espírito da cruz 14 – fé ostentação

Temos procurado analisar aqui o espírito da cruz, como o estilo cristão de vida. O que caracteriza a fé que uma pessoa tem em Cristo é a maneira efetiva como ela vive sob os efeitos da crucificação do ego com Cristo. Não mais eu, mas Cristo vive em mim.

Todos, na igreja, querem ser beneficiados com o poder da vida ressurrecta de Cristo, embora, poucos queiram receber os estigmas da cruz, em seu modo de ser. Mas, a vida que nasce da tumba, não se expressa, sem que a cruz extermine o velho Adão. É aqui que reside toda a eficácia do Evangelho: – não ser um exibido do seu cristianismo.

A fé alardeada é ostentação da crença. Ninguém pode viver sadiamente a vida cristã sob as luzes dos holofotes e os aplausos da plateia. Nada de espetáculo ou show. Tudo é discreto, nos bastidores, fora dos olhares curiosos e sem notoriedade.

Mesmo as atividades públicas, como a pregação, precisam contar com um sutil sequestro do pregador, realizado pelo Espírito Santo. Ainda que os pregadores estejam à frente da congregação, eles necessitam estar escondidos com Cristo em Deus. Todos os que foram chamados por Deus para o Seu ministério têm que sair de cena, para que só o Senhor seja totalmente visto através desses Seus instrumentos.

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Cristianismo é Cristo vivendo no cristão. Não se trata de: “em seus passos que faria Jesus”, mas da internalização da vida de Cristo naquele que já tenha sido crucificada com Cristo. Mas, tudo isto, é feito por Deus, de modo subjetivo, no íntimo dos Seus filhos.

Uma dessas realidades espirituais, fora do palco, é a vida de oração. Jesus foi explícito quando disse: quando você for orar, entra no seu quarto, fecha a porta e ora ao seu Pai que está em secreto e seu Pai, que vê em secreto vai lhe escutar e recompensar.  Fica claro que a oração é, antes de tudo, intimidade com Deus, sem testemunhas.

Aqueles que têm vida de comunhão com a Trindade, não têm a necessidade de expor o seu relacionamento íntimo para receber aprovação de terceiros. Nessa cabine de oração particular não cabe espiões ou vigias, nem mesmo se deve contar, para os outros, aquilo que foi comunicado como os segredos do coração penitente.

Os verdadeiros intercessores nunca publicam os seus hábitos de oração, muito menos, fazem striptease da sua intimidade para chamar a atenção. O espírito da cruz tem como princípio manter os crentes em Cristo cobertos pela vida de Cristo, enquanto levam o morrer de Jesus em seu estilo de viver. Não há exibição na vida de oração.

Mendiguinhos, se quisermos aprender a orar, tendo o espírito da cruz como um legitimador da nossa fé, nada pode ser mais importante do que o ostracismo. É só sair do foco das lentes da câmera e entremos na câmara do refúgio secreto com o Altíssimo. Não será possível uma vida de oração propagandeada.

Do velho mendigo do vale estrito,

Glenio.

espírito da cruz 13 – pomba ou pompa

Jesus fincou dois marcos como distintivos do ministério de seus discípulos: são simplicidade e prudência. Ele disse: sejam simples como as pombas e prudentes como as serpentes. A vida do cristão deve ser simplesmente uma simples representação visível da simplicidade de Cristo. Isso significa que não há complexidade no modo do cristão viver.

Tenho em minha casa um bando de pombas que tenta fazer os seus ninhos em lugares dos mais inconvenientes, para o bem estar da família. Mas, se alguém desmontar o ninho, é um trabalho incansável – elas vêm e fazem de novo. As pombas são simples ao máximo e nunca se ofendem. Estão lá fazendo as mesmas coisas o tempo todo.

Faça desta regra simples uma diretriz para sua vida: não ter nenhuma vontade que não seja a simples vontade de Deus. O que mais precisamos é simplesmente render a nossa vontade complexa à simplicidade da graça de Deus. Aqui é ser como as pombas.

O pecado nos tornou em seres complicados, que nunca se contentam e jamais se rendem, se não chegarem ao fim de suas forças. O fim de nós mesmos pode ser a era da simplicidade. Nós só descansamos quando saímos do palco e deixamos o governo da nossa vida nas mãos de quem pode dar sentido ao vôo das borboletas.

