espírito da cruz 54 – teste de caráter

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Alguém me disse: – ladrão não é apenas quem rouba o carro, mas quem furta o parafuso. Desonesto não é só o político que desvia as verbas públicas, mas ainda, aquele que pública, nos seus escritos, o pensamento alheio, como se fosse seu.

Ian Barclay disse sobre isso: – “Uma das características da rebelião espiritual é trilhar caminhos escusos.” O ser caído é um ser corrupto por natureza. Se não vemos sua real identidade, é porque esse ser caído vive como um ser caiado. A aparência fascina…

Tive um professor na universidade, que veio a ser ilustre membro da Academia Brasileira de Letras. Um dia encontrei uma colega, brilhante estudante, que havia feito um trabalho curricular extraordinário para a cadeira daquele professor, e ela me contou que o dito cujo havia colocado o seu trabalho em um dos seus livros como se fosse dele.

Para William S. Plumer – “Nenhuma iniquidade da terra é mais comum do que o engano em suas várias formas.” Nós somos uma fraude do pecado. O ser humano falseia nas mínimas coisas, por isso, a Bíblia é enfática:  maldito é o homem que confia em si.

A honestidade não está vinculada à quantidade, mas ao caráter.

Se eu apanho pouco ou muito, sem o consentimento do dono, eu sou desonesto. Quando deixo de dar o troco de dez centavos ou sonego o imposto de milhares, usando truque e trambique, com recibos mentirosos, sou tão corrupto como os quadrilheiros do petrolão ou mensalão.

Jesus disse: Quem é fiel no pouco também é fiel no muito; e quem é injusto no pouco também é injusto no muito. Lucas 16:10. Um jovem estava sendo treinado para vir à presidência da empresa. Um dia, quando servia sua bandeja no refeitório da firma, teve a ideia de esconder um tablete de manteiga debaixo da folha de alface, de tal modo, que não fosse percebida pela pessoa do caixa. Aparentemente nada deu errado.

No outro dia ele foi chamado ao gabinete do presidente, que atenciosamente o comunicou da sua pretenção de torná-lo presidente da empresa. Os olhos daquele moço brilharam e ele ficou entusiamadíssimo com a possibilidade. Então, o presidente concluiu: infelizmente, ontem, quando você preparava a sua bandeja, no refeitório, você colocou o tablete de manteiga debaixo da folha de alface, mas eu estava logo atrás e vi tudo e vi o seu caráter, pois quem não é fiel no pouco, não é fiel no muito.

A história do jovem que escorregou no tablete de manteiga, não é tão incomum assim. A diferença é que, em muitos casos, não somos surpreendidos. A desonestidade é  adâmica e endêmica, mas, nem sempre é percebida.

Mendigos, o espírito da cruz tem a ver com a nossa verdadeira identidade. Não é o que pensam de mim e nem o que tento demonstrar, mas apenas o que sou mediante a obra de Cristo, isto é, não eu, mas Cristo.

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.

espírito da cruz 53 – o buraco negro

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Li um pensamento que pode ser assim resumido: – procuramos significado para as nossas vidas nas coisas temporais, mas acabamos descobrindo que elas são inúteis e incapazes de trazer satisfação para o nosso vazio existencial. Há um vácuo no íntimo dos seres humanos, que grita por uma resposta além das paredes da terceira dimensão.

Como disse Blaise Pascal, filósofo francês, – nós temos um buraco do tamanho de Deus, em nossos corações, que não será preenchido com coisa alguma além de Deus. É por isso que há uma insatisfação profunda naquele que não recebeu a Cristo como a sua única revelação de Deus, capaz de satisfazer a sua fome de significado.

Nós vamos ficar sempre descontentes se procurarmos nos contentar com tudo aquilo que for apenas temporal. A nossa carência é de cunho eterno. O pão pode saciar a fome física, mas só o Pão espiritual pode compensar o vazio da alma. A vida biológica, se bem nutrida, pode sentir-se bem, mas a vida emocional, se não for bem mitigada, acabará numa angustia crônica de proporções alarmantes. Só Cristo pode matar a fome da alma.

