O ESPÍRITO DA CRUZ .104 – TRANSFORMANDO PRANTO EM DANÇA

A tristeza pode durar uma noite, mas a festa vem na madrugada. Este texto pode ser o símbolo da noite da crucificação e da aurora da ressurreição. Mas houve densas trevas no dia do Cordeiro imolado no Calvário e, a noite, após a cruz foi ausência de visão. A esperança de Israel, para um grupo, havia se perdido no breu da morte escura.

Naquela madrugada de 05 de fevereiro, a porta do nosso quarto se abriu e minha filha do meio com a netinha Vitória, de 20 dias, ao colo, quebra o silêncio do sono dizendo: a bolsa da Bela rompeu e está indo ao hospital. Isabela é nossa caçula que já teve um parto em que a bolsa se rompera e veio o nosso netinho Felipe de um jeito ligeiro e prematuro.

De novo a correria. Arrumamos as malas às pressas e saímos como foguete rumo a Campinas. Enquanto dirigia com o pé de Barrichelo, mas o espírito de Airton Senna, ouvia a minha esposa dando as notícias do WhatsApp que pipocavam. Não foi boa uma das informações. Quando o médico retirava um ponto da cerclagem do útero, rompeu a artéria e sangrou muito. O sangue reportava-me ao Calvário. E nós estamos agora num.

Eu guiava pedindo ao Guia eterno que nos guiasse rumo ao seu colo de descanso. O meu coração arrítmico estava açoitado pelos batimentos de um ser humano sem saber o que fazer. – Senhor, tem misericórdia desta dupla amada na sala de cirurgia e desta família que sangra de dor do lado de fora. Era o grito silencioso numa oração quase sem palavras.

Sabia, por instinto, que nossa filha corria risco de morte, mas precisava proteger minha esposa do pavor da morte. Clamava: ó, Tu que já estiveste no seio dela e venceste as suas garras, vence agora, com o mesmo poder da manhã radiante da tua ressurreição!!!

Atravessávamos o rio Tibagi quando veio uma foto: era Sami, meu genro, e Bela sorrindo juntos, com Laurinha no meio, no centro cirúrgico. Minha esposa não conseguia ver direito, por causa das lágrimas, e eu, porque dirigia. Andamos mais uns 10 kms e parei num lugar de recuo para ver a foto e soltar o choro de gratidão e adoração ao Ressuscitado.

Choramos, oramos e louvamos, mas não tínhamos a menor noção do que tinha acontecido. Só depois de dois dias é que soubemos o que a nossa filha passou. Ela esteve no corredor da morte e foi restaurada pelo Autor da vida. Havia nova aura soprando naquela manhã quando a Laura nascia. A noite passara e agora víamos o valor da misericórdia.

Este é um mundo de espinhos e cardos e nós fazemos parte de uma raça caída, sofrendo por todos os lados com o cheiro asqueroso do bafo da morte, mas, nossa família foi visitada pela aurora da ressurreição. Não tenho dúvidas. O Senhor agiu neste parto.

Mendigos, pude ver a luz da manhã à meia noite. Antes que o sol nascesse raiou o brilho da vida ressuscitada, conduzindo-me em dança festiva diante do trono, por mais um milagre em nossa caminhada rumo à Nova Jerusalém.

Do velho mendigo, GP.

O ESPÍRITO DA CRUZ .103 – FERIDOS POR FALAS PERDIDAS

A onça foi baleada na perseguição, não mortalmente, e os caçadores estavam ali rastejando em seu encalço para abatê-la definitivamente. Foi aí que um atirador experiente disse: – agora, todo cuidado é pouco, pois uma fera ferida é muito mais perigosa.

Ninguém vive num mundo agressivo de falas perdidas, por emoções desvairadas, sem algum ferimento na sua alma. As falas podem ser mais ferinas do que as balas. E há mais gente atingida, gravemente, por falas perdidas, do que gente, por balas perdidas. A multidão de feridos por falas malignas é infinitamente maior do que por balas perdidas.

As palavras podem curar ou matar. A boca pode ser um hospital ou uma câmera de gás. Pode dar vida ou produzir adoecimento, aleijar e matar. A Bíblia diz: a morte e a vida estão no poder da língua; o que bem a utiliza come do seu fruto. Provérbios 18:21.

