O ESPÍRITO DA CRUZ. 75 – SALVAR DE QUEM?

– O que é a salvação? Indagou-me a jovem. – Você fala em salvação… de que eu preciso ser salva? Gostaria de saber o que isto quer dizer… de verdade…

Enquanto ela falava, eu buscava uma forma de explicar e me veio uma ideia de comparar a salvação com um estado de dependência. Imagine a criação do ser humano! Ele foi criado para viver em dependência com Deus, onde a criatura e o Criador viveriam em uma íntima relação, em que a criatura dependeria, sempre, em tudo, do Criador.

O pecado foi a quebra deste estado. A criatura foi tomada por um rompante de independência e rompeu com a relação, para viver por conta própria. Só que, a partir deste rompimento, a sua vida passou a perder energia. A vida vai se desgastando, pois a criatura tem que providenciar todas as formas de suprimento e o cansaço lhe consome.

Imaginemos a questão em termos de falência econômica. Vamos pensar em um sujeito pobre que vive totalmente na dependência de um rico. Tudo o que precisa vem das mãos do milionário. Mas, aquele paupérrimo acha que isto é muito humilhante e sai da chancela do ricaço e monta o seu próprio negócio. As coisas agora vão de vento em poupa e o sujeito fica rico. Ele se sente muito forte e capaz e se orgulha de viver da sua capacidade. Bate no peito e fala mal do capitalista que antes lhe dava tudo em troca de nada. Aquele magnata não queria coisa alguma do pobre, apenas buscava se relacionar com ele por pura amizade. Ele gostava do sujeito sem qualquer interesse.

O problema é que no mundo dos negócios há muita concorrência e o novel empresário faliu de verdade. Foi à bancarrota, perdeu tudo. Neste estágio lamentável de penúria, o antigo amigo se aproxima do mendigo e se propõe ser, de novo, o provedor de sempre. Ele oferece ao falido o suporte permanente, para que o pobre viva da suficiência do seus recursos. Mas, a parceria é de total dependência em consequência de uma plena e pura comunhão pessoal. É isto: o rico só quer relacionamento e companheirismo.

O indigente não precisa conquistar o reconhecimento do banqueiro e nem se preocupar em merecer a sua atenção, uma vez que esse cara é aceito e amado, não por suas qualidades pessoais, mas pelo caráter e coração do granfino. A única condição para tal amizade é a dependência total do carente. Ele tem que se limitar à inteira convivência com o argentário e depender integralmente dele. Precisa ser salvo de si mesmo.

Agora, o falido tem duas opções: sentir-se humilhado e negar a possibilidade de restauração ou humilhar-se e viver na dependência do dono do mundo. A salvação é o meio de fazer o falido ser liberto da sua falência através de um relacionamento pessoal e permanente como o Todo-poderoso. Não se trata do desempenho do necessitado, mas da suficiência do Salvador. A questão vital é da comunhão pessoal com o Magnânimo. E aí?

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