O ESPÍRITO DA CRUZ. 76 – A INVEJA

A inveja é um sentimento da alma caída que perdeu o senso comum. A pessoa vê o que o outro tem e não vê o que ela mesma tem e deseja aquilo que é do outro. O invejoso é um cego de sua individualidade e vidente inflamado da realidade alheia.

No latim, invídia é a sensação de inveja: um “olhar” associado ao olho maligno do invídere, aquele que “olha contra, olha de maneira hostil”. Invídia ou Inveja é um dos 7 pecados capitais na crença cristã, que detona os relacionamentos saudáveis. O invejoso não se enxerga adequado e ambiciona a adequação do outro a qualquer custo.

A zelotipia ou a idéia fixa, o interesse exacerbado, até o limite da insanidade, ao defender uma causa é uma monomania “religiosa” do invejoso contumaz. Caim matou o seu irmão Abel por pura inveja. Ele não podia aceitar que Abel fosse aceito por Deus, por meio da graça plena, uma vez que sua concepção admitia o mérito como moeda de troca para a sua aceitação. A inveja carcome a alma e corrói os relacionamentos.

Muitos dos embates ideológicos surgem da lama que o invejoso atira naquele que se destaca. Para Niceto Alcalá-Zamora, o 1º presidente da 2ª República Espanhola, “os ataques da inveja são os únicos em que o agressor, se pudesse, preferia fazer o papel da vítima”, pois o agressor sofre em extremo por não ser o que a vítima é.

Ramon Cajal disse que “a inveja é tão vil e vergonhosa, que ninguém se atreve em confessa-la.” A sutileza do invejoso muitas vezes vem travestida de lisonjas e babada à bajulação. Esconde-se na admiração aparente e solapa por detrás dos panos, por isso, é muito difícil descobrir um invejoso astuto e profissional, na cena do crime.

Em uma de suas peças, Molière disse muito bem: “a virtude neste mundo é sempre maltratada; os invejosos morrerão, mas a inveja é poupada”. Muitas vezes vem disfarçada em aplausos, no entanto, sua tática visa, nas entrelinhas, demolir o aplaudido. Antes de sua fúria cruel, Salieri fez isso com Mozart: elogiou-o no palco, mas em seguida o explodia nos bastidores. Na frente, admirava, nas costas, apunhalava.

A jornalista brasileira, cronista, contista e roteirista de cinema, Tati Bernardi foi na mosca: “as redes sociais profissionalizaram a imbecilidade. Fofoqueiros e invejosos se acham doutores e a maledicência ganhou ares de debates profundos”. Por trás da tela se tece uma rede de intrigas por puro sentimento de inveja. Quão lamentável é essa toca vil!

Mendigos, vejam o que disse o puritano do séc XVII Thomas Brooks: “a inveja tortura as afeições, incomoda a mente, inflama o sangue, corrompe o coração, devasta o espírito; e assim se torna, ao mesmo tempo, torturadora e carrasco do homem.” Sendo, assim, só há uma receita para este mal: a morte do invejoso na cruz, com Cristo. Não estou falando de doutrina da cruz… mas de nossa morte.

Do velho mendigo, GP.

O ESPÍRITO DA CRUZ. 75 – SALVAR DE QUEM?

– O que é a salvação? Indagou-me a jovem. – Você fala em salvação… de que eu preciso ser salva? Gostaria de saber o que isto quer dizer… de verdade…

Enquanto ela falava, eu buscava uma forma de explicar e me veio uma ideia de comparar a salvação com um estado de dependência. Imagine a criação do ser humano! Ele foi criado para viver em dependência com Deus, onde a criatura e o Criador viveriam em uma íntima relação, em que a criatura dependeria, sempre, em tudo, do Criador.

O pecado foi a quebra deste estado. A criatura foi tomada por um rompante de independência e rompeu com a relação, para viver por conta própria. Só que, a partir deste rompimento, a sua vida passou a perder energia. A vida vai se desgastando, pois a criatura tem que providenciar todas as formas de suprimento e o cansaço lhe consome.

Imaginemos a questão em termos de falência econômica. Vamos pensar em um sujeito pobre que vive totalmente na dependência de um rico. Tudo o que precisa vem das mãos do milionário. Mas, aquele paupérrimo acha que isto é muito humilhante e sai da chancela do ricaço e monta o seu próprio negócio. As coisas agora vão de vento em poupa e o sujeito fica rico. Ele se sente muito forte e capaz e se orgulha de viver da sua capacidade. Bate no peito e fala mal do capitalista que antes lhe dava tudo em troca de nada. Aquele magnata não queria coisa alguma do pobre, apenas buscava se relacionar com ele por pura amizade. Ele gostava do sujeito sem qualquer interesse.

O problema é que no mundo dos negócios há muita concorrência e o novel empresário faliu de verdade. Foi à bancarrota, perdeu tudo. Neste estágio lamentável de penúria, o antigo amigo se aproxima do mendigo e se propõe ser, de novo, o provedor de sempre. Ele oferece ao falido o suporte permanente, para que o pobre viva da suficiência do seus recursos. Mas, a parceria é de total dependência em consequência de uma plena e pura comunhão pessoal. É isto: o rico só quer relacionamento e companheirismo.

O indigente não precisa conquistar o reconhecimento do banqueiro e nem se preocupar em merecer a sua atenção, uma vez que esse cara é aceito e amado, não por suas qualidades pessoais, mas pelo caráter e coração do granfino. A única condição para tal amizade é a dependência total do carente. Ele tem que se limitar à inteira convivência com o argentário e depender integralmente dele. Precisa ser salvo de si mesmo.

Agora, o falido tem duas opções: sentir-se humilhado e negar a possibilidade de restauração ou humilhar-se e viver na dependência do dono do mundo. A salvação é o meio de fazer o falido ser liberto da sua falência através de um relacionamento pessoal e permanente como o Todo-poderoso. Não se trata do desempenho do necessitado, mas da suficiência do Salvador. A questão vital é da comunhão pessoal com o Magnânimo. E aí?