nas passarelas da vida. Cobra que é cobra não cobra visibilidade. Elas se camuflam para se proteger dos inúmeros predadores. Onde está Wally?

Segundo Matthew Henry –  “A providência de Deus dá oportunidade para o uso de nossa prudência.” Se temos um Deus, Todo-Poderoso, não precisamos caçar onde Ele já providenciou o nosso suprimento. Ser prudente é ser oportuno e adequado.

Um ministro do evangelho é como cabrito entre raposas. Ele não pode se exibir sem o risco de se converter na presa. Dizia Leornard Ravenhill: “O púlpito pode tornar-se uma vitrine na qual exibimos nossos talentos,” e, neste caso, corremos o risco de sermos caçados pela nossa imprudência. O talentoso às vezes se espatifa em seus talentos.

Agora, vamos ver o outro pilar. Tem muita gente esnobe e complexa, fazendo-se passar por ovelhas do rebanho dAquele que é manso e humilde de coração.

A simplicidade é simplesmente a grandeza da singularidade da nossa crença, sem afetação. Ser simples é ser confiante apenas na suficiência de Cristo.

A singeleza de coração tem tudo a ver com a perseverança num único alvo: só Jesus e Jesus apenas.

Na nossa casa tem um bando de pombinhas incutidas em fazer os seus ninhos por lá. Não há nada que as façam desistir. Se desmanchamos, voltam e insistem em os reconstruir. Já fizemos de tudo, mas continuam de geração em geração fazendo os seus ninhos no mesmo lugar onde nasceram. Simples não é ser trouxa, é não levar-se a sério.

A simples confiança em Deus é o ingrediente mais importante de crescimento e progresso espiritual, e, o espírito da cruz é o suporte que nos mantém fora da sofisticação do ego altivo. Jesus disse: simples como as pombas e não exibido que nem pavão.

Mendigos, o andarilho da gentalha gentia suspeitara: receio que, assim como a serpente enganou a Eva com sua astúcia, assim também seja corrompida a vossa mente e se aparte da simplicidade e pureza devidas a Cristo. A astúcia de serpente é prudência, mas a simplicidade vem das pombas. Atenção!

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.

espírito da cruz 43 – elogios? quero!

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Eu não sei, mas acho que, no fundo, sou movido a elogio. Eu o temo, todavia, o espero. Mesmo sabendo dos seus tentáculos e fugindo dele, me vejo, no íntimo, à sua cata. Quando o recebo, finjo que não é comigo, mas gosto de ser apreciado. É loucura!

Conversando com outro viciado em confetes, disse-me ele: mas quem não o é? O genro humano carente, carece de aprovação. Somos todos consumidores de elogios.

A Bíblia diz que o ser humano é provado pelos louvores que recebe. De fato, o que mais pesa para o orgulho, não são as críticas, mas os aplausos. Alguém disse: “Não há limite para o bem que um homem pode fazer, se ele não se importar com quem recebe os louvores.” A prova dos nove da libertação é ser o pai da criança e outro ter as honras.

“o ser humano é provado pelos louvores que recebe.”

Ouvi um sussurro quase inaudível: – aquela ideia foi minha, mas, fulano de tal é quem está recebendo os louros. Então bradou: Não é justo! Nada pode ser mais cruel e indigesto do que você pintar o quadro e ver outro assinando a tela e recebendo o prêmio.

Li sobre um jovem escritor talentoso, que não teve vez no mercado publicitário e viu os seu livros editados por um renomado escritor feito pela mídia ao custo da fortuna e prestígio de seu pai. O moço vendeu por uma bagatela os seus manuscritos, enquanto o ilustre midiático ganhava os tubos com o talento do jovem ghost writer.

Mas essa história não termina na falência moral. Aquele jovem não se deu por vencido, nem se fez de vítima. Ele aprendeu com Jesus e com o espírito da cruz. Sem se ressentir com o caso, trabalhou com mais afinco, corrigindo os seus defeitos e teve uma nova chance, quando um editor famoso resolveu ler o seu trabalho e ficou maravilhado.

Ouvi contar de um pintor que viu o seu atelier incendiado. Dizem que ficou ali a olhar as chamas consumirem as suas obras de anos, enquanto alguns amigos tentavam consola-lo; ele teria dito: – essas chamas estão queimando apenas os meus defeitos. (Se é verdade, não sei, mas disseram-me que foi com Monet. Até pesquisei no Google!)

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Agora quero voltar à carência dos aplausos. Por que será que nós, geralmente, nos alegramos mais com os elogios do que com as críticas? Parece que nossa bem-vista autoestima não é sustentada por nós, mas pela opinião dos outros. É a estima alheia que mantém a nossa. Nós nos nutrimos do que os outros pensam de nós. Seria isto?

Então, se assim for, precisamos da obra da cruz em nossa vida. Não estou aqui me referindo à boa teologia da cruz, mas do espírito da cruz. Não basta o saber correto, o que é imperioso, agora, é o viver correto, no espírito, como um crucificado.

Mendigos! Alguém disse: – “não somos salvos pela sinceridade, mas podemos nos perder pela insinceridade”. Indago: o que nutre sua alma? É a proeza elogiada ou a vida de Cristo mediante sua morte pra o eu?

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.

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espírito da cruz 42 – sabe com quem tá falando?

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O pecado propõe nos elevar. A serpente inoculou no gênero humano o veneno da soberba. Adão e Eva, criaturas finitas, foram incitados a serem como Deus e, de lá pra cá, a raça ficou insuportável subindo em jiraus, palanques e altares na busca da distinção. Todos nós sofremos com a síndrome de pódio e gritamos, no íntimo, por visibilidade.

