O ESPÍRITO DA CRUZ .95 – PÉ DE ALFACE OU TAMAREIRA?

A pressa é a inimiga da perfeição.”

Hoje vivemos a ditadura do ontem, tudo é muito rápido. Queremos que as coisas que estamos planejando já tivessem acontecido. Há uma cultura do imediatismo e quase ninguém quer plantar tamareiras. O quê? Esperar 80 anos para colher frutos? Isto não faz parte da mentalidade pós-moderna.

A Catedral de Toledo, na Espanha, levou quase 300 anos para ser construída. O Templo de Salomão, da Igreja Universal em São Paulo, menos de 4 anos. Vários itens estão em jogo no encurtamento cronológico: tecnologia, transporte, recursos, mas o principal é a mentalidade. Ninguém suporta, nos dias de hoje, uma construção que demore tanto.

Somos a cultura do pé de alface. Entre plantar um carvalho que leva mais de 60 anos para ter proveito, é preferível plantar alface que em 2 ou 3 meses já podemos colher. É esta percepção imediatista que é responsável pela formação de uma geração do ontem. Mas o pior, é ver isto sendo implantado na igreja. Queremos vidas de pé de alface.

A. W. Tazer, no início da década de 60, criticou a cultura de leite em pó, do chá em saquinho e do café solúvel que estava sendo implantada na evangelização da igreja. Ele chamou a atenção para este entendimento do sintético e instantâneo que vinha sutilmente sendo imposto como válido, para ser cultivado na vida espiritual.

O problema é que, de lá para cá, as coisas só pioraram. Há uma tendência muito forte de resultados imediatos. Queremos tudo logo. A expressão tomou lugar do esperei com paciência pelo Senhor. Poucos são os que querem permanecer na Casa de Oração à espera do mover da nuvem. A alma inquieta não consegue descansar diante do Altíssimo e se desespera em busca dos seus projetos construídos sem alicerces.

A história tem fundamentos e a igreja tem história. Precisamos consultar o que foi feito no passado, mas precisamos aprender com erros e acertos em todos os períodos. A igreja de Jerusalém, no primeiro século, não deve ser o nosso modelo em tudo, hoje. Ela teve pontos positivos e pontos negativos e devemos levar tudo isto em conta.

Um ponto positivo: e perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações. Atos 2:42. A igreja estava unida. Um ponto negativo: e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da terra. Atos 1:8. A igreja tornou-se paralítica, fico só em Jerusalém por anos.

A igreja primitiva tinha coisas boas, mas também teve falhas. A igreja hoje tem falhas, mas também tem coisas boas e devemos cultivar o que foi bom ontem e é hoje.

Mendigos, precisamos aprender cultivar tamareiras, pois, se Jesus não voltar tão logo, como esperamos que volte, outras gerações comerão de seus frutos. E é bom ter cuidado com os apressadinhos que não sabem esperar no Senhor.

Do velho mendigo, GP.

O ESPÍRITO DA CRUZ .94 – ARREPENDIMENTO, DOM OU MÉRITO?

Há quem acredite que Deus perdoa aquele que se arrepende. Outros creem que Deus perdoa alguém para que se arrependa. O primeiro grupo pensa que se não houver o arrependimento, não pode haver o perdão de Deus, assim fazendo do arrependimento a causa do perdão. Mas o segundo grupo faz do perdão a causa do arrependimento.

O primeiro grupo acha que Deus só pode perdoar se houver arrependimento e, neste caso, o perdão divino depende da atitude humana de arrepender-se. Se não houver nenhum arrependimento humano, não haverá a menor possibilidade de Deus perdoar.

Mas, o segundo grupo consegue perceber a ação de Deus antes da reação do ser humano. O perdão de Deus, aqui, antecede a resposta da pessoa e o arrependimento é um ato pessoal, em consequência direta da operação divina do perdão. No primeiro grupo o arrependimento é um mérito humano, no segundo, um dom da graça de Deus.

O arrependimento é a mudança da mente autoconfiante após a vivificação do espírito, e esta é uma operação do Espírito Santo, depois do perdão outorgado aos eleitos, justificados pelo Pai, em Cristo, através de sua obra na cruz. O apóstolo Paulo disse: Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica. Romanos 8:33.

O pecador só é justificado por meio de sua morte com Cristo, porquanto quem morreu está justificado do pecado. Romanos 6:7. Se já morremos com Cristo, com certeza fomos justiçados; se fomos justificados, fomos perdoados; se fomos perdoados, já temos a garantia de sermos vivificados; se fomos vivificados ganhamos a condição espiritual de nos arrepender de nós mesmos e de confiar apenas em Cristo, para a nossa salvação.

O arrependimento espiritual é consequência da vida espiritual que foi dada ao pecador por meio da pregação da Palavra e a vivificação do Espírito Santo. A vivificação do espírito é o resultado da justificação do pecador, realizada por Cristo na cruz. A justificação do pecador é fruto da sua eleição, em Cristo, antes da fundação do mundo.

A lógica Paulínia vê assim o processo: porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas.

A ele, pois, a glória eternamente. Amém! Romanos 11:36.

Tudo vem de Cristo, por meio de Cristo e vai para Cristo, pois Cristo Jesus é o Autor de toda obra que é realizada mediante a fé, por isso, cremos que o arrependimento é um dom de Deus.

Fé e arrependimento, antes de serem expressões em nosso modo de viver, são dons da graça para a nossa obediência. Matthew Henry, no séc. 17 dizia: “sempre que Deus pretende dar vida, ele dá arrependimento,” e isto é claro, pois sem arrependimento não há verdadeira conversão. Deus nos dá o arrependimento para que nos arrependamos da nossa autoconfiança e confiemos na suficiência do Filho. Não há salvação sem arrependimento é não há arrependimento vivendo na autoconfiança. Ok?

Do velho mendigo, GP.

O ESPÍRITO DA CRUZ .93 – O SILÊNCIO DA IGREJA?

Li hoje esse pensamento de Martin Luther King: uma nação se condena, quando legaliza o mal e proíbe o bem, e quando a igreja se torna cúmplice com seu silêncio. Isto parece-me super atual: legalização do mal, proibição do bem e silêncio da igreja…

O mundo pós-moderno tem se mostrado adepto deste humanismo desumano, que só se preocupa com os traços capengas duma raça caída. Para a elite do poder político do planeta, o que deve ser propalado é aquilo que conduz ao caos. Os promotores do saber e seus informantes estão treinados na divulgação do nojento, sórdido e das más notícias.

Há uma cultura deformada, construída nas oficinas do maligno, promovendo a falência de princípios morais e da boa conduta, pautada pelos trilhos do bem. O que antes era considerado bom, hoje é visto como mau, além do que, há um aparato de subversão enorme tornando caolha a visão de qualquer pessoa neste mundo pervertido.

A legalização do mal é a pauta primordial do regime do anti-Cristo e da sua trupe de trapaceiros que se infiltram no processo de degradação, porém como se fossem anjos de luz. Essa gente se disfarça de iluminados, para semear as trevas e, defendem os direitos dos proscritos, para estabelecer a anarquia no tecido social. É uma inversão dolosa de valores.

Essa guerra sútil e camuflada distorce os fatos e aquilo que antes era certo, agora é errado; o bem de ontem vira um angu de caroço e a ética sadia se transforma num jogo de cartas marcadas e interesses escusos. A propina na política propositadamente converte-se em sobras de campanha e as contribuições ilegais são levadas e lavadas pelos Bancos em prol de um projeto comum de governabilidade do planeta azul, com tarja vermelha.

A cultura do incesto da Samiramis com seu filho Ninrode, gerando o abuso em Tammuz e a pedofilia passaram a ter status de nobreza na mente legisladora. Com esse pano de fundo a mídia venal vende sua alma a Mamon, disseminando o mal como se fosse o bem e a ideologia de gênero torna-se genérica e propalada como uma virtude.

Agora temos a semente do caos vicejando e a ordem judaico-cristã sendo minada para ser substituída pela “novus ordo seclorum” e seus asseclas. O mal é legalizado e o bem proibido, mas a Igreja não se omitirá, calando-se. A verdadeira Igreja nunca foi muda.

Mendigos, o espírito da cruz está marcado pelo sangue carmesim, o sangue do Cordeiro, jamais pelo escudos vermelhos. As organizações eclesiásticas podem até ficar emudecidas com medo do poder escondido nos pavês encarnados, a Igreja nunca. A morte não pode matar quem já morreu em Cristo. Silêncio aqui? – Não há mártir covarde.

O silêncio da Igreja é diante do altar em oração e adoração. Esse rebanho pode ser pequenino e inexpressivo, mas nunca será omisso e, como Davi diante de Golias, grita em plenos pulmões: – vamos a ti em nome do Senhor dos Exércitos!

Do velho mendigo, GP.

O ESPÍRITO DA CRUZ .92 – COMO ESTÁ O SEU COPO ?

Tem gente que vê o copo meio vazio… mas outros o veem meio cheio, todavia, a quantidade é a mesma. A questão é a perspectiva da alma. Os negativistas ou pigmeus nas entranhas só enxergam o vazio, a falta, a deficiência. Essa turma se nutre de contabilizar os centavos e comentar os defeitos e a falência alheia. É uma plateia do fracasso que só vê o sujo na parede, a mancha na camisa, a calça mal passada e o sapato sem ser engraxado.

