espírito da cruz 47 – não há nada em mim

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A porta da vida cristã é Cristo, e este, crucificado. Ninguém será um convertido sem antes passar por essa porta: Cristo morreu para eu morrer com Ele. Para gozar desta Vida espiritual, preciso passar pela morte do meu eu. Não mais eu, mas Cristo.

Não estou falando da morte do física, mas a morte do egoísmo. Não se trata, e não se deve pensar que a morte do ego, com Cristo, seja uma anulação da personalidade ou o sumiço do ser pessoal. Nada disso. Trata-se da substituição de uma vida autoritária, autoconfiante e autocentrada, pela vida liberta de si e centrada em Deus. Só pela graça.

O cristão não é alguém tentando viver a Vida de Cristo, antes, é próprio Cristo vivendo nele. É a vida da ressurreição depois de termos morrido na cruz com Cristo. Essa porta é a vida psique crucificada com Cristo, que se abre no caminho a ser trilhado, a Vida santa de Cristo ressuscitado, se expressando no seu modo de ser e de agir.

Ser cristão não é ser apenas um imitador de Cristo, mas ser como réplica dele, ou seja, viver pelo modo de ser do próprio Cristo, que vive nele. Não é fazer tão-somente o que Ele fez, mas, é Ele fazendo, em nós, somente o que ele faz. Não sou eu, é Cristo.

O ser humano, no pecado, está morto em seu espírito, porém, vive movido pela  sua vida bios e psique. Ele encontra-se radicalmente contaminado pelo pecado. Não há o menor indício de vida espiritual e nada que o habilite a receber a nova vida.

O morto, espiritualmente, não tem qualquer reação espiritual para corresponder a uma ação espiritual. Ele só está vivo biológica e psicologicamente. Não há nada de vida espiritual nele, assim, como, em Lázaro, na sepultura, não havia vida física para que ele pudesse corresponder ao chamado de Jesus. Lázaro foi ressurrecto pelo poder de Jesus.

A salvação do pecador, morto, em delitos e pecados, é uma ação espiritual de Deus em favor dele, que não tem nada espiritual que possa corresponder. Se ele estiver, de fato, morto, espiritualmente, então, ele precisará ser vivificado antes de poder reagir de modo espiritual. Neste caso ele precisa ser ressuscitado, espiritualmente, para reagir com as faculdades espirituais.

Creio que fé e arrependimento são atributos espirituais.

Alguns dizem que a graça é de Deus, mas a fé é nossa. Ora, se a fé for nossa, isto é, do pecador caído, então, temos uma fé contaminada, pelo pecado, servindo de liga à salvação pela graça, e, assim, temos uma fé poluída sendo o elo de um favor imerecido, que faz a graça deixar de ser graça, já que, a fé humana se torna uma moeda de troca.

O cristão é um milagre da graça. Ele foi vivificado e convencido pelo Espírito de Deus através da Palavra, para poder reagir espiritualmente. Mendigos, se a fé salvadora e o arrependimento de nós mesmos fizerem parte de nossa natureza caída, então, a nossa salvação estará perigo permanente. Pense nisso.

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.

espírito da cruz 46 – o mais doce pecado

Criticas

Há uma turma grande especialista em detalhes. Essa galera deleita-se em tudo o que é diferente de sua concepção ou da sua cultura estratificada, para criticar. Os erros e os defeitos alheios são matéria prima para a indústria da malícia e da maledicência.

O criticismo é filho da idealização. Só quem é fake imagina a perfeição estética, mas, neste caso, muitas vezes, descarta a perfeição ética. O que vale é a aparência, a lã sem bolinhas, a etiqueta, a maquiagem e o glamour. Este é o mundão da fantasia, da cara pintada, da imaginação e das novelas. Essa gente é dura com as deficiências e deficiente com a misericórdia. Critica o defeito alheio, embora escancare seu déficit de amor.

É muito mais fácil julgar, do que ser transparente. Macaco nunca olha pro rabo, bem como, a turma articulada que condena os outros, com suas críticas cruéis, enquanto joga com arte, pra baixo do tapete, os seus defeitos escondidos nas sutilezas.

Contudo, o apóstolo à gentalha foi bem lá no alvo: Portanto, és indesculpável, ó homem, quando julgas, quem quer que sejas; porque, no que julgas a outro, a ti mesmo te condenas; pois praticas as próprias coisas que condenas. Romanos 2:1. Viu só!

O sujeito que parece muito preocupado em criticar os outros, normalmente está mais ativo em ocultar as suas falhas, enquanto gera uma áurea para se auto promover.

Na opinião abalizada de Thomas Manton:

“A censura é um pecado agradável, todavia, extremamente complacente com nossa natureza.”

É ridículo coar mosquitos e ao mesmo tempo engolir camelos; ver o argueiro no olho alheio, enquanto tem uma lasca no seu. É triste conviver com inspetor de controle de qualidade, sempre vendo falhas.

Todos nós temos cicatrizes, mas há um grande grupo que procura disfarça-las. Fala-se dos outros, para despistar-los de nossas feridas. Mas, é exatamente aqui que nós todos precisamos do espírito da cruz. Ninguém fica de fora. Todos necessitamos, tanto de misericórdia para perceber os defeitos alheios, como para revelar a nossa falência.

Alimentar-se da desgraça do próximo, nunca poderia ser algo patrocinado pelo bom banquete da graça, tampouco deixar de ser gracioso com os trôpegos e claudicantes da jornada áspera deste mundo de terremotos e vulcões.

Mendigos, não esqueçam a história das pessoas. Quando estiverem sentados, na cadeira, como terapeutas, não olvidem a cultura do examinado, nem a sua família, sua infância, seus traumas, com os seus trancos e barrancos, pois tudo isso é, exatamente, o histórico que define a história da pessoa. Não podemos desconsiderar a trágica trajetória.

Jamais devemos ser omissos em analisar as falhas de quem for, se o objetivo for o amor. Porém se a nossa avaliação não estiver encharcada de amor, nós precisamos com urgência sair do consultório.

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.