O ESPÍRITO DA CRUZ .79 – CRUCIFICANDO O NARCISISMO

O humanismo é a via do homem em busca do altar, tendo o céu como o limite. O cristianismo é a estrada do esvaziamento humano, tendo o humos como o seu leito. Se, no humanismo, o ser humano quer ser como Deus, no cristianismo, Deus se torna homem. No humanismo vê-se o homem exaltando-se; no cristianismo, sendo humilhado.

No humanismo o ser humano quer ser como Deus. No cristianismo, Deus é um homem humano, sem qualquer mania de onipotência. Jesus, a encarnação de Deus, é o sujeito destituído de aspiração ao poder. É uma pessoa sem ambição por altar, trono, pódio, palanque, plataforma, púlpito e sem nenhuma pira por degraus na pirambeira.

O humanismo patrocina o alpinismo ao topo do poder e a sua escalada pela hierarquia da glória, sendo o ópio que vicia as almas anãs dos pigmeus, que anseiam os lugares notáveis a seres notórios. A falência da queda gerou um estilo de gente carente.

Toda criatura humana é carente, e, muitas buscam suprir as suas carências de significado, pelos aplausos de outros carentes. No humanismo os caras vivem encarando a sua aprovação pelos incentivos dos outros seres humanos carentes, por isto, vive-se na ditadura da cata às ovações e reconhecimentos de plateias ávidas de espetáculos.

No cristianismo a turma é ainda mais carente, embora, suas necessidades não sejam supridas pela aprovação alheia, mas, pelo amor incondicional de Deus. Todos os cristãos verdadeiros vivem da suficiência de Cristo e, jamais usarão o próximo como um suporte para financiar a sua identidade. A aceitação de Cristo lhes é bastante.

É triste ver uma turma angariando os bravos e vivas da ovação na rede social, por causa de suas ideias, que, na maioria das vezes, não são suas, enquanto, o plágio plástico da imitação caricata rouba a cena dAquele que dizem ser a causa da mensagem. Se é o cristianismo, por que não pregamos a Cristo? Mas é uma tragédia ao pregarmos a Cristo, quando nos apresentamos como o ator principal e protagonista do filme.

O humanismo religioso é assim: até fala-se de Jesus, mas ele é só a azeitona da empada, como mero coadjuvante. O que está em jogo é a nossa projeção ou o papel que exercemos no cenário. Paulo viu este perigo em cena e advertiu os crentes:

Porque não nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus como Senhor e a nós mesmos como vossos servos, por amor de Jesus. 2 Coríntios 4:5.

Alguém disse: “há três tentações especiais que assaltam os líderes cristãos; a tentação de brilhar, a tentação de queixar-se e a tentação de descansar.” Não sei qual é a pior, mas, a necessidade de ser sol e não lua é terrível. O desejo de ser a estrela, fonte da luz e não um planeta ou satélite iluminado é luciferiano. Oh! Mendigos! todo cuidado é pouco… Narciso se afogou na sua imagem refletida no poço!

Do velho mendigo, GP.

O ESPÍRITO DA CRUZ .78 – GELADEIRA DE NECROTÉRIO

Jesus falou de uma época de frigidez nos relacionamentos, quando o amor se tornaria gelado como um defunto. Essa frieza seria fruto da multiplicação da iniquidade ou a transgressão da lei. O tempo das permissões descontroladas seria uma era de total desconexões de afetos, por causa dos cadáveres respirando em isolamentos pessoais.

Chegamos a esse momento. Hoje, nunca vimos tanta gente no planeta, porém esta multidão encontra-se ilhada em seu mundinho sem toques de amor. As pessoas até se esbarram nos logradouros públicos, mas não logram se tocarem. Elas se trombam nas ruas da vida e se ferem, embora, pouquíssimas são as que se encurvam para enfaixar os feridos e abraçar os carentes que estão morrendo de frio relacional.

Mas, muitas dizem: eu amo… eu amo… eu amo… o que você quis dizer com isto? O que você está se referindo? Que tipo de amor? Não confunda amor erótico ou o amor dominador que quer possuir alguém, com um amor exótico que quer se doar aos outros. Jill Briscoe diz que: “O mundo está repleto das ruínas do que eros prometeu mas não foi capaz de fornecer.” E os escombros aqui são profundos.

Todavia, há algo muito mais sério neste mundo de glacialização do amor, que poucos de nós tem percebido, com atenção. É o amor virtual. Isto mesmo, um transe das transações transitórias dos invisíveis informáticos, sem saliva, nas vias das redes sociais.

A contaminação, hoje, não é tanto dos perdigotos do cuspe, mas dos vírus de hackers, que roubam nosso insulamento com suas estratégias de enganar tontos com os seus planos sutis de burlar, sem, a menor realidade de interação pessoal. Vivemos agora uma ditadura da informação, mas com a ausência completa de comunicação pessoal.

Temos muitas informações de vídeos e quase nenhuma visão das pessoas que dizemos amar. Temos muitos kkkkkkkkks e quase nenhum som ecoante deles, estalando aos ouvidos dos nossos queridos amigos como gargalhadas contagiantes. Mostramos lugares lindos, mas sem o calor do sol, nem da pele de quem é apenas observador.

 

A frieza do amor é consequência de uma presença virtual. As pessoas não se abraçam com mais frequência; não papeiam na sala de jantar; não cultuam nas igreja em comunidade. Abraçam pela internet, conversam pelo 4G, frequenta a igreja pelo Wi-Fi e não querem abrir mão disto tudo para aquecer o relacionamento de corpo e alma.

Li que agora, até o sexo se faz por tela. Desse jeito vamos tomar café e comer virtualmente. Mas fiquem atentos… amor não se cultiva sem o calor da pele e não se vive adequadamente sem uma presença física, ainda que o tempo para se dedicar aos seus seja pouco. Falando nisto, mendigos, Jesus disse: onde 2 ou 3 estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí. Igreja pressupõe reunião com Jesus.

Do velho mendigo, GP.

O ESPÍRITO DA CRUZ. 77 – QUEBRADO PRA SER INTEIRO !

Um coração quebrantado é o único coração inteiro, no reino de Deus. Se não houver quebrantamento de coração não haverá vida espiritual autêntica. Victor Alfsen disse: “Deus pode fazer maravilhas com um coração quebrantado, se você lhe entregar todos os pedaços,” além do que, fará das emendas motivos para ajudar a outros feridos.

Este mundo caída é um campo aberto de gente machucada, embora a maioria esmagadora tente esconder os seus ferimentos por vergonha ou soberba. Há muitos que preferem fingir que estão bem do que abrir a roupa e mostrar as lesões da alma.

Eu não posso esconder as minhas cicatrizes, pois elas mostram os sinais das minhas dores, o tratamento que as curou e a compaixão em favor dos que sangram. Não há sofrimento sem um propósito na vida dos cristãos. Sei que só terei misericórdia pelos outros, se tiver passado por alguma experiência que me desperte empatia.

O ferido que não se abre por vergonha de seus estigmas, não consegue ajudar na cura das chagas abertas de tantos, deixando-os abatidos. Só quem expõe as suas dores no confessionário da vida pode ser curado e ainda curar as feridas de outros.

A compaixão sempre busca alívio da dor alheia por saber, experimentalmente, os sintomas e os extertores de suas próprias dores. A passagem pelo sofrimento nos faz, naturalmente, compassivos. Alguém disse que só se compadece quem padece. Não há verdadeiro enternecimento se não houver internalização do martírio. Os calvários fazem parte dos processos terapêuticos e essa cura vem acompanhada por médicos feridos.

Conheço a história de um jovem que o pai o rejeitou no processo da gravidez, dizendo à sua mulher, que abortasse o feto indesejado. Ela não o fez e nunca contou ao filho, mas guardou uma mágoa cruel do marido por toda a vida e este luto íntimo atingiu a alma do menino desde o ventre. O rapaz se tornou um primor por fora, mas uma fera por dentro. Há uma ferida invisível que precisa de uma iluminação para ser percebida, bem como das mãos perfuradas pelos cravos, para poder ser curada.

Aqueles que forem curados vão fazer parte dos médicos feridos que tratam as feridas dos lesionados desta vida de horrores e horríveis histórias de crueldade. A Bíblia diz que o Altíssimo tem dois endereços: hábito no alto e sublime trono e no coração dos quebrantados e contritos. Ele mora, ao mesmo tempo, num palácio e num barraco e faz desta tapera o seu lugar de reconciliação com os molestados deste mundo esfacelado.

Mendigos, nós vivemos das esmolas da graça e Deus tem os seus métodos, como disse C. S. Lewis: “Deus sussurra em nossos ouvidos por meio de nosso prazer, fala-nos mediante nossa consciência, mas clama em alta voz por intermédio de nossa dor; esta é seu megafone para despertar um mundo surdo.”

Do velho mendigo, GP.

O ESPÍRITO DA CRUZ. 76 – A INVEJA

A inveja é um sentimento da alma caída que perdeu o senso comum. A pessoa vê o que o outro tem e não vê o que ela mesma tem e deseja aquilo que é do outro. O invejoso é um cego de sua individualidade e vidente inflamado da realidade alheia.

