espírito da cruz 31 – na UTI da fé

Deus será sempre visto nos aposentos íntimos dos Seus filhos, mas nunca nesses palcos visíveis dessa turma exibida. Um amigo me mandou esta frase: – “Não é o meu pecado que me impede de orar. É a minha justiça”. Foi bem no alvo. Não é a nossa falência, mas a arrogância que nos tira do genuflexório. A fraqueza nos conduz à dependência; mas, a altivez ao pódio.

Na maioria, os pecados são contra a lei de Deus, mas a justiça própria é sempre contra a soberania de Deus. Ela constrói a autonomia humana – a autodeterminação e a independência que nos opõem a Deus, para vivermos por conta própria. Nesse habitat de autossuficiência não temos apetite para orar, uma vez que nos bastamos e nos adoramos a nós mesmos.

Meu netinho veio antes da hora, prematurinho. Madrugou ao sair logo com oito semanas de antecedência. Frágil, com as funções respiratórias ainda por amadurecer, precisou de UTI pediátrica. Sua permanência na incubadora me fez pensar na dependência da graça. Se não fossem os fios e aparelhos ele não sobreviveria. A Palavra de Deus e a oração são os fios da UTI da fé. Os filhos do Altíssimo são, de certa forma, eternos prematuros.

“Você aprende sua teologia principalmente nos lugares aonde suas tristezas o levam”, foi o que disse Martinho Lutero. É a nossa fraqueza que abre a porta da confiança. A fé é um meio pelo qual as fraquezas do homem tomam posse da força onipotente de Deus.

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Cristão soberbo é uma contradição nos termos. Se for soberbo não é cristão, mas, se for cristão, será um mendigo da graça. É a astenia que nos leva à dependência. Só pode orar, de fato, quem não tem força para laborar. Se tiver força própria, desprezará o poder do Altíssimo. Gente altiva jamais se envolverá com a vida de oração.

A igreja de Laodicéia é uma prova de soberba. Ela se basta. A turma pretensiosa nunca se apresenta nas trincheiras da oração, pois ficaria exposta à fraqueza de sua alma perante o seu público – a  multidão que é usada para retroalimentar essa presunção de independência.

John Milton disse que “os mártires abalaram os poderes das trevas com a força irresistível da fraqueza”. Paulo afirma que “o poder se aperfeiçoa na fraqueza”. Quanto mais fracos formos no reino de Deus, mais dependentes da suficiência do Todo-Poderoso.

A chegada de nosso netinho prematuro nos matriculou na escola preciosa dos avós e na universidade feliz do contentamento em meio às aflições. Tem sido uma experiência única dos aprendizes da graça. Nada pode ser mais eficaz para promover nossa confiança no Alto do que a limitação de nossa autoconfiança. Ó fraqueza irresistível!

No perímetro da graça não há qualquer ganho sem uma total dependência da soberana vontade de Deus. Mendigos, se Deus estiver no controle da vida, são preferíveis as aflições santas do que qualquer prazer profano. Tempos de sofrimentos para os filhos de Abba são as estações de colheita.

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.

espírito da cruz 30 – soco no fígado

Se eu tivesse o espírito da cruz, de verdade, eu pregaria a verdade de Deus, em amor: disse-me um crente, ao ouvir um pregador pregando a santa mensagem correta do evangelho, mas com um estilo agressivo e um ar de arrogância. Seria pura ironia?

Foi um soco no meu fígado. Tive que me examinar e ver que, muitas vezes, eu prego com aspereza, sem misericórdia ou sem uma atitude de mansidão. Mesmo que a verdade deva ser proclamada com ênfase, jamais deve ser dita com deselegância.

Para ele, uma pregação correta, anunciada com um espírito altivo, é tão má, como uma pregação incorreta afirmada com um estilo jeitoso. Tanto o bajulador, que quer levar vantagem pessoal, quanto os ciosos rudes que querem se passar como defensores do credo, correm o mesmo risco de se tornarem inadequados na sua proclamação.

A verdade é verdade sob quaisquer condições. A minha ênfase, por mais viril que seja, não a faz mais verdadeira do que ela já é. Porém, se eu não for coerente com a maneira adequada de enuncia-la, posso gerar uma dificuldade na sua compreensão.

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Não há nenhuma necessidade de se alumiar o sol, nem do pregador tentar defender a verdade. Ela se basta e basta proclamá-la com a propriedade de arauto. Creio que a minha maior necessidade é conhecer a Verdade e a subsequente, é saber anunciá-la. A verdade precisar ser dita por quem de direito, a quem de direito e da forma correta.

A Bíblia é a verdade de alfa a ômega, bem como deve ser proclamada de fio a pavio. Todo o oráculo de Deus é verdadeiro e precisa ser anunciado, sem a omissão de qualquer parte que pareça contradizer o que eu não sei explicar. Se não consigo definir o que é a soberania de Deus, não devo suprimi-la e solapa-la em razão de minha limitação.