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As lagartas são vorazes e destruidoras, mas, por uma razão que a biologia não explica, elas morrem para vida que rasteja, a fim de voarem alto como borboletas. No fim, a história tipifica a obra da cruz. O ser humano complexo e destruidor precisa morrer para si mesmo e ressuscitar com a vida de Cristo. Com razão, M. Lutero estava certo ao dizer que, saindo de cena: o simples ordenhar de vacas pode ser feito para a glória de Deus.

A simplicidade é o estilo de vida de quem é de cima. É a encarnação da vida de Cristo em quem tenha sido crucificado com Cristo. Se a pomba fala duma gente simples, a pompa, só fala de gente que se orgulha dos seus méritos terrenos, contrapondo-se aos dons da graça. A maioria de nós tem uma necessidade enorme de holofotes ou vitrines.

A singeleza de coração é um reflexo do espírito da cruz agindo nas entranhas e na mente dos filhos de Abba. Uma alma orgulhosa não se satisfaz com coisa alguma, mas a alma simples faz festa com algodão doce, já que é uma alma de criança.

Entretanto, Jesus abordou, também, a prudência das serpentes. Não se vê por aí serpentes transitando sem motivos específicos. Elas só saem quando vão alimentar-se ou cruzar. Só atacam para pegar a presa e quando estiverem ameaçadas. É prudente, no mínimo, ser prudente como as cobras, que nunca atacam quem não lhes intimidam.

A defesa do santo nunca deve estar ligada aos interesses pessoais, ainda que, muitas vezes, até poderia. O crente só faz apologia da fé. Atenção mendigos, se vocês já foram justificados, nunca se justifiquem, ok?

Do velho mendigo do vale estreito, Glenio.

espírito da cruz 12 – papo furado ou fato apurado

Viver como zero num mundo em que a ambição é ser como dez, constitui-se no milagre sem explicação. O pecado tem como proposta tornar-nos, cada um de nós, como Deus. Logo, viver sem qualquer expectativa de importância, sem levar-nos a nós mesmos a sério, é algo fora de série, extraordinário, espantoso, miraculoso.

A anarquia caótica é exatamente a universalização dos absolutos. Você tem a mínima ideia do que seria esse planeta cheios de deuses soberanamente absolutos? É, exatamente isso, que o individualismo teomaníaco pretende estabelecer na terra.

É absolutamente impossível vivermos neste mundo sem uma pitada, por menor que seja, de altivez. Não conheço um bebê, que já tenha alguma mobilidade, que não se aproprie dos seus direitos de notoriedade, buscando algum grau de exaltação. É, por isso, que fica sem chance alguém se desestimar, quando a autoestima é o padrão natural.

Alguém estava comentado que certa pessoa tinha uma baixa auto estima. Para mim, isso é apenas o uso estratégico de se chamar a atenção de uma forma sutil. Não vi, ainda, um ser com baixa estima. O que vejo são soberbos se rastejando para consegui as suas migalhas de aceitação, usando esse expediente baixo. É cobra, cobrando o direito.

A única maneira de retirar o ser humano da passarela é matando. Calma! Não estou falando de assassinato. A morte aqui é compartilhada com Cristo. É a morte do réu, pecador, na mesma cruz com Cristo. É substituição da vida adâmica pela vida que nasce da tumba. É não mais o eu, mas Cristo vivendo em mim. Mas, é pena de morte pra todos.

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Contudo, isto não pode ser apenas uma doutrina. Não se trata de um conceito teológico ou uma idealização psicológica. Muitos de nós até pregam a mensagem da cruz, mas parece que não fomos pregados na cruz. Falamos bem convictos da co-crucificação e parecemos muito sinceros quando falamos, embora vivamos como se nada disso fosse verdade. Não se vê o espírito da cruz esculpido no nosso modo de viver.

Ter a mensagem correta da cruz é imperioso na pregação do evangelho, porém isso na basta. O que caracteriza a autenticidade da mensagem é o espírito na cruz agindo no modo de viver do crente. Alguém me disse, eu não creio naquele sujeito quando prega. Tudo o que ele diz está totalmente certo, mas ele não vive o que prega, convivo com ele!

Cristianismo autêntico não é sofisticado, é simples. Não é papo furado, é fato apurado no modo de viver de cada um de nós. A reputação é o que os outros pensam que nós somos; o caráter é o que Deus sabe que eu sou no escuro, quando ninguém me vê.

Se Deus sabe quem sou e mesmo assim Ele me busca com o seu amor eterno, por que quero parecer o que não sou? Mendigos, nada é mais absurdo do que um amado por Deus querer ser amado, por seus méritos.

No amor do Amado,

do velho mendigo do vale estreito, Glenio