No latim, invídia é a sensação de inveja: um “olhar” associado ao olho maligno do invídere, aquele que “olha contra, olha de maneira hostil”. Invídia ou Inveja é um dos 7 pecados capitais na crença cristã, que detona os relacionamentos saudáveis. O invejoso não se enxerga adequado e ambiciona a adequação do outro a qualquer custo.

A zelotipia ou a idéia fixa, o interesse exacerbado, até o limite da insanidade, ao defender uma causa é uma monomania “religiosa” do invejoso contumaz. Caim matou o seu irmão Abel por pura inveja. Ele não podia aceitar que Abel fosse aceito por Deus, por meio da graça plena, uma vez que sua concepção admitia o mérito como moeda de troca para a sua aceitação. A inveja carcome a alma e corrói os relacionamentos.

Muitos dos embates ideológicos surgem da lama que o invejoso atira naquele que se destaca. Para Niceto Alcalá-Zamora, o 1º presidente da 2ª República Espanhola, “os ataques da inveja são os únicos em que o agressor, se pudesse, preferia fazer o papel da vítima”, pois o agressor sofre em extremo por não ser o que a vítima é.

Ramon Cajal disse que “a inveja é tão vil e vergonhosa, que ninguém se atreve em confessa-la.” A sutileza do invejoso muitas vezes vem travestida de lisonjas e babada à bajulação. Esconde-se na admiração aparente e solapa por detrás dos panos, por isso, é muito difícil descobrir um invejoso astuto e profissional, na cena do crime.

Em uma de suas peças, Molière disse muito bem: “a virtude neste mundo é sempre maltratada; os invejosos morrerão, mas a inveja é poupada”. Muitas vezes vem disfarçada em aplausos, no entanto, sua tática visa, nas entrelinhas, demolir o aplaudido. Antes de sua fúria cruel, Salieri fez isso com Mozart: elogiou-o no palco, mas em seguida o explodia nos bastidores. Na frente, admirava, nas costas, apunhalava.

A jornalista brasileira, cronista, contista e roteirista de cinema, Tati Bernardi foi na mosca: “as redes sociais profissionalizaram a imbecilidade. Fofoqueiros e invejosos se acham doutores e a maledicência ganhou ares de debates profundos”. Por trás da tela se tece uma rede de intrigas por puro sentimento de inveja. Quão lamentável é essa toca vil!

Mendigos, vejam o que disse o puritano do séc XVII Thomas Brooks: “a inveja tortura as afeições, incomoda a mente, inflama o sangue, corrompe o coração, devasta o espírito; e assim se torna, ao mesmo tempo, torturadora e carrasco do homem.” Sendo, assim, só há uma receita para este mal: a morte do invejoso na cruz, com Cristo. Não estou falando de doutrina da cruz… mas de nossa morte.

Do velho mendigo, GP.

O ESPÍRITO DA CRUZ. 75 – SALVAR DE QUEM?

– O que é a salvação? Indagou-me a jovem. – Você fala em salvação… de que eu preciso ser salva? Gostaria de saber o que isto quer dizer… de verdade…

Enquanto ela falava, eu buscava uma forma de explicar e me veio uma ideia de comparar a salvação com um estado de dependência. Imagine a criação do ser humano! Ele foi criado para viver em dependência com Deus, onde a criatura e o Criador viveriam em uma íntima relação, em que a criatura dependeria, sempre, em tudo, do Criador.

O pecado foi a quebra deste estado. A criatura foi tomada por um rompante de independência e rompeu com a relação, para viver por conta própria. Só que, a partir deste rompimento, a sua vida passou a perder energia. A vida vai se desgastando, pois a criatura tem que providenciar todas as formas de suprimento e o cansaço lhe consome.

Imaginemos a questão em termos de falência econômica. Vamos pensar em um sujeito pobre que vive totalmente na dependência de um rico. Tudo o que precisa vem das mãos do milionário. Mas, aquele paupérrimo acha que isto é muito humilhante e sai da chancela do ricaço e monta o seu próprio negócio. As coisas agora vão de vento em poupa e o sujeito fica rico. Ele se sente muito forte e capaz e se orgulha de viver da sua capacidade. Bate no peito e fala mal do capitalista que antes lhe dava tudo em troca de nada. Aquele magnata não queria coisa alguma do pobre, apenas buscava se relacionar com ele por pura amizade. Ele gostava do sujeito sem qualquer interesse.

O problema é que no mundo dos negócios há muita concorrência e o novel empresário faliu de verdade. Foi à bancarrota, perdeu tudo. Neste estágio lamentável de penúria, o antigo amigo se aproxima do mendigo e se propõe ser, de novo, o provedor de sempre. Ele oferece ao falido o suporte permanente, para que o pobre viva da suficiência do seus recursos. Mas, a parceria é de total dependência em consequência de uma plena e pura comunhão pessoal. É isto: o rico só quer relacionamento e companheirismo.

O indigente não precisa conquistar o reconhecimento do banqueiro e nem se preocupar em merecer a sua atenção, uma vez que esse cara é aceito e amado, não por suas qualidades pessoais, mas pelo caráter e coração do granfino. A única condição para tal amizade é a dependência total do carente. Ele tem que se limitar à inteira convivência com o argentário e depender integralmente dele. Precisa ser salvo de si mesmo.

Agora, o falido tem duas opções: sentir-se humilhado e negar a possibilidade de restauração ou humilhar-se e viver na dependência do dono do mundo. A salvação é o meio de fazer o falido ser liberto da sua falência através de um relacionamento pessoal e permanente como o Todo-poderoso. Não se trata do desempenho do necessitado, mas da suficiência do Salvador. A questão vital é da comunhão pessoal com o Magnânimo. E aí?

O ESPÍRITO DA CRUZ. 74 – O SERMÃO

Como disse Edward Bounds: “pode-se levar vinte anos para fazer um sermão, porque pode levar vinte anos para formar uma pessoa. O verdadeiro sermão tem a ver com vida. O sermão cresce porque a pessoa cresce. O sermão é poderoso porque a pessoa é poderosa. O sermão é santo porque a pessoa é santa. O sermão é ungido porque a pessoa é ungida.” Não basta falar, é preciso viver o quê se fala.

A pregação não é a linguagem de papagaio, aprendida por memorização. Antes de saber, é imperioso que o pregador creia. No reino de Deus não são os argumentos que devem ser considerados, mas a fé e o caráter inteiro do pregador.

O apóstolo aos gentios, citando o salmo, disse: cri, por isso falei. A pregação é fruto da confiança e esta, uma consequência da revelação da Palavra de Deus ao íntimo do pregador. Quem crê, internaliza a mensagem e a profere com convicção. Crer e falar são as marcas da pregação autêntica. Nós cremos por isso também falamos.

A mensagem necessita ser afinada com a vida do mensageiro. E a mensagem não sai só pela boca, sai também pelos poros. Ouvi alguém dizer dum pregador televisivo: não parece natural o que ele diz. Os gestos e a fisionomia, as caretas e a entonação, tudo fala e tudo diz do caráter desse expositor. Ele é um blefe, justificou o crítico.

Um velho pregador tinha um jovem que às vezes o substituía. Um dia, quando o moço pregou, uma senhora muito firme na mensagem, disse ao velho: quando este jovem prega, ele desprega o que você pregou. Ele está mergulhado em grande ambição e tudo o que diz é uma projeção de sua vida idealizada. Nada é autêntico nele…

Nós podemos pregar certo, embora, muitas vezes, tudo o que pregamos aos outros, encontra-se infestado de nossa personalidade cheia de vaidade. A mensagem em si é perfeitamente ortodoxa, mas o mensageiro, um pavão empoleirado no alto dos seus projetos pessoais de altivez. Poucas coisas podem ser tão perigosas quanto a pregação verdadeira, anunciada por um impostor. Com o tempo vem o descrédito.

A vida torta do pregador acaba trazendo desconfiança com a mensagem. Tudo o que ele diz é a verdade, mas não consegue viver o que prega; com isso, a pregação se perde na falta de coerência com a vida. A esposa de um pregador me disse, certa vez, por telefone: o meu marido é convincente no púlpito, mas é um embuste. Eu o conheço…

Gosto deste pensamento: O falso pregador é alguém que precisa dizer algo; o verdadeiro pregador é alguém que tem algo a dizer,” e, acrescento, mesmo que lhe custe a cabeça numa bandeja. A verdade a qualquer custo e ao preço de uma vida crucificada.

Não basta ser convincente é preciso ser coerente. Não basta dizer a verdade é preciso ser verdadeiro. Não basta ser admirado é preciso ser crucificado.

Do velho mendigo GP.

O ESPÍRITO DA CRUZ. 73 – O Milagre do “Nascer de Novo”

Jesus disse: “o que é nascido da carne é carne e o que é nascido do Espírito é espírito”. Aqui nós vemos dois nascimento: o do bebê e o do novo ser, um ser espiritual.

O neném nasce descendente de Adão. Ele é carne e carnal. A nova criatura é um milagre da graça e nasce através do Espírito Santo, como uma realidade espiritual. A criança cresce e continua sempre sendo carne. Mas, um dia essa pessoa pode nascer de novo e se tornar uma nova criatura. Ela nasce do Espírito e é espírito, mas continua como carne, ainda que perca a sua condição de carnalidade permanente.

O que é nascido da carne continua sendo carne. O que é nascido do Espírito é espírito e permanece espírito, mesmo vivendo na carne. Neste caso, o espírito é espiritual e continuará espiritual, mas a carne que continua sendo carne, não viverá na carnalidade.

