O ESPÍRITO DA CRUZ .120 – O CUIDADO COM O ESNOBISMO

Alguém de família simples, criada de maneira rústica, mas fez faculdade e subiu alguns degraus na vida, comenta que sua cria foi passar algum tempo num lugar simples, com gente roceira e, dispara: como pode alguém acostumada com o que é bom, ter que conviver naquela simplicidade toda; minha família não está habituada com essa vidinha.

É triste ver essa mentalidade esnobe governando palácios. Dar título de nobreza a gente com uma mente rasteira é um investimento perigoso. Salomão disse que há quatro coisas que estremecem a terra, a primeira é: o servo quando se torna rei. Provérbio 30:22. A mentalidade servil não tem condições de reinar. Gente miúda não pode ficar graúda sem o risco de ser tornar tirana e insuportável. Escravo não tem condições de governabilidade.

Alguém pode indagar: mas por que? Por três razões. A primeira é o calibre das ideias. O pensamento de escravo é estreito. A ausência de liberdade produz guetos mentais incapazes de se expandir. A segunda é a memória ardida que acaba vingando-se daqueles que, noutro tempo, ocupavam uma posição de destaque. E a terceira é o esnobismo que impede o escravo agir com nobreza. Não há no poleiro galinha com postura de condor.

É verdade que não “importa o ninho se o ovo é de águia”. Abraão Lincoln era um lenhador, mas não tinha mentalidade de vassalo. Veio de um lar pobre e simples, mas era homem nobre por natureza. Quando falo de mentalidade de cativeiro não estou falando de pobreza ou simplicidade, mas dessa gentalha com uma bitola estreita. Exemplo: legalista.

A palavra esnobe vem de uma contração do latim sine nobilitate ou sem nobreza, definido uma pessoa que estaria entre a nobreza, mas destituída dos pré-requisitos de um nobre. É gente medíocre e metida a besta, carente da distinção própria da fidalguia. Este tipo busca a notoriedade, embora esteja privado daquilo que é mais notável: humildade.

O esnobismo se pauta pela necessidade de exibição. A. Raine disse muito bem e com propriedade, que, “você pode atingir o topo da escada e então descobrir que ela não está apoiada na parede certa.” Se você escalar a muralha até o topo do mundo em busca do reconhecimento, isto pode ser uma das mais perigosas aventuras para a ilusão da sua alma.

A maior mensagem do Evangelho da graça é o esvaziamento. Deus se esvazia na encarnação; se esvazia no serviço como escravo de terceira categoria e se esvazia na cruz como um réu, morrendo a morte dos pecadores mais indignos. Sem esvaziamento do nosso esnobismo não há lugar para nobreza celestial. Nosso velho homem ensimesmado precisa ser extinto e a busca pela glória e o reconhecimento, crucificada com Cristo.

Alguém disse: “a grandeza do poder de um homem é a medida de sua capacidade de rendição.” Jesus só afirmou – todo o poder me foi dado no céu e na terra depois da Via Crucis. Mendigos, rebaixemo-nos até o húmus, aí é o nosso lugar.

Do velho mendigo, GP.

O ESPÍRITO DA CRUZ .119 – PEQUENOS DISSABORES

Saímos do hotel, em Atenas, às 03:30 horas, rumo ao aeroporto. O nosso voo estava marcado para 06:00 e tínhamos que estar lá 2 horas antes. Tudo nos conformes: checkout feito com antecedência, taxista pontual e lá fomos. Estava tudo certo.

O primeiro dissabor. O chofer do táxi fazia parte dos trambiqueiros de turistas e me passou a perna em € 7,00 euros no troco, mais de R$ 30,00. No dia anterior outro já havia tentado lesar-me em € 45,00 euros, mas eu estava bem acordado na hora. Não é só no Brasil que tem pilantras de carteirada. O mundo está cheio desta espécie ladina.