Você sabe quem eu sou? Idade é posto… Eu dei a minha vida por isso e devo o mínimo de atenção. Sou filho de… A minha família foi quem… E, por aí vão os argumentos mais disfarçados para nos colocar na berlinda e mostrar a nossa importância.

Cristo Jesus tem outra postura. Cristo é Deus, mas Jesus vive como homem no nível inferior da escala. Ele nasceu numa família simples e pobre, mas nunca ambicionou ser da casta dos nobres e ricos. Ele era um homem e não um status; um dos membros da Trindade que não se importava de ficar de cócoras lavando os pés sujos de gente altiva.

Sermos feitos como Jesus é o propósito da salvação, vejamos:  Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. Romanos 8:29.

“Mulas e rochas podem pregar. A nossa via é ser feito como Jesus. É o fim de tudo que fazemos. É o fim da pregação. É o fim da oração. É ser como Jesus.”

Tornar-se como Jesus é uma obra da graça, por meio do Espírito. Não se trata de um esforço humano para alcançar esse modelo, mas o desmanchar do estilo de Adão pela cruz. Se o espírito da cruz não nos desconstruir da mania de altar e dessa síndrome insidiosa de visibilidade pública, ninguém consegue viver a vida de Cristo.

“Bem, eu estudei aqui, estudei ali. Fiz isto e aquilo. – Não quero saber de nada. Você ama? Agora ele continua e diz: Aquele que ama a seu irmão está na luz. Sim aquele que ama o seu irmão não é salvo por causa do seu amor, mas demonstra que já foi salvo pelo poder de Deus manifestando o seu amor ao irmão.” O amor é um selo da salvação.

Ninguém é salvo porque ama, mas ama de fato porque foi salvo. Porém, aqui, não estou falando do “amor” carnal. As pessoas na China, que eu não conheço, são até fáceis de amar. Mas quanto mais perto fico das pessoas, mais difícil é amá-las.

Alguém disse: “É impossível ter um relacionamento adequado na vertical sem o ter na horizontal. Você não pode ter um grande, magnífico, poderoso relacionamento com Deus se as suas relações com as pessoas à sua volta não estiverem certas.” Se não amo ao irmão que vejo, como posso amar a Deus que não vejo? Perguntou João, o apóstolo.

Mendigos, não fomos chamados pelo Pai pra sermos um espetáculo de virtude e dons, mas para demonstrarmos o amor de Cristo derramado no nosso coração através do Espírito Santo que nos foi dado. É só isso, mas isso é tudo.

Do velho mendigo,

Glenio.

espírito da cruz 41 – a face no Facebook

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A necessidade de visibilidade pública, das tentações da carne, é uma das mais severas no sentido de ofuscar a manifestação de Cristo em nós. O filho de Deus pode ser usado por Ele, mas precisa de modo legítimo sair do foco dos holofotes. Nós podemos ser instrumentos da graça, o que não podemos ser – é ilustres iluminados. Isto é catastrófico.

Iluminados, sim. Ilustres, nunca. Os filhos precisam ficar face a face com o Pai, mas não precisam ficar se exibindo no Face. Devem ser pessoas do Book, gente do Livro da Verdade, todavia, sem se expor no Face-Book. Com toda a certeza, nós podemos usar o Face-Book para a comunicação, contudo, precisamos nos ocultar. Sair de cena.

As passarelas têm sido mais perigosas para os pregadores do que se imagina. Um amigo, que teve um tombo na cama, me disse: eu não caí quando adulterei; adulterei, quando aceitei que era o tal.

Foi o palco que o derrubou.

O cara, na crista da onda, tem muitas necessidades de se exibir e tenta se projetar até surfando nas areias do deserto.

Ser notável é um risco notório na vida de quase todos os mensageiros de Deus que se envolvem na pregação do evangelho. Não há pregador que não se fascine com a sua sombra vista do púlpito, pois a imagem dele se confunde com a mensagem. Mas o de que todos carecem, na verdade, é sair do palco. O pregador precisa ser pregado na cruz, para não ser tentado a pregar-se como se fosse o cerne da mensagem.

Um pregador distinto ou famoso é alguém que se encontra em perigo. Muitos e muitos têm sido esfacelados pela sua celebridade. Alguém me sussurrou: seja um fidalgo, mas nunca um esnobe. Parei e fui examinar a etimologia das palavras. Fidalgo é um filho de alguém, tem origem. Esnobe é gente sem nobreza, bancando a excelência do nobre.

Ser um fidalgo, no Reino de Deus, significa ser filho do Altíssimo. Tem genética do Alto. Mas o esnobe é uma gentalha caída tentando escalar um trono. O filho de Deus é Sua Alteza, o dependente. O esnobe carece da aprovação dos outros para se ver aceito.

Ninguém pode ser o que não é. Se somos fidalgos, somos filhos de Aba. Neste caso, fomos regenerados pelo Espírito Santo e feito filhos pela graça. Se somos esnobes, somos caricatura, e nada mais. É pura aparência de gente fake que não merece crédito.

Vance Havner costumava dizer: “A popularidade tem matado mais profetas do que a perseguição.” Esta, é consequência da verdade, aquela, da política. Ao buscarmos ser notados pelo auditório, ao invés de ser usados por Deus, já perdemos a credencial de ser ministro do Cristo, que deixou a sua glória para viver sem qualquer glamour.

Mendigos, o espírito da cruz nunca enfatiza o nosso brilho ministerial. Ninguém deve estar em um púlpito cristão, se tiver mais atento ao seu brilho pessoal, do que a luz que irradia do crucificado. Cuidado com lantejoula!

Do velho mendigo do vale estreito.