Quando alguém nasce de novo, não deixa de ser carne ao ter sido feito espírito vivificante, porém, deixa de ser dirigido pela carnalidade da carne. Ele é carne, mas não é mais carnal. Aquele que é espírito, é espiritual, e embora, continue na carne, não é carnal.

A carnalidade é o resultado da carne sem o novo nascimento do espírito. Uma vez nascido de novo, a carne continua sendo carne, todavia a nova criatura não é mais uma pessoa governada pela carnalidade. Ainda que essa pessoa possa pecar, na carne, a carne, em sua carnalidade, não terá mais domínio sobre ela.

O ser humano na carne, sem o novo nascimento, vive uma ditadura da carne e ainda que não seja depravado na carnalidade, ele é carnal. A nova criatura é espiritual e mesmo vivendo na carne, sempre será uma pessoa espiritual.

Deus é espírito e só se comunica com os Seus filhos de modo espiritual. Não é a psique que se comunica com Deus, mas o espírito. Se não houver vivificação em nosso espírito, não haverá vida relacional com Deus, mesmo que haja uma vida ética cheia dos mais ricos frutos de moralidade. O novo nascimento tem a ver com a vida que se conecta com Deus, não, necessariamente, uma vida sem jaça em sua conduta.

É verdade que a nova criatura terá um comportamento adequado e vida moral digna, mas não é a vida moral digna que vai determinar se houve novo nascimento. O que carateriza a nossa nova criação é, antes de tudo, a sua confiança apenas na Trindade e a total e permanente desconfiança em si mesmo. A fé é nossa plena confiança em Deus ou confiança no Alto e o arrependimento a nossa desconfiança da autoconfiança.

Aquele que nasceu do Alto vive dependente do poder do Alto e em constante arrependimento de si mesmo. Como disse George Whitefield: “Precisamos arrepender-nos de nosso arrependimento e lavar nossas lágrimas no sangue de Cristo.” Mendigos, se formos espirituais até das lágrimas precisamos nos arrepender.

Do velho mendigo, GP.

O ESPÍRITO DA CRUZ. 72 – Uma coisa é estar na igreja, outra bem diferente, é estar em Cristo!!!

Uma coisa é estar na igreja, outra bem diferente, é estar em Cristo. Se alguém estiver em Cristo estará na igreja, mas, pode ser que alguém só esteja na igreja e jamais estará em Cristo. Para estar na igreja basta o batismo nas águas, contudo, para estar em Cristo é preciso o batismo na morte. Sem a morte do ego com Cristo não há cristianismo.

A igreja é um organismo vivo, mas pode ser também apenas uma organização. Como organismo, a igreja é o corpo vivo de Cristo. Como organização, não passa de uma agremiação para fins lucrativos ou religiosos. Não devemos ficar confusos com isto.

A igreja orgânica tem organização, porém, não é uma mera instituição de ritos e formalidades. O que organiza esta comunidade é a vida de Cristo – agindo pelo Espírito, espiritualmente, em cada um dos seus membros. É uma casa de família onde a família se comunica com transparência e age em harmonia comunitária.

Religião e Evangelho são totalmente diferentes. A religião, no que diz respeito à reunião das pessoas, produz entidades corporativas a serviço do humanismo, enquanto o Evangelho investe na libertação das pessoas, para que vivam livres pela graça de Deus.

Jesus falou do trigo e do joio na igreja. O trigo é o filho de Deus e o joio, o filho do maligno. O Semeador plantou o trigo de dia e o impostor plantou o joio à noite. – Um é luz e o outro, trevas. Mas, Jesus disse que não era possível separar, agora, um do outro. O trigal vai ter que conviver no mesmo campo, nesta era, com a plantação do joio.

A cizânia ou joio é muito parecida com o trigo, mas eles são diferentes em três pontos importantes: na raiz, no porte e no fruto. A raiz da erva detinha fica bem arraigada ao solo; o joio está preso à terra ou ao mundo, enquanto o trigo pode ser arrancado com certa facilidade. O porte da cizânia é altivo e sempre cresce mais que o trigo, ficando com a sua espiga empinada, porque não tem grão, é xoxo. Só o trigo tem fruto de verdade.

O joio está na igreja, mas ele não gosta do trigo, nem da igreja. A sua atividade é confundir os ingênuos e gerar desordem. Porém, se alguém não gosta de igreja, nunca, jamais poderá fazer parte saudável de nenhuma igreja. A verdadeira igreja é formada pelo trigal que não entra na intriga do joio, mas vive integralmente para a glória de Pai.

Quem não gosta de igreja, não pode ser igreja. Ora, se não formos igreja, não somos filhos de Deus, mas, se formos filhos de Deus não há lugar para ressentimento ou amargura em nossos corações. A igreja de Deus não odeia a quem não gosta dela, ainda que seja perseguida ou dilapidada por seus inimigos.

Há muitos que se preocupam mais com o respeito humano do que com a plena aceitação em Cristo. Mendigos, “a igreja é a herdeira da cruz”, portanto, levemos o morrer de Jesus em nós, para que Sua vida se expresse também em nós.

Do velho mendigo, GP.

O ESPÍRITO DA CRUZ. 71 – UM CORAÇÃO AOS CACOS

O arrependimento não é remorso. “O verdadeiro arrependimento consiste em ficar o coração quebrantado por causa do pecado e de romper com o pecado,” afirmou muito bem William Nevins. Não confunda a tristeza, em lágrimas, com a dor do coração.

O remorso é uma tristeza do sujeito que foi flagrado com a boca na botija, mas o arrependimento é a tristeza daquele, que, mesmo ninguém sabendo do seu deslize, se percebe como tendo ofendido a santidade de Deus. No remorso, muitas vezes, existe só e apenas um show de lágrimas, mas no choro do arrependimento há quebrantamento.

Já cai várias vezes no pranto do conto do vigário. Eu mesmo já chorei porque o meu erro foi descoberto. Havia chororô, todavia não se via pungimento. Deus olha para o coração compungido e contrito e não simplesmente para os olhos marejados. As lágrimas de Esaú não revelaram o seu arrependimento. Eram lágrimas de tristeza sentimental.

Victor Alfsen disse:

“Deus pode fazer maravilhas com um coração quebrantado, se você lhe entregar todos os pedaços.” Mas como entrega-los?

Na verdade, a tristeza espiritual é um dom da graça de Deus. Só a mão do Pai pode nos tocar, de tal maneira, que torne o nosso coração sensível diante da visão e da convicção do pecado. Se o Pai não nos levar ao constrangimento e nojo pelo pecado, não haverá quebrantamento, e, consequentemente, não haverá a entrega dos cacos a Ele.

No reino de Deus, um coração quebrantado e entregue a Ele é o único coração inteiro e sadio. Não há saúde espiritual sem quebrantamento da alma.

Foi John Henry Jowett quem disse: –

“o evangelho de um coração quebrantado começa com o ministério de corações que sangram. Quando nós paramos de sangrar, já paramos de abençoar.” Jesus disse ao médico ferido, que queria ser curado, na peça que leva esse nome: – se você for curado, quem compadecerá dos doentes que lhe procuram?

Jesus é denominado como “o homem de dores”. Sem dores a fé cristã é dura e insensível. Foi o Dr. Martyn Lloyd-Jones quem disse:

“Se realmente conhecemos a Cristo, como nosso Salvador, os nossos corações estarão quebrantados, não podem ser duros, e não podemos negar a compaixão e o perdão.”

Muitos de nós pensamos que já estamos quebrantados, mas estamos apenas em um estado de aviltamento. O quebrantamento é mais do que servilismo, ele nos tira do tribunal do júri, em defesa de algum direito camuflado, e no coloca na senzala do reino de Deus, como escravos a serviço da glória do Rei dos reis, sem qualquer direito.

Mendigos, vivemos hoje o cristianismo da prosperidade e das reivindicações de “Servos” imponentes. Mas, o que falta, de fato, são corações quebrantados que vivam só e tão-somente para a glória do Senhor.

Do velho mendigo do vale estreito,

GP.

Espírito da Cruz.70 – A fé Cristã não se trata de coisas notáveis.

A fé cristã não se trata de coisas notáveis que faço na praça, mas o que vivo no quarto com portas trancadas. Não é como prego no púlpito, mas como vivo sem máscara, nos bastidores. Não é a performance da passarela, mas o anonimato do camarim.

A conversa secreta é mais importante do que o discurso público. Os cochichos são mais reveladores do caráter cristão do que os relatórios. A oração de portas fechadas é mais significativa do que aquela propalada aos quatro cantos. Deus jamais vê como nós vemos: nós vemos a casca, Deus, o cerne. Para nós, o que vale é o verniz, para Deus, é o íntimo. A vida interior tem mais valor do que a conduta externa.

A fé cristã não é tanto uma ação planejada, mas a reação inesperada. Não é a honra almejada, porém, a humilhação desfrutada com contentamento. O cristão não vive para ser aceito por Deus, mas, vive a partir de sua aceitação de Deus.

Nenhum cristão legítimo busca os confetes humanos e nunca se melindra com a ausência de reconhecimento. Jesus era assim, nunca reivindicava por holofotes.