O grupo do copo meio cheio tem outro olhar. Não é desatenção com o vazio, mas a sua atenção se volta mais para a conquista. O fato de perceber que o copo está meio cheio levanta o ânimo e o mantém no foco de vê-lo pleno. Esse grupo não se preocupa tanto com o déficit, mas investe especialmente no saldo. Sabe que ainda falta um bocado, todavia sua ênfase principal é naquilo que já foi alcançado. Sempre vê, com bons olhos, onde chegou.

A turma do copo meio vazio, quando recebe um limão, só percebe o seu azedo e se desmantela em críticas ácidas, enquanto a outra turma vê a oportunidade de fazer com o seu copo meio cheio, uma limonada suculenta. Aqui vemos duas correntes de pensamento que definem as ações das pessoas na trajetória da vida: os críticos e os criadores.

Na história do povo Israel, na estrada do deserto, vemos os dois tipos bem claros no grupo dos espias. Dos 12 enviados para investigar a terra, 10 voltaram dizendo que a terra era boa, mas havia gigantes e um sistemas de segurança intransponível. Eles viam as muralhas e a impossibilidade de conquistarem fortalezas. Os outros 2 viram, porém, algo mais, pois viram o poder do Deus invisível, que estava além da paisagem.

Parece que essa é uma percentagem marcante, já que há muito mais gente que só vê as dificuldades e os defeitos alheios. Críticos e pessimistas proliferam como bactérias, sempre infestando o ambiente. Eles só percebem os problemas e nunca veem a solução.

Felizmente, há uma minoria que faz a história, pois vê o poder de Deus por trás das crises. É o povo que vê como Henry Ward Beecher via: – as dificuldades são recados de Deus; quando nos são enviadas, devemos considerá-las prova da confiança de Deus – uma gentileza da parte de Deus. Essa é a turminha que faz toda a diferença!

Alguém já disse que

“nada é mais fácil de encontrar do que falhas” e acrescenta, “as pessoas que têm por objetivo encontrar falhas, raramente encontram outra coisa.”

Se é este o seu caso, devo sugerir um clamor: suplique misericórdia do céu, peça por um novo coração da parte do Altíssimo. Não se contente com essa vidinha vesga e mesquinha.

Mendigos, fico com Martinho Lutero: “O Espírito Santo não é cético, e as coisas que Ele grava em nosso coração não são dúvidas ou opiniões, mas afirmações – mais seguras e mais dignas de confiança do que o próprio sentido ou a vida.” Voilà! Não estou sugerindo utopia, mas dependência de Abba.

Do velho mendigo, GP.

O ESPÍRITO DA CRUZ .91 – AMANDO OS RUDES E TOSCOS…

A igreja é a reunião dos mendigos da graça em torno da plena suficiência do Cordeiro. Somos carentes do amor incondicional, porém não somos indigentes de afetos humanos. Carecemos do Senhor, sim, em tudo, mas não dependemos das migalhas da aceitação humana ou dos elogios e aplausos dos irmãos. Somos carentes, não caretas.

Nossos irmãos são importantes para ampliar o nosso amor que foi derramado pelo Espírito Santo, em nossos corações, mas jamais deveremos esperar deles algo para a nossa aceitação pessoal. Nós fomos aceitos pelo nosso Abba e nada ou ninguém pode acrescentar um milímetro que seja à nossa identidade como amados da Trindade.

Tudo o que preciso é da certeza de que estou morto juntamente com Cristo, para este mundo, e que Cristo é minha vida. Se creio que fui crucificado com Cristo, que Ele é meu tudo, então percebo que nada pode me manter dependente da opinião alheia ou até da minha opinião caída. Se me vejo amado incondicionalmente, por fé, vejo-me capaz, graciosamente, de amar até aqueles que me desprezam e me detestam.

O amor de Deus derramado nos corações, pelo Espírito Santo, é que financia nosso amor em favor de outros. Não precisamos ser amados para amar. Foi Jesus quem disse: se vocês amam os que os amam, qual é a recompensa? Porque até os pecadores amam aos que os amam. Lucas 6:32. Não é nosso amor que sustenta nossas amizades sem críticas e cobranças, mas a abundância do amor de Deus a nós conferida ricamente.

Sim, esta abundância a nós conferida foi com ferida que foi concedida. Foram as feridas do Cordeiro que patrocinaram, para que não ficássemos sangrando em nossas dores pessoais. Não há sofrimento em amar quando se ama com o amor divino, e, ainda, não precisamos da reciprocidade dos outros para que os amemos. O amor de Deus é o suficiente para suprir a nossa jornada de eternos amantes, neste mundo árido de amor.

A vida de Cristo em nós é o resultado de nossa morte para nós mesmos. Se já morremos com Cristo, Sua vida de amor se manifestará em nós, naturalmente. Nós não amamos para sermos amados, amamos porque fomos amados abundantemente pela plenitude Divina. Deus nos ama e derramou Seu amor para que amemos com esse amor.

Vejam ai a marca da vida cristã:

nisto conhecerão todos que vocês são meus discípulos: se tiverem amor uns aos outros. João 13:35.

Mas este amor não é produto de uma oficina de fundo de quintal; não se trata de artesanato que nós construímos, com auto sacrifício, embora, este amor passe por nós, não é fabricado por nossa capacidade.

Mendigos, se vocês têm dificuldades com este produto, não tentem produzi-lo em seus laboratórios caseiros; isto nunca funcionará. Simplesmente fiquem em baixo da torneira da graça, que o Fabricante os encherá em plenitude.

Do velho mendigo, GP.

O ESPÍRITO DA CRUZ .90 – COOPERADORES, NUNCA COOPERADOS

Jesus observava a atitude dos contribuintes em frente ao gazofilácio, isto é, diante do lugar onde se colocavam as ofertas para a manutenção do templo, no seu tempo, e viu como uma viúva ofertava. Ele se impressionou com o gesto a ponto de fazer um comentário, louvando-a por seu desprendimento. – (Esta é uma área complicada).

Muitos vão ao templo, usufruem seus benefícios, mas nunca contribuem com coisa alguma. Normalmente são aproveitadores e críticos. Recebem favores de cima e se investem com baixeza a censurar os gastos com isto ou aquilo. São governados pelo ter e não têm a mínima visão dos valores eternos. Pobres almas, vivem só o aqui e o agora!

Há outros que são bem mais astutos, eles contribuem com as sobras, embora ainda lhes sobrem muitos direitos para dar pitacos onde não têm competência. Dão do resto e pensam que são donos de todo o negócio. Eita povinho de mentalidade de fundo de quintal, que quer administrar o trono da glória com empáfia! Esta turma “é do peru”.

Um outro grupo tinhoso é aquele dos donos do dinheiro. Essa gente tem muito e dá muito, mas dá para se projetar e controlar. Na verdade o deus deles é o dinheiro e a glória deles é poder exercer ‘o poder’. São os caçadores de importância, sendo medidos pelos seus feitos e reconhecidos pelas suas obras; são aristocratas de altar.

Ainda há um grupo daqueles que têm muito, dão muito e não dão problemas com o uso do dinheiro. Estão sempre prontos a colaborar e colaboram com adequado desprendimento, procurando sempre ser parte da resposta e nunca do problema. Parece que Filemom era um tipo assim, de fácil participação e facilitador das soluções.

Aqui, Jesus viu diante do ofertório uma pobre viúva fazer algo fora do padrão. Ela deu tudo o que tinha de sua pobreza. Era muito pouco, mas era tudo. Não se tratava de mera contribuição, mas de total abnegação. Ela não deu das sobras, ela se deu antes de tudo, sem sombra de dúvidas. O que está em jogo, não é a oferta, é a ofertante.

Precisamos saber o modo como ofertamos. O importante não é a importância da oferta, em si, mas como nos portamos como contribuintes. Andrew Murray disse:

dar dinheiro faz parte de nossa vida no reino de Deus e Cristo nos orienta através da Sua Palavra e se interessa nisso. Procuremos descobrir então, o que existe na Escritura que nos possa ensinar sobre este assunto.”

Como devo me portar diante do gazofilácio?

Mendigos, nós somos carentes da graça, mas, por outro lado, participantes do gozo da salvação e contribuintes contentes, como diz a Escritura: cada um dê segundo tiver proposto no íntimo, não constrangido ou por obrigação; porque Deus recebe alegre a quem dá com prazer. 2 Coríntios 9:7. Lembrem-se que somos cooperadores no Reino de Deus e nunca cooperados em busca dos dividendos divinos.

Do velho mendigo, GP.

O ESPÍRITO DA CRUZ .89 – COM A LUPA NA MÃO !

O apóstolo Paulo fala de uma turma que ele designa como os inimigos da cruz de Cristo, assim: pois muitos andam entre nós, dos quais, repetidas vezes, eu vos dizia e, agora, vos digo, até chorando, que são inimigos da cruz de Cristo. Filipenses 3:18. Vejam que é um grupo grande; que vive dentro da igreja e que é gente insinuante, uma vez, que, muitas vezes ele advertiu aos irmãos, mas estes continuavam infiltrados, confundindo.