Glenio.

espírito da cruz 40 – mentiroso, fingidor e hipócrita

Guy Fawkes mask hangs on wall at a factory in Sao Goncalo

 

Enquanto um pregador expunha sua mensagem, um ouvinte, que também era pregador e que discordava da abordagem do mensageiro, irritado com os argumentos que ouvia, pegou o seu celular e saiu colocando-o ao ouvido como se estivesse recebendo um chamado. Lá fora se disfarçou e comentou com alguém: – foi o jeito que achei para sair.

O irritado era um desses professores de Deus, crítico, dono da verdade e que tem o costume de chamar de mentirosos aqueles que discordam do seu jeitão. Então, um observador da cena que o conhecia bem, comentou: – isso também não é mentira???

Parecer o que não se é, é a mentira mais comum na passarela da existência. E ninguém, por mais legítimo que seja, encontra-se isento dessa camuflagem. Diz Fernando  Pessoa: “O poeta é um fingidor. Finge tão completamente, que chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente”. É o teatro do faz de conta que conta o que os fatos não contam.

O idoso canseiroso, reumático e dolorido responde ao amigo transeunte que o cumprimenta: – tudo bem! Sem se tocar que mente, mente – tudo bem… e sai sem graça. A mentira social e de bons costumes é aceita e pregada. É horrível dizer a pura verdade para quem quer saber apenas da aparência. Mas, mentira de santo é profanidade.

Condenar mentiras grosseiras e viver numa mentira polida, não isenta alguém de um maior juízo. O comentarista bíblico e expositor do século XVII, Matthew Henry foi preciso: “Nada ofende mais a Deus do que a fraude disfarçada nas relações pessoais.”

Um ídolo de madeira bem pintado é um ídolo de madeira. Um hipócrita vestido de santo é um hipócrita em sua maior dimensão. Satanás tem como seu disfarce preferido vestir-se de anjo de luz, mas isso não o torna num iluminado, apenas num ilusionista. Por trás de sua face angélica esconde-se sua carranca pavorosa de demônio.

Alguém já disse muito bem, que: “hipócrita é o homem que faz com que sua luz brilhe de tal forma diante dos outros, que eles não possam saber o que está acontecendo por trás dela!” Isso é a arte do ilusionismo; tem holofotes demais e holocausto de menos, isto é: há mais ilusão do que realidade, mais labaredas do que consagração.

O cara que sai com seu telefone, fingindo que recebeu uma chamada e precisa se retirar para atende-la fora, é tão corrupto e mentiroso como o político que desvia verba pública para a sua conta e conta que investiu em favor da comunidade.

Mendigos, desonestos não são apenas os que comentem grandes crimes, mas os que fingem ser o que não são. Ladrões não são só os que roubaram o Petrobras, mas todos os que levam uma agulha escondida da loja. Mentirosos… são todos… Bem…  como bem disse o velho  Aristóteles: “Tudo o que alguém ganha com a falsidade é não receber o crédito quando fala a verdade.”

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.

espírito da cruz 39 – aprendendo com Napoleão

Napoleão Bonaparte, exilado na ilha de Santa Helena, afirmou: “para se fundar uma religião é preciso primeiro morrer e depois ressuscitar, a primeira eu não quero, mas segunda eu não posso”. Aqui, precisamos fazer algumas considerações sobre sua fala.

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Quando imperador, na crista da onda, o grande Napoleão se bastava gerindo o  seu império com mão de ferro. No exílio, sem a bajulação do poder, teve todo tempo para refletir, bem como a graça de cima para ser transformado; parece que foi convertido. Mas, na sua frase, acima, não foi exato. Ninguém precisa morrer e ressuscitar para fundar uma religião. De fato, a religião é construída e exercida na força da carne do velho Adão.

Talvez Napoleão estivesse querendo dizer:  para ser integrante do evangelho é precisa morrer e depois ressuscitar; é preciso que o velho Adão morra. O problema é que não quero morrer. Não quero sair do comando, não pretendo deixar de governar. Além do que, se eu morrer, não consigo retornar à vida. Eu não posso me ressuscitar.

Eu não quero morrer, mas essa é a única alternativa para uma vida nova. Sem a morte do ego na cruz, com Cristo, não há a menor possibilidade de ter vida ressurrecta. A obra do evangelho de Deus em favor do pecador é a morte e a ressurreição, enquanto a religião é tão-somente o  esforço humano para buscar a aceitação divina.

O ego vive do egoísmo como a matriz de um vida insatisfeita e a obesidade da alma que nunca se contenta. A insatisfação é a filha primogênita desse eu insubmisso que se deleita em desprestigiar os outros para tentar projetar a sua sombra com o fogaréu das vítimas que incendeia. Logo, a alternativa da salvação é a morte desse soberbo soberano.

Sem a morte do ego não há possibilidade de vida espiritual. É por isso que, de modo insistente, Thomas Brooks súplica em oração: – “Livra-me, ó Deus, daquele homem mau – eu mesmo.” Ninguém pode, simultaneamente, chamar a atenção para si e glorificar a Deus. Ou o ego morre com Cristo ou ele se mata de tantas exigências egoístas.

O pregador americano D. L. Moody dizia de si: “tenho mais dificuldade com D. L. Moody do que com qualquer outro homem com quem já me encontrei.” E John Newton somou: “tenho lido sobre muitos papas ímpios, mas o pior papa que já encontrei é o Papa Eu.” De fato, jamais podemos nos vencer ou extinguir, mas podemos nos conformar com o molde da cruz, pois a morte de Cristo precisa ser incorporada em nosso modo de viver.