O cristianismo não é uma postura elevada, mas um espírito quebrantado. E eu não sou visto, como um cristão, pelos meus direitos, mas pela minha renúncia. Foi assim que Jesus viveu e é assim que vamos dar testemunho da nossa fé nEle.

No reino de Deus, um coração quebrado é o único coração inteiro. Integridade espiritual e quebrantamento são imprescindíveis para a peregrinação rumo à Jerusalém lá do Alto, pois, assim como Jacó precisou ser ferido na coxa para tornar-se um príncipe real de Israel, nós precisamos ser crucificados com Cristo Jesus para poder entrar, realmente, na Assembleia dos redimidos. Sem a co-morte com Cristo não há vida ressurrecta.

A nobreza de Deus, na terra, além de ser manca, traz os sinais marcantes dos cravos no caráter. Não é apenas a ortodoxia da cruz que nos identifica com cristãos, mas a ortopraxia do espírito da cruz. A vida de um crucificado tem as cicatrizes da cruz no seu modo de andar. Os cristãos só podem participar de paraolimpíadas espirituais.

Os direitos humanos fazem das aberrações morais uma cartilha da moralidade de um mundo caído, mas o Evangelho faz das vidas justificadas um motivo justificável de serem perseguidos pelo estilo santo de seu modo de viver: santidade rejeitada.

Um cristão autêntico não tem direitos neste mundo, nem faz parte de sindicatos morais. Ele vive de Cristo, por Cristo e para Cristo. Sua única reivindicação é para a glória de Cristo e as consequências disto é viver no ostracismo para o mundo. Quem busca sua visibilidade pública neste mundo, talvez nada saiba do que foi a vida de Jesus da Galiléia.

Mendigos, todo cuida é pouco com a nossa exposição nos Face-books da vida. Jesus quando fazia um feito notável se ocultava.

Do velho mendigo do vale estreito,

GP.

O ESPÍRITO DA CRUZ. 69 – DISCERNINDO – DONS DE TALENTOS

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Os dons e talentos não são as mesmas realidades. Os dons são espirituais, e, os talentos, naturais. A origem dos dons é o Espírito Santo agindo no espírito regenerado dos filhos de Deus. Os talentos são capacidades naturais da nossa alma.

Os talentos focalizam a glória da pessoa dotada, enquanto os dons, a glória de quem os dotou. Nós podemos perceber a diferença entre o dom e o talento, examinando para quem vai a glória. Se a pessoa requer o seu reconhecimento na apresentação de um evento qualquer, então, estamos frente a um talentoso. Se alguém sai da cena, depois de ter sido usada em um momento glorioso, e, dá toda glória a Deus, isto é um dom.

O talento é humano, o dom é divino. O talento promove a admiração do artista, o dom, a adoração do Seu Autor. Orgulhar-se dos dons rouba a bênção de Deus no uso deles. O dom não é do crente, mas do Espírito. O crente pode ser usado, por Deus, com os Seus dons, mas ele não pode ser ousado a ponto de admitir que a glória lhe pertence.

Os talentos normalmente beneficiam aos artistas; os dons, ao corpo de Cristo. Os dons são ferramentas espirituais para a edificação da igreja. Não existe dom espiritual para autopromoção pessoal. Harry Kilbride disse muito bem que os melhores dons são os que beneficiam todo o corpo. Não se encontra muita gente pedindo o dom de liberalidade. Vejam que nem sempre queremos ser usados pelo Espírito, mas beneficiados por Ele.

Mas os dons são manifestos para a glória de Deus e a edificação da igreja. Na vida cristã, não há dom que promova o bem estar pessoal, que não esteja ainda vinculado ao bem estar coletivo. Os membros do corpo cooperam para o bem estar do corpo todo.

Os talentos sempre exigem uma plateia para se exibir, mas os dons buscam o corpo de Cristo para poder edificá-lo. O Espírito Santo nunca age corporativamente numa pessoa que não tenha nascido de novo. Não existe dons espirituais naqueles que não são espirituais e não há vida espiritual em quem não tenha sido crucificada com Cristo.

A vida espiritual, zoe, é decorrente da morte de nossa vida psique, na cruz com Cristo, e do implante miraculoso, pela fé, da vida ressurrecto de Cristo em nós. Assim, os dons espirituais são consequência da vida espiritual de Cristo em nós e nunca o resultado da vida adâmica. Não há dom espiritual em gente soberba e insubmissa ao Senhor.

Muitos confundem dons espirituais com poderes latentes da alma; confundem, por exemplo, clarividência com profecia; autossugestão e hipnose com dons de cura; a fé com pensamento positivo, e, por aí vai. Só que a alma pode reagir, em muitos aspectos, como se fosse espiritual. Parece espiritual, contudo é apenas a psique simulando.

Mendigos, cuidado com talentos “espiritualizados” e poderes latentes da alma fingindo dons espirituais. Pai, dá-nos o dom do discernimento.

Do velho mendigo, GP.

O ESPÍRITO DA CRUZ – 68 – DOS TALENTOS AOS DONS

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A igreja é organismo vivo com a vida de Cristo. Deve ser organizada, sim, sem ser uma mera organização. Todo organismo vivo tem uma organização, porém, nem toda organização é um organismo vivo. A igreja é um organismo vivo organizada pelos dons do Espírito Santo. Não são os nossos talentos, mas os dons que a deixam bem organizada.

Os talentos são naturais, os dons, espirituais. Não existe dom de cantor, existe talento artístico. Os dons são do Espírito e os talentos são nossos. Cantar é talento, mas profecia é um dom para edificação do corpo. A oratória é um talento, o ensino é um dom. Os talentos geram admiração dos artistas, os dons, adoração à Trindade Santa.

Há muito show chamado de culto, mas não passa disso; é show. É lindo, mas não vai além dum espetáculo de talentos. Não estou dizendo que os talentos não podem ser expressões de culto, o que quero dizer é que os talentos sem um espírito quebrantado e a unção, que vem do Espírito Santo, gera apenas vaidade nos artistas e entretenimento no auditório. Assim, a alma se emociona, mas não toca no espírito.

Vemos, na história da igreja, os nossos talentos humanos tentando substituir os dons espirituais, e com isso, observamos a igreja sofrendo por ai com a competição sutil e “espiritualizada” dos talentosos, que querem usurpar o governo do Espírito Santo.

Precisamos entender que a igreja não é uma democracia na qual escolhemos a Deus, mas uma teocracia na qual ele nos escolheu para manifestar a Sua glória refletindo os Seus dons. Não é um grupo de artistas bem dotados, dando espetáculos, mas os filhos do Altíssimo em plena adoração ao Cordeiro de Deus, em perfeita singeleza de coração.

Administrar a igreja através de cursos da FGV, nada tem a ver com administra-la na dependência do Espírito Santo. Ensinar teologia apenas como currículo académico nunca se percebe a identidade do teólogo. Precisamos mais do que uma teologia da cruz, precisamos de teólogos crucificados, exalando o bom perfume da ressurreição de Cristo.

Gosto de William Hendriksen ao dizer: O trabalho da igreja nunca é inútil pois é produto não da mente do homem, mas da graça soberana de Deus, por meio dos dons. É o governo do Espírito de Deus no espírito regenerado do homem, promovendo adoração à Trindade e fazendo brotar o serviço em favor do povo de Deus, sem o foco no servidor.

Os talentos buscam aplausos, mas os dons nunca se exibem. Os talentosos se ressentem quando não são reconhecidos, todavia, aqueles que Deus usa, com Seus dons e os talentos pessoais, não fazem questão dos holofotes, nem se magoam no anonimato.

Mendigos, não vamos criticar os talentos, eles também são dons da criação de Deus. O que se precisa é o espírito da cruz, nos talentos, para que a glória de Deus seja a realidade tanto nestes, como nos dons espirituais.

Do velho mendigo, GP.

O ESPÍRITO DA CRUZ. 67 – Aos humanistas…

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O maior adversário do cristianismo é o humanismo. Um homem cheio de si não pode ser cheio de Cristo. O homem que se basta em sua moral, não é o bastante humilde para se abastecer da suficiência de Cristo, e, neste caso, se Cristo não for tudo para essa pessoa, certamente, Ele não será nada de valor eterno, em sua vida. Cristo não é 99%.

Ou Cristo é tudo e o homem, nada, ou o homem é tudo e Cristo, zero. Não há lugar para Cristo e o homem na vida cristã. Não há lugar para Cristo e a moral socrática na nova criatura. O cristianismo não trabalha com as premissas humanistas.

O Evangelho não considera a moral como algo importante, mas, sim, a vida de Cristo. Não é uma ética sem jaça, mas uma vida pela graça. O cristão não é uma pessoa que se orgulhe de sua conduta sem defeito, mas alguém que se alegra por ter sido aceito por Cristo. Não é o que expressa em seu viver, mas o que Cristo manifesta em seu ser. É vida santa. Não se trata de comportamento sem mácula, mas da vida santa de Cristo.

No humanismo o homem vive a sua vida. No cristianismo é Cristo quem vive no ser humano e através dele. Para que Cristo viva Sua vida, no ser humano, ‘Adão’ precisa perder a sua vida, na cruz, com Cristo. A ética cristã nada tem a ver com conduta humana polida, mas com quebrantamento espiritual, transpirando a vida de Cristo pelos poros.

