espírito da cruz 38 – segredo da felicidade

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Indagaram-me: o que você quer dizer com espírito da cruz? O que está por trás dessa série de artigos? Nada mais e nada menos do que o caráter de Jesus, ou melhor, o princípio de interação da Trindade. Espírito tem a ver com a realidade além da matéria e a cruz, com a morte do egoísmo. Se o eu não for crucificado, certamente será exaltado.

O segredo da felicidade é a renúncia de si mesmo. Mas como posso renunciar-me? Como o ego pode abrir mão de si? Se eu me abdicar, por mim mesmo, acabo por me entronizar num pedestal de vanglória. Veja: ego que se esvazia, sempre se enche da sua própria soberba de ter-se esvaziado a si mesmo, por suas próprias forças.

Nunca vi alguém que pregue sua humildade, que não se exalte nas entrelinhas de ter alcançado, em seu portfólio, a postura humilde. O ego que se humilha é propenso a orgulhar-se do seu desempenho. Por isso, a humildade tem que ser uma qualidade, tão invisível, para quem a demonstra, que lhe seja impossível de percebê-la.

Abnegação à sudorese é paixão violenta de alma altiva. Generosidade com os holofotes ateados é uma peça bizarra. Desprendimento noticiado é a apelação do sujeito oculto na oração, que quer ser o predicado do objeto de atenção. É um absurdo o defunto relatar o seus feitos. Quem morreu, silencia-se! Alguém já ouviu a defesa de um finado?

O espírito da cruz tem tudo a ver com a morte do ego fora de qualquer esforço do ego. Não é uma auto-aniquilação, mas uma aniquilação do alto. Não se trata de uma egoplastia de si mesmo, por si mesmo, mas, uma extirpação do eu pela obra da cruz.

Nada em favor de nossa salvação pode ser feito por nós, uma vez que tudo foi feito em Cristo e por Cristo.

O próprio ato de fé pelo qual recebemos a Cristo é um ato de completa renúncia do eu e de todas as suas obras com base na obra de Cristo, na cruz.

Não sou eu que me suicido, é Cristo quem me crucifica. Se já estou crucificado com Cristo, então não careço de me eximir de qualquer deslize, nem de me deslumbrar por qualquer realização. Não há o menor espaço para o eu depois da cruz.

Jesus nunca se defendeu nem fez qualquer exposição de suas realizações. Ele é a única chance a toda aquele que vive sob os efeitos eternos do espírito da cruz; jamais buscar um palanque, para se exibir; tampouco estar num tribunal, para se defender.

Relatórios de boca própria são temerários. Auto-justificação é uma prova cabal de absoluta descrença na justificação do Cordeiro. Quem morreu na cruz com Cristo, não tem nada de que se defender, muito menos ainda para se projetar. É fim de papo.

Mendiguinhos, não se importem de serem considerados como bicho da goiaba na salada dos esnobes.

O arrependimento é o abandono de determinada ação, devido à convicção de que Cristo fez tudo.

Isso basta.

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.

O ESPÍRITO DA CRUZ 37 – adestramento ou liberdade?

Um amigo, exímio caçador, alertou-me sobre a atitude de quem quer sai por aí, porta afora, com o seu cão preso à coleira. Qual o sentido de uma dupla que anda atada?  Estava querendo mostrar-me a conduta de um cachorro que segue o dono atrelado a uma correia, enquanto outro passeia, sem coleira, movido ao apreço com o seu amo.

Naquela mesma semana, outro amigo andava em seu bairro e viu alguém que passeava com o seu cãozinho sem coleira. Ficou impressionado com a postura do animal bem adestrado. Todas as vezes que chegavam a um lugar perigoso, onde havia o risco de atropelamento, o dono se detinha e dizia: pare! Então, o cão parava. Logo, depois, os dois atravessavam juntos. Era um passeio em que a obediência vinha da amizade.

-Aquele que teme o Senhor possui uma fortaleza

Meu amigo andou por algum tempo observando os dois e viu que o cachorrinho era obediente e seguia o seu proprietário não porque estivesse encoleirado, mas porque o respeitava. Ele havia sido treinado a considerar a importância dessa “cordialidade”.

No caso do cão foi um condicionamento. O animal foi treinado a obedecer, mas a questão que quero agora levantar, é: -como um ser humano consegue andar com Deus, de modo voluntário, sem um cabresto a controlá-lo? Como pode, livremente, segui-lo?

A religião sempre conduz os sujeitos com ameaças ou interesses atrelados. Eu tenho observado que normalmente as pessoas, nas igrejas, só obedecem porque são, de certo modo, coagidas por punições, castigos ou vantagens que podem auferir. O inferno e o céu têm servido para condicionar o desempenho de uma turma enorme de autônomos.