Paulo vê quatro caraterísticas marcantes destes bichos de goiaba:

O destino deles é a perdição, o deus deles é o ventre, e a glória deles está na sua infâmia, visto que só se preocupam com as coisas terrenas. Filipenses 3:19. Os bichos são encardidos…

Eles estão na igreja, mas a finalidade deles é o caos, a confusão; é ver o navio afundar, significado da palavra grega para perdição. Estes são semeadores de contendas e mestres em implantar heresias para levar vantagens. Sua preferência é o humanismo, por onde implantam os partidos para gerar divisões e, consequentemente, a catástrofe.

Em seguida diagnosticou a divindade deles como as entranhas. Vivem de seus instintos viscerais, negociando a palavra temperada com sal por salários e preocupados com propina. Mas, como disse Roger L’Estrange, “aquele que serve a Deus por dinheiro servirá ao diabo por salário melhor.” Este deus intestinal nunca gera fé, apenas fezes. É horroroso ver essa gente infestando os vírus malignos dos negócios, no corpo de Cristo.

A terceira marca deste populacho é a glória. Não a glória de Deus, mas a sua própria. E, neste caso, é pura infâmia, ou seja, o investimento em nossa própria imagem é idolatria e adultério espiritual. Todo aquele que põe holofotes nos seus feitos, acaba por macular a graça de Deus, pois, se for pela graça, não há honra ao mérito.

Essa tropa maligna infiltrada na igreja tem um projeto pessoal de fazer adeptos e construir seus sonhos idealizados. Paulo viu que os seus investimentos são só terrenos e Richard Sibbes percebeu que

“todas as coisas terrenas são como água salgada: fazem aumentar a sede, mas não satisfazem.” É triste ver alguém construir algo para o inferno, em seu benefício, pois “as riquezas terrenas estão cheias de pobreza”, gritava Agostinho.

Não foi sem razão o choro do apóstolo. A igreja tem sofrido em toda a sua via histórica com essa gentalha embusteira vestida de ovelha, mas, por dentro é lobo voraz. A preocupação desse bando não é o Reino de Deus, mas o seu currículo; não é a boa nova do Evangelho de Cristo, ainda que pareça ser, mas o seu bem estar pessoal.

As lágrimas de Paulo têm se misturado com o pranto de muitos na trajetória da igreja, vendo o mesmo modelo se repetir. Para Sibbes, “um homem pode ser um falso profeta e ainda assim falar a verdade,” mas não passa de falso profeta. Mendigos, abram os olhos e cuidado comigo e com qualquer um dentre nós.

Do velho mendigo, GP.

O ESPÍRITO DA CRUZ .88 – NÃO MAIS EU, MAS CRISTO VIVE EM MIM

Um dia, um repórter perguntou ao ancião George Muller, 91 anos, homem de Deus: – qual era a causa do êxito na sua missão? Então, ele respondeu com a precisão de um santo: – “Um dia morri para George Muller, para suas opiniões e preferências, gosto e vontade; morri para o mundo, sua aprovação ou censura; morri para a aprovação ou acusação até mesmo de meus irmãos e amigos; e desde então tenho procurado apenas apresentar-me aprovado diante de Deus.” George Muller morreu… como morreu?

Muller cria, como o apóstolo Paulo, que a vida cristã era uma substituição: não mais eu, mas Cristo vive em mim. Ele disse: morri para George Muller, para suas opiniões e preferências, gosto e vontade… quer dizer que ele se anulou completamente?

Não, necessariamente. Ele não se aniquilou, ele foi substituído. Ele morreu na cruz com Cristo. Ele creu em sua morte juntamente com Cristo e creu, também, em sua ressurreição com Cristo. O cristianismo é vivido pela vida de Outro. É a união com Cristo.

Muller entendia que sua experiência com Cristo o tirou do governo do mundo, de sua aprovação ou censura. Aqui está uma grande luta. Muitos vivem em busca de sua aceitação e aprovação pelas pessoas nas redes sociais e, ao mesmo tempo, fugindo como o rato do gato de qualquer desaprovação que o descarte no cenário dos aplausos.

Uma das minhas grandes lutas está aqui. As pessoas nos veem por fora, mas nós sentimos por dentro os ventos fortes de nossas ambições. Às vezes as mascaramos, fazemos de conta que elas não existem, contudo uma tempestade violenta rola em nosso interior. A grande maioria não vê, mas, se formos sinceros, não podemos negar.

Luto com a necessidade de ser aceito e temo ser rejeitado. Não mostro isto, porém sofro com isto. Sinto os efeitos internos da carência da visibilidade externa. Estou tentando ser o mais honesto possível, mesmo assim, corro riscos de ser mal visto.

A alma poluída de ego é uma realidade intensa de autossuficiência, mesmo se o espírito já estiver regenerado. Não basta nascimento do alto e preciso rebaixamento no íntimo. Sem a salvação da alma a fé cristã parece falácia. Um estilo humilde, mas um coração sofisticado e soberbo não concilia-se com o Senhor acocorado, lavando pés.

Muller não somente cria na morte de Cristo como o seu Salvador, mas, cria em sua morte com Cristo, para que Ele fosse o seu Senhor. É como a encarnação do Verbo.

Olhei para um jovem e vi um Apólo das ideias. Seus discursos eram como rio caudaloso, cheio de pensamentos excitantes. Olhei para sua alma e vi aquele rio, poluído de egolatria, envenenando-se de si mesmo. Era caudalosa, mas, como as águas de Mara ácidas e amargosas.

Mendigos, não basta ter uma teologia acadêmica da elite, é preciso ter o coração quebrantado do Eleito, que morreu para si mesmo.

Do velho mendigo, GP.

O ESPÍRITO DA CRUZ .87 – SABER SOBRE DEUS É BEM DIFERENTE DO CRER EM DEUS

O saber sobre Deus é bem diferente do crer em Deus. Muitos sabem bastante sobre Cristo, embora não haja qualquer evidência de fé neles. Se denominam teólogos, mas são incrédulos. Têm bons discursos, contudo faltam-lhes os sinais dos cravos.

Para A. W. Tozer, “há uma doce teologia do coração que só se aprende na escola da renúncia.” Sem o esvaziamento de si mesmo não há a plenitude do Espírito. A morte do pecador, com Cristo, precede a sua vida de santidade. Não há lugar para o ego na sala do trono, nem os filhos do Altíssimo investem em sua promoção pessoal.

Mark Hopkins disse:

o próprio ato de fé pelo qual recebemos a Cristo é um ato de completa renúncia do eu e de todas as suas obras, como base para a salvação.”

O cristão não vive se propalando, mas proclamando a suficiência de Cristo em todos os empreendimentos de sua missão, num mundo caído, caótico e lamentavelmente caiado.

Quem busca seguidores para si mesmo, não pode seguir o Cristo que de si se esvaziou para viver totalmente na dependência do Pai. No reino de Deus não há discípulo de Cristo que queira ter discípulos para si. É bizarro ver um discípulo do Mestre dizer que tem seguidores, mesmo que sejam virtuais. O cristianismo de Cristo não dá espaço para estes que querem se projetar, fazendo adeptos em seus programas de poder.

A Bíblia mostra que o crescimento no Reino de Deus é pra baixo. João Batista viu a coisa assim:

Convém que ele cresça e que eu diminua. João 3:30.

Não há altares, nem pódios, nem palanques, nem plataformas de lançamento na jornada dos discípulos do Cordeiro, que se esvaziou até a morte de cruz. Não há lugar de destaque para quem morreu. Se morremos com Cristo, por que buscamos ser reconhecidos pelos homens?

O pregador inglês do séc XIX, C. H. Spurgeon, disse aos alunos do seminário onde ele ensinava: “preparem-se, meus jovens amigos, para se tornarem cada vez mais fracos; preparem-se para mergulhar a níveis cada vez mais baixos de auto-estima; preparem-se para a auto-aniquilação – e orem para que Deus apresse este processo.”

W. E. Sangster afirmou: “o cristianismo tem um segredo desconhecido pelos comunistas e capitalistas… como morrer para o eu. Este segredo torna-nos invencíveis,” uma vez que nos torna invisíveis para os homens, embora, bem visíveis para Deus.

O irmão Watchman Nee indagou: “que significa para mim estar ‘crucificado’? Penso que a resposta resume-se magistralmente nas palavras com as quais a multidão referiu-se a Jesus: ‘Fora com ele!’” Se estamos buscando um lugar ao sol e queremos ser vistos pelas plateias, então, mendigos, nada sabemos sobre o que é o cristianismo.

Não há outra forma de viver a fé cristã, senão levando o morrer de Jesus, dia a dia, em nosso estilo de vida. Se for assim, vamos em frente…

do velho mendigo, GP.

O ESPÍRITO DA CRUZ .86 – REAÇÕES DA NATUREZA

O feto é gerado sem o exercício de sua vontade pessoal. A sua existência está determinada por leis biológicas, conduzidas pela vontade de seus pais. O bebê nasce em um lar e, aos poucos, vai conhecendo os seus pais e gerando vínculos. A sua vontade de ter comunhão com seus pais é fruto de sua existência e do relacionamento com eles.

A vontade humana é desenvolvida pelo conhecimento e é diferente do instinto e desejos, que são de caráter biológico. A vontade é o querer da alma em função do seu envolvimento interpessoal. Não há vontade onde não haja a razão em desenvolvimento.

