espírito da cruz 33 – cadeia a céu aberto

A população encarcerada é infinitamente maior do que a liberta. O número dos presos é astronômico. O mundo é uma cadeia a céu aberto. Aqui eu não estou falando de prisões com grades de ferro, mas daquelas invisíveis que aprisionam a alma.

O salmista peticiona muito bem: – Tira a minha alma do cárcere, para que eu dê graças ao teu nome; os justificados me rodearão, quando me fizeres esse bem. Sal 142:7. Vejam que não se trata de uma penitenciária de corpos, mas de uma prisão psíquica.

O apóstolo Paulo, um preso em Roma, era o homem mais livre. Leia-se Roma, de trás pra frente, e tem-se o caminho da libertação: Amor. A alma presa vive nas amarras do ciúme, da inveja, do ódio, da amargura e de qualquer sentimento que mantém o sujeito detido pelas lembranças do troco, da vingança e de querer ser mais, melhor, maior.

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As almas prisioneiras dos ressentimentos nunca festejam. Nada pode ser mais terrível do que uma alma azeda, rude, murmurante, crítica que não consegue agradecer a nuvem copiosa ou o sol causticante. Ela está sempre babando de raiva e jamais bebendo com alegria a taça, no banquete. Normalmente, essa gente não vive, apenas vegeta.

A ingratidão é um dos principais sintomas da alma aprisionada pelo desgosto e insatisfação, enquanto o coração, que vive agradecido, é um patrocinador da celebração. Agradecer é bom. Viver agradecido é ótimo.

A gratidão é uma festa excelente de alegria.

Tem uma turma que, além de não ser grata, procura, por traz, ferir os outros na alma, para gerar um ressentimento crônico, produzindo amargura permanente. Coitado de quem foi aprisiona no claustro tenebroso da memória vingativa, pois, essa, por menor que seja, envenena a alma. Já ouvi dizer: é mais difícil vingar uma injúria do que suportá-la.

Certo provocador me cutucou: aquele, fulano de tal, parece não gostar de você. Ele sempre se retira do recinto quando você prega. Respondi: todos devem ser livres para ouvir o que querem. Nós fomos libertos por Cristo, até para divergir. Creio que eu não sou livre para me distinguir, nem para disputar, destoar ou criar desavença. Houve silêncio…

Na fé cristã, cada um tem a sua medida e compreensão de fé. Não há uma só pessoa igual a outra e os cristãos não foram feitos em série como se fossem garrafas pet. Todos nós podemos ter divergências de opiniões, o que não podemos ter, é desavenças na comunhão. Ser diferente é saudável. Ser provocante é sinal de uma alma aprisionada.

Tira a minha alma do cárcere, para que eu dê graças ao Teu nome. Parece que está claro: se não somos gratos é porque nos encontramos prisioneiros em nossas almas.

Mendigos, Donald Grey Barnhouse pasmou-se: Como é estranho que o Senhor tenha de insistir com aqueles que salvou do abismo eterno, para que eles lhe demonstrem gratidão! Tenham cuidado com os gemidos.

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.

espírito da cruz 32 – a fofoca profissional

Os acusadores de plantão são aqueles caçadores de defeitos que vivem, o tempo todo, à cata de falhas pessoais para jogar na cara dos falíveis; ou, ainda, na arquibancada, a abutres que se deliciam às custas da falência alheia. Esta turma turbulenta se perturba com as imperfeições alheias e deixa escorrer pelo canto da boca a baba ácida de sua crítica mordaz e feroz.

O cardápio destes antropófagos é alguma alma trincada que normalmente se torna o prato do dia em seus banquetes da fofoca profissional. Ver uma pequena rachadura na parede, uma leve nódoa na toalha, uma desproporção nas sobrancelhas ou uma mancha mínima de nascença no colo são as coisas que estimulam tais mexeriqueiros. Eles se alimentam de senões.

Um dos meus professores de psicologia chegou na sala com uma cartolina em branco, contendo um pontinho preto de tinta, e nos perguntou: o que é isto? Todos, com exceção de uma aluna, responderam que era uma pinta preta – ou coisa do gênero. Todos nós só vimos o detalhe, a mancha. Apenas aquela colega viu o todo, isto é, a cartolina com a mancha. A tendência dos seres caídos é esta – ver o defeito.

Tem gente zarolha que só enxerga o que é torto e se especializa em ver o ponto fraco do outro, para se distinguir como dona da verdade. Mas Jesus indaga: Por que vês tu o argueiro no olho de teu irmão, porém não reparas na trave que está no teu próprio? Lucas 6:41.

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Os juízes da vida alheia são, quase sempre, réus de crimes mais graves. Mas parece que eles têm uma necessidade inconsciente de se justificar, o que faz com que essa classe suba ao tribunal do júri para sentenciar com rigor os defeitos dos outros, e assim se isentar dos seus próprios.

O apóstolo Paulo sabia muito bem dessa torpe atitude equivocada quando questionou: ​Portanto, és indesculpável, ó homem, quando julgas, quem quer que sejas; porque, no que julgas a outro, a ti mesmo te condenas; pois praticas as próprias coisas que condenas. Romanos 2:1. É próprio do sujeito impróprio se apropriar da vida de outrem para nutrir suas crueldades.

O espírito da cruz tem tudo a ver com a extinção dessa cultura maliciosa que se fixa  nos defeitos alheios e nas inexatidões, nas imperfeições e nas outras falhas inerentes à finitude humana. Mas, não se trata de suprimir avaliações criteriosas ou de analisar fatos; trata-se, sim, da substituição da vida arrogante do velho Adão rabugento pela vida graciosa de Cristo.

Ser cristão não significa ser um idiota, um ausente da realidade do mundo. Nem significa ser alguém inábil para analisar os fatos ou os frutos. Jesus disse que é pelo fruto se conhece a árvore. Também não defendo aqui a incapacidade de julgar adequadamente a partir dos fatos, mas de não julgar ou criticar pelas aparências. Não condenar sem saber os reais motivos da conduta.

Alguém já disse que o melhor lugar de criticar o próximo é na frente do próprio espelho. Outro foi ainda mais longe: se você começar a crítica consigo mesmo não terá tempo para criticar os outros. Se nós nos víssemos melhor, certamente teríamos mais misericórdia com tantos outros claudicantes.

Mendigos, vocês que foram alcançados pela graça, sejam sempre graciosos. Analisem bem os fatos e julguem com critério os frutos da árvore. E prestem toda atenção a essa receita: duas coisas fazem muito mal ao coração: subir correndo escadas e criticar pessoas. Se tiver que fazer isso, faça segundo o caráter de Cristo, com todo amor.

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.