Os homens, para serem verdadeiramente ganhos, precisam ser ganhos pela verdade, dizia C. H. Spurgeon, e adito: precisam ser ganhos pela verdade, a verdade toda e à moda da verdadeira eloquência: com polidez, elegância e sabedoria.

No espírito da cruz, a verdade se distingue como a demonstração da graça e não como a exibição de força argumentativa. Se houver apologética – que seja: apolínea, distinta, sábia. Quem crer na verdade não necessita prová-la como verdade ou defendê-la, uma vez que, é a própria verdade quem se aprova e nos defende. Ela é suficiente.

Como bem disse o apóstolo Paulo, nada podemos contra a verdade, senão em favor da verdade. Se alguém não crê na verdade, não é aquele que a proclama quem tem a obrigação de convencer o incrédulo, mas o próprio Espírito da verdade.

Mendigos, somos pregadores da graça e da verdade, que têm graça em seu enunciado e convicção elegante em sua postura. Não fomos chamados a convencer aos céticos, mas a anunciar a verdade do evangelho.

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.

espírito da cruz 29 – a luz que inveja as luzes

Jesus disse: vós sois a luz do mundo. Ele não disse: tu és a luz do mundo. Sua fala é coletiva. Não se trata de uma simples candeia, mas de um candelabro. A única luz é Cristo, e nós somos as velas do candelabro. Tudo indica que essa proposta tem cunho de comunidade e jamais de vôo solo. Aliás, não há um menorá com uma vela solitária.

Você e eu não temos luz própria; nós somos como os planetas que refletem a luz do sol. A luminosidade no cristianismo é Cristo e, quando alumiamos, é, tão-somente, porque fomos iluminados. Cada um tem o seu brilho de acordo com a luz de Cristo em si mesmo. Ninguém brilha mais do que a projeção de Cristo em sua vida.

Apagar a vela do outro não faz a sua brilhar mais. É somente ridículo. A sua luz é o reflexo de Cristo em você, e nada mais. Cada um, no candelabro, tem a proporção de sua intensidade conforme a manifestação de Cristo. Uma vela tem seu brilho; duas têm o dobro; três tornam-se mais forte, mas apagar a vela do outro não faz a minha brilhar mais.

É triste vermos ventos canalizados nos candelabros. Uns sopram daqui pra lá e outros de lá pra cá, todos querendo ver a chama da luz que nos incomoda se apagar.

Não posso admitir que o vagalume brilhe mais do que eu, disse a lagarta fluorescente.

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Os irmãos de José o venderam por inveja. O apóstolo Paulo foi perseguido por inveja. Esse é um sentimento cruel e uma broca voraz na madeira da alma, carcomendo o ser, por dentro e deformando por fora. O escritor e pregador chinês Watchman Nee disse: invejar o chamado de outra pessoa, pode destruir o seu próprio chamado. É algo fora de propósito cultivar carrapicho no jardim, mas é muito mais escandaloso alimentar a inveja.

Antonio Salieri foi um grande músico e um dos mestres de piano do inigualável  Mozart. Ele não suportou o virtuosismo do aluno e a inveja o abateu. Tornou-se vítima de sua amargura crônica, perdendo-se na crítica azeda, enquanto a história o descreve dum modo irônico, apenas como “o invejoso”. O pedestal da altivez o removeu do castiçal.

Já disseram que a inveja fornece a lama que o fracasso atira contra o sucesso, mas o barro lamacento que foi atirado é só perda de terreno daquele que atirou. É triste a biografia dos invejosos. Thomas Brooks afirmava: a inveja tortura as afeições, incomoda a mente, inflama o sangue, corrompe o coração, devasta o espírito; e, assim, se torna, ao mesmo tempo, torturadora e carrasco do homem. É triste ler a biografia dos invejosos.

A igreja é um candelabro, jamais a fogueira das vaidades. É um castiçal com as muitas velas iluminando todas, ao mesmo tempo, sem competição ou comparação. É uma comunidade de estímulo e encorajamento, onde o invejoso não tem vez, pois o espírito da cruz vai destronando qualquer desejo de singularidade. Mendigos, não há espaço para a inveja nessa caminhada da mendicância da graça.

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.

espírito da cruz 28 – o exame do Enem espiritual

O crítico que começar consigo mesmo, não terá tempo de criticar os outros, diz um sábio anônimo. Não há agenda que comporte tanto assunto. O xis da questão é que o macaco nunca olha pro seu rabo, pois é sempre mais fácil vermos os defeitos alheios.

Havia um velho professor num colégio onde trabalhei, que tinha a fama de ser mitomaníaco. Para quem não sabe, um mentiroso. Ele contou que foi caçar e colocou 100 caroços de chumbo num cartucho e atirou num bando de 100 pombas, matando 99. Um aluno assustado o interpelou: professor??? – Você acha que eu vou mentir por uma?

Tem gente que não se enxerga, ou talvez pense que os outros sejam idiotas. É o caso do manco que não se avalia, enquanto critica os defeitos do perneta. Você já deve ter visto um sujo falando do mal lavado e o emburrado censurado o carrancudo.

