espírito da cruz 24 – eu não quero Deus!

O espírito da cruz antecede ao fato histórico do Calvário. Antes da crucificação e morte de Cristo Jesus, Ele já vivia no espírito, como crucificado, pois vivia a renúncia de si mesmo, ou na abdicação de Sua própria vontade. Jesus dependia da Trindade.

Aliás, o princípio que governa a Trindade é a unidade. Mas, como três pessoas podem ser um só Deus? Temos que admitir, por necessidade lógica, que essas pessoas tiveram que abnegar as suas próprias vontades para terem uma única Vontade, e isto, só será possível, se o princípio da cruz estiver em vigor. É a declinação de si mesmo.

A vontade é o centro da personalidade e a sua força fundamental. Mas a minha vontade é, também, a causa das minhas lutas. Como conciliar a minha má vontade com a perfeita vontade de Deus, para que eu possa fazer de boa vontade a Sua vontade? Eis, a grande luta de qualquer pessoa que queira viver de acordo com a vontade Divina.

Foi J. Denham Smith quem declarou: O pecador, em sua natureza pecaminosa, nunca poderá gozar de uma vontade que concorde com Deus. A nossa vontade egoísta e insatisfeita, quando não é realizada, só se sente bem, se for soberana. Caso contrário, ela se rebela numa conspiração do inconformismo que se retrata na murmuração e na crítica.

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A vontade que queira a vontade de Deus acima do seu próprio querer, é de fato o maior milagre que pode acontecer na vida de um ser humano. Ninguém quer a Deus por decisão pessoal. Ninguém o quer porque quer. Com certeza esse querer foi conquistado e convencido a querer de boa vontade, uma vez que, querer por obrigação, de má vontade, é uma total contradição do que se compreende o que é a livre vontade.

Sabemos que a vontade da raça caída não é livre. Todos nós nascemos com a nossa vontade escrava do pecado. Como pois, um escravo viciado em seu próprio querer, pode querer de boa vontade, um querer que contraria esse seu querer egoísta?

Só um milagre. Foi João Calvino quem disse: querer é humano; querer o que é mau é próprio da natureza decaída, mas querer o que é bom é próprio da graça. Não há a menor possibilidade do meu querer vaidoso querer o que Deus quer, se a graça não fizer esse convencimento miraculoso. Só lembrando: querer por obrigação é subserviência.

Quando oro: seja feita a Tua vontade, assim na terra como no céu, tenho que admitir, que a minha vontade arrogante foi convencida graciosamente a querer voluntária e livremente a vontade de Deus como sendo a minha vontade. Isso é milagre da graça.

Olá, Mendigos! a vontade é o fator decisivo em tudo o que fazemos. Em todas as esferas da vida, ela estabelece alternativas. Mas, a vontade está viciada e dopada dela mesma. Como essa vontade drogada de si, pode querer de boa vontade fazer livremente a vontade de Deus? Só o milagre da cruz.

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.

espírito da cruz 23 – eu não quero morrer!

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O maior problema do homem é ele mesmo. Eu sou a minha maior dificuldade e o maior conflito. Em inglês, eu, se escreve com um I maiúsculo, pois eu não posso admitir, nessa língua, que eu seja minúsculo. Eu sempre quero ser o maior, o visto e reconhecido.

Aí de mim! Meu coração é meu maior inimigo. Eu nunca fico contente quando a minha vontade não é satisfeita. Eu estou sempre magoado quando sou contrariado. Eu, e ninguém mais, sou a causa da minha causa não ter uma causa sem custo pra mim. Vivo o tempo todo fazendo tudo para que eu seja totalmente visto por todos.

O meu eu é tão absoluto que ele chama a atenção dos outros até mesmo ao se desestimar. Uma das táticas mais egoístas é fingir a humildade. A pessoa pode parecer o bicho da goiaba só para despertar os olhares de uma plateia distraída. Eu sou o centro do mundo e jogo com todas as cartas para não perder a partida. Eu me basto o bastante!