O humanismo afoga o vaidoso Narciso numa poça d’água. O cristianismo faz a fênix falida sair das cinzas, por meio da ressurreição de Cristo. A alma em sua expressão moral de elevação é um modelo digno de admiração, mas o indigno pecador em adoração se prostra diante do trono, reconhecendo a majestade soberana da Trindade graciosa.

O homem íntegro merece todo reconhecimento. O humanista batizado é quase sempre um exemplo de virtudes, embora, jamais, se perceba a santidade de Cristo, como sua etiqueta. É gente ética, virtuosa, mas não lava pé, e quando lava, publica no jornal. A vitrine é mais empolgante do que o quarto de portas trancadas.

Você conhece um humanista batizado, pelo nariz, pois está sempre empinado, soprando forte, enquanto o cristão tem o seu sujo de terra. A humildade não é uma virtude da alma, mas o estilo de um espírito quebrantado. Não é atributo de Adão, mas de Jesus. Foi por isso que alguém disse: melhor é ser um verme humilde do que um anjo orgulhoso.

Pedro, o discípulo de Jesus, foi um humanista, antes de ser convertido. Ele era autoconfiante e autoritário. Sua proposta visava retirar Jesus da Via Crucis, por isso Jesus o repreendeu, denominando-o de satanás e ordenado-o a retirar-se. Todo sentimento, que não contempla o rosto em terra, tem os traços do altar, que por natureza pertence a Deus.

O homem em sua dimensão de idolatria ética é um perigo cruel para o corpo de Cristo. Mendigos, cuidado com o nosso humanismo batizado.

Do velho mendigo, GP.

O ESPÍRITO DA CRUZ. 66 – Aos Convertidos…

A conversão tem duas vertentes: uma humana e outra divina. Há muitos que se convertem a algum sistema, outros são convertidos por Deus, para Deus. A conversão do homem pelo homem é auto-produzida: eu me converti. É também auto-destrutiva: perdi a salvação. O homem que se converte pode desconverter-se. É ele quem sustenta a sua fé.

Há, também, muita gente que se convence que foi convertida. Isso é um auto-convencimento. Eu preciso analisar muito bem, se a minha conversão está baseada num convencimento pessoal que tive ou no convencimento do Espírito Santo, que me levou ao arrependimento da minha auto-confiança. Pode-se fazer um prosélito com certa facilidade de convencimento, o que ninguém pode fazer é um convertido. Só o Espírito Santo pode.

Nas igrejas, hoje, vemos uma turma grande que foi convencida a se converter por algumas estratégias de persuasão. Os apelos apelativos têm sido usados como meios de auto-convencimento. Emoções ou sentimentos servem como aferidor de que a pessoa se converteu. Mas isto não prova que alguém foi convertida. Veja o chororô de Esaú.

Há ainda aqueles que foram convencidos a serem convertidos. Não se trata de mera emoção, mas de forte invicção. É gente bem instruída e capaz de demonstrar a sua capacidade explicativa de uma possível transformação. O problema aqui é que a vida não mostra o espírito da cruz na pessoa. Há um homem velho obeso saindo pelos poros.

O profeta fala da conversão em 1º lugar, como uma ação Divina. Converte-nos a ti, Senhor, e seremos convertidos. Lamentações 5:21. Só depois que eu for convertido, pelo Senhor, é que posso viver me convertendo. A vida cristã é uma jornada permanente de conversão ao Senhor. Deste modo, nós fomos convertidos a nos converter a Cristo.

Jeremias é claro nesse ponto: converte-me, e serei convertido, porque tu és o Senhor, meu Deus. Não podemos nos converter, sem antes sermos convertidos. A nossa conversão, ao Senhor, é resultado da conversão dada pelo Senhor a nós.

Sempre fiquei intrigado com uma passagem. Jesus diz: o coração deste povo está endurecido e eu falo por parábolas, para que vendo não vejam e ouvindo não ouçam e se convertam e sejam por mim curados. A questão é: então, o Senhor não quer que nós nos convertamos? Parece que só podemos nos converter, depois de sermos convertidos.

Jesus não está por aí catando eleitores para votarem nEle no dia das eleições. Tudo faz crer que Ele veio buscar os Seus eleitos, nEle, desde a eternidade. Não se trata de gente que se convence e se converte, mas daqueles que foram convertidos pela graça e se convertem como resultado de uma tão grande salvação operada por eles e neles.

Mendigos, ninguém pode se converter sem que seja convencido pelo Espírito e convertido pelo poder alto, pois não há auto conversão a Deus.

Do velho mendigo, GP.

espírito da cruz 65 – por fora, bela viola…

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Alguém disse: – “Uma igreja sem a verdade não é uma igreja verdadeira, e uma igreja sem o Espírito não é uma verdadeira igreja.” A verdade em Jesus e o Espírito Santo precisam andar juntos. Não basta ter uma doutrina correta, é preciso ter a manifestação do espírito da cruz através da revelação do Espírito Santo de Deus.

Saber muito de Bíblia e não expressar o estilo bíblico da cruz, definido por meio da Bíblia é de nenhum valor. Foi J. I. Brice quem disse: a igreja tem parado em algum lugar entre o Calvário e o Pentecostes. E tem parado sob o pálio dourado do saber teológico. Há uma gordura grossa de conhecimento, mas ossos secos de vida crucificada.

Paulo disse que o saber entumece. O inchaço da cabeça tem produzido magro e esquelético espírito de humildade. Hoje se fala muito em apologética e pouco se vê das marcas distintivas da apologia da cruz.

“O discurso é fogoso, mas só tem fumaça. Falta o calor de uma vida quebrantada”, disse o ouvinte, depois de um jantar com o pregador.

Todos nós, que pregamos, corremos esse risco de ter mais papo do que vida. Jesus ensinava o que vivia, mas nós, nem sempre vivemos o que ensinamos. Falamos de vida quebrantada e vivemos com o nariz empinado; pregamos a cruz sentados num trono; ensinamos sobre desprendimento, reivindicando direitos pessoais.

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Uma das minhas grandes lutas é entre o púlpito e a poltrona; entre o que prego na congregação e o que falo na sala de jantar; entre o público e o privado. Ser visto como um bom orador não me garante que eu seja um cristão de verdade. A família que o diga.

A grande crise da igreja atual é conhecimento sem unção do alto, grau escolar sem o fogo do Espírito Santo. O sábio A.W.Tozer disse: Há igrejas que se encontram tão completamente afastadas da mão de Deus, que se o Espírito Santo se afastasse delas, elas não perceberiam isso durante muitos meses. E eu ouso dizer: por séculos.

Laodicéia é uma igreja assim, de nada tem falta, mas Jesus está fora dela. É rica e pobre ao mesmo tempo. Tem de tudo mas lhe falta tudo, pois Aquele que é o tudo em todos, não faz parte de suas cogitações. Jesus pode até ser um nome no cardápio, mas não é o prato do dia. Pode ser citado entre eles, mas ninguém ceia com Ele.

Falar de teologia sem as marcas da cruz é como um mecânico que acabou de consertar um carro velho sem manchas de graxa nas mãos e na roupa.

Campbell Morgan dizia que aquele que prega a cruz tem que prega-la, pregado na cruz.

Só os crucificados em Cristo podem transpirar os efeitos da morte do ego, sob o poder do Espírito Santo.

Mendigos, uma coisa é o discurso da cruz, outra, é o curso de um crucificado. “Não há dúvida de que, se há um só Deus, um só Cristo, uma só cruz, um só Espírito, há somente uma igreja, a dos crucificados.

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.

espírito da cruz 64 – a fé virou refém

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No século XIX, Hegel deu uma pedrada na cabeça da humanidade e avariou em cheio a razão. Saímos do terreno do pensamento para o campo do sentimento. No tempo da lógica matemática, quando A era verdadeiro, não A era falso, mas hoje, a síntese cinza do branco e preto tornou-se a verdade subjetiva universal e absoluta.

Agora, já não há mais a verdade, mas verdades. Vivemos a ditadura maiúscula do subjetivismo e o domínio do sentimento. Não se pode mais falar em verdade absoluta, pois o único absoluto que há, é o absoluto relativismo da verdade.

Este absolutismo da experiência pessoal determinou o caos da realidade. Nada hoje é considerado verdadeiro, pois cada um tem a sua verdade experimental. Ouvi uma canção gospel, dessas arrebatadoras, que dizia, eu sinto a tua presença… eu sinto, sinto e sinto, era tudo o que dizia. Tudo estava sustentado pelo sentimento. Só se via a alma nos seus românticos expedientes, tentando garantir a realidade espiritual.

O espírito está na dimensão onde só a verdade em Jesus e a fé podem entrar. O mundo espiritual jamais será dirigido por uma alma caída. Mesmo que a razão chegue à porta do trono de Deus, é a revelação que vai convida-lá a entrar.

Sem iluminação, não haverá revelação, e sem esta, tudo é obscuridade emocional. Sentimento não é fé.

A realidade Divina não é sensorial e nem sensível. Não é emoção, senão pura revelação a caminho da intimidade com Deus. Como bem disse o Dr. Robert Horn, “nossa necessidade de revelação é como nossa necessidade de redenção: é absoluta.”