Mendigos, “o homem que vive por si e para si, tenderá a ser mais corrompido e mais corruptor pela companhia de “si” que ele não quer abandonar.” Mas lembre-se que o eu é ainda tão sutil, que raramente alguém percebe a sua presença. Se eu quiser ter uma biografia que não termine na frase, “aqui jaz”… esse eu tem que morrer com Cristo, antes da minha morte física.

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.

espírito da cruz 38 – segredo da felicidade

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Indagaram-me: o que você quer dizer com espírito da cruz? O que está por trás dessa série de artigos? Nada mais e nada menos do que o caráter de Jesus, ou melhor, o princípio de interação da Trindade. Espírito tem a ver com a realidade além da matéria e a cruz, com a morte do egoísmo. Se o eu não for crucificado, certamente será exaltado.

O segredo da felicidade é a renúncia de si mesmo. Mas como posso renunciar-me? Como o ego pode abrir mão de si? Se eu me abdicar, por mim mesmo, acabo por me entronizar num pedestal de vanglória. Veja: ego que se esvazia, sempre se enche da sua própria soberba de ter-se esvaziado a si mesmo, por suas próprias forças.

Nunca vi alguém que pregue sua humildade, que não se exalte nas entrelinhas de ter alcançado, em seu portfólio, a postura humilde. O ego que se humilha é propenso a orgulhar-se do seu desempenho. Por isso, a humildade tem que ser uma qualidade, tão invisível, para quem a demonstra, que lhe seja impossível de percebê-la.

Abnegação à sudorese é paixão violenta de alma altiva. Generosidade com os holofotes ateados é uma peça bizarra. Desprendimento noticiado é a apelação do sujeito oculto na oração, que quer ser o predicado do objeto de atenção. É um absurdo o defunto relatar o seus feitos. Quem morreu, silencia-se! Alguém já ouviu a defesa de um finado?

O espírito da cruz tem tudo a ver com a morte do ego fora de qualquer esforço do ego. Não é uma auto-aniquilação, mas uma aniquilação do alto. Não se trata de uma egoplastia de si mesmo, por si mesmo, mas, uma extirpação do eu pela obra da cruz.

Nada em favor de nossa salvação pode ser feito por nós, uma vez que tudo foi feito em Cristo e por Cristo.

O próprio ato de fé pelo qual recebemos a Cristo é um ato de completa renúncia do eu e de todas as suas obras com base na obra de Cristo, na cruz.

Não sou eu que me suicido, é Cristo quem me crucifica. Se já estou crucificado com Cristo, então não careço de me eximir de qualquer deslize, nem de me deslumbrar por qualquer realização. Não há o menor espaço para o eu depois da cruz.

Jesus nunca se defendeu nem fez qualquer exposição de suas realizações. Ele é a única chance a toda aquele que vive sob os efeitos eternos do espírito da cruz; jamais buscar um palanque, para se exibir; tampouco estar num tribunal, para se defender.

Relatórios de boca própria são temerários. Auto-justificação é uma prova cabal de absoluta descrença na justificação do Cordeiro. Quem morreu na cruz com Cristo, não tem nada de que se defender, muito menos ainda para se projetar. É fim de papo.

Mendiguinhos, não se importem de serem considerados como bicho da goiaba na salada dos esnobes.

O arrependimento é o abandono de determinada ação, devido à convicção de que Cristo fez tudo.

Isso basta.

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.

O ESPÍRITO DA CRUZ 37 – adestramento ou liberdade?

Um amigo, exímio caçador, alertou-me sobre a atitude de quem quer sai por aí, porta afora, com o seu cão preso à coleira. Qual o sentido de uma dupla que anda atada?  Estava querendo mostrar-me a conduta de um cachorro que segue o dono atrelado a uma correia, enquanto outro passeia, sem coleira, movido ao apreço com o seu amo.

Naquela mesma semana, outro amigo andava em seu bairro e viu alguém que passeava com o seu cãozinho sem coleira. Ficou impressionado com a postura do animal bem adestrado. Todas as vezes que chegavam a um lugar perigoso, onde havia o risco de atropelamento, o dono se detinha e dizia: pare! Então, o cão parava. Logo, depois, os dois atravessavam juntos. Era um passeio em que a obediência vinha da amizade.

-Aquele que teme o Senhor possui uma fortaleza

Meu amigo andou por algum tempo observando os dois e viu que o cachorrinho era obediente e seguia o seu proprietário não porque estivesse encoleirado, mas porque o respeitava. Ele havia sido treinado a considerar a importância dessa “cordialidade”.

No caso do cão foi um condicionamento. O animal foi treinado a obedecer, mas a questão que quero agora levantar, é: -como um ser humano consegue andar com Deus, de modo voluntário, sem um cabresto a controlá-lo? Como pode, livremente, segui-lo?

A religião sempre conduz os sujeitos com ameaças ou interesses atrelados. Eu tenho observado que normalmente as pessoas, nas igrejas, só obedecem porque são, de certo modo, coagidas por punições, castigos ou vantagens que podem auferir. O inferno e o céu têm servido para condicionar o desempenho de uma turma enorme de autônomos.

A obediência cristã não é escravidão a um legalismo dominador, nem ainda um átimo de subserviência por medo ou interesse, mas submissão voluntária à vontade divina movida pelo amor e regada à alegria. Obediência sem prazer, no íntimo, é vassalagem.

A verdadeira obediência é livre e festiva. Não há obrigação, nem contrariedade. Alguém rebelde perguntou a um cristão feliz: por que você vai sempre à igreja? Ele queria se justificar, defendendo sua liberdade de não comparecer às reuniões da sua grei, então, fez uma pressão. Ao que respondeu o cristão, com sabedoria: Quanto aos santos que há na terra, são eles os notáveis nos quais tenho todo o meu prazer. Salmos 16:3.