Fomos para a fila a fim de fazer o checkin para Lisboa. Não tivemos dificuldade, só com o mau-humor do atendente, mas isto é até previsível. Trabalhar de madrugada não deve ser fácil. No entanto, o cabra fez uma pegadinha conosco. Eram dois trechos: Atenas- Istambul e Istambul-Lisboa. No primeiro, voo de 50 minutos, ele nos colocou num lugar até bom e juntos, mas no segundo voo, de cerca de 5 horas, ele pôs a minha esposa na poltrona central da penúltima fila e a mim atrás dela, na última. Cadeirinhas enjoadas!

Este lugar é muito desconfortável, não tem onde pôr os cotovelos e ficávamos separados. Não vimos aquilo na hora, só pouco antes do embarque em Istambul. Minha esposa já sentiu o golpe e fez o seu protesto. Senti que seria um voo desagradável e orei: – Senhor faz um milagre! Mas por que milagre numa coisinha tão tola? Deus é de detalhes.

Para Deus não há problemas tão grandes que Seu poder não possa resolver, nem coisas tão insignificantes que Seu amor não possa se interessar. Entramos no avião depois de alguma muvuca e fomos para os lugares marcados. Carmita falou com a aeromoça se seria possível uma troca. Com muita gentileza ela nos assegurou que seria possível se a aeronave não estivesse cheia. Ficamos ali esperando… e entra gente… e entra gente.

Chegou o momento de tentar a troca com uma jovem de cabelo esverdeado, mas a criatura, que ia apenas mudar de lado ficando na mesma posição, no corredor, se fez de indiferente e tratou a aeromoça com secura. Sem qualquer contestação a aeroviária foi à frente e achou três lugares livres. Estes lugares que o atendente em Atenas não nos colocou foi designado por Aba, para que nós aprendêssemos que é Ele quem cuida dos seus filhos.

Deus conhece-nos totalmente e cuida de nós a despeito desse conhecimento.” A coisa mais significativa para os filhos de Deus é saber que o Pai está no controle dos voos dos pardais, como também dos que padecem com o mau humor dos atendentes.

Mendigos, o cupim é bichinho pequeno, mas acaba com o madeiramento de um casarão. Os pequeninos dissabores são responsáveis por grandes frustrações. Precisamos aprender que o poder de Deus é suficiente para transformar o caos do universo, bem como, a confusão de nossa alma raquítica e ranheta.

Do velho mendigo, GP.

O ESPÍRITO DA CRUZ .118 – O CASAL CHATO

Alguém me perguntou: – como se faz para conviver com a pessoa que vê mais os defeitos do que as virtudes? E acrescentou – quase tudo é motivo de implicância… eu já não sei como agradar, pois o nosso relacionamento tornou-se sem graça. O que você me diz?

Possivelmente vocês perderam os motivos de saudável admiração. Um dos mais sérios problemas de um casamento é a rotina, que sorrateiramente mina a relação e acaba com elogios. Quando o casal se acostuma um com o outro é comum perder a fineza. Então a chatice frequente vira um cultivo diário e a antipatia é plantada nos corações.

A falta de zelo faz murchar a planta e com o tempo seca e morre. A ausência de cuidado faz o relacionamento se tornar sem sabor e com o tempo perde o gosto totalmente. Todo casamento carece de cultivo e cultivo de relacionamento exige admiração. As flores são cultivadas com adubo; o corpo com alimentos e as almas como estímulos amáveis. Mas isso não quer dizer lambeção sem critério. O bom cuidado tem sempre um bom senso.

Admiração cega é pura estupidez. Os pulgões na planta precisam de pulverização e os defeitos de caráter precisam ser encarados para serem tratados. Contudo, com carinho para não ferir e magoar. Muitos jardineiros podam tanto que a planta morre. Corrigir exige habilidade e moderação. Corrigir um amigo é bom exemplo, porque se faz com cuidado.