A caligrafia de Deus só pode ser decifrada pelo próprio Deus. Todo ser humano precisa de Deus para crer em Deus. Sem a revelação de Deus não há o conhecimento de Deus. Não se trata de sentimento, nem mesmo de entendimento. Para o escritor Arthur C. Custance, “enquanto Deus não sintonizar o receptor no coração do homem, a mensagem do evangelho será apenas um ruído, não uma comunicação.”

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A Palavra de Deus e o Espírito Santo são os promotores da revelação, e, esta, é o agente da fé, que pode muito bem se manifestar com emoções. Não devemos negar o valor dos sentimentos se vierem guiados pela fé. Emoções podem ser como vagões, mas nunca como a locomotiva.

Se a ordem for: Palavra de Deus, fé e emoção, tudo bem.

A questão hoje é uma confusão de sentimentos. A fé virou emoção e a emoção uma loucura da alma, onde o espiritual converteu-se em emocionalismo.

A fé salvadora é tão espiritual como a salvação pela fé. Não podemos confundir os nossos sentimentos, nem mesmos os nossos insights com o escopo da fé. – Mendigos, na vida espiritual, tudo é de Deus, por meio de Deus e para Deus. Não se deixem levar ou iludir pela sabedoria das palavras. É só por Cristo, o crucificado.

Do velho mendigo,

Glenio.

espírito da cruz 63 – eu peco e Deus me pega

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O ser humano caiu por sua própria conta e permanece caído, em sua natureza, indo para a condenação eterna por sua inteira responsabilidade. Mas se alguém for salvo, será apenas pela graça de Deus. A queda é nossa. A salvação é divina.

Deus não criou o homem para que caísse, ainda que a queda já fosse prevista, pois, o Cordeiro havia sido imolado deste a fundação do mundo. Adão caiu por sua conta própria e nunca por pre-determinação divina. Deus não é o promotor da queda, contudo, é o único autor da salvação.

O desastre é nosso. A restauração é dEle.

O ser humano quando caiu, caiu totalmente. Não há nada no pecador que não esteja essencialmente depravado e espiritualmente morto. O homem natural, morto, pelo pecado, não quer e nunca buscará a Deus. Ele está desconectado de qualquer interesse por Deus. Mas, se ele vier a busca-Lo, é porque foi vivificado por Deus, para tal.

A vivificação operada pelo Espírito Santo num morto espiritual caído, antecede a sua reação espiritual. É milagre divino ter vida espiritual capaz de se voltar para Deus. A alma pode ter alguns sentimentos semelhantes às reações espirituais, mas nada disso é espiritual, de fato. As emoções podem até acompanhar a fé e o arrependimento, embora as emoções sejam meros produtos da alma e nunca da vida espiritual.

Na vida espiritual não se sente, se crê. Não funciona na terceira dimensão, mas no plano invisível e eterno. Se não formos vivificados antes, pelo Espírito de Deus, jamais poderemos nos manifestar no âmbito espiritual. Não há fé salvífica na terceira dimensão, nem arrependimento de si mesmo, num homem incrédulo. É puro milagre.

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A fé e o arrependimento são, antes de tudo, graças divinas, mas, também, são reações espirituais das novas criaturas. São, ao mesmo tempo, dons de Deus e respostas responsáveis do novo homem. São presentes da graça e graciosos deveres dos filhos de Deus. São sementes plantadas do céu, que nascem em busca do céu.

Se nós não temos fome espiritual é porque não temos vida espiritual. Se temos apenas curiosidade do transcendente, isto não significa que fomos vivificados. Uma mera curiosidade é da alma caída, mas a fome espiritual é do espírito vivificado. “Se houver em nossa vida qualquer coisa mais desejável do que o anseio por Deus, então, ainda não foi implantada em nós a vida espiritual”. Podemos ser religiosos, nunca filhos do Altíssimo.

Mendigos, não confundam os sentimentos da alma com o entendimento que é produto da palavra pelo espírito vivificado. O velho homem é servo do pecado e tudo nele cheira morte. Não há vida espiritual num bebê caído e, se alguém reage, espiritualmente, é porque foi regenerada pelo Espírito Santo. Não há resposta espiritual em uma pessoa que não nasceu do alto. É isto, e tenho dito.

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.

espírito da cruz 62 – entre cordeiros e lobos

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Um cordeiro, à margem do regato, bebia sossegado, quando apareceu um lobo um pouco acima, reclamando da água turva. Sem saber como poderia tornar lamacenta a água, o cordeirinho, surpreso, contesta a possibilidade, já que encontrava-se a abaixo.

O fato deixou o lobo sem argumento, e, logo procurou outro pretexto.

– Então, foi no ano passado.

– Como? Eu nem era nascido.

– Com certeza foi seu irmão, insiste o lobo.

– Mas eu não tenho irmão, retruca o cordeiro.

– Ah! Agora sei, foi seu avô.

Esta velha fábula de Esopo reflete a motivação das intrigas. Temos que achar a mola que estimule nossas impertinências. Os lobos sempre serão inimigos de cordeiros e, muitas vezes, sem razões, acharão uma razão irrazoável para arrasar o rebanho. Nesse mundo do “homo lupus homini” – em que o homem é o lobo do homem, a coisa é similar.

Há dois tipos de seres humanos: os lupanóides e os cordeiríneos. Os primeiros são descendentes do velho lobo, que mata, rouba e destrói, enquanto o outros procedem da geração do Cordeiro imolado no Calvário. Lobos jamais se dão com cordeiros.

O lobo e o cordeiro não pastam juntos. A comida de lobo é carne sangrando; a dos cordeiros, é a relva verdejante junto às águas de descanso. O menu define o apetite. Sabe-se que um lobo pode vestir-se de ovelha, mas o seu cardápio não muda. Ele nunca come feno. A malícia faz parte de sua refeição. Os lobos são cruéis na sua carnificina.

Jamais ouvi falar de cordeiros que tivessem prazer em carnalidade. E quando deram farinha de osso aos bovinos e ovinos, gerou a doença da vaca louca. O Pão nosso de cada dia é o único alimento do rebanho do Altíssimo. Nunca soube de um cordeiro se restaurando em alguma carniçaria, pois as ovelhas de Deus se alimentam de Cristo.

A única carne que comem é a de Cristo e o único sangue que bebem é o de Cristo. A vida é Cristo. O pão é Cristo. O vinho é Cristo. A meta é Cristo e somente Cristo.

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Quando vejo lupanóides, no meio do redil, disfarçados de ovelhas e, dando a entender que podemos comer algo além de Cristo, me assusta ver cordeiríneos, jovens, abanar o rabo em sinal de aprovação ao cardápio do humanismo. Temo que assim como a serpente enganou a Eva com a sua astúcia, muitos sejam corrompidos na mentes e se apartem da simplicidade e da pureza devidas a Cristo.

Os lobos querem perturbar o rebanho com afirmações que subtraem de Cristo a sua suficiência. Todos nós temos que estar bem vigilantes, pois satanás usou Pedro para retirar Jesus da via Crucis. Não restam dúvidas que todos nós estamos sujeitos aos ardis do engano. Por isso, precisamos ter os ouvidos atentos a todo sibilo do humanismo no seio da igreja. Se conhece a ovelha de Cristo, não tanto pelo berro afinada, mas pela lã lanosa do amor revelado por Cristo.

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.

espírito da cruz 61 – renascidos para crer

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Regeneração é a vida espiritual, vida zoe, comunicada ao morto espiritual, pelo Espírito Santo, em razão, da cocrucificação da psique do pecador, com Cristo. Por outro lado: conversão é a reação voluntária do vivificado em Cristo, ao mover do Espírito Santo.

Uma pessoa, morta espiritualmente, não tem nenhuma reação espiritual. Antes de poder reagir de modo espiritual, precisa ser vivificada no espírito pelo Espírito de Deus.

A Palavra de Deus é a semente geradora de vida espiritual e o Espírito Santo é condutor desta semente ao coração do morto, em delitos e pecados. Quando o pregador, vivificado pelo Espírito, prega a Palavra de Deus, movido pelo Espírito Santo, ele tem uma chance de fazer chegar aos ouvidos – a boa semente, capaz de gerar vida espiritual, além  de produzir reação espiritual nos mortos, em quem o Espírito estiver agindo.

A vivificação da Palavra é o primeiro milagre para gerar vida espiritual. Quando o profeta Ezequiel foi levado a um vale de ossos sequíssimos, foi-lhe perguntado:

– Podem esses ossos reviverem?

– Senhor Deus, Tu sabes. – Foi sua resposta.

Então, o Senhor mandou que proclamasse a Palavra sobre a montanha de ossos e houve o milagre da vivificação.

Um morto espiritual não pode reagir espiritualmente, se antes não for vivificado, pela Palavra viva, em seu espírito morto. O Espírito Santo só produzirá vida espiritual por meio da Palavra viva de Deus, é só os vivificados, no espírito, podem reagir ao toque do Espírito Santo. Não há choro no bebê que ainda não nasceu, nem arrependimento ou fé, num morto espiritual. A conversão espiritual é consequência da vivificação espiritual.

O homem natural (psikikós) não está em coma, espiritual, está morto. Vive sem conexão com a fonte da vida eterna. A bateria espiritual se esgotou completamente com o pecado de Adão, no Eden. Não havia vida espiritual em Caim; ele encontrava-se morto no seu espírito. Já Abel fora vivificado pelo Espírito, uma vez que reagia pela fé, sinal de vida espiritual.