Alguém disse: “a vontade é a capacidade através da qual tomamos posição frente ao que nos aparece. Diante de um fato, podemos desejá-lo ou rejeitá-lo. Ante um pensamento, podemos afirmá-lo, negá-lo ou suspender o juízo”. Assim, a vontade do ponto de vista adâmico encontra-se impossibilitada de conectar-se com o Espírito divino.

Sabemos que o Espírito de Deus não nos aparece no plano físico e encontra-se em uma dimensão que não percebemos, por isso, não temos condições de buscá-lo. O ser humano natural só se envolve com as realidades tridimensionais deste mundo.

O filho de Deus, também, é regenerado de modo sobrenatural sem o exercício, em primeira mão, de sua vontade caída. Ele é vivificado, soberanamente, pela graça do Pai e, em consequência da vida espiritual, decide crer em Cristo e arrepender-se de sua autoconfiança. Aqui se instaura o grande milagre da conversão da alma a Deus.

Tanto a geração física, como a regeneração espiritual são produtos que vão além da capacidade da própria pessoa. Mas, uma vez nascida na carne, ou renascida no espírito pode-se exercer a vontade no que diz respeito à comunhão com os genitores.

Só quem nasce, fisicamente, tem condições de se relacionar com os seus pais terrenos. Só quem renasce, espiritualmente, está habilitado ao contato com o seu Pai do céu. Isto parece lógico, embora muitos tentam distorcer os fatos. Sem a vida psique não há familiaridade da criança com os pais biológicos; sem a vida zoe não há conexão do ser humano com o Pai celestial, assim, a regeneração antecede a decisão do incrédulo.

Primeiro, somos vivificados espiritualmente através do Espírito Santo, por meio da Palavra de Deus, para depois reagirmos em nosso espírito vivificado com a vontade desimpedida de suas limitações tridimensionais. Só aqueles que são regenerados em seus espíritos podem se relacionar espiritualmente com Deus que é espírito.

Jesus disse:

o que é nascido da carne é carne e o que é nascido do Espírito é espírito.

Se alguém não nasceu na carne, não existe fisicamente e, se alguém não nasceu do Espírito não tem qualquer reação espiritual. É óbvio: a vida da carne gera reações da carne e a vida espiritual, reações espirituais. É simples assim.

Do velho mendigo, GP.

O ESPÍRITO DA CRUZ .85 – DESCOBRINDO O TUDO EM CRISTO

Li recentemente este parágrafo numa mensagem de WhatsApp: “Todos temos qualidades e pontos a melhorar. Alguns pontos de melhoria chegam-nos a nós por nós mesmos, enquanto outros nos são passados por outros. Entendemos e aprendemos o que devemos mudar, através de experiências, sejam de vitórias ou derrotas, tanto nossas quanto de outros. Mudar é uma escolha pessoal, ou seja, não importa o quanto outros queiram ou se esforcem para que alguém mude, a mudança só ocorre quando alguém realmente deseja a mesma”. Seria isto uma verdade plena e inquestionável???

O humanismo é muito sutil e ardiloso. Que qualidades espirituais tem o morto em delitos e pecados? A vida cristã não significa evolução do velho homem, mas a plena substituição do presunçoso Adão, pelo vida de Cristo, o filho de Deus. O que Saulo de Tarso fez no caminho de Damasco para se mudar em Paulo? Ele mudou ou foi mudado?

O cristianismo não é uma proposta para melhorar defunto. Qual é a melhora que pode ter um cadáver? Decomposição e podridão… Que aperfeiçoamento tem um morto espiritual? Nenhum. A fé cristã trata da permuta do pecador perverso pelo Santo Divino; do caído e caiado, pelo Cordeiro ressuscitado; da vida mortal, pela vida eterna.

Que história é esta que temos pontos a melhorar? Aperfeiçoar o quê? O podre do pecado? Sofisticar o mau cheiro da arrogância pecaminosa? Ao se elogiar a bondade humana corre-se um risco de incendiar o orgulho do egoísmo insaciável. No velho Adão tudo é carnal e a carne nunca exala bom perfume, senão quando em holocausto. O bom perfume da carne é de churrasco e o do crente é do Cisto crucificado e ressurrecto nele.

Na vida cristã não há a menor evolução da carne. O cristianismo fala da morte do velho homem carnal, no corpo de Cristo. Não propõe a melhoria do imprestável, mas o seu câmbio total. Não eu, mas Cristo é tudo o que vemos no Evangelho.

A religião gosta de blefar. Ela faz com que o esforço exalando suor seja usado como moeda de troca. Mas, a obra do Cordeiro não aceita este expediente de barganha. A justiça humana é vista, na Bíblia, como trapos de imundícia e, o nosso coração, como desesperadamente corrupto. Neste caso, como podemos melhorar-los? Impossível!

As qualidades que temos, como novas criaturas, proveem do caráter de Cristo em nós implantado. Morremos para o pecado com Cristo e ressuscitamos em novidade de vida, juntamente com Ele. Então, o nosso crescimento ou evolução espiritual depende totalmente da suficiência de Cristo, pois, até o nosso agir é consequência da graça.

Mendigos, cuidado com as insinuações sutis da serpente. Se nós já morremos com Cristo e Cristo é a nossa vida, que melhora podemos executar em nós mesmos? Tudo o que podemos fazer é descobrir o que Cristo é em nós.

Do velho mendigo, GP.

O ESPÍRITO DA CRUZ .84 – O PRAZO DE VALIDADE

A enciclopédia Wikipedia dá a seguinte informação sobre alguns produtos: “o prazo de validade é o tempo de duração dado à comidas, bebidas, remédios, tintas e outros itens perecíveis antes de serem considerados inadequados para venda ou consumo. Em algumas regiões usam-se expressões como, “melhor usar antes de…” ou “data de utilização…” é necessária em alimentos perecíveis embalados”.

“O prazo de validade é o tempo que os produtos podem ser armazenados, durante o qual, a qualidade definida de uma determinada proporção das mercadorias permanece aceitável, ao abrigo do esperado (ou especificados), para as condições de distribuição, armazenamento e exibição”. Todos estes produtos têm um tempo válido.

O problema é que, no caso dos fármacos, este tempo de validade não é dado, muitas vezes, pelo o vencimento exato dos componentes, mas pela lei de mercado. Há alguns remédios que são descartáveis, muito tempo antes de expirar a sua eficácia. Mas, como não somos especialistas, jogamos no lixo muita coisa boa e perdemos grana.

Agora temos uma questão a considerar aqui. Há algum tempo de validade que defina a nossa salvação? Podemos perder a salvação da nossa alma? A vida eterna tem um prazo de conservação? Com o tempo, ela se estraga? That’s the question…

Muitos acreditam que a salvação da alma dependa da perseverança do crente, outros creem que a perseverança do crente depende da salvação da alma. Aquele que vê a salvação como um produto conquistado pelo freguês, vê a perseverança como garantia da salvação, contudo, todo aquele que percebe, que a salvação é uma dádiva eterna de Deus, percebe que a perseverança do santo é consequência da eternidade da salvação.

Toda pessoa falível, que precisa sustentar a sua fidelidade, pode perdê-la a qualquer momento. Se a fé for um produto de um ser caído, ela está sujeita a deteriorar-se com o tempo, porém, se for uma realidade da graça de Deus, ligada à vida eterna, não há nada neste mundo perecível que a possa torná-la inválida. O eterno não tem prazo…

A criação do ser humano estava suscetível a queda, pois dependia de crença do homem em Deus, mas, a salvação do incrédulo não depende de sua fé, uma vez que este está morto espiritualmente e incapaz de crer. Todavia a salvação dada por Deus está totalmente ancorado na suficiência de Cristo e jamais poderá perder o prazo de validade.

É tão confortável pensar como pensava o puritano Thomas Brooks, do séc 17:

No último dia, Cristo será responsável por todos os que lhe foram dados; portanto, não precisamos duvidar de que ele, certamente, empregará todos os poderes da sua Divindade para dar segurança e salvar a todos aqueles de quem deverá prestar contas.”

Que segurança eterna, irmãos!!!

Do velho mendigo, GP.

O ESPÍRITO DA CRUZ .83 – A LINGUAGEM INERRANTE DE DEUS

A pintura fala do pintor, a escultura do escultor e a criação é uma linguagem do poder do Criador. Desde uma bactéria Escherichia Coli, presente no intestino humano, até a maior estrela, da maior constelação, da maior galáxia, tudo isto fala claramente de uma ordem e complexidade que só uma inteligência suprema poderia realizar.

A criação Divina é um discurso sem palavras, que dispensa qualquer vocábulo para explicar o poder da sua origem. O apóstolo Paulo disse que, os homens, diante da criação de Deus são indesculpáveis em não dar crédito ao Criador, porque Seus atributos poderosos são perfeitamente visíveis em cada traço adequado da criação.

O universo é a primeira escrita da comunicação de Deus. O salmista disse que os céus

proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos. Salmos 19:1. A criação é um compêndio perfeito que revela a supremacia do Criador.

A segunda fala de Deus foi direta e pessoal com algumas pessoas. Deus é em si mesmo espírito e sua linguagem é espiritual. Ele fala de Espírito para espírito e, aquela pessoa que teve a comunicação Divina registra em línguas humana a Palavra de Deus.