Não existe casamento sem discórdias, embora precisa-se discordar sem agredir. Parece que vocês já se tornaram chatos demais um com o outro. A chatice é um sintoma da falta de admiração, pois quando vivemos pegando no pé, um do outro, é porque não vemos mais motivo de apreciação no outro e descuidamos da amizade. Um casal rabugento é um casal implicante, que perdeu o senso de admiração e, com isso, parou de enamorar-se.

Os namorados normalmente se admiram e quanto mais se admiram mais firmes se sentem um com o outro. Volto a dizer: não estou falando de cegueta que não vê erros e defeitos, mas de cultivo das virtudes, antes de tudo, para poder tratar dos problemas com amor e desvelo. As flores são bonitas e as almas são famintas de significado. Se damos um maior cuidado ao significado positivo, podemos fazer as almas tão bonitas como as flores.

O melhor remédio para tratar uma alma faminta de significado é apresentar Cristo crucificado a ela. Aí você mostra para essa alma que ela precisa morrer juntamente com Cristo. Se ela tiver a garantia da sua morte com Cristo ficará livre de sua mania de querer sempre ter a última palavra. A alma salva de si é capaz de ser parte da solução e não do problema. Se nos percebemos aceitos no amor de Aba, podemos aceitar o outro.

Mendigos, o casal implicante é um par que é ímpar, já que se nutre da doença um do outro. Eu preciso ser liberto de mim para poder ajudar na libertação do parceiro. Normalmente não é o outro o meu maior problema, sou eu.

Do velho mendigo, GP.

O ESPÍRITO DA CRUZ .117 – O CRONOS E A CRUZ

Cronos é cruel. Enquanto andava com minha esposa no centro de Atenas vi uma turminha dos desgastados pelo tempo, manquejando naquelas calçadas milenares. Entre monumentos da história e a história dos mancos que Cronos havia feito a sua cronificação, não podemos dizer muito, só podemos dizer: Cronos é cruel com a carcaça dos anciãos.

“Cronos (Κρόνος) na mitologia grega é o mais jovem dos titãs, filho de Urano, o céu estrelado e de Gaia, a terra. Cronos, o rei dos titãs e o grande deus do tempo, sobretudo quando este é visto em seu aspecto destrutivo, o tempo inexpugnável que rege os destinos e a tudo devora.” É isto. Ele consome tudo com o seu passar cadente. As velhinhas e os velhotes caquéticos de Atenas apenas refletiam as marcas da crueldade de Cronos, que a ninguém poupa. O tempo é inflexível em sua truculência cotidiana e eu já o sinto.

Entramos na loja da Attica para encontrar-nos com alguém e enquanto ali esperávamos a pessoa, minha esposa foi comprar um cosmético e eu fiquei assuntado o movimento. Foi aí que vi um carcomido de Cronos se dirigir a uma vitrine de perfumes e, como quem não quer nada, começa a se perfumar com o frasco que era usado para o comprador poder experimentar a fragrância. O velhusco se banhava com o perfume, então a vendedora o interpela e chama o segurança, que logo aparece para repreendê-lo.

O segurança era um jovem mastodonte e o velhote um cisco, mas havia muitos olhares na loja e nessa hora ninguém ousaria triscar num idoso. Eles têm direitos. O velho velhaco disfarçou e ficou ali com uma cara de bebê que tinha sujado as fraldas. Depois de um tempinho saiu todo cheiroso, como se nada tivesse acontecido.

Fiquei pensativo. Interessante! Cronos havia consumido o velhote no seu físico e tudo parecia murcho, mas a alma vigarista do astuto continuava robusta roubando a cena. Vi que ele não era um fracote psíquico, ainda que fosse um fracasso moral. A alma nunca se desestima com o tempo, pode até se desmontar, mas continua querendo levar vantagem.

