O ESPÍRITO DA CRUZ. 71 – UM CORAÇÃO AOS CACOS

O arrependimento não é remorso. “O verdadeiro arrependimento consiste em ficar o coração quebrantado por causa do pecado e de romper com o pecado,” afirmou muito bem William Nevins. Não confunda a tristeza, em lágrimas, com a dor do coração.

O remorso é uma tristeza do sujeito que foi flagrado com a boca na botija, mas o arrependimento é a tristeza daquele, que, mesmo ninguém sabendo do seu deslize, se percebe como tendo ofendido a santidade de Deus. No remorso, muitas vezes, existe só e apenas um show de lágrimas, mas no choro do arrependimento há quebrantamento.

Já cai várias vezes no pranto do conto do vigário. Eu mesmo já chorei porque o meu erro foi descoberto. Havia chororô, todavia não se via pungimento. Deus olha para o coração compungido e contrito e não simplesmente para os olhos marejados. As lágrimas de Esaú não revelaram o seu arrependimento. Eram lágrimas de tristeza sentimental.

Victor Alfsen disse:

“Deus pode fazer maravilhas com um coração quebrantado, se você lhe entregar todos os pedaços.” Mas como entrega-los?

Na verdade, a tristeza espiritual é um dom da graça de Deus. Só a mão do Pai pode nos tocar, de tal maneira, que torne o nosso coração sensível diante da visão e da convicção do pecado. Se o Pai não nos levar ao constrangimento e nojo pelo pecado, não haverá quebrantamento, e, consequentemente, não haverá a entrega dos cacos a Ele.

No reino de Deus, um coração quebrantado e entregue a Ele é o único coração inteiro e sadio. Não há saúde espiritual sem quebrantamento da alma.

Foi John Henry Jowett quem disse: –

“o evangelho de um coração quebrantado começa com o ministério de corações que sangram. Quando nós paramos de sangrar, já paramos de abençoar.” Jesus disse ao médico ferido, que queria ser curado, na peça que leva esse nome: – se você for curado, quem compadecerá dos doentes que lhe procuram?

Jesus é denominado como “o homem de dores”. Sem dores a fé cristã é dura e insensível. Foi o Dr. Martyn Lloyd-Jones quem disse:

“Se realmente conhecemos a Cristo, como nosso Salvador, os nossos corações estarão quebrantados, não podem ser duros, e não podemos negar a compaixão e o perdão.”

Muitos de nós pensamos que já estamos quebrantados, mas estamos apenas em um estado de aviltamento. O quebrantamento é mais do que servilismo, ele nos tira do tribunal do júri, em defesa de algum direito camuflado, e no coloca na senzala do reino de Deus, como escravos a serviço da glória do Rei dos reis, sem qualquer direito.

Mendigos, vivemos hoje o cristianismo da prosperidade e das reivindicações de “Servos” imponentes. Mas, o que falta, de fato, são corações quebrantados que vivam só e tão-somente para a glória do Senhor.

Do velho mendigo do vale estreito,

GP.