Conheci um jovem que queria muito ser rico. Achava que se ficasse rico, seria a pessoa mais feliz do mundo. Era um jovem trabalhador e experto e acabou ficando rico, muito rico, mas nunca o vi feliz. Hoje, está sempre reclamando de tudo. – Lembro-me que queria ter um carro de rico e quando o encontrei com um carrão desses, ele estava ali se lamentando que o carro não preenchia as suas expectativas.

Anos depois encontrei-o com outro carro bem superior e eu o perguntei: – que tal? Agora você está feliz com esse carraço? – Não, foi a sua resposta seca. O que quero agora é uma Ferrari, enquanto eu não tiver uma, não ficarei contente. Foi aí que lhe disse: você nunca será feliz com nada desse mundo, pois a sua carência é bem maior e nenhum bem terreno poderá compensar o vazio de sua alma insaciável com o que é terreno.

A Bíblia afirma que Deus pôs a eternidade no coração do ser humano, logo, só o que é eterno pode preencher o sentido da vida. Tentar compensar o vazio de Deus com aquilo que é apenas terreno, é angustiante. Nada que não seja eterno pode satisfazer, de fato, a existência humana, pois, “O homem, em sua natureza decaída, é um insatisfeito e frustrado perseguidor de arco-íris.”

Se Jesus não lhe bastar, nada lhe bastará.

A grande necessidade do meu coração é a suficiência do coração de Cristo. O coração do ser humano não poder ser satisfeito sem a plenitude do coração de Deus. “O golpe fatal para o progresso é a auto-satisfação.” Se eu não for satisfeito por aquilo que é eterno, serei um eterno insatisfeito, com tudo aquilo que é temporal.

Mendigos, onde estão fazendo os seus investimentos? – A pessoa satisfeita em Cristo é a única satisfeita no mundo.

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.

espírito da cruz 52 – livres pra crer?

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Adão e Eva foram os únicos seres humanos, antes do pecado, que tiveram seu livre arbítrio. Tinham opção para crer ou rebelar-se contra Deus. Podiam escolher entre a árvore da Vida e a da ciência do bem e do mal. Foram criados com a capacidade de crer e também de não crer na palavra de Deus. Só assim eles seriam livres para decidir.

Porém, com o pecado, eles se tornaram mortos, espiritualmente, e escravos da incredulidade radical, sem nenhuma possibilidade de querer a Deus. Daí em diante toda a raça humana tornou-se depravada pelo pecado e incapaz de crer em Deus.

Alguém já disse: “Se um homem caído pudesse desejar, ele mesmo, ser salvo, com a mesma facilidade poderia mudar de idéia e desejar perder a salvação.” Se a nossa vontade, corrompida pelo pecado, fosse a base de nossa decisão salvadora, com certeza ela poderia mudar de idéia no meio do caminho e nós desistiríamos da decisão anterior.

Segundo João Calvino: – “o querer é humano; querer o que é mau é próprio da  natureza decaída, mas querer o que é bom é próprio da graça.” O ser humano caído, até pode escolher entre os ramos do bem e do mal, da árvores do conhecimento, mas nunca escolherá a Árvore da Vida, se antes não for convencido pelo Espírito Santo.

A fé não é um atributo da espécie caída. O que governa a raça adâmica são as realidades sensoriais e a fé não faz parte deste mundo tridimensional das sensações. Ela é o olho que vê o mundo invisível, como bem disse o escritor da carta aos Hebreus:

a fé é o alicerce firme do que se espera e a convicção permanente do que não se vê.

O ser humano no pecado é um incrédulo por natureza. Sendo assim, ele jamais poderá crer, se antes não for vivificado pela Palavra. É preciso ter vida espiritual, para que ele possa reagir de modo espiritual. A fé é concedida pela graça aos crentes em Jesus.