Saímos dali e passamos em frente ao Areópago, onde Paulo pregou e pensei que aquela pregação teve um equívoco. De todas as mensagens do livro de Atos esta é a única pregação que não abordou a cruz. Paulo teve pouco resultado em Atenas porque ele omitiu apenas aquilo que pode tirar a alma do controle da vida. Só a cruz, Staurós, pode instaurar um novo estilo de vida numa pessoa caída. Sem a mensagem da cruz não há libertação de um ser humano trapaceiro. O egoísmo precisa morrer para que haja restauração da alma.

Mendigos, sem a cruz não podemos seguir a Cristo. Mas “a crucificação é algo feito para nós; não é algo que fazemos em nosso favor. Só podemos iniciá-la tomando a cruz, mediante uma decisão completa e honesta.” Não há outra jeito de viver a vida cristã a não ser mediante contínua morte para o eu, na cruz, com Cristo.

Do velho mendigo, GP.

O ESPÍRITO DA CRUZ .116 – O PERIGO DO NEGÓCIO SEM ÓCIO

Um dos maiores obstáculos à vida espiritual é o ativismo. Marta estava atarefada e se preocupava com muitas coisas e Jesus a corrigiu dizendo que uma só coisa era, de fato, prioritária. Alguém disse que grande parte das atividades de muitos cristãos é o túmulo da vida espiritual. Estão tão ocupados que não têm tempo de manter comunhão com Deus.

D. Martyn Lloyd-Jones disse que “um dos maiores perigos da vida espiritual é viver em função de suas próprias atividades. Em outras palavras, a atividade não está em seu devido lugar como algo que você faz, mas tornou-se algo que o leva a manter-se sempre em movimento.” São como o moinho que se move o tempo todo, mas não evolui.

É preciso equilíbrio. Agostinho percebeu isto com real clareza, quando afirmou: “Nenhum homem tem o direito de levar uma vida de tão grande contemplação a ponto de negligenciar o serviço devido a seu próximo, nem tem o direito de entregar-se de tal forma a uma vida ativa a ponto de esquecer-se da contemplação de Deus.”

A grande necessidade da igreja em qualquer tempo, mas especialmente em nossa época, é de saber priorizar e adequar as suas ênfases.

Precisamos ter o cuidado para não sentirmos que, se não estivermos de pé, fazendo algo, o Senhor não estará atuando.”

Deus é soberano e pode fazer tudo sozinho, mas em sua soberania nos colocou nos Seus planos, para que nós, em Sua dependência, vivamos para a Sua glória.

Assim, nem ativismo desenfreado, nem comtemplação inativa. Alguém disse que “é possível ser muito ativo no serviço de Cristo e esquecer-se de amá-lo.” Muitos de nós “temos estado tão ocupados em cortar madeira para gastar tempo, que não sobra tempo para afiar o machado”. Aqui precisamos tanto da atividade, como da contemplação.

Uma vida atarefada pode ser uma vida estéril espiritualmente. Movimentação não é sinal de unção. Às vezes vemos muitas realizações e pouca realidade espiritual. Para o pregador inglês Roy Hession,

o fato de nos concentrarmos em serviço e atividade para Deus, muitas vezes, pode impedir-nos de alcançar, de verdade, o próprio Deus.”

Carecemos de verdadeiro zelo na obra de Deus. Devemos investir o máximo que pudermos no progresso do Evangelho, mas não podemos perder de vista que o zelo precisa de real entendimento daquilo que é prioritário. É difícil ficar aos pés de Jesus, como Maria, quando temos pressa em fazer as coisas, como Marta.

“Estar sempre pregando, ensinando, falando, escrevendo e realizando obras em público no âmbito da igreja de Cristo é inquestionavelmente um sinal de zelo. Mas não é sinal de zelo segundo o conhecimento,” disse com sabedoria o bispo J. C. Ryle.

Mendigos, não há nada sem importância no serviço de Deus, mas não se esqueça que a comunhão com Ele antecede ao trabalho.

Do velho mendigo, GP.