Aquilo que é feito de gosto, não traz desgosto. Davi entendeu o que significa a obediência livre e voluntária: agrada-me fazer a tua vontade, ó Deus meu; dentro do meu coração, está a tua lei. Sal 40:8. Matthew Henry também entendeu o axioma: “Quando a lei de Deus está escrita em nosso coração, nosso dever é nosso prazer.”

Mendigos, ser obedientes com uma arma na cabeça é terrorismo e, obediência sem alegria é tirania. O espírito da cruz nos liberta, de tal modo, que a nossa obediência é sem coleira e por puro prazer. Do velho mendigo do vale estreito, GP.

espírito da cruz 36 – Deus não tem time, mas é o técnico

A igreja é a reunião dos escolhidos de Deus. Não se trata de mero aglomerado ou ajuntamento de sujeitos com os mesmos ideais. A igreja não é um clube da elite, nem um sindicato de operários-padrão ou uma sociedade secreta de gente especial. Ela é sim, a reunião dos eleitos da Trindade, expressando o caráter de Cristo em adoração.

 
J. Blanchard disse com muita precisão: “a igreja não é uma democracia na qual escolhemos a Deus, mas uma teocracia na qual Ele nos escolheu”. Portanto, essa igreja é o encontro comunitário da família de Abba. Trata-se da comunhão relacional dos filhos do Altíssimo, patrocinada pela unidade dos motivos, jamais pelos rituais e formalidades.

 
Segundo George Eliot: “o que torna a vida enfadonha é a ausência de motivos. O que torna a vida complicada é a multiplicidade de motivos. O que torna a vida vitoriosa é a unidade de motivos”. Mas, aqui, reina uma grande luta. Como podemos manter, nesse corpo multiforme e polivalente, uma unidade motivacional uniforme? Eis a questão.

 

PHILADELPHIA, PA - SEPTEMBER 07:  Penn men's soccer loses 2-1 to Air Force at Penn on September 7, 2012 in Philadelphia, Pennsylvania. (Photo by Drew Hallowell

 
Viver em harmonia numa comunidade heterogênea é algo fora de série. Não há nada mais espetacular do que a ausência de competição entre as pessoas diferentes. Por isso, ver a unidade na diversidade é um milagre sui-generis do espírito da cruz.

 
Esse espírito antecede a história da cruz no Calvário. O mistério da Trindade se expressa na unidade de três pessoas distintas, vivendo sem nenhuma disputa. Que lindo! Mas, como pode conviver um trio triúno sem trincas e tridentes? Só o espírito da cruz.

 
O que caracteriza a unidade na Trindade é o amor. A Bíblia diz que o amor não busca os seus próprios interesses. Amar é viver em favor de. Alguém já disse: “a suspeita subtrai, a fé adiciona, mas o amor multiplica o ganho para dividir com quem ama. O amor abençoa duplamente: aquele que o dá e aquele que o recebe”.

 
Li, recentemente: – É indiferente para nós o que faz a maioria das pessoas que conhecemos ou como elas passam o seu tempo. Porém, assim que começamos a amar uma delas, passamos a nos interessar, no mesmo instante, por essa pessoa.

 
Quem ama não persegue, não boicota, não compete. O amor é a manifestação do culto de auto-sacrifício em prol da unidade dos “amantes”. O amor não se dói, se doa.

 
O caminho para a unidade cristã não passa pelas salas de comissões… Passa pela unidade pessoal com Cristo crucificado, de modo tão profundo e real, que possa ser comparada à Sua unidade com o Pai. Se morremos com Cristo… unidade é Cisto em nós.

 
Friedrich Tholuck disse: “A igreja é um só corpo – você não pode ferir o dedo do pé sem afetar o corpo inteiro”. Como pode haver unidade com preferência, privilégios ou a maldita política da discriminação? Mendigos, não entrem nessa das denominações, times e partidos adequados em defesa da unidade.

 

Do velho mendigo do vale estrito, GP.

espírito da cruz 35 – é hora de calar a boca

Uma das virtudes mais raras é o silêncio adequado. Há um velho ditado latino que diz: Ore clauso non dicit ineptias, boca fechada não diz bobagem. Mas, calar quando se deve falar é tão prejudicial quanto falar quando se deve calar. Por isso, o silêncio bem posto pode ser o discurso mais preciso e poderoso que alguém pode pronunciar.

Jesus se calou quando Pilatos o indagou sobre o que era a verdade. Ele ficou silente e Seu silêncio expressava a Sua encarnação do Verbo. Era um silêncio Verbal.

O silêncio pode ser uma grande mensagem. Não dizer nada geralmente revela um bom domínio da língua e, muitas vezes, uma excelente comunicação. Falar, só é bom, quando o silêncio não for o melhor. Uma pausa na partitura ou na fala revela um instante harmônico no concerto que conserta a cacofonia dos pensamentos estridentes.

O provérbio chinês expõe: a palavra é de prata, o silêncio é de ouro. Assim,  duas ciências que as pessoas devem aprender: a ciência das palavras e, a mais difícil, a ciência do silêncio. Eu devo confessar que tenho tido dificuldades com as duas. Muitas e muitas vezes eu falo quando deveria me calar e outras tantas calo, quando deveria falar.calar-a-boca

Mas há, ainda, uma variedade de silêncios indigestos. O sábio Thomás Watson salientava: pode-se cometer uma injustiça contra outra pessoa tanto por meio do silêncio quanto da calúnia. A omissão covarde ou a acusação falsa são agressões ferinas.