O Antigo Pacto é o registro do que Deus falou através dos Seus profetas. Ele falou com Abraão, por exemplo, antes de um texto definido por Ele, como a Sua Palavra. Era sempre uma conversa íntima e particular. Deus falou com Moisés e com vários outros antes que houvesse o cânon definido do 1º Testamento, e, tudo, depois foi registrado.

Em seguida, Deus falou de maneira conclusiva pelo Filho. Jesus é o Verbo de Deus, a Palavra encadernada em pele humana. Ele é o ponto final da descrição. Diz-nos o escritor aos hebreus,

havendo Deus, outrora falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo. Hebreus 1:1-2.

Os apóstolos e escritores do Novo Pacto escreveram a linguagem final e plena de Deus para a humanidade, traduzida na encarnação do Cristo. O Antigo Testamento é a fala de Deus ao povo de Israel sobre o plano que Ele tinha para resgatar um povo para si mesmo, de todas as tribos e nações, enquanto o Novo Testamento registra a perfeita concretização do plano, bem como sua operação na história, até o fim dos tempos.

A Bíblia é a linguagem espiritual de Deus para o Seu povo. Apesar de todos os seus dados históricos e culturais, ela não é uma biblioteca para responder perguntas inúteis de almas caídas, mas um instrumento Divino para edificação do Seu povo.

Mendigos da graça, creio na superexcelência da Bíblia e na sua revelação e digo, como C. H. Spurgeon: “Deus escreve com uma pena que nunca borra, fala com uma língua que nunca erra, age com uma mão que nunca falha.”

Do velho mendigo, GP.

O ESPÍRITO DA CRUZ .82 – O SUSPIRO DA ALMA

O suspiro da alma é um dos gritos silenciosos, mas um dos mais barulhentos a chamar a atenção para si. Aparentemente é só um inspirar profunda acompanhado de expirar longa, embora haja em sua expressão um berro abafado nas entranhas da ser. É um modo camuflado da linguagem sufocada de vitimização da alma ferida.

Suspiros e ais sutis fazem parte da tagarelice coitada da multidão gentílica que costuma dar um show de murmuração nos bastidores da vida. Entretanto, poucos sabem que a reclamação é um veneno para o seu corpo e, ao mesmo tempo, paralisia para a sua alma, além de assassinato dos relacionamentos sadios com outros.

A boca que murmura é uma metralhadora que devasta quem se aproxima. Há mais cadáveres emocionais pelas rajadas de palavras ácidas, do que soldados mortos nos campos de guerra. O discurso da reclamação é uma praga do inferno.

Todas as vezes que nós murmuramos, excitamos a glândula supra renal para produzir cortisol em excesso, e, deste modo, os hormônios do contentamento acabem bloqueados, levando-nos à indolência, ao desânimo e à depressão.

O estilo murmurante e reclamador é responsável por grande parte das nossas enfermidades e doenças, diz um cientista estudioso da OMS. A cultura do mi-mi-mi gera bloqueios nas sinapses nervosas e o cérebro lotado do desgosto faz a desconfiguração dos processos químicos animadores. A nossa linguagem pode matar ou curar.

Ser agradecido é um milagre curador. Alguém que transpira gratidão exala um perfume de bem estar por onde passa.

Paulo disse: em tudo, dai graças, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco. 1 Tessalonicenses 5:18.

Aqui está uma receita precisa para a saúde da alma. Se você quer ser saudável, então seja grato e fale no dialeto que extravase contentamento. Fale uma linguagem sem reclamações.

Já ouvi dizer que o sapo e o murmurador são produtos da lama, mas o sabiá e a turma agradecida fazem parte de um coral do céu. As murmurações descoroam o rei, contudo as ações de graças colocam os mendigos sentados num trono.

Na história do povo de Deus sempre entrou uma gentalha patrocinadora deste choramingo desafinado do deslouvor, detração, difamação, e, com toda a deselegância dissemina o desamor e a deslealdade, destruindo vidas preciosas pela quais Cristo deu a Sua própria vida na cruz. Este populacho é responsável pela cultura do ultraje.

Mendigos, nós fomos chamados para participar de um coral de gente afinada com a partitura do alto e que fale e cante das realidades que edificam o povo de cima e glorifique o Deus Altíssimo. Saibam que o espírito da cruz define o jargão que soa como poesia no coração dos ouvintes e diante do trono da graça.

Do velho mendigo, GP.

O ESPÍRITO DA CRUZ .81 – DESCARTANDO ELOGIOS E CRÍTICAS

Alguém me perguntou: por que temos medo de confessar os nossos pecados, falar dos nossos fracassos, dizer dos nossos erros, ao mesmo tempo que gostamos de mostrar nossos sucessos e insinuar nossas conquistas, para ficarmos bem na foto?

Acredito que isto é um sinal da nossa pecaminosidade. Somos uma raça caída que ambiciona a perfeição e se esmera por ascender ao trono. Desprezamos por inteiro a nossa falência e tentamos, sofisticadamente, demonstrar que o nosso êxito é o resultado de uma vida especial. Negamos a queda aprimorando nossa imagem idealizada.

A crítica sempre nos incomoda, mas os louvores nos envaidecem. Poucos são os que recebem as críticas com mansidão, mesmo quando verdadeiras, embora, muitos fazem festa com os elogios, mesmo sendo imerecidos. Descartamos as censuras, ainda que legítimas, mas recebemos exultantes os aplausos, sem qualquer razão.

O pecado nos fez uma raça que abomina a repreensão, porém, vive à cata de gabação. Escondemos nossos erros porque eles mostram o lado feio de cada um, por outro lado, propagandeamos os nossos feitos notáveis, porque eles nos enobrecem.

A igreja deveria ser um lugar de remoção das máscaras, assim, todos os filhos de Deus poderiam viver sem medo da censura. Se todos nós vivêssemos pela aceitação do amor incondicional do Pai, ninguém teria receio de dizer quem era de verdade, além do que, jamais entraria nessa pira de exibir uma imagem idealizado do que não é.

Também teríamos a liberação dos aplausos a nós conferidos e daríamos todos ao Cordeiro. Se pudéssemos depositar todos os louvores a nós outorgados aos pés dAquele que nos resgatou, certamente viveríamos em outra dimensão de vida.

Um dia, num jantar, notei esta luta interna. A senhora estava sendo exaltada por suas qualidades culinárias, nada comparável a Rita Lobo, contudo, achava-se muito acima, deleitando-se com “os hosanas nas alturas”, quando alguém fez uma critica sem importância ao sal. Isto, imediatamente, tornou-se num motivo de ressentimento.

O laudatório inadequado estava sendo recebido com honras de Estado, mas o comentário justo do tempero insulso, como labaredas do inferno, destemperando-a. É quase sempre assim. Nós recebemos os aplausos imerecidos com júbilo, mas jogamos pedra em quem nos repreende justamente. Isto é a grife original do pecado.

Não há outro remédio para este mal, senão a cruz de Cristo. Nós precisamos morrer, tanto para o elogio que recebemos, mesmo merecendo, como para a crítica, por mais injusta que seja. Só a morte do nosso ego com Cristo pode nos garantir a libertação das ditaduras, tanto da ovação que nos incha, como da desaprovação que nos deprime, por isso, mendigos, fica a sugestão: creiam-se mortos em Cristo.

Do velho mendigo, GP.

O ESPÍRITO DA CRUZ .80 – O ESPÍRITO QUE ANSEIA

Deus é espírito e o Seu Espírito só se comunica espiritualmente. A linguagem do espírito é espiritual. Sem vida espiritual não há conexão de Deus com o ser humano. Para haver comunicação do Espírito de Deus com o gênero humano caído, é, antes de tudo, preciso que o ser humano seja vivificado em seu espírito, que se encontra fora da linha de conexão com Deus. Primeiro somos vivificados pelo Espírito Santo e depois…

O cego não vê o mundo físico porque a luz não consegue estimular seus olhos avariados por algum impedimento. Se não houver o desbloqueio deste obstáculo o cego continuará impedido de enxergar, mesmo que o seu globo ocular esteja aparentemente inteiro. Este problema impede a luz de estimular o processo de visibilidade.

O ser humano, separado de Deus, espiritualmente, vive pelos estímulos de sua vida psíquica. A alma tem alguma lembrança atávica do mundo transcendente, embora, a sua percepção seja limitada, talvez como o tato para uma descrição do cego.

A vontade caída encontra-se sob escravatura do pecado. “O pecador, em sua natureza pecaminosa, nunca pode ter uma vontade que concorde com Deus.” Ninguém será convertido a Cristo porque deseja, porém, se vier a desejar, é porque foi movido a isto. Antes de uma reação espiritual da vontade é preciso uma vivificação espiritual.

Querer é humano; querer o que é carnal é próprio da natureza de uma alma decaída, mas querer o que é espiritual é próprio da vida espiritual concedida pela graça. Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam. 1 Coríntios 2:9.

Com certeza, se O amamos foi porque Ele nos amou primeiro. Sem Ele não O podemos busca-Lo e se não O buscarmos, não O acharemos. Tudo começa nEle e tudo se desenvolve por meio dEle, mas nós temos uma reação responsável. O Pai nos vivifica espiritualmente para que O queiramos em nosso espírito, voluntariamente.