É verdade que o apóstolo Paulo, nem está aí, com a questão do julgamento. A mim mui pouco se me dá de ser julgado por vós ou por um tribunal humano; nem eu julgo a mim mesmo, tampouco. 1 Cor 4:3. Alguém que já foi justificado não precisa se justificar. A justiça de Cristo é suficiente para os filhos do Altíssimo.

Todavia, Paulo insiste: Examinai-vos a vós mesmos se realmente estais na fé; provai-vos a vós mesmos. Ou não reconheceis que Jesus Cristo está em vós? Se não é que já estais reprovados. 2 Cor 13:5. Julgamento nunca, exame, sempre. Precisamos de fato nos avaliarmos para não incorrer na incoerência entre o que dizemos e o que somos.

Alguém que prega sobre alegria deve ser alegre, não acha? Tenho que fazer o exame do Enem espiritual da coerência, senão, a pregação é nem isso e nem aquilo. Não é tanto o que prego, o que define a autenticidade da pregação, mas também como prego.

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Quem se avalia primeiro, criteriosamente, não sobrará tempo para censurar os demais, além de que, tem matéria suficiente para se ocupar. Thomas Lye foi na mosca: o homem que está muito ocupado em censurar os outros, está sempre pouco ocupado  em examinar a si próprio. É este ócio vil, que normalmente banca um péssimo negócio.

Gosto desse pensamento de Doug Barnett: nós, cristãos, jamais pensaríamos em atropelar, intencionalmente, outras pessoas com nosso carro; então, por que será que o faríamos com as nossas palavras? Não acredito em má fé, quando alguém foi salvo por Cristo. Deve haver uma razão vinculada com a velha cultura do passado. Só se for.

Mas, mendigos, nunca tenham medo de testar a si mesmos, com suas próprias palavras críticas. Quem não se critica, jamais poderá evoluir. Naquilo que vocês estiverem errados, não se defendam. Vejam também: quem já foi justificado não é ofensor, e se vier a ofender, peça perdão. Eis o espírito da cruz: apedrejar um filho de Deus é um trabalho sem salário, e, completamente inútil.

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.

espírito da cruz 27 – centro de confiança

Cristianismo não é o cristão exibindo um viver moral belo, como se fosse a vida de Cristo, para que os outros vejam que Cristo vive nele, mas é o próprio Cristo vivendo a Sua vida santa através do cristão, para manifestar o Seu amor em favor dos outros. Nada menos do que: não mais eu, mas Cristo vive em mim.

Sócrates foi um filósofo grego de conduta inatacável. Cornélio era um centurião das forças romanas de caráter impoluto. Saulo foi judeu religioso com um comportamento sem repreensão. Todos eles, entretanto, estavam perdidos espiritualmente.

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Ter um caráter sem jaça ou uma conduta moral impecável não quer dizer que a pessoa seja um crente em Jesus. Há muita gente, nesse mundo, que tem sua vida ilibada e irrepreensível, mas que nunca nasceu de novo. Talvez, Nicodemos fosse um. A questão aqui não é a moralidade inatacável, mas

onde está o centro da sua confiança?

Ninguém entrará no reino de Deus pelos seus próprios méritos, mas pela graça e misericórdia de Deus, em Cristo. Não é uma vida torna que nos impede de participar do banquete na Casa de Abba, mas a autoconfiança. Em quem você confiança? Em si?

Assim como não há uma autocirurgia do cérebro, também não há remoção da autoconfiança, por nós mesmos. Temos que ser crucificados, com Cristo, para podermos ser livres de nossa confiança própria. A fé baseada em alguém inconfiável não merece fé. Se o pecador pudesse crer, por si mesmo, a sua fé estaria corrompida pelo seu orgulho.

O incrédulo precisa morrer, juntamente com Cristo, para si mesmo, a fim de ser ressuscitado com Cristo, e, deste modo, receber a fé do Autor e Consumador, Jesus, para que creia em Cristo e viva, não mais como incrédulo, mas Cristo vivendo nele.

Repetindo: o cristianismo não é o cristão tentando viver a vida de Cristo. Não é uma exibição, como: em seus passos que faria Jesus? Não. A fé cristã é de Cristo, é por Cristo e é para Cristo. Não se trata de uma autoconfiança, mas da plena confiança no Alto dada pelo Altíssimo, para confiar na suficiência do Eterno.

Todo problema aqui se baseia na inteireza da fé: aquele que confia, precisa ser confiável, e, Aquele em quem se confia, deve ser a fonte da confiança. Se a fé vem de um ser inconfiável, ela não merece crédito. Como eu posso confiar em mim mesmo, uma vez que sou tão mutável, instável, volúvel e inconstante? Fé na fé se dissipa facilmente.

Jó era um homem justo, íntegro, temente a Deus e se desviava do mal e, ainda assim, ele só conhecia a Deus de ouvir dizer. A sua conduta era perfeita, mas a sua fé era de segunda mão. Ninguém pode crer em que não conhece. O espírito da cruz tem tudo a ver como a confiança e a dependência do Altíssimo. Mendigos, não tentem viver pela fé a partir de vocês, pois, só Cristo é cristianismo.

 

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.