O ESPÍRITO DA CRUZ .100 – EVIDÊNCIA OU FÉ ?

Maria, a mãe de Jesus, é considerada pela igreja cristã como uma mulher de fé e a mais bem-aventurada de todas, por ter sido escolhida como um vaso, para trazer a este planeta caído o Salvador do mundo. Maria teve uma visão e creu na Palavra do mensageiro celestial, entregando-se ao cumprimento de uma profecia que apontava para a semente da mulher, Aquele que viria esmagar a cabeça da serpente, ainda que ferido no calcanhar.

Maria é cantada e decantada. Dela se fala, em prosa e verso, até mesmo que é a mãe de Deus, coisa que nunca foi, já que Deus não tem mãe. Ela é mãe de Jesus, o Filho do Homem, a plena encarnação divina, mas é uma mera criatura e jamais foi mãe do Criador.

O que me chama a atenção, nesta ênfase toda, é que pouco se ouve falar da fé de José, seu marido. Ele fica meio escondido atrás dela e quase passa despercebido. Porém, vejo neste homem uma fé tão significativa, que ouso dizer que ela não teve fé mais robusta.

Maria creu no anjo quando lhe disse: – você ficará grávida do Espírito Santo. E, quando ficou, não foi tão difícil saber, pois ela tinha certeza de que nunca tivera relação sexual com nenhum homem. Ela era virgem e jamais copulara, nem fizera qualquer tipo de inseminação artificial assistida, pois na época não havia essa possibilidade.

Agora, o caso de José foi diferente. O mensageiro celestial que falou com ele, fala em sonho, sem qualquer profecia a seu respeito e sem a possibilidade dele constatar o fato, por isso, a questão aqui é bem mais complicada. Nem todo sonho é revelação divina e não havia um meio pelo qual ele pudesse confirmar a veracidade destas informações.

Quando José viu o sinal de que Maria era gestante, sendo homem justo, resolve romper a união em segredo, pois não queria envergonhá-la com uma separação pública. Foi aí que teve este sonho que mudou sua decisão. José creu piamente naquele sonho.

A evidência da fé é ver quem fala. Aqui deduzimos que José era alguém que tinha uma intimidade real com Deus. Por esta narrativa, podemos perceber que ele já estava bem familiarizado com a linguagem do trono, porque não teve a menor dúvida em seu coração.

O anjo do senho diz que Maria, sua noiva, estava esperando um filho do Espírito Santo e que ele teria a missão de dar o nome de Jesus a esta criança, que seria seu filho. Só quem tem convicção da verdade ou quem é tonto de verdade pode crer numa coisa desta. José creu e nunca foi tonto, porque fé é isto mesmo, é crer em Deus, apesar das evidências.

Tiro aqui o chapéu pro José. “A fé que não vai mais longe do que a cabeça nunca pode trazer paz ao coração.” Maria crendo pôde constatar que sua gravidez foi um milagre; enquanto José constatou o milagre da sua fé, na gravidez de sua mulher. Maria creu, mas viu na experiência a realidade da sua crença, todavia, José nunca pode atestar o que creu. Mendigos, creiam como José, com fé simples no Deus que gera fé.

Do velho mendigo, GP.

O ESPÍRITO DA CRUZ .99 – A CULTURA NOTURNA

Os piores insanos são aqueles que são lúcidos de dia, mas confusos e hostis à noite. São normais no claro, todavia, basta o lusco-fusco para se portarem como demônios. Aliás, o escuro é o manto sagrado dos vampiros da reputação. É horroroso ver uma pessoa com cara de anjo iluminada pelo sol virar um capeta, quando as luzes se apagam.

A síndrome do cordeiro de dia e do lobo de noite, do médico e o monstro é mais comum do que se pensa. A questão mais específica aqui é o grau, contudo o fato é sério.

A sombra esconde as piores feras e os maiores ferinos. Satanás se reveste como anjo de luz, embora seja o deus da trevas. Finge ser holofote e o que se vê, é puro negrume. A luz da bomba atômica some pelos efeitos radioativos. Tenho pavor de luz explosiva.