Somente um espírito vivificado pode buscar se relacionar com o Deus que é espírito, pois, como disse R. B. Kuiper,

“se ficasse por conta dos pecadores, totalmente depravados como são, (e mortos espirituais) a iniciativa de reagir com fé ao evangelho, por sua própria vontade, nenhum deles tomaria essa iniciativa.”

Nós, em Adão, somos uma raça morta, espiritualmente, e, também, depravada até a raiz. Essa “depravação é o grande obstáculo à fé, mas… a graça é a maneira pela qual Deus supera esse obstáculo.” Até o ateu Bertrand Russell sabia disto ao dizer: “É em nosso coração que está o mal, e é de lá que ele precisa ser arrancado.”

Mendigos, se o ser humano não for regenerado espiritualmente pelo Espírito Santo, a sua vida “espiritual” é um embuste. Tudo é falso!

Do velho mendigo, GP.

O ESPÍRITO DA CRUZ .79 – CRUCIFICANDO O NARCISISMO

O humanismo é a via do homem em busca do altar, tendo o céu como o limite. O cristianismo é a estrada do esvaziamento humano, tendo o humos como o seu leito. Se, no humanismo, o ser humano quer ser como Deus, no cristianismo, Deus se torna homem. No humanismo vê-se o homem exaltando-se; no cristianismo, sendo humilhado.

No humanismo o ser humano quer ser como Deus. No cristianismo, Deus é um homem humano, sem qualquer mania de onipotência. Jesus, a encarnação de Deus, é o sujeito destituído de aspiração ao poder. É uma pessoa sem ambição por altar, trono, pódio, palanque, plataforma, púlpito e sem nenhuma pira por degraus na pirambeira.

O humanismo patrocina o alpinismo ao topo do poder e a sua escalada pela hierarquia da glória, sendo o ópio que vicia as almas anãs dos pigmeus, que anseiam os lugares notáveis a seres notórios. A falência da queda gerou um estilo de gente carente.

Toda criatura humana é carente, e, muitas buscam suprir as suas carências de significado, pelos aplausos de outros carentes. No humanismo os caras vivem encarando a sua aprovação pelos incentivos dos outros seres humanos carentes, por isto, vive-se na ditadura da cata às ovações e reconhecimentos de plateias ávidas de espetáculos.

No cristianismo a turma é ainda mais carente, embora, suas necessidades não sejam supridas pela aprovação alheia, mas, pelo amor incondicional de Deus. Todos os cristãos verdadeiros vivem da suficiência de Cristo e, jamais usarão o próximo como um suporte para financiar a sua identidade. A aceitação de Cristo lhes é bastante.

É triste ver uma turma angariando os bravos e vivas da ovação na rede social, por causa de suas ideias, que, na maioria das vezes, não são suas, enquanto, o plágio plástico da imitação caricata rouba a cena dAquele que dizem ser a causa da mensagem. Se é o cristianismo, por que não pregamos a Cristo? Mas é uma tragédia ao pregarmos a Cristo, quando nos apresentamos como o ator principal e protagonista do filme.

O humanismo religioso é assim: até fala-se de Jesus, mas ele é só a azeitona da empada, como mero coadjuvante. O que está em jogo é a nossa projeção ou o papel que exercemos no cenário. Paulo viu este perigo em cena e advertiu os crentes:

Porque não nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus como Senhor e a nós mesmos como vossos servos, por amor de Jesus. 2 Coríntios 4:5.

Alguém disse: “há três tentações especiais que assaltam os líderes cristãos; a tentação de brilhar, a tentação de queixar-se e a tentação de descansar.” Não sei qual é a pior, mas, a necessidade de ser sol e não lua é terrível. O desejo de ser a estrela, fonte da luz e não um planeta ou satélite iluminado é luciferiano. Oh! Mendigos! todo cuidado é pouco… Narciso se afogou na sua imagem refletida no poço!

Do velho mendigo, GP.

O ESPÍRITO DA CRUZ .78 – GELADEIRA DE NECROTÉRIO

Jesus falou de uma época de frigidez nos relacionamentos, quando o amor se tornaria gelado como um defunto. Essa frieza seria fruto da multiplicação da iniquidade ou a transgressão da lei. O tempo das permissões descontroladas seria uma era de total desconexões de afetos, por causa dos cadáveres respirando em isolamentos pessoais.

Chegamos a esse momento. Hoje, nunca vimos tanta gente no planeta, porém esta multidão encontra-se ilhada em seu mundinho sem toques de amor. As pessoas até se esbarram nos logradouros públicos, mas não logram se tocarem. Elas se trombam nas ruas da vida e se ferem, embora, pouquíssimas são as que se encurvam para enfaixar os feridos e abraçar os carentes que estão morrendo de frio relacional.

Mas, muitas dizem: eu amo… eu amo… eu amo… o que você quis dizer com isto? O que você está se referindo? Que tipo de amor? Não confunda amor erótico ou o amor dominador que quer possuir alguém, com um amor exótico que quer se doar aos outros. Jill Briscoe diz que: “O mundo está repleto das ruínas do que eros prometeu mas não foi capaz de fornecer.” E os escombros aqui são profundos.

Todavia, há algo muito mais sério neste mundo de glacialização do amor, que poucos de nós tem percebido, com atenção. É o amor virtual. Isto mesmo, um transe das transações transitórias dos invisíveis informáticos, sem saliva, nas vias das redes sociais.

A contaminação, hoje, não é tanto dos perdigotos do cuspe, mas dos vírus de hackers, que roubam nosso insulamento com suas estratégias de enganar tontos com os seus planos sutis de burlar, sem, a menor realidade de interação pessoal. Vivemos agora uma ditadura da informação, mas com a ausência completa de comunicação pessoal.

Temos muitas informações de vídeos e quase nenhuma visão das pessoas que dizemos amar. Temos muitos kkkkkkkkks e quase nenhum som ecoante deles, estalando aos ouvidos dos nossos queridos amigos como gargalhadas contagiantes. Mostramos lugares lindos, mas sem o calor do sol, nem da pele de quem é apenas observador.

 

A frieza do amor é consequência de uma presença virtual. As pessoas não se abraçam com mais frequência; não papeiam na sala de jantar; não cultuam nas igreja em comunidade. Abraçam pela internet, conversam pelo 4G, frequenta a igreja pelo Wi-Fi e não querem abrir mão disto tudo para aquecer o relacionamento de corpo e alma.

Li que agora, até o sexo se faz por tela. Desse jeito vamos tomar café e comer virtualmente. Mas fiquem atentos… amor não se cultiva sem o calor da pele e não se vive adequadamente sem uma presença física, ainda que o tempo para se dedicar aos seus seja pouco. Falando nisto, mendigos, Jesus disse: onde 2 ou 3 estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí. Igreja pressupõe reunião com Jesus.

Do velho mendigo, GP.

O ESPÍRITO DA CRUZ. 77 – QUEBRADO PRA SER INTEIRO !

Um coração quebrantado é o único coração inteiro, no reino de Deus. Se não houver quebrantamento de coração não haverá vida espiritual autêntica. Victor Alfsen disse: “Deus pode fazer maravilhas com um coração quebrantado, se você lhe entregar todos os pedaços,” além do que, fará das emendas motivos para ajudar a outros feridos.

Este mundo caída é um campo aberto de gente machucada, embora a maioria esmagadora tente esconder os seus ferimentos por vergonha ou soberba. Há muitos que preferem fingir que estão bem do que abrir a roupa e mostrar as lesões da alma.

Eu não posso esconder as minhas cicatrizes, pois elas mostram os sinais das minhas dores, o tratamento que as curou e a compaixão em favor dos que sangram. Não há sofrimento sem um propósito na vida dos cristãos. Sei que só terei misericórdia pelos outros, se tiver passado por alguma experiência que me desperte empatia.

O ferido que não se abre por vergonha de seus estigmas, não consegue ajudar na cura das chagas abertas de tantos, deixando-os abatidos. Só quem expõe as suas dores no confessionário da vida pode ser curado e ainda curar as feridas de outros.

A compaixão sempre busca alívio da dor alheia por saber, experimentalmente, os sintomas e os extertores de suas próprias dores. A passagem pelo sofrimento nos faz, naturalmente, compassivos. Alguém disse que só se compadece quem padece. Não há verdadeiro enternecimento se não houver internalização do martírio. Os calvários fazem parte dos processos terapêuticos e essa cura vem acompanhada por médicos feridos.

Conheço a história de um jovem que o pai o rejeitou no processo da gravidez, dizendo à sua mulher, que abortasse o feto indesejado. Ela não o fez e nunca contou ao filho, mas guardou uma mágoa cruel do marido por toda a vida e este luto íntimo atingiu a alma do menino desde o ventre. O rapaz se tornou um primor por fora, mas uma fera por dentro. Há uma ferida invisível que precisa de uma iluminação para ser percebida, bem como das mãos perfuradas pelos cravos, para poder ser curada.