Certa ocasião, ouvi um silêncio ruidoso que traduzia a covardia do interlocutor. Na hora que deveria falar, calou-se como um poste, postando-se, dali pra frente, com uma pose de palhaço despedido do circo. Que graça tem um palhaço sem a plateia? O silêncio do fóbico indeciso fuzila as entranhas de quem carece de apoio.

O que me preocupa, dizia Martin Luther King, não é nem o grito dos corruptos, dos violentos, dos desonestos, dos sem caráter, dos sem ética… O que me preocupa é o silêncio dos bons. Eles até podem ser “bons”, mas são covardes. Então, neste caso, são maus e não têm parte no reino de Deus, como diz o livro de Apocalipse.

O silêncio dos omissos não merece comentários. Não devemos salientar esse comportamento mesquinho, mas ressaltar o silêncio corajoso de não responder o insulto, de não tentar se defender quando estiver resguardado sob a justiça de Cristo e de calar-se diante do trono, para ouvir a voz do Altíssimo, silenciosamente.

O espírito da cruz, segundo o escritor inglês C. H. Spurgeon, a beleza serena e silenciosa de uma vida santa é a influência mais poderosa do mundo, depois do poder do Espírito de Deus. O silêncio da alma é o poder que grita sem se esbravejar e sem zoada.

Mendigos, observem: ​somente em Deus, ó minha alma, espera silenciosa; dele vem a minha salvação. Salmos 62:1. Silencioso!

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.

espírito da cruz 34 – o problema da obesidade

Alguém disse: tome cuidado para que as vitórias não tragam as sementes das futuras derrotas. Um cristão nédio é um sujeito em perigo. A Bíblia nos diz que Israel ficou gordo e deu coices. Uma pessoa forte, frequentemente, é uma pessoa arrogante.

As vitórias na vida são mais perigosas do que as derrotas. Conheci alguém que só teve vitórias na sua jornada escolar, esportiva e social. Quando ele teve o seu primeiro fracasso, o mundo desabou. Nunca havia experimentado uma derrota significativa, agora, não sabia lidar com a queda. Poucas coisas são mais desastrosas do que a altivez.

As vitórias na vida cristã não são dos cristãos, mas de Cristo. O problema mais sério é que alguns acham que foram eles que conseguiram o êxito, e, se tornam mesmo, é insuportáveis. Esse é um tipo gente que se exalta, enquanto menospreza os outros.

A maior vitória que alguém pode ter, é a vitória sobre si mesmo, uma vez que o eu é o maior inimigo do contentamento. Mas, essa vitória só pode ser ganha por Cristo.

Outra anônimo também diz: Seremos controlados ou por Satanás, ou pelo eu, ou por Deus. O controle de Satanás é escravidão; o controle do eu é futilidade; o controle de Deus é a vitória de Cristo em nós. Se Cristo vive em nós, vivemos vitoriosos, por meio dEle. Não se trata de uma conquista, mas de uma dádiva.

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Conversava com um irmão que me dava impressão de ser mais amadurecido, até que desabou a chamar a atenção para as vitórias em sua vida, como se fossem dele. Logo entendi a sua necessidade de reconhecimento e percebi sua infantilidade espiritual.

Stephen Olford foi preciso: não existe momento mais perigoso em nossas vidas do que aquele que segue uma grande vitória, principalmente, quando pensamos que essa vitória se deve ao nosso empenho e aos nossos méritos. Vitória assim pode ser derrota.

O espírito da cruz tem tudo a ver com o esvaziamento de nossa presunção. Se pregamos corretamente, mas vivemos com a impressão de que a vitória, em nosso ser, é consequência de nossas estratégias, então, estamos vivendo perigosamente em soberba. Se o Espírito Santo me convencer e Jesus me vencer na cruz, então serei vitorioso nEle.

Aquele que se propala ou se defende ainda precisa ser conquistado pelo poder da cruz. Concordo com William A. Ward – Deus quer que sejamos vitoriosos, não vítimas; que cresçamos, não que rastejemos; que voemos, não que afundemos; que superemos, não que sejamos superados todavia, tudo isso, de Cristo, por Cristo e para Cristo.

Mendigos, nós fomos salvos pela graça; nós estamos sendo santificados pela graça e todas as nossas vitórias são orquestradas, financiadas e sustentadas somente, e tão-somente, pela graça. Quanto mais nós crescermos na graça, mais vamos depender da graça do fio ao pavio.

No amor do Amado,

do velho mendigo do vale estreito, Glenio.

espírito da cruz 33 – cadeia a céu aberto

A população encarcerada é infinitamente maior do que a liberta. O número dos presos é astronômico. O mundo é uma cadeia a céu aberto. Aqui eu não estou falando de prisões com grades de ferro, mas daquelas invisíveis que aprisionam a alma.

O salmista peticiona muito bem: – Tira a minha alma do cárcere, para que eu dê graças ao teu nome; os justificados me rodearão, quando me fizeres esse bem. Sal 142:7. Vejam que não se trata de uma penitenciária de corpos, mas de uma prisão psíquica.

O apóstolo Paulo, um preso em Roma, era o homem mais livre. Leia-se Roma, de trás pra frente, e tem-se o caminho da libertação: Amor. A alma presa vive nas amarras do ciúme, da inveja, do ódio, da amargura e de qualquer sentimento que mantém o sujeito detido pelas lembranças do troco, da vingança e de querer ser mais, melhor, maior.

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As almas prisioneiras dos ressentimentos nunca festejam. Nada pode ser mais terrível do que uma alma azeda, rude, murmurante, crítica que não consegue agradecer a nuvem copiosa ou o sol causticante. Ela está sempre babando de raiva e jamais bebendo com alegria a taça, no banquete. Normalmente, essa gente não vive, apenas vegeta.