Não cremos para sermos vivificados, mas, somos vivificados para crer!

Jesus disse: – o que é nascido da carne, é carne. As reações biológicas são em consequência da vida biológica. Ele ainda disse: –o que é nascido do Espírito, é espírito. A vida espiritual sempre precede as reações espirituais. A fé transcende à matéria.

Os regenerados, no espírito, foram chamados para serem porta-vozes de uma mensagem de vivificação ao mundo caído. Nós não fomos chamados para explicar, muito menos, para convencer, do pecado, as pessoas. Nossa missão no mundo é pregar a boa nova do Evangelho das insondáveis riquezas de Cristo, como cooperadores de Deus.

Mendigos, nós vivemos da esmola generosa da Graça. Fomos vivificados pela Graça do Pai, a fim de reagirmos, voluntariamente, ao chamado amoroso do Pai. Oh! que maravilhosa Graça, fazendo-nos reagir, graciosamente.

Do velho mendigo,

Glenio.

espírito da cruz 60 -você é cego ou o quê?

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Perguntou um deficiente visual a um crente:

– um cego que crê em Cristo pode continuar cego?

– O que você quer dizer com isto? – Indagou o crente.

– Jesus não veio dar vista aos cegos? Se eu cri em Cristo, por que eu não vejo o mundo ainda?

A conversa foi longe entre os dois. O crente, então, explicou:

– Há dois tipos de cegueira. Uma é espiritual e a outra é física. Jesus veio dar vista aos cegos espirituais. A questão, agora, era que tipo de cegueira o cego queria ver solucionado. A visão física é maravilhosa, mas a visão espiritual é extraordinária.

Fane Crosby foi uma deficiente visual que teve os seus olhos interiores abertos para ver a realidade além da terceira dimensão. Dos mais de 6 mil poemas que escreveu e que se tornaram letras de hinos, quase todos falam de sua visão espiritual, sem gemido. Vejam esse: vivo feliz pois sou de Jesus, eu já desfruto o gozo da luz. O que queria dizer com a alegria da luz? Não foi curada, mas era salva. Sua visão de Cristo a mantinha feliz.

Jesus curou alguns deficientes visuais, todavia, deu visão espiritual a todos os que Ele salvou.

A medicina tem ajudado, em muito, na cura de doenças oftalmológicas e uma multidão tem sido beneficiada com a restauração da visão física, embora, ninguém até hoje, tenha recebido a sua visão espiritual, sem a revelação de Cristo.

Fane fala de uma felicidade decorrente dessa visão. Um deficiente visual pode não ser curado de sua cegueira, ao crer em Jesus, mas, em razão de sua real percepção da realidade espiritual, sua alegria é extasiante. Ter a visão de Cristo e permanecer num claustro de murmuração, azedume e críticas é difamar a obra redentora de Cristo.

Ser um cristão e não ser verdadeiramente alegre é paradoxal. Jesus disse aos seus discípulos amados: Tenho-vos dito estas coisas para que o meu gozo esteja em vós, e o vosso gozo seja completo. João 15:11. Nós podemos passar por dias de tempestades e tribulações, contudo não nos faltará o jato da alegria jorrando em nossos corações.

Para a nossa poetiza, a sua felicidade emanava de Jesus. Vivo feliz pois sou de Jesus. Se sou dEle, sou feliz. A nossa felicidade, como filhos de Deus, decorre da nossa dependência de Jesus, em tudo. O segredo da felicidade é, portanto, a plena suficiência de Cristo e a total renúncia de nós mesmos. Isto é o zênite da visão espiritual.

Um deficiente visual pode não ser curado por Jesus, mas todo cego espiritual,  salvo, terá a sua visão mais ampla da realidade divina. Uma das provas de que alguém foi salvo é sua alegria em meio às tribulações. Vejam o que diz o apóstolo: entristecidos, mas sempre alegres. Mendigos, desconfiem da experiência de salvação que não seja regada à aleluia, bem como aquela que for movida à frivolidade. Ser santo e não ser alegre é como ser salvo e não ver a Cristo.

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.

espírito da cruz 59 – o rei oculto

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O orgulho espiritual é o mais dissimulado dos pecados, pois vem sempre bem camuflado de humildade. Poucos de nós tem a percepção de sua altivez pessoal. Não há mimetismo mais ardilosa do que o orgulho espiritual vestido com trapos e fiapos.

Eu não confio na minha humildade. Muitas vezes me arrasto no discurso, mas, a minha cabeça busca uma coroa no trono. Falo mansamente, embora a minha pretensão de ser visto, esteja gritando no íntimo. Digo que sou mendigo e reajo como Sua Alteza. É um paradoxo essa vida de ser um pobre de espírito. Minha fala é de humildade, todavia, o bafo de um dragão-de-Komodo denúncia meu orgulho espiritual.

O orgulho é o desejo pervertido pela notoriedade. Sou soberbo mesmo quando estou me escondendo sob os mantos da invisibilidade, a fim de que os outros saibam que eu sou um “ilustre” desconhecido. Fico assustado quando tomo uma foto de um grupo em que estou ali no meio e logo me vejo procurando a mim mesmo para olhar como estou.

Tenho pedido ao Senhor que me revele quem sou de verdade. Muitas vezes eu finjo que sou humilde, mas quando vejo minha imagem refletida no espelho do poço, logo percebo o narcisismo da modéstia rubra de brio. Eu acho que tenho direito e que devo ser tratado com deferência. Minha humildade sempre traja roupas de gala.

Vi pseudo mendigo dançando a baiana porque o seu contracheque não refletia a expectativa do seu cachê. Vi a minha conduta arrogante diante da cena julgando o outro com presunção de quebrantamento. Orgulho na ação e na reação – tudo com cara e traje de singeleza. Que coisa mais ridícula é a postura da distinção presumida.

Sto. Agostinho disse: a humildade é a qualidade que aquele que tem não sabe que tem, pois se souber, ficará orgulhoso de tê-la. Orgulho é tão persistente e resistente, que até com a humildade ele quer levar vantagem. É impossível alguém ser humilde, sem o risco de se orgulhar com sua humildade. Ouvi um missionário orar: Senhor, orgulho-me da minha humildade. Como pode? Água e fogo se aniquilam; ou a água apaga o fogo ou o fogo consome a água. Orgulho e humildade são incompatíveis.

Só o espírito da cruz tem condições de produzir a verdadeira humildade, sem promover o orgulho. Não se trata apenas de uma doutrina certa da cruz, mas do espírito da cruz. Se não houver a morte para si mesmo, não há lugar para Deus em nós mesmos. Precisamos mais do que conceitos corretos. Precisamos morrer para os nossos direitos.

Fui a um velório em que a viúva não se conformava com a morte do marido, e, em desespero, arrancava maços de cabelos do defunto. O morto tinha sido um homem muito forte, mas, não esboçou nenhuma reação. Mendigos, nós já morremos em Cristo? No espírito da cruz não há lugar para a soberba.

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.

espírito da cruz 58 – dando fruto no buraco

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Spiros Zodhiates disse: As partes mais baixas da terra são quentes e férteis; as montanhas imponentes são frias e estéreis. Não há dúvida que, os lugares baixos podem ser comparados com pessoas espirituais, que se tornam mais férteis, quanto mais ao rés do chão elas estiverem. Não é no cume dos montes, mas no fundo dos vales que há vida fértil e abundante. Não é no alto da passarela, mas no quarto fechado que está o poder.

A vida espiritual, apesar de vir do alto, não se cultiva, na terra, em lugares altos e nem é adubada através dos aplausos de uma plateia. Tanto as boas obras, (esmolas), a oração e o jejum são todos cultivados em lugares discretos, fechados; sem observadores.

Os pregadores estão sempre em perigo por causa dos holofotes. A visibilidade pública do pregador é um problema para sua alma, e, corre um enorme risco de se tornar altivo diante dos elogios. Isso, normalmente, não acontece com intercessores de plantão, pois vivem diante de Deus, mas, anônimos, diante dos observadores.

A carne gosta de exposição. O chamado crente carnal é aquele que procura se exibir nas entrelinhas, de modo camuflado, como se fosse espiritual. Essa carência íntima de ser visto e comentado corre sutil nas veias da carnalidade, gerando muito jogo político; produzindo máscaras de hipocrisia. É por isso que há, na obra da cruz, algo que precisa exercer uma mortificação permanente na vida dos filhos de Deus.

Eu sei da empolgação que os louvores exercem na minha alma carente.

Eu até consigo disfarçar o sentimento de alegria, mas não é fácil esconder a vanglória que habita oculta no âmago do meu coração envaidecido. Mesmo que ninguém a veja e eu a disfarce com uma fisionomia de espiritualidade, a vanglória asilada em meu ser, me denuncia.

Certa ocasião eu percebi a sutileza da minha mente. Recebi um elogio polpudo de um amigo e fiz cara de indigente; com um discurso politicamente correto, me livrei logo da honra, mas, no interior, eu estava me deleitando. Neste momento, o Espírito Santo deu um toque: “estou crucificado com Cristo” – não é você quem vive, mas Cristo em você.