Aqueles que forem curados vão fazer parte dos médicos feridos que tratam as feridas dos lesionados desta vida de horrores e horríveis histórias de crueldade. A Bíblia diz que o Altíssimo tem dois endereços: hábito no alto e sublime trono e no coração dos quebrantados e contritos. Ele mora, ao mesmo tempo, num palácio e num barraco e faz desta tapera o seu lugar de reconciliação com os molestados deste mundo esfacelado.

Mendigos, nós vivemos das esmolas da graça e Deus tem os seus métodos, como disse C. S. Lewis: “Deus sussurra em nossos ouvidos por meio de nosso prazer, fala-nos mediante nossa consciência, mas clama em alta voz por intermédio de nossa dor; esta é seu megafone para despertar um mundo surdo.”

Do velho mendigo, GP.

O ESPÍRITO DA CRUZ. 76 – A INVEJA

A inveja é um sentimento da alma caída que perdeu o senso comum. A pessoa vê o que o outro tem e não vê o que ela mesma tem e deseja aquilo que é do outro. O invejoso é um cego de sua individualidade e vidente inflamado da realidade alheia.

No latim, invídia é a sensação de inveja: um “olhar” associado ao olho maligno do invídere, aquele que “olha contra, olha de maneira hostil”. Invídia ou Inveja é um dos 7 pecados capitais na crença cristã, que detona os relacionamentos saudáveis. O invejoso não se enxerga adequado e ambiciona a adequação do outro a qualquer custo.

A zelotipia ou a idéia fixa, o interesse exacerbado, até o limite da insanidade, ao defender uma causa é uma monomania “religiosa” do invejoso contumaz. Caim matou o seu irmão Abel por pura inveja. Ele não podia aceitar que Abel fosse aceito por Deus, por meio da graça plena, uma vez que sua concepção admitia o mérito como moeda de troca para a sua aceitação. A inveja carcome a alma e corrói os relacionamentos.

Muitos dos embates ideológicos surgem da lama que o invejoso atira naquele que se destaca. Para Niceto Alcalá-Zamora, o 1º presidente da 2ª República Espanhola, “os ataques da inveja são os únicos em que o agressor, se pudesse, preferia fazer o papel da vítima”, pois o agressor sofre em extremo por não ser o que a vítima é.

Ramon Cajal disse que “a inveja é tão vil e vergonhosa, que ninguém se atreve em confessa-la.” A sutileza do invejoso muitas vezes vem travestida de lisonjas e babada à bajulação. Esconde-se na admiração aparente e solapa por detrás dos panos, por isso, é muito difícil descobrir um invejoso astuto e profissional, na cena do crime.

Em uma de suas peças, Molière disse muito bem: “a virtude neste mundo é sempre maltratada; os invejosos morrerão, mas a inveja é poupada”. Muitas vezes vem disfarçada em aplausos, no entanto, sua tática visa, nas entrelinhas, demolir o aplaudido. Antes de sua fúria cruel, Salieri fez isso com Mozart: elogiou-o no palco, mas em seguida o explodia nos bastidores. Na frente, admirava, nas costas, apunhalava.

A jornalista brasileira, cronista, contista e roteirista de cinema, Tati Bernardi foi na mosca: “as redes sociais profissionalizaram a imbecilidade. Fofoqueiros e invejosos se acham doutores e a maledicência ganhou ares de debates profundos”. Por trás da tela se tece uma rede de intrigas por puro sentimento de inveja. Quão lamentável é essa toca vil!

Mendigos, vejam o que disse o puritano do séc XVII Thomas Brooks: “a inveja tortura as afeições, incomoda a mente, inflama o sangue, corrompe o coração, devasta o espírito; e assim se torna, ao mesmo tempo, torturadora e carrasco do homem.” Sendo, assim, só há uma receita para este mal: a morte do invejoso na cruz, com Cristo. Não estou falando de doutrina da cruz… mas de nossa morte.

Do velho mendigo, GP.

O ESPÍRITO DA CRUZ. 75 – SALVAR DE QUEM?

– O que é a salvação? Indagou-me a jovem. – Você fala em salvação… de que eu preciso ser salva? Gostaria de saber o que isto quer dizer… de verdade…

Enquanto ela falava, eu buscava uma forma de explicar e me veio uma ideia de comparar a salvação com um estado de dependência. Imagine a criação do ser humano! Ele foi criado para viver em dependência com Deus, onde a criatura e o Criador viveriam em uma íntima relação, em que a criatura dependeria, sempre, em tudo, do Criador.

O pecado foi a quebra deste estado. A criatura foi tomada por um rompante de independência e rompeu com a relação, para viver por conta própria. Só que, a partir deste rompimento, a sua vida passou a perder energia. A vida vai se desgastando, pois a criatura tem que providenciar todas as formas de suprimento e o cansaço lhe consome.

Imaginemos a questão em termos de falência econômica. Vamos pensar em um sujeito pobre que vive totalmente na dependência de um rico. Tudo o que precisa vem das mãos do milionário. Mas, aquele paupérrimo acha que isto é muito humilhante e sai da chancela do ricaço e monta o seu próprio negócio. As coisas agora vão de vento em poupa e o sujeito fica rico. Ele se sente muito forte e capaz e se orgulha de viver da sua capacidade. Bate no peito e fala mal do capitalista que antes lhe dava tudo em troca de nada. Aquele magnata não queria coisa alguma do pobre, apenas buscava se relacionar com ele por pura amizade. Ele gostava do sujeito sem qualquer interesse.

O problema é que no mundo dos negócios há muita concorrência e o novel empresário faliu de verdade. Foi à bancarrota, perdeu tudo. Neste estágio lamentável de penúria, o antigo amigo se aproxima do mendigo e se propõe ser, de novo, o provedor de sempre. Ele oferece ao falido o suporte permanente, para que o pobre viva da suficiência do seus recursos. Mas, a parceria é de total dependência em consequência de uma plena e pura comunhão pessoal. É isto: o rico só quer relacionamento e companheirismo.

O indigente não precisa conquistar o reconhecimento do banqueiro e nem se preocupar em merecer a sua atenção, uma vez que esse cara é aceito e amado, não por suas qualidades pessoais, mas pelo caráter e coração do granfino. A única condição para tal amizade é a dependência total do carente. Ele tem que se limitar à inteira convivência com o argentário e depender integralmente dele. Precisa ser salvo de si mesmo.

Agora, o falido tem duas opções: sentir-se humilhado e negar a possibilidade de restauração ou humilhar-se e viver na dependência do dono do mundo. A salvação é o meio de fazer o falido ser liberto da sua falência através de um relacionamento pessoal e permanente como o Todo-poderoso. Não se trata do desempenho do necessitado, mas da suficiência do Salvador. A questão vital é da comunhão pessoal com o Magnânimo. E aí?

O ESPÍRITO DA CRUZ. 74 – O SERMÃO

Como disse Edward Bounds: “pode-se levar vinte anos para fazer um sermão, porque pode levar vinte anos para formar uma pessoa. O verdadeiro sermão tem a ver com vida. O sermão cresce porque a pessoa cresce. O sermão é poderoso porque a pessoa é poderosa. O sermão é santo porque a pessoa é santa. O sermão é ungido porque a pessoa é ungida.” Não basta falar, é preciso viver o quê se fala.

A pregação não é a linguagem de papagaio, aprendida por memorização. Antes de saber, é imperioso que o pregador creia. No reino de Deus não são os argumentos que devem ser considerados, mas a fé e o caráter inteiro do pregador.

O apóstolo aos gentios, citando o salmo, disse: cri, por isso falei. A pregação é fruto da confiança e esta, uma consequência da revelação da Palavra de Deus ao íntimo do pregador. Quem crê, internaliza a mensagem e a profere com convicção. Crer e falar são as marcas da pregação autêntica. Nós cremos por isso também falamos.

A mensagem necessita ser afinada com a vida do mensageiro. E a mensagem não sai só pela boca, sai também pelos poros. Ouvi alguém dizer dum pregador televisivo: não parece natural o que ele diz. Os gestos e a fisionomia, as caretas e a entonação, tudo fala e tudo diz do caráter desse expositor. Ele é um blefe, justificou o crítico.

Um velho pregador tinha um jovem que às vezes o substituía. Um dia, quando o moço pregou, uma senhora muito firme na mensagem, disse ao velho: quando este jovem prega, ele desprega o que você pregou. Ele está mergulhado em grande ambição e tudo o que diz é uma projeção de sua vida idealizada. Nada é autêntico nele…

Nós podemos pregar certo, embora, muitas vezes, tudo o que pregamos aos outros, encontra-se infestado de nossa personalidade cheia de vaidade. A mensagem em si é perfeitamente ortodoxa, mas o mensageiro, um pavão empoleirado no alto dos seus projetos pessoais de altivez. Poucas coisas podem ser tão perigosas quanto a pregação verdadeira, anunciada por um impostor. Com o tempo vem o descrédito.

A vida torta do pregador acaba trazendo desconfiança com a mensagem. Tudo o que ele diz é a verdade, mas não consegue viver o que prega; com isso, a pregação se perde na falta de coerência com a vida. A esposa de um pregador me disse, certa vez, por telefone: o meu marido é convincente no púlpito, mas é um embuste. Eu o conheço…

Gosto deste pensamento: O falso pregador é alguém que precisa dizer algo; o verdadeiro pregador é alguém que tem algo a dizer,” e, acrescento, mesmo que lhe custe a cabeça numa bandeja. A verdade a qualquer custo e ao preço de uma vida crucificada.