Uma palavra bem dita será sempre uma bendita bendição, mas, maldizer é uma praga maligna do inferno. Se falo mal de alguém, sem provas, é calúnia; se houver provas é perda de tempo e um trabalho de operário padrão do capeta. Denegrir ou difamar alguém é sinal de um coração perverso, pois Jesus disse: a boca fala daquilo que está no coração.

Aquele que tem o seu coração adequado tem um discurso curador, mas aquele que guarda a maldade no coração fere com sua língua maledicente até um monge de pedra.

Tenham cuidado com a maneira de falar. Nunca saia da boca de vocês alguma besteira, baixaria, ultraje ou maledicência. Falem apenas o que for útil e ajude os outros! Cada palavra de vocês deve ser um presente para a edificação de alguém. Efésios 4:29.

Há uma multidão de aleijados e tetraplégicos emocionais fruto de falas perdidas, ditas de modo impensado e inconsequente, que feriram profundamente a alma das vítimas das palavras malditas. Essa gente agora é muito perigosa, pois faz parte das feras feridas.

Uma pessoa magoada é um potencial ofensor. Aliás, potentemente agressor. Não são poucos os feridos que não sejam ferinos. Desde uma ironia sofisticada até o sarcasmo rasteiro vemos nos botes mais sutis de gente amarga, propondo desforra para quem o feriu. Mas é triste ver a vítima de ontem vitimizar o inocente hoje, como troco do pecado.

Normalmente a agressão é um reflexo de alguém agredido que procura vingança, e, as palavras viperinas ou venenosas são as armas mais afiadas para ferir os seus alvos. Na verdade, não há ataque mais letal do que as palavras maldosas ditas de modo ultrajante.

Um ente magoado, frequentemente, é um perito em arranhar, morder e ferir. A fera ferida é uma fera ferina. Mas, há remédio para essa cavalgadura, a cruz de Cristo. Esse bicho precisa morrer na cruz com Cristo, para que ressurja em seu lugar um novo ser, capaz de proferir palavras que ajudem na cura das feridas que sangram. O filho de Aba é o médico ferido que trata, com palavras sãs, as feridas dos feridos.

Do velho mendigo, GP.

O ESPÍRITO DA CRUZ .102 – A MISSÃO DO COMISSIONADO

Missões é o vivo agir da Igreja de Cristo movida pelo Espírito Santo. A igreja que obedece a ordem de pregar o Evangelho da graça, seja aqui ou seja acolá, está na missão de anunciar as boas novas. Não há missão se a igreja estiver pregando outra coisa que não seja o Evangelho de Cristo, mesmo que ela envie os seus missionários aos confins da terra.

O Evangelho é descrito pelo apóstolo Paulo claramente assim: eu lhes transmiti o que era mais importante e o que também me foi transmitido: Cristo morreu por nossos pecados, como dizem as Escrituras. Ele foi sepultado e ressuscitou no terceiro dia, como dizem as Escrituras. 1 Coríntios 15:3-4. Sumariamente falando, o Evangelho da graça é o anúncio da morte e ressurreição de Cristo Jesus, bem como, a nossa inclusão nEle.

Ser missionário na igreja não quer dizer que alguém foi enviado ao campo, fora do perímetro da igreja local, embora isto possa acontecer, mas, quer dizer que alguém tem que anunciar apenas a Cristo crucificado, anunciando-O como um crucificado com Ele.

Toda igreja local faz sua missão pregando o Evangelho, tanto em suas reuniões, como nos seus projetos externos. A igreja que prega a Cristo e tão-somente a Cristo é uma igreja missionária, fazendo missões, quer seja nos quintais da sua sede, quer nos confins da geografia, uma vez que o objetivo da pregação – Cristo – é que determina a sua missão.

Se eu prego a minha denominação, não estou fazendo missões. Se prego a Bíblia, sem a ênfase em Cristo crucificado, não faço missões. Se cuido dos órfãos, dos pobres e dos exilados, mas não transmito a mensagem da morte e ressurreição de Cristo Jesus, segundo o Evangelho da graça, não tenho nada de missionário, nem estou envolvido em missões.

Li este pensamento:

só um perito em subterfúgios exegéticos ousaria negar que a missão da igreja é fazer discípulos de Cristo”, e, ninguém fará um discípulo dEle, sem que este morra para si mesmo e para o mundo, por meio de sua união com Ele, na cruz.

