O ESPÍRITO DA CRUZ .117 – O CRONOS E A CRUZ

Cronos é cruel. Enquanto andava com minha esposa no centro de Atenas vi uma turminha dos desgastados pelo tempo, manquejando naquelas calçadas milenares. Entre monumentos da história e a história dos mancos que Cronos havia feito a sua cronificação, não podemos dizer muito, só podemos dizer: Cronos é cruel com a carcaça dos anciãos.

“Cronos (Κρόνος) na mitologia grega é o mais jovem dos titãs, filho de Urano, o céu estrelado e de Gaia, a terra. Cronos, o rei dos titãs e o grande deus do tempo, sobretudo quando este é visto em seu aspecto destrutivo, o tempo inexpugnável que rege os destinos e a tudo devora.” É isto. Ele consome tudo com o seu passar cadente. As velhinhas e os velhotes caquéticos de Atenas apenas refletiam as marcas da crueldade de Cronos, que a ninguém poupa. O tempo é inflexível em sua truculência cotidiana e eu já o sinto.

Entramos na loja da Attica para encontrar-nos com alguém e enquanto ali esperávamos a pessoa, minha esposa foi comprar um cosmético e eu fiquei assuntado o movimento. Foi aí que vi um carcomido de Cronos se dirigir a uma vitrine de perfumes e, como quem não quer nada, começa a se perfumar com o frasco que era usado para o comprador poder experimentar a fragrância. O velhusco se banhava com o perfume, então a vendedora o interpela e chama o segurança, que logo aparece para repreendê-lo.

O segurança era um jovem mastodonte e o velhote um cisco, mas havia muitos olhares na loja e nessa hora ninguém ousaria triscar num idoso. Eles têm direitos. O velho velhaco disfarçou e ficou ali com uma cara de bebê que tinha sujado as fraldas. Depois de um tempinho saiu todo cheiroso, como se nada tivesse acontecido.

Fiquei pensativo. Interessante! Cronos havia consumido o velhote no seu físico e tudo parecia murcho, mas a alma vigarista do astuto continuava robusta roubando a cena. Vi que ele não era um fracote psíquico, ainda que fosse um fracasso moral. A alma nunca se desestima com o tempo, pode até se desmontar, mas continua querendo levar vantagem.

Saímos dali e passamos em frente ao Areópago, onde Paulo pregou e pensei que aquela pregação teve um equívoco. De todas as mensagens do livro de Atos esta é a única pregação que não abordou a cruz. Paulo teve pouco resultado em Atenas porque ele omitiu apenas aquilo que pode tirar a alma do controle da vida. Só a cruz, Staurós, pode instaurar um novo estilo de vida numa pessoa caída. Sem a mensagem da cruz não há libertação de um ser humano trapaceiro. O egoísmo precisa morrer para que haja restauração da alma.

Mendigos, sem a cruz não podemos seguir a Cristo. Mas “a crucificação é algo feito para nós; não é algo que fazemos em nosso favor. Só podemos iniciá-la tomando a cruz, mediante uma decisão completa e honesta.” Não há outra jeito de viver a vida cristã a não ser mediante contínua morte para o eu, na cruz, com Cristo.

Do velho mendigo, GP.

O ESPÍRITO DA CRUZ .116 – O PERIGO DO NEGÓCIO SEM ÓCIO

Um dos maiores obstáculos à vida espiritual é o ativismo. Marta estava atarefada e se preocupava com muitas coisas e Jesus a corrigiu dizendo que uma só coisa era, de fato, prioritária. Alguém disse que grande parte das atividades de muitos cristãos é o túmulo da vida espiritual. Estão tão ocupados que não têm tempo de manter comunhão com Deus.

D. Martyn Lloyd-Jones disse que “um dos maiores perigos da vida espiritual é viver em função de suas próprias atividades. Em outras palavras, a atividade não está em seu devido lugar como algo que você faz, mas tornou-se algo que o leva a manter-se sempre em movimento.” São como o moinho que se move o tempo todo, mas não evolui.

É preciso equilíbrio. Agostinho percebeu isto com real clareza, quando afirmou: “Nenhum homem tem o direito de levar uma vida de tão grande contemplação a ponto de negligenciar o serviço devido a seu próximo, nem tem o direito de entregar-se de tal forma a uma vida ativa a ponto de esquecer-se da contemplação de Deus.”

A grande necessidade da igreja em qualquer tempo, mas especialmente em nossa época, é de saber priorizar e adequar as suas ênfases.

Precisamos ter o cuidado para não sentirmos que, se não estivermos de pé, fazendo algo, o Senhor não estará atuando.”

Deus é soberano e pode fazer tudo sozinho, mas em sua soberania nos colocou nos Seus planos, para que nós, em Sua dependência, vivamos para a Sua glória.

Assim, nem ativismo desenfreado, nem comtemplação inativa. Alguém disse que “é possível ser muito ativo no serviço de Cristo e esquecer-se de amá-lo.” Muitos de nós “temos estado tão ocupados em cortar madeira para gastar tempo, que não sobra tempo para afiar o machado”. Aqui precisamos tanto da atividade, como da contemplação.

Uma vida atarefada pode ser uma vida estéril espiritualmente. Movimentação não é sinal de unção. Às vezes vemos muitas realizações e pouca realidade espiritual. Para o pregador inglês Roy Hession,

o fato de nos concentrarmos em serviço e atividade para Deus, muitas vezes, pode impedir-nos de alcançar, de verdade, o próprio Deus.”

Carecemos de verdadeiro zelo na obra de Deus. Devemos investir o máximo que pudermos no progresso do Evangelho, mas não podemos perder de vista que o zelo precisa de real entendimento daquilo que é prioritário. É difícil ficar aos pés de Jesus, como Maria, quando temos pressa em fazer as coisas, como Marta.

“Estar sempre pregando, ensinando, falando, escrevendo e realizando obras em público no âmbito da igreja de Cristo é inquestionavelmente um sinal de zelo. Mas não é sinal de zelo segundo o conhecimento,” disse com sabedoria o bispo J. C. Ryle.

Mendigos, não há nada sem importância no serviço de Deus, mas não se esqueça que a comunhão com Ele antecede ao trabalho.

Do velho mendigo, GP.