Não basta ser convincente é preciso ser coerente. Não basta dizer a verdade é preciso ser verdadeiro. Não basta ser admirado é preciso ser crucificado.

Do velho mendigo GP.

O ESPÍRITO DA CRUZ. 73 – O Milagre do “Nascer de Novo”

Jesus disse: “o que é nascido da carne é carne e o que é nascido do Espírito é espírito”. Aqui nós vemos dois nascimento: o do bebê e o do novo ser, um ser espiritual.

O neném nasce descendente de Adão. Ele é carne e carnal. A nova criatura é um milagre da graça e nasce através do Espírito Santo, como uma realidade espiritual. A criança cresce e continua sempre sendo carne. Mas, um dia essa pessoa pode nascer de novo e se tornar uma nova criatura. Ela nasce do Espírito e é espírito, mas continua como carne, ainda que perca a sua condição de carnalidade permanente.

O que é nascido da carne continua sendo carne. O que é nascido do Espírito é espírito e permanece espírito, mesmo vivendo na carne. Neste caso, o espírito é espiritual e continuará espiritual, mas a carne que continua sendo carne, não viverá na carnalidade.

Quando alguém nasce de novo, não deixa de ser carne ao ter sido feito espírito vivificante, porém, deixa de ser dirigido pela carnalidade da carne. Ele é carne, mas não é mais carnal. Aquele que é espírito, é espiritual, e embora, continue na carne, não é carnal.

A carnalidade é o resultado da carne sem o novo nascimento do espírito. Uma vez nascido de novo, a carne continua sendo carne, todavia a nova criatura não é mais uma pessoa governada pela carnalidade. Ainda que essa pessoa possa pecar, na carne, a carne, em sua carnalidade, não terá mais domínio sobre ela.

O ser humano na carne, sem o novo nascimento, vive uma ditadura da carne e ainda que não seja depravado na carnalidade, ele é carnal. A nova criatura é espiritual e mesmo vivendo na carne, sempre será uma pessoa espiritual.

Deus é espírito e só se comunica com os Seus filhos de modo espiritual. Não é a psique que se comunica com Deus, mas o espírito. Se não houver vivificação em nosso espírito, não haverá vida relacional com Deus, mesmo que haja uma vida ética cheia dos mais ricos frutos de moralidade. O novo nascimento tem a ver com a vida que se conecta com Deus, não, necessariamente, uma vida sem jaça em sua conduta.

É verdade que a nova criatura terá um comportamento adequado e vida moral digna, mas não é a vida moral digna que vai determinar se houve novo nascimento. O que carateriza a nossa nova criação é, antes de tudo, a sua confiança apenas na Trindade e a total e permanente desconfiança em si mesmo. A fé é nossa plena confiança em Deus ou confiança no Alto e o arrependimento a nossa desconfiança da autoconfiança.

Aquele que nasceu do Alto vive dependente do poder do Alto e em constante arrependimento de si mesmo. Como disse George Whitefield: “Precisamos arrepender-nos de nosso arrependimento e lavar nossas lágrimas no sangue de Cristo.” Mendigos, se formos espirituais até das lágrimas precisamos nos arrepender.

Do velho mendigo, GP.

O ESPÍRITO DA CRUZ. 72 – Uma coisa é estar na igreja, outra bem diferente, é estar em Cristo!!!

Uma coisa é estar na igreja, outra bem diferente, é estar em Cristo. Se alguém estiver em Cristo estará na igreja, mas, pode ser que alguém só esteja na igreja e jamais estará em Cristo. Para estar na igreja basta o batismo nas águas, contudo, para estar em Cristo é preciso o batismo na morte. Sem a morte do ego com Cristo não há cristianismo.

A igreja é um organismo vivo, mas pode ser também apenas uma organização. Como organismo, a igreja é o corpo vivo de Cristo. Como organização, não passa de uma agremiação para fins lucrativos ou religiosos. Não devemos ficar confusos com isto.

A igreja orgânica tem organização, porém, não é uma mera instituição de ritos e formalidades. O que organiza esta comunidade é a vida de Cristo – agindo pelo Espírito, espiritualmente, em cada um dos seus membros. É uma casa de família onde a família se comunica com transparência e age em harmonia comunitária.

Religião e Evangelho são totalmente diferentes. A religião, no que diz respeito à reunião das pessoas, produz entidades corporativas a serviço do humanismo, enquanto o Evangelho investe na libertação das pessoas, para que vivam livres pela graça de Deus.

Jesus falou do trigo e do joio na igreja. O trigo é o filho de Deus e o joio, o filho do maligno. O Semeador plantou o trigo de dia e o impostor plantou o joio à noite. – Um é luz e o outro, trevas. Mas, Jesus disse que não era possível separar, agora, um do outro. O trigal vai ter que conviver no mesmo campo, nesta era, com a plantação do joio.

A cizânia ou joio é muito parecida com o trigo, mas eles são diferentes em três pontos importantes: na raiz, no porte e no fruto. A raiz da erva detinha fica bem arraigada ao solo; o joio está preso à terra ou ao mundo, enquanto o trigo pode ser arrancado com certa facilidade. O porte da cizânia é altivo e sempre cresce mais que o trigo, ficando com a sua espiga empinada, porque não tem grão, é xoxo. Só o trigo tem fruto de verdade.

O joio está na igreja, mas ele não gosta do trigo, nem da igreja. A sua atividade é confundir os ingênuos e gerar desordem. Porém, se alguém não gosta de igreja, nunca, jamais poderá fazer parte saudável de nenhuma igreja. A verdadeira igreja é formada pelo trigal que não entra na intriga do joio, mas vive integralmente para a glória de Pai.

Quem não gosta de igreja, não pode ser igreja. Ora, se não formos igreja, não somos filhos de Deus, mas, se formos filhos de Deus não há lugar para ressentimento ou amargura em nossos corações. A igreja de Deus não odeia a quem não gosta dela, ainda que seja perseguida ou dilapidada por seus inimigos.

Há muitos que se preocupam mais com o respeito humano do que com a plena aceitação em Cristo. Mendigos, “a igreja é a herdeira da cruz”, portanto, levemos o morrer de Jesus em nós, para que Sua vida se expresse também em nós.

Do velho mendigo, GP.

O ESPÍRITO DA CRUZ. 71 – UM CORAÇÃO AOS CACOS

O arrependimento não é remorso. “O verdadeiro arrependimento consiste em ficar o coração quebrantado por causa do pecado e de romper com o pecado,” afirmou muito bem William Nevins. Não confunda a tristeza, em lágrimas, com a dor do coração.

O remorso é uma tristeza do sujeito que foi flagrado com a boca na botija, mas o arrependimento é a tristeza daquele, que, mesmo ninguém sabendo do seu deslize, se percebe como tendo ofendido a santidade de Deus. No remorso, muitas vezes, existe só e apenas um show de lágrimas, mas no choro do arrependimento há quebrantamento.

Já cai várias vezes no pranto do conto do vigário. Eu mesmo já chorei porque o meu erro foi descoberto. Havia chororô, todavia não se via pungimento. Deus olha para o coração compungido e contrito e não simplesmente para os olhos marejados. As lágrimas de Esaú não revelaram o seu arrependimento. Eram lágrimas de tristeza sentimental.

Victor Alfsen disse:

“Deus pode fazer maravilhas com um coração quebrantado, se você lhe entregar todos os pedaços.” Mas como entrega-los?

Na verdade, a tristeza espiritual é um dom da graça de Deus. Só a mão do Pai pode nos tocar, de tal maneira, que torne o nosso coração sensível diante da visão e da convicção do pecado. Se o Pai não nos levar ao constrangimento e nojo pelo pecado, não haverá quebrantamento, e, consequentemente, não haverá a entrega dos cacos a Ele.

No reino de Deus, um coração quebrantado e entregue a Ele é o único coração inteiro e sadio. Não há saúde espiritual sem quebrantamento da alma.

Foi John Henry Jowett quem disse: –

“o evangelho de um coração quebrantado começa com o ministério de corações que sangram. Quando nós paramos de sangrar, já paramos de abençoar.” Jesus disse ao médico ferido, que queria ser curado, na peça que leva esse nome: – se você for curado, quem compadecerá dos doentes que lhe procuram?

Jesus é denominado como “o homem de dores”. Sem dores a fé cristã é dura e insensível. Foi o Dr. Martyn Lloyd-Jones quem disse:

“Se realmente conhecemos a Cristo, como nosso Salvador, os nossos corações estarão quebrantados, não podem ser duros, e não podemos negar a compaixão e o perdão.”

Muitos de nós pensamos que já estamos quebrantados, mas estamos apenas em um estado de aviltamento. O quebrantamento é mais do que servilismo, ele nos tira do tribunal do júri, em defesa de algum direito camuflado, e no coloca na senzala do reino de Deus, como escravos a serviço da glória do Rei dos reis, sem qualquer direito.

Mendigos, vivemos hoje o cristianismo da prosperidade e das reivindicações de “Servos” imponentes. Mas, o que falta, de fato, são corações quebrantados que vivam só e tão-somente para a glória do Senhor.

Do velho mendigo do vale estreito,

GP.