Porém, poucas coisas são mais perversas do que cizânia. A Bíblia diz: Seis coisas o Senhor aborrece, e a sétima a sua alma abomina: Provérbios 6:16 e o que é? Aquele que semeia contendas entre os irmãos. Desavença é uma erva daninha que se cultiva à sombra.

Jesus disse que o joio foi plantado quando os trabalhadores que semearam o trigo dormiam. Isto nos faz ver que o inimigo prefere trabalhar à noite. A escuridão é a cortina tenebroso que o maligno usa para camuflar sua estratégia de degradação, por isso, suas fofocas mais rasteiras são costuradas, sutilmente, em lugares sombrios.

O diabo gosta do barulho, do som estridente pra poder perturbar a mente, mas prefere o sussurro, a fim de conturbar o coração. A tática: na concentração do pensamento, ele ataca com algazarra, na dispersão dos sentimentos, astúcia e linguagem velada.

O fuxico, a futrica, o diz-que-diz acontecem sempre sob as penumbras e com tal sutileza, que dificilmente a vítima percebe. Certa vez, Churchill entrou numa sala dos que tricotavam a seu respeito, mas não percebeu nada de mais quando chegou lá; o que lhe chamou a atenção foi apenas a bajulação que veio de imediato. Mais tarde ele soube que estava sendo frito em fogo brando. A fofoca corria solta, mas comedida e à louvação…

Por falar em chaleirismo, é bom lembrar que essa turma também faz parte dum coral suspeito da ópera negra, que afina no palco e desafina nos bastidores. Por isso, digo com a mesma 30precisão de George Chapman:

bajuladores se parecem com amigos assim como lobos se parecem com cães,” lembrando que lobos sempre preferem caçar à noite.

Lucidez de dia e loucura de noite são descritas como hipocrisia, dando-se mais aparência do que realidade. O discípulo que levou Jesus pro tribunal operava no turno da noite. Satanás entrou em Judas depois que comeu o pão molhado. Este pão embebido fala do ser humano vivaldino. Ele, tendo recebido o bocado, saiu logo. E era noite. João 13:30.

Mendigos, prestem atenção no jeito jeitoso dos lisonjeadores. E, se receberem alguns elogios, recebam com reserva, mas, incensamento, jamais!

Do velho mendigo, GP.

O ESPÍRITO DA CRUZ .98 – A GESTAÇÃO DE CRISTO

A tensão pelo parto da filha, a chegada de uma netinha, a hora de espera no hall do hospital e eu pensando como era a formação de Cristo no homem interior. A filha de 40 semanas de gravidez caminhava para o centro cirúrgico, onde o médico faria a sua cesária. Mas, estava eu ali no quarto, querendo saber como era a gestação de Cristo em nós…

Fui à carta aos Gálatas 4:19 e vi o apóstolo dizer: meus filhos, por quem, de novo, sofro as dores de parto, até ser Cristo formado em vós. A formação de Cristo em nós é dolorida. Há sofrimento, contrações e contraturas no processo. Como disse J. Blanchard,

não existe cristianismo fácil. Se é fácil, não é cristianismo; se é cristianismo, não é fácil.”

O parto dói e a formação de Cristo não é gestação de 40 semanas, mas da vida toda. A gravidez de um bebê tem limite, a de Cristo em nós, é permanente. A minha filha deu a luz a netinha, Vitória. Mas, a vitória plena da vida cristã é no fim das eras. Vivo em dores de parto para que Cristo seja formado em mim. Mas onde está a minha gravidez?

Alguém perguntou em tom de curiosidade. Pariu? Quem? Quando? Onde? – A minha filha pariu, sim, mas eu continuo grávido das dores em busca da formação de Cristo. Porém olho minha silhueta e não vejo evolução alguma. Se estou prenhe, não há sintoma… Quando Cristo vai ser formado em mim? Olho para outros, que se dizem gestados de Cristo e não vejo nenhum sinal desta gestação. Onde está o Cristo na igreja contemporânea?

Sei que Ele está nela. Sei que Cristo vive em mim. Mas o que está acontecendo? Meu amigo, o pecador, Wilson Chini, escreveu: “A vida cristã resumiu–se a declarações doutrinárias, credos, confissões, debates teológicos, reproduções de textos e frases de outrem, réplicas de modelos de reunião, discussões intermináveis, acusações e condenação dos pecados dos outros, não dos nossos, e até piadas com os dons do Espírito Santo”.