Muitos, de nós, na congregação, se nutrem da opinião alheia e quase nunca do que Deus diz. Estamos sempre buscando a aprovação de alguém e corremos para o altar a fim de sermos vistos e reconhecidos, jamais para adorar Àquele que nos aceitou. Isto é a grande tragédia da igreja de Laodiceia, ou a igreja do final dessa história eclesiástica.

A vida espiritual não é uma questão sensível, mas crível. Não é o que vejo ou o que sinto; é o que creio, e o que creio vem da revelação da palavra de Deus. Mendigos, a fertilidade da vida cristã, não é uma questão de distinção, mas, de dependência plena da graça de Deus. Não se trata de elevação, mas de quebrantamento. Não é notoriedade ou projeção, mas tão-somente Cristo vivendo em nós.

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.

espírito da cruz 57 – a vida é complicada

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George Eliot afirmou: O que torna a vida enfadonha é a ausência de motivos. O que torna a vida complicada é a multiplicidade de motivos. O que torna a vida vitoriosa é a unidade de motivos. Eliot foi preciso ao apresentar estes três pontos.

A vida sem sentido é determinada pela falta de motivação. Se alguém não sabe para onde vai, já chegou e não tem para onde ir. Uma vida sem objetivos é com um objeto  sem utilidade. Não tem o menor valor. É como fumaça de incêndio em monturo de lixo.

O poete alemão Goethe disse: uma vida inútil é somente uma morte prematura.  Sai de cena quem não tem alvos. O marasmo é fruto da imprestabilidade. Se nós não nos conscietizarmos do significado da vida e não tivermos motivos significativos para vivermos  adequadamente, somos cadáveres ambulantes. Um sujeito sem rumo vai rumo ao caos.

Por outro lado, a vida vira uma tempestade de confusões, quando temos vários  motivos exigindo decisões simultâneos. Se a ausência de motivos torna a vida sem algum sentido, a multiplicidade a transforma numa babel. A multiplicação dos motivos agita de tal maneira a vida, que a existência perde também o sentido de viver.

O sujeito sem um motivo ou o sujeito dominado por muitos motivos, ambos se tornam como uma oração sem sujeito, objeto e predicado; sem qualquer sentido. Não é o fato apenas da falta de motivos que torna a vida vazia, mas, também, a multiplicidade dos motivos a transforma num turbilhão de inutilidades.

Uma vida complicada é uma biografia sem história que valha a pena. Quando é que podemos descrever a trajetória de uma biruta tonta que gira o tempo todo ao léu dos ventos volúveis e inconstantes? Os muitos motivos desmotivam a mente na construção de uma ordem segura, convertendo o processo numa confusão sem propósito.

A vida enfadonha é pautada pela abstenção de motivo.

A vida complicada, pela abundância de motivos, mas a vida vitoriosa tem como fundamento a unidade de motivos.

Podemos até ter motivos diferentes, desde que possamos afinar todos por uma só nota e um só diapasão. Um orquestra tem vários instrumentos de vários naipes, porém todos devem estar afinados no mesmo tom e com a mesma frequência.

A unidade dos motivos se pauta, no reino de Deus, pela obra da cruz. Não há a menor chance de alinhar as motivações pessoais e grupais, sem a morte do velho homem ou o escravo do pecado. Não há conciliação das vontades fora do Calvário, pois é apenas  em Cristo crucificado que podemos ver nossa co-crucificação e unidade dos motivos.

O espírito da cruz agindo, diuturnamente, em nosso ser, alavanca a unidade de todos os motivos, mendiguinhos, e, nossa motivação se converte, acima de tudo, em que tudo seja feito somente para a glória da Trindade.

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.

espírito da cruz 56 – andar de cima e de baixo

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Na vida natural há apenas um plano de baixo num nível caído. Nesse plano é a alma quem dá as cartas, sob a ótica da terceira dimensão. O espírito, morto, encontra-se separado da sua fonte vital, que é o próprio Deus, e, nada sabe do plano de cima.

A alma, com os fios desencapados, sai dando curto circuito para todos os lados naquilo que se convencionou como sendo a espiritualidade. Os sentimentos ditam o papel da religião e os poderes latentes da alma fazem prodígios, em nome de Deus.

Nada pode ser mais equivocado do que apoiar-se na alma para estabelecer a via da vida espiritual.

Tudo que é tridimensional, não tem nada a ver com a vida espiritual, além do que, não são os sentimentos que validam a experiência da vida transcendente. Se você é uma pessoa que nasceu no planeta terra e ainda não nasceu do alto, você não sabe nada a respeito das coisas de cima. Você não tem vida espiritual, ainda que possa ser um bom religioso ou uma pessoa digna e respeitável. Vida espiritual, terrena, é contra-senso.

O apóstolo Paulo fala sobre dois andares da vida. O andar térreo e o andar de cima. O térreo só enfoca as coisas visíveis e temporais. Quem nasceu da carne, como foi mostrado por Jesus, cogita apenas das coisas terrenas, mas, que nasceu do espírito e de cima, tem uma outra visão, pois vê as realidades eternas e invisíveis do segundo andar.

A pessoa natural, aquela que não nasceu do alto, não consegue enxergar nada do plano espiritual e vive tão-somente pelos seus sentidos terrenos, mas aquela que teve o seu novo nascimento vive nos dois andares, vendo as coisas visíveis e percebendo com clareza espiritual, aquilo que encontra-se no plano invisível e eterno.

O filho de Deus é cidadão de duas cidades, a terrena e a celestial. Como uma pessoa nascida da carne, ele é carne, e, portanto, terrenal, mas como alguém que nasceu do alto, ele é espiritual, vive em outra dimensão, vendo as realidades do mundo espiritual.

Como isto tudo aconteceu? Foi um milagre da graça. Jesus ao ser crucificado e ressuscitado, como o grande Pastor das suas ovelhas, assumiu a natureza pecaminosa e perversa das perdidas e crucificou, juntamente com Ele, a vida da alma, a fim de poderem participar do plano espiritual, através da substituição da vida psique, pela vida zoe.

O homem natural tem dois tipos de vida dirigindo a sua existência: – a vida bios, que comanda o corpo e a vida psique que determina os impulsos da alma. Aquele que foi regenerado pelo Espírito Santo tem, também, duas vidas, a bios, do natural, e a vida zoe, do mundo espiritual, que lhe foi dada depois de ter sido crucificada com Cristo, a sua vida psique, na cruz, sendo assim, substituída a motivação da alma.

A alma da nova criatura não é mais governada pela vida psique, mas pela zoe, e, assim, há uma nova identidade e um novo ser.

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.

espírito da cruz 55 – do nove ao zero

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A história dos números tem muitas histórias a contar. Vou hoje pensar sobre um dedal da axiologia dos valores. A escala de valores da matemática sobe de um ao nove e fala do que significam os algarismos, suas posições, suas vírgulas, bem como o zero.

Conheço um bando de zeros que quer ser nove, e tenho aprendido de um nove que se fez zero. Nove é o maior algarismo significativo. Nenhum outro algarismo pode ser maior do que nove. Dez é número e não algarismo, pois estes são de um a nove. Aqui há o fim da escala destes. Mais tarde o zero foi feito, pelos hindus, algarismo, mas sem valor.

Zero é sem valor, embora haja um valor em ser zero.

Quando o zero fica ali à esquerda de qualquer algarismo significativo, ele diminui o valor do outro em dez vezes, mas se ele ficar à direita, o valor do algarismo aumenta dez vezes. O zero também tem a condição de multiplicar o algarismo, quanto maior for a quantidade deles.

Exemplo: 9 é o maior algarismo e quando acrescentamos um zero, ao seu lado direito, ele se multiplica por 10. Se pusermos dois, aumenta por cem e assim por diante.

À esquerda o zero tenta desqualificar qualquer valor, à direita, ele enaltece. Se o zero estiver a destra do maior algarismo significativo, o seu significado, significa muito, e se ele estiver do outro lado, a casa cai. Zero à esquerda é um sinistro em qualquer área.

Zero é nada e nada não nadar na olimpíada dos algarismos quando estiver na raia da esquerda. Quando o nada quiser desvalorizar os que têm algum valor, teremos um desastre sinistro do maior canhotismo da vida. Zero à esquerda é o sumiço dos valores.

Interessante! O nove que se fez zero quando encontrou um grupo de zeros que queria ser nove na pescaria, depois duma novela à noite, sem um peixes sequer, mandou que lançassem as redes ao lado direito. À destra do maior algarismo há abundância. Tudo dependeu da submissão e da posição. Este episódio aconteceu duas vezes, no início e no fim do chamado ao discipulado dos zeros, que pretendiam ser os notáveis pescadores.

Para pescar homens, o segredo é ser zero. O problema é que os zeros jamais se conformam em ser nada à direta do maior algarismo. Eles querem ser alguém e esta é a grande crise que afeta a unidade dos relacionamentos. Quando os zeros querem ser o que não são, acabam por desordenar o equilíbrio da equação dos valores.

Toda essa construção aqui tem a ver com a prova dos nove. No reino exato da matemática divina os únicos nove são a Trindade. Jesus é o nove que se fez zero, a fim de desconstruir o desejo dos zeros de querem ser como nove. A operação aritmética que resolve essa questão é menos do zero pregado na cruz e o mais do nove na ressurreição.

Mendigos, o valor de ser zero à direita do Nove é todo o nosso valor como leais discípulos dAquele que na cruz se fez zero.

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.