E como posso me libertar de mim? De mim mesmo não posso me livrar, pois o que posso fazer, só posso, porque posso me exaltar. Eu não posso permitir que eu tenha que sair do palco. O eu não se desestima, sem antes se estimar. Não há possibilidade do eu se salvar de si mesmo. Na cirurgia, não sou eu que me opero, é o médico.

O eu tem que ser extirpado. A vida cristã não sou eu quem vive, mas é o Cristo quem vive em mim. Não sou eu que me converto, mas sou convertido pelo Espírito Santo. Eu não me salvo, sou salvo pela graça. Não me santifico, sou santificado pela suficiência do Altíssimo. Se a Trindade não fosse Onipotente eu não seria salvo da minha autonomia.

O cristianismo autêntico é uma viagem sem o eu, ainda que – comigo. Meu ego tirano precisa ser tirado na cruz com Cristo. Não há lugar para esse obeso na canoa: ou o eu sai, ou a fé cristã afunda na hipocrisia. O velho Adão não tem postura de renúncia.

Uma vez salvo, salvo para sempre, e, salvo de mim. Que bênção! Alguém disse que a depravação do ego é o grande obstáculo à fé, mas, a graça é a maneira pela qual a Trindade supera esse obstáculo. Só o Deus Absoluto pode absolutamente salvar-nos dos absolutismos do nosso eu, mantendo-nos fora de quaisquer possibilidades de governo.

O espírito da cruz tem muito mais a ver com o desmonte do ego, com os seus surtos de vaidade, do que qualquer outro inimigo da saúde espiritual. Ninguém pode ter o mínimo de sanidade psíquica sob a dominação insaciável de si mesmo. O egoísmo não é apenas pecado, mas encontra-se na raiz de todo pecado.

Na cruz, com Cristo, o eu foi crucificado e a Bíblia, assim, o diz. Por outro lado, aquele, que foi salvo de si, precisa levar o morrer de Jesus em seu corpo, para que a vida de Cristo se manifeste em seu modo de viver. Mendigos da graça, não temos alternativa: ou o eu sai, na cruz, ou Cristo não vive em nós.

 

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.

espírito da cruz 22 – medo de mim mesmo

Um dos pecados de estimação é a hipocrisia ou, a síndrome da aparência Ok. Mas quem vê cara, não vê coração. De algum modo, todos nós fingimos ser o que de fato não somos, por isso, temos, também, muita dificuldade de lidar com o nosso auto-engodo.

É fácil alguém se impressionar com uma boa imagem, caindo na armadilha das maquiagens. Um rosto bem delineado e bem tratado com produtos cosméticos pode ser a casca da banana para um esbarrão nas rugas. É fatal a decepção entre a face da festa e a do bom dia! com cara lavada. O artista no filme foi capaz de dizer: você é outra, hoje!

Confesso: não tenho coragem de revelar minhas decepções. Eu sempre fico ali  calado, curtindo o meu erro de avaliação. Eu pensava que aquela pessoa fosse do tipo: o menos encarquilhado, mas, que ledo engano. Era tudo maquiagem. Era imitação barata.

Nós, frequentemente, nos disfarçamos para que os outros nos aceitem. Isto é a norma da convivência superficial, já que temos medo de dizer quem nós somos e sermos expulsos da festa, descartados da lista de contatos. Só que isso não dá liga. O sujeitinho que se sujeita apenas à vida do palco, pode ser talentoso, mas não tem alma. É fake.

Tem gente que só tem discurso. Dizer que amamos a Deus enquanto vivemos uma vida sem santidade é a maior das falsidades, sustentava Agostinho. É isso aqui que me pega. Eu até tento me maquiar de santo, mas as rugas da carne, depois da exibição, não podem ser camufladas. Que santidade é essa das aparências, gente?

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O espírito da cruz tem a ver com os destroços do fingimento. Cristo crucificado, não apenas crucificou o nosso velho homem, mas também o nosso velho ego, com todas as sua tentativas de parecer o que não é. Não basta esposar a boa doutrina de nossa co-morte com Cristo, é preciso esposar o caráter de Cristo em nosso modo de viver.