A missão de pregar o Evangelho da bendita graça de Cristo, como crucificados, é a única permissão que nós temos, como missionários, neste mundo sem a visão de Deus.

Ser missionário, fazer missões, não significa viajar a um país distante e envolver-se lá com mera divulgação do cristianismo. Somos missionários quando morremos pra nós mesmos, na cruz com Cristo, e vivemos pela vida de Cristo para pregamos as boas novas do Evangelho da graça, em qualquer canto. A missão acontece aqui e lá na Conchinchina.

A Trindade salva pecadores e os transforma em missionários. Todos aqueles que foram regenerados são os missionários comissionados para pregar o Evangelho da graça. Mendigos, nós temos uma missão e o nosso campo é o mundo. Se você é uma nova criatura em Cristo Jesus, você é um missionário do Evangelho, em qualquer lugar, e, neste caso, a sua omissão não terá remissão, então, mãos à obra na missão.

Do velho mendigo, GP.

O ESPÍRITO DA CRUZ .101 – E O PASSARINHO ?

Duas mulheres tricotavam a vida num banco de uma praça, onde estava sentado um sábio. Elas comentavam de tudo e criticavam tudo: – não gosto disto, aquilo é horrível, o calor… insuportável, a rua está esburacada, que passarinho mais desajeitado! – O senhor não acha? O sábio se vira e pergunta: – o que é desajeitado? – o passarinho, respondem.

O homem pondera: – gosto é particular. Uns gostam disto, outros daquilo. O que é horrível? A feiúra, além de pessoal, depende da cultura. O belo e o feio são universais. A beleza… esta muda; o que é bonito para os japoneses, pode não ser para os nórdicos. Calor é calor, mas quantos esquimós gostariam, algum dia, de uma temperatura como esta. A rua de fato está esburacada, por isso, os carros andam devagar e temos menos acidentes.

As duas ficaram olhando para o homem, espantadas com a sabedoria, mas não se contiveram: – e o passarinho? – Vocês o acharam desajeitado, não? – Um tanto esquisito, se o senhor achar melhor. – Não o acho nem desajeitado, nem esquisito, o vejo só como um passarinho original. Ele é lindo em sua singularidade. Nada vejo que o desqualifique.

As duas ficaram pensativas e uma indaga: – pelo jeito, o senhor é positivista? – Não, respondeu. Apenas quero viver. No mundo temos coisas boas e ruins, prefiro ficar com as boas e quando as ruins aparecem, porque aparecem, se posso, aproveito algo válido delas. Os buracos da rua não são bons em si, mas há algo que podemos usufruir. Meu neto, de 3 anos, não foi atropelado, nesta rua, por causa deles, no mês passado.

– Sim, isto é verdade, diz a outra mulher. Mas, e a esquisitice do passarinho? – Na minha visão, não há esquisitice no passarinho, esta, normalmente é nossa. A visão depende dos olhos. Se somos vesgos, vemos o mundo com a ótica da nossa vesguice.

– O senhor quer dizer que nós somos vesgas? – Não foi o meu objetivo. Só quis dizer que, se os nossos olhos forem claros, a nossa visão será nítida. Já li e concordo com o que Jesus disse: os olhos são como uma lâmpada que ilumina todo o corpo. Quando os olhos são bons, todo o corpo se enche de luz. Mas, quando os olhos são maus, o corpo se enche de escuridão. A visão das coisas depende da iluminação dos olhos.

– O senhor é um filósofo? – Não. Apenas quero viver, e vivemos de acordo com o que cremos. As aflições neste mundo podem durar, mas não são eternas. Embora a vida seja cheia de tribulações, ela será curta – mais alguns passos e estaremos abrigados da chuva. O importante, neste tempo, é ver o que glorifica a Deus e edifica os outros.

– O senhor é crente? Sim. Eu creio em Jesus e Ele vive em mim, por isso, vejo a vida com seus olhos. Deus está nos fatos da história de maneira tão verdadeira quanto está no andamento das estações do ano, nas revoluções dos planetas ou na arquitetura dos mundos. – E o passarinho? – Esse não cai, sem a Sua permissão…

Do mendigo, GP.