espírito da cruz 9 – calar ou falar

Vou insistir nesta migalha com o que disse Matthew Henry: “Um leão na causa de Deus precisa ser um cordeiro em sua própria causa.” Se faço apologia feroz no que diz respeito ao Reino de Deus, sou um advogado, sem causa, no que me diz respeito.

Acredito que o espírito da cruz não signifique paspalhice ou covardia, quando a defesa são os princípios eternos do Evangelho. Mesmo assim, não precisamos ser do tipo agressivo ou mesmo guerrilheiro, mas, também, nada de passividade aqui. Mansidão fala do desapego dos bens pessoais, nunca, porém, do descaso como o Reino de Cristo.

O mártir é como um cordeiro em sua defesa, mas como um leão firme em seu testemunho da mensagem do Evangelho. Falando de si é dócil, embora ruja ao pregar a mensagem inegociável de Cristo. Não se importa consigo, mas importa-se com sua fé.

Alguém disse que um cristão não se defende, nem reivindica seus direitos, mas não se cala quando tem que anunciar a Cristo e os seus propósitos. Ele nada tem para se justificar, já que foi justificado, por Cristo, contudo, nada justifica o seu silêncio diante das injustiças neste mundo destoante dos princípios do Evangelho.

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O espírito da cruz não é a fragilidade ou a timidez diante da perseguição cruel no mundo, do mesmo modo, que não é uma guerrilha por causa dos valores ligados aos interesses pessoais. Quem já foi crucificado com Cristo não tem o que requerer para si, muito menos, o medo da morte. “O que faz um mártir não é o sangue, mas a causa“.

Calar, quando se devia falar pode ser tão prejudicial, quanto falar, quando se devia calar. O espírito da cruz nos mantém adequados nas duas posturas. O silêncio, no momento oportuno, é tão contundente como o discurso que não pode ser calado. Tudo vai depender da condução e da motivação determinada pelo trono da graça.

Foi o ilustre poeta inglês cego, John Milton, quem viu com clareza: “Os mártires abalaram os poderes das trevas com a força irresistível da fraqueza“. Porque viveu a sua vida sem a luz do sol, podia entender o que são as trevas. Quando vivemos na fraqueza é que podemos ver o poder de Deus capaz de abalar as estruturas das ogivas nucleares.

Gosto de pensar que a “fé é o meio pelo qual as fraquezas do homem tomam posse da força de Deus”. Se eu nada posso, mas, pela graça, me aproprio do pleno poder do Altíssimo, então, me torno onipotente dentro de Sua vontade. Ninguém e nem qualquer coisa pode fazer coisa alguma, fora da permissão divina, na vida dos que confiam n’Ele.

Senhores Mendigos, quem pode destruir uma vida que foi alcançada pelo amor do Abba? Citei, recentemente, em um velório, o que alguém disse: “A morte não passa de um incidente físico em uma carreira imortal.” Se nós ganhamos a revelação do alto de que temos a vida eterna, quem nos matará?

 

No amor do Amado,

do velho mendigo do vale estreito, Glenio.

espírito da cruz 8 – obediência?

Eric Alexander disse: “A evidência do conhecimento de Deus é a obediência a Ele.” Mas jamais uma obediência movida a medo, vergonha, culpa, interesse ou dever. A obediência, com esses traços e essa cara, ou é vassalagem ou negociata.

A obediência cristã nunca será uma escravidão a um legalismo dominador, mas a submissão voluntária à vontade divina, sob o estímulo do amor