A obediência cristã não é escravidão a um legalismo dominador, nem ainda um átimo de subserviência por medo ou interesse, mas submissão voluntária à vontade divina movida pelo amor e regada à alegria. Obediência sem prazer, no íntimo, é vassalagem.

A verdadeira obediência é livre e festiva. Não há obrigação, nem contrariedade. Alguém rebelde perguntou a um cristão feliz: por que você vai sempre à igreja? Ele queria se justificar, defendendo sua liberdade de não comparecer às reuniões da sua grei, então, fez uma pressão. Ao que respondeu o cristão, com sabedoria: Quanto aos santos que há na terra, são eles os notáveis nos quais tenho todo o meu prazer. Salmos 16:3.

Aquilo que é feito de gosto, não traz desgosto. Davi entendeu o que significa a obediência livre e voluntária: agrada-me fazer a tua vontade, ó Deus meu; dentro do meu coração, está a tua lei. Sal 40:8. Matthew Henry também entendeu o axioma: “Quando a lei de Deus está escrita em nosso coração, nosso dever é nosso prazer.”

Mendigos, ser obedientes com uma arma na cabeça é terrorismo e, obediência sem alegria é tirania. O espírito da cruz nos liberta, de tal modo, que a nossa obediência é sem coleira e por puro prazer. Do velho mendigo do vale estreito, GP.

espírito da cruz 36 – Deus não tem time, mas é o técnico

A igreja é a reunião dos escolhidos de Deus. Não se trata de mero aglomerado ou ajuntamento de sujeitos com os mesmos ideais. A igreja não é um clube da elite, nem um sindicato de operários-padrão ou uma sociedade secreta de gente especial. Ela é sim, a reunião dos eleitos da Trindade, expressando o caráter de Cristo em adoração.

 
J. Blanchard disse com muita precisão: “a igreja não é uma democracia na qual escolhemos a Deus, mas uma teocracia na qual Ele nos escolheu”. Portanto, essa igreja é o encontro comunitário da família de Abba. Trata-se da comunhão relacional dos filhos do Altíssimo, patrocinada pela unidade dos motivos, jamais pelos rituais e formalidades.

 
Segundo George Eliot: “o que torna a vida enfadonha é a ausência de motivos. O que torna a vida complicada é a multiplicidade de motivos. O que torna a vida vitoriosa é a unidade de motivos”. Mas, aqui, reina uma grande luta. Como podemos manter, nesse corpo multiforme e polivalente, uma unidade motivacional uniforme? Eis a questão.

 

PHILADELPHIA, PA - SEPTEMBER 07:  Penn men's soccer loses 2-1 to Air Force at Penn on September 7, 2012 in Philadelphia, Pennsylvania. (Photo by Drew Hallowell

 
Viver em harmonia numa comunidade heterogênea é algo fora de série. Não há nada mais espetacular do que a ausência de competição entre as pessoas diferentes. Por isso, ver a unidade na diversidade é um milagre sui-generis do espírito da cruz.

 
Esse espírito antecede a história da cruz no Calvário. O mistério da Trindade se expressa na unidade de três pessoas distintas, vivendo sem nenhuma disputa. Que lindo! Mas, como pode conviver um trio triúno sem trincas e tridentes? Só o espírito da cruz.

 
O que caracteriza a unidade na Trindade é o amor. A Bíblia diz que o amor não busca os seus próprios interesses. Amar é viver em favor de. Alguém já disse: “a suspeita subtrai, a fé adiciona, mas o amor multiplica o ganho para dividir com quem ama. O amor abençoa duplamente: aquele que o dá e aquele que o recebe”.

 
Li, recentemente: – É indiferente para nós o que faz a maioria das pessoas que conhecemos ou como elas passam o seu tempo. Porém, assim que começamos a amar uma delas, passamos a nos interessar, no mesmo instante, por essa pessoa.

 
Quem ama não persegue, não boicota, não compete. O amor é a manifestação do culto de auto-sacrifício em prol da unidade dos “amantes”. O amor não se dói, se doa.

 
O caminho para a unidade cristã não passa pelas salas de comissões… Passa pela unidade pessoal com Cristo crucificado, de modo tão profundo e real, que possa ser comparada à Sua unidade com o Pai. Se morremos com Cristo… unidade é Cisto em nós.

 
Friedrich Tholuck disse: “A igreja é um só corpo – você não pode ferir o dedo do pé sem afetar o corpo inteiro”. Como pode haver unidade com preferência, privilégios ou a maldita política da discriminação? Mendigos, não entrem nessa das denominações, times e partidos adequados em defesa da unidade.

 

Do velho mendigo do vale estrito, GP.