Vejo que uns só estão pejados de doutrina, enquanto outros só dançam e pulam na sala de reunião. Uns são teólogos, outros meros participantes de show. E eu continuo perguntando, onde está a vida de Cristo em nós? Não estou falando de moralidade; a minha pergunta é: cadê as dores de parto? Onde está Cristo, sendo formado em nós?

Vejo a igreja ocupadíssima em ativismo, mas sem quase nenhuma atividade que prove que Cristo vive em nós. Vocês têm visto algum indício de solitude? Quantos são os que leem, estudam e meditam na Palavra de Deus? São muitos ou poucos? E as reuniões de oração, como são frequentadas? Alguém tem visto Cristo andando entre nós?

Mendigos volto a Chini: “Amar a Deus e ao próximo, oferecer a outra face, amar os inimigos, perdoar 70 x 7, abrir mão dos bens materiais, virou acusação na boca daqueles que julgam a cristandade, pois é uma prática rara, de fato. Os textos preferidos são os da Antiga Aliança e não os da Nova. Mais próximos de Moisés do que de Jesus”. É isto?

GP.

O ESPÍRITO DA CRUZ .97 – O CREDO E A CRENÇA

Há muitos cristãos que têm uma boa experiência com Cristo, mas não têm sinal de boa doutrina. São crentes, sim, embora lhes falte um conhecimento legítimo da fé cristã. Outros têm um farto conhecimento da boa doutrina, mas não mostram nada da vida com o Senhor. Há forte saber teológico e nenhuma intimidade com Ele. Falam bem da credo, mas não demonstram, no viver diário, a crença no Senhor. O credo é correto, a crença é falsa.

Há, todavia, aqueles que, além de conhecer pessoalmente o Senhor, conhecem a sã doutrina de modo salutar e saudável. São pessoas que têm experiência com Cristo e com conhecimento das doutrinas de Cristo. Falam de Cristo e falam com perfeita adequação.

A igreja hoje carece muito de crentes com uma boa crença e um bom credo. Não basta dizer que crê, é preciso demonstrar com coerência as bases da sua piedade.

O apóstolo Pedro disse aos que estão sendo cobrados de bom testemunho: antes, santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração, estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós, 1 Pedro 3:15.

Crer e responder. Fé sincera e resposta sadia. Há razões que a razão desconhece, todavia não há razão pra não se responder com razoabilidade àqueles que nos pedirem a razão da nossa esperança. Precisamos ser coerentes com o que cremos e claros em expor aquilo que cremos, mas sabendo que nem sempre a nossa exposição explicará a nossa fé.

Prefiro aquele que crê na suficiência de Cristo, ainda que não saiba explicar de modo, suficientemente claro a sua fé, do que aquele que sabe explicar a doutrina, com toda a maestria, e, mesmo assim, ninguém fica convencido de sua crença. Ouvi alguém dizer de um pregador convincente: “sua pregação é certinha, porém a sua vida é tortinha” e riu.

Riu de que? É triste. Veja a diferença entre um religioso e Jesus. O fariseu: Fazei e guardai, pois, tudo quanto eles vos disserem, porém não os imiteis nas suas obras; porque dizem e não fazem. Mateus 23:3. Veja agora de Jesus:

Escrevi o primeiro livro, ó Teófilo, relatando todas as coisas que Jesus começou a fazer e a ensinar. Atos 1:1.

O religioso ensina certo, mas vive torto. Jesus vive o que ensina. O primeiro só prega correto, mas não vive o que prega. O segundo vive segundo o que prega; não há um pingo de incoerência em sua mensagem. Jesus encarna a pregação que prega.

Thomas Arthur disse e disse muito bem, que “quem salva a alma não é o homem que traz a Palavra, mas a Palavra que ele traz”, todavia, se o homem que traz a Palavra não a encarna, ela não terá muito sentido na edificação daqueles que foram salvos. Assim, não basta pregar a Palavra corretamente, é preciso vivê-la no interior, inteiramente.

Mendigos, não é suficiente ter o credo correto, é preciso viver a sua crença. Viva você o que crê e a sua crença dará respaldo ao seu credo.

Do velho mendigo GP.