Ser um crucificado com Cristo é poder viver a vida, pela fé, sem a necessidade de chamar a atenção dessa aparência idealizada. Não é o que parecemos aos homens, na passarela, o que conta, mas o que somos em Cristo, no escuro.

Richard Glover diz: A hipocrisia, além de encobrir as falhas, corrói rapidamente na alma todo resquício de verdade e honra que nela exista. Na vida cristã, ninguém deve  tentar ser o que não é, uma vez que tudo o que somos, somos em Cristo. A mais urgente de todas disciplinas espirituais é aquela que nos faz ver quem somos, somente em Cristo.

Um sujeito íntegro tem virtudes que vão além do que pode expressar; porém, o hipócrita, frequentemente, expressa muito além das virtudes que possui. Isto pode ser um mimetismo, mas é a coisa mais absurda e contrária à natureza da existência.

Mendigos, é preferível sofrer vexame de não sermos aceitos por sermos quem somos, do que sermos aceitos só por aparência.

 

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.

espírito da cruz 21 – a dieta do saber

Paulo disse: o saber entumece. São poucas as coisas que deixam as pessoas mais inchadas do que o conhecimento. Não, propriamente, a sabedoria, mas o saber dos que se acham detentores dele. A ciência dos fatos, sem a consciência da finitude humana, pode ser um prejuízo terrível para a concretização da verdadeira sabedoria.

Sócrates dizia: a única coisa que sei, é que nada sei. Aquele que sabe que não sabe, já sabe muito mais do que aquele que pensa que sabe, porque sabe um pouco das coisas que sabe. O melhor saber é aquele que não nos envaidece com o que se sabe.

Os mestres, na igreja, são eternos aprendizes. Uma marca dos discípulos de Jesus é a condição de ser ensinável. Se formos discípulos, seremos aprendizes. Alguns de nós fomos chamados para ensinar, porém, antes de sermos mestres, somos sempre alunos. No discipulado cristão não há lugar para os tais “doutores”.

Se o saber dos acadêmicos esnobes os envaidece, o saber dos “doutores” que se vêem sábios, na igreja, é insuportável. É triste quando vemos alguém querendo dar um pitaco no que nada sabe. Há coisas que podemos dar alguma noção, todavia há assuntos em que a árvore do conhecimento do bem e do mal nada tem a dizer.

Jeremy Taylor disse: ter orgulho do saber é o sinal da maior ignorância. Aquele que sabe, normalmente, percebe que não sabe tanto quanto o saber do assunto requer. O sábio, de verdade, não sabe que sabe o suficiente para ser considerado um sábio, sendo assim, continua humildemente matriculado na escola do permanente aprendizado.

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Por exemplo, Donald Nicholl disse: para saber o que é santidade, você precisa ser santo. Muito bem. E como é que alguém sabe que é santo? Esse é um assunto que a graça se encarrega. Ninguém, por si mesmo, pode se fazer santo. Mas, quando a graça o faz santo, esse santificado passa a conhecer o que é santidade, ainda que parcialmente.

Sim, qual foi o santo que se viu um santo perfeito? A santidade é um processo e nunca um estado. Não há santo acabado, mas em construção. O apóstolo João afirmou: aquele que é santo santifique-se ainda. Quem já subiu ao pódio da santidade e derramou a garrafa de Champanhe em sua própria cabeça? O santo sabe que é santo, mas nunca saberá em que grau se encontra da santidade evolutiva. Porém, não há santo paralítico.

Esse pensamento sábio, de John Metcalfe, pode nos ajudar no que diz respeito ao legítimo saber: Nada fará com que você deseje mais deixar de pecar do que saber que Cristo de fato tomou e remiu todos os seus pecados – passados, presentes e futuros.

Mendigos, não há maior conhecimento do que conhecer pessoalmente a obra e a pessoa de Cristo. Não se enfadem num saber que termina numa lápide, mas busque de coração conhecer a Cristo, e este crucificado.

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.