A ingratidão é um dos principais sintomas da alma aprisionada pelo desgosto e insatisfação, enquanto o coração, que vive agradecido, é um patrocinador da celebração. Agradecer é bom. Viver agradecido é ótimo.

A gratidão é uma festa excelente de alegria.

Tem uma turma que, além de não ser grata, procura, por traz, ferir os outros na alma, para gerar um ressentimento crônico, produzindo amargura permanente. Coitado de quem foi aprisiona no claustro tenebroso da memória vingativa, pois, essa, por menor que seja, envenena a alma. Já ouvi dizer: é mais difícil vingar uma injúria do que suportá-la.

Certo provocador me cutucou: aquele, fulano de tal, parece não gostar de você. Ele sempre se retira do recinto quando você prega. Respondi: todos devem ser livres para ouvir o que querem. Nós fomos libertos por Cristo, até para divergir. Creio que eu não sou livre para me distinguir, nem para disputar, destoar ou criar desavença. Houve silêncio…

Na fé cristã, cada um tem a sua medida e compreensão de fé. Não há uma só pessoa igual a outra e os cristãos não foram feitos em série como se fossem garrafas pet. Todos nós podemos ter divergências de opiniões, o que não podemos ter, é desavenças na comunhão. Ser diferente é saudável. Ser provocante é sinal de uma alma aprisionada.

Tira a minha alma do cárcere, para que eu dê graças ao Teu nome. Parece que está claro: se não somos gratos é porque nos encontramos prisioneiros em nossas almas.

Mendigos, Donald Grey Barnhouse pasmou-se: Como é estranho que o Senhor tenha de insistir com aqueles que salvou do abismo eterno, para que eles lhe demonstrem gratidão! Tenham cuidado com os gemidos.

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.

espírito da cruz 32 – a fofoca profissional

Os acusadores de plantão são aqueles caçadores de defeitos que vivem, o tempo todo, à cata de falhas pessoais para jogar na cara dos falíveis; ou, ainda, na arquibancada, a abutres que se deliciam às custas da falência alheia. Esta turma turbulenta se perturba com as imperfeições alheias e deixa escorrer pelo canto da boca a baba ácida de sua crítica mordaz e feroz.

O cardápio destes antropófagos é alguma alma trincada que normalmente se torna o prato do dia em seus banquetes da fofoca profissional. Ver uma pequena rachadura na parede, uma leve nódoa na toalha, uma desproporção nas sobrancelhas ou uma mancha mínima de nascença no colo são as coisas que estimulam tais mexeriqueiros. Eles se alimentam de senões.

Um dos meus professores de psicologia chegou na sala com uma cartolina em branco, contendo um pontinho preto de tinta, e nos perguntou: o que é isto? Todos, com exceção de uma aluna, responderam que era uma pinta preta – ou coisa do gênero. Todos nós só vimos o detalhe, a mancha. Apenas aquela colega viu o todo, isto é, a cartolina com a mancha. A tendência dos seres caídos é esta – ver o defeito.

Tem gente zarolha que só enxerga o que é torto e se especializa em ver o ponto fraco do outro, para se distinguir como dona da verdade. Mas Jesus indaga: Por que vês tu o argueiro no olho de teu irmão, porém não reparas na trave que está no teu próprio? Lucas 6:41.

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Os juízes da vida alheia são, quase sempre, réus de crimes mais graves. Mas parece que eles têm uma necessidade inconsciente de se justificar, o que faz com que essa classe suba ao tribunal do júri para sentenciar com rigor os defeitos dos outros, e assim se isentar dos seus próprios.

O apóstolo Paulo sabia muito bem dessa torpe atitude equivocada quando questionou: ​Portanto, és indesculpável, ó homem, quando julgas, quem quer que sejas; porque, no que julgas a outro, a ti mesmo te condenas; pois praticas as próprias coisas que condenas. Romanos 2:1. É próprio do sujeito impróprio se apropriar da vida de outrem para nutrir suas crueldades.

O espírito da cruz tem tudo a ver com a extinção dessa cultura maliciosa que se fixa  nos defeitos alheios e nas inexatidões, nas imperfeições e nas outras falhas inerentes à finitude humana. Mas, não se trata de suprimir avaliações criteriosas ou de analisar fatos; trata-se, sim, da substituição da vida arrogante do velho Adão rabugento pela vida graciosa de Cristo.

Ser cristão não significa ser um idiota, um ausente da realidade do mundo. Nem significa ser alguém inábil para analisar os fatos ou os frutos. Jesus disse que é pelo fruto se conhece a árvore. Também não defendo aqui a incapacidade de julgar adequadamente a partir dos fatos, mas de não julgar ou criticar pelas aparências. Não condenar sem saber os reais motivos da conduta.

Alguém já disse que o melhor lugar de criticar o próximo é na frente do próprio espelho. Outro foi ainda mais longe: se você começar a crítica consigo mesmo não terá tempo para criticar os outros. Se nós nos víssemos melhor, certamente teríamos mais misericórdia com tantos outros claudicantes.

Mendigos, vocês que foram alcançados pela graça, sejam sempre graciosos. Analisem bem os fatos e julguem com critério os frutos da árvore. E prestem toda atenção a essa receita: duas coisas fazem muito mal ao coração: subir correndo escadas e criticar pessoas. Se tiver que fazer isso, faça segundo o caráter de Cristo, com todo amor.

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.

espírito da cruz 31 – na UTI da fé

Deus será sempre visto nos aposentos íntimos dos Seus filhos, mas nunca nesses palcos visíveis dessa turma exibida. Um amigo me mandou esta frase: – “Não é o meu pecado que me impede de orar. É a minha justiça”. Foi bem no alvo. Não é a nossa falência, mas a arrogância que nos tira do genuflexório. A fraqueza nos conduz à dependência; mas, a altivez ao pódio.

Na maioria, os pecados são contra a lei de Deus, mas a justiça própria é sempre contra a soberania de Deus. Ela constrói a autonomia humana – a autodeterminação e a independência que nos opõem a Deus, para vivermos por conta própria. Nesse habitat de autossuficiência não temos apetite para orar, uma vez que nos bastamos e nos adoramos a nós mesmos.

Meu netinho veio antes da hora, prematurinho. Madrugou ao sair logo com oito semanas de antecedência. Frágil, com as funções respiratórias ainda por amadurecer, precisou de UTI pediátrica. Sua permanência na incubadora me fez pensar na dependência da graça. Se não fossem os fios e aparelhos ele não sobreviveria. A Palavra de Deus e a oração são os fios da UTI da fé. Os filhos do Altíssimo são, de certa forma, eternos prematuros.

“Você aprende sua teologia principalmente nos lugares aonde suas tristezas o levam”, foi o que disse Martinho Lutero. É a nossa fraqueza que abre a porta da confiança. A fé é um meio pelo qual as fraquezas do homem tomam posse da força onipotente de Deus.

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Cristão soberbo é uma contradição nos termos. Se for soberbo não é cristão, mas, se for cristão, será um mendigo da graça. É a astenia que nos leva à dependência. Só pode orar, de fato, quem não tem força para laborar. Se tiver força própria, desprezará o poder do Altíssimo. Gente altiva jamais se envolverá com a vida de oração.

A igreja de Laodicéia é uma prova de soberba. Ela se basta. A turma pretensiosa nunca se apresenta nas trincheiras da oração, pois ficaria exposta à fraqueza de sua alma perante o seu público – a  multidão que é usada para retroalimentar essa presunção de independência.

John Milton disse que “os mártires abalaram os poderes das trevas com a força irresistível da fraqueza”. Paulo afirma que “o poder se aperfeiçoa na fraqueza”. Quanto mais fracos formos no reino de Deus, mais dependentes da suficiência do Todo-Poderoso.

A chegada de nosso netinho prematuro nos matriculou na escola preciosa dos avós e na universidade feliz do contentamento em meio às aflições. Tem sido uma experiência única dos aprendizes da graça. Nada pode ser mais eficaz para promover nossa confiança no Alto do que a limitação de nossa autoconfiança. Ó fraqueza irresistível!

No perímetro da graça não há qualquer ganho sem uma total dependência da soberana vontade de Deus. Mendigos, se Deus estiver no controle da vida, são preferíveis as aflições santas do que qualquer prazer profano. Tempos de sofrimentos para os filhos de Abba são as estações de colheita.

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.

espírito da cruz 30 – soco no fígado

Se eu tivesse o espírito da cruz, de verdade, eu pregaria a verdade de Deus, em amor: disse-me um crente, ao ouvir um pregador pregando a santa mensagem correta do evangelho, mas com um estilo agressivo e um ar de arrogância. Seria pura ironia?

Foi um soco no meu fígado. Tive que me examinar e ver que, muitas vezes, eu prego com aspereza, sem misericórdia ou sem uma atitude de mansidão. Mesmo que a verdade deva ser proclamada com ênfase, jamais deve ser dita com deselegância.

Para ele, uma pregação correta, anunciada com um espírito altivo, é tão má, como uma pregação incorreta afirmada com um estilo jeitoso. Tanto o bajulador, que quer levar vantagem pessoal, quanto os ciosos rudes que querem se passar como defensores do credo, correm o mesmo risco de se tornarem inadequados na sua proclamação.

A verdade é verdade sob quaisquer condições. A minha ênfase, por mais viril que seja, não a faz mais verdadeira do que ela já é. Porém, se eu não for coerente com a maneira adequada de enuncia-la, posso gerar uma dificuldade na sua compreensão.

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Não há nenhuma necessidade de se alumiar o sol, nem do pregador tentar defender a verdade. Ela se basta e basta proclamá-la com a propriedade de arauto. Creio que a minha maior necessidade é conhecer a Verdade e a subsequente, é saber anunciá-la. A verdade precisar ser dita por quem de direito, a quem de direito e da forma correta.

A Bíblia é a verdade de alfa a ômega, bem como deve ser proclamada de fio a pavio. Todo o oráculo de Deus é verdadeiro e precisa ser anunciado, sem a omissão de qualquer parte que pareça contradizer o que eu não sei explicar. Se não consigo definir o que é a soberania de Deus, não devo suprimi-la e solapa-la em razão de minha limitação.

Os homens, para serem verdadeiramente ganhos, precisam ser ganhos pela verdade, dizia C. H. Spurgeon, e adito: precisam ser ganhos pela verdade, a verdade toda e à moda da verdadeira eloquência: com polidez, elegância e sabedoria.

No espírito da cruz, a verdade se distingue como a demonstração da graça e não como a exibição de força argumentativa. Se houver apologética – que seja: apolínea, distinta, sábia. Quem crer na verdade não necessita prová-la como verdade ou defendê-la, uma vez que, é a própria verdade quem se aprova e nos defende. Ela é suficiente.

Como bem disse o apóstolo Paulo, nada podemos contra a verdade, senão em favor da verdade. Se alguém não crê na verdade, não é aquele que a proclama quem tem a obrigação de convencer o incrédulo, mas o próprio Espírito da verdade.

Mendigos, somos pregadores da graça e da verdade, que têm graça em seu enunciado e convicção elegante em sua postura. Não fomos chamados a convencer aos céticos, mas a anunciar a verdade do evangelho.

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.