Gosto de pensar nessa semelhança apresentada por C. S. Lewis: o sol nos dá a luz para vermos o sol, assim como Jesus, o Verbo Divino, nos dá a fé para cremos nEle.  Sem a luz não temos a nossa visibilidade e sem o Logos de Deus não temos a nossa fé. Se Jesus disse a alguns crentes: “a tua fé de salvou” é porque eles receberam a sua fé ao “olharem” para o Autor e Consumador da fé. E, se olharam, é porque a graça os fez olhar.

A fonte da fé é Jesus; o veículo da fé é o Logos de Deus; a autoridade da fé a revelação de Deus; a sustentação da fé é o Espírito de Deus; a garantia da fé é a graça de Deus; a validade da fé é a eternidade de Deus e o propósito da fé – os filhos de Deus.

Mendigos, a fé são os olhos que veem a Cristo com os óculos de Cristo e, por isso, suas asas voam até Ele mesmo. Nunca haverá fé sem a revelação de Cristo e não há revelação dEle sem a ação da Palavra e do Espírito Santo. Jesus é o único autor da fé e sem Ele ninguém poderá crer nEle. É isso.

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.

espírito da cruz 51 – o fim do inveja

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Invidere, no latim, é não ver. A inveja é a cegueira da alma para si mesma, mas vê no outro o que lhe falta em sua biografia. O invejoso é o cego que se percebe invejado e nunca se vê invejando. Ele não se enxerga com olhos malignos, embora, o seu olhar de rabo de olho só consiga notar, no seu invejado, o que lhe desperta a cobiça.  

Os olhos do invejoso – o seca pimenteira – só veem, no êxito do invejado, a sua própria falência e incapacidade de se projetar, refletida no sucesso que ele gostaria de ter. O seu foco, no outro, decorre da sua incapacidade de se perceber inadequado.

O invejoso não se enxerga, contudo enxergue, com os olhos vermelhos, o êxito e as virtudes alheias que ele gostaria de ter e não tem. Ele não se vê, mas vê com nitidez e raiva aquilo que o outro tem de melhor, que lhe falta e se consome ao consumir alguém.

Um olho gordo vê o progresso alheio como uma testemunha do seu fracasso e, aí, tenta denegrir o êxito do outro com a baba ácida de suas críticas. Invejosos de plantão são vermes venenosos e corrosivos de todos que estão num patamar mais vantajoso.

Ninguém inveja desconhecidos e distantes. O seu alvo sempre vem envolto em alguma admiração de quem mora perto. A dor de cotovelo se instala contra aquele vizinho que prospera, sobressai e é bem visto. Inveja de fracasso, falência, doença – nem pensar! Nunca vi falar de alguém invejando uma pessoa feia.

Não há inveja de mendigo e falido.

A inveja é um sentimento mesquinho e perversão que enferruja a alma e corrói a vida de todo aquele que se compara aos outros e se percebe deficitário em algum item, que gostaria de possuir. “Espelho, espelho meu! Há alguém mais bonito do que eu”? Todo invejoso só inveja quem lhe sobressai. É a virtude do outro que o faz arder no seu vício.

Caim invejou Abel porque este foi aceito com sua oferta. Os irmãos de José se inflamaram de inveja por verem o moço se distinguir dos demais. O rei Saul tinha surtos psicóticos só em pensar no cântico das donzelas: – “Saul feriu aos milhares, porém, Davi, aos dez milhares“. – Como pode um fedelho, como esse, ser mais do que eu?

Como já vimos, a inveja é um sentimento medíocre advindo da comparação, da proximidade, da admiração e da falência. Quando eu me comparo com alguém próximo, e vejo nele algo que admiro, mas não percebo em mim, me torno esbraseado por dentro e ferino por fora, nesse quesito, pondo-me a destronar aquele que me ultrapassa.

Os pares de Daniel, quando viram a excelência de ancião, não tiveram dúvida: – chegou a hora de engendrar um plano para levá-lo à cova dos leões. A inveja sempre se pauta em extinguir aqueles que são alvos da sua gana. Talvez, o provérbio português nos dê algum sentido: “o invejoso nunca medrou (prosperou), nem quem perto dele morou”. É por aí mendiguinhos… só a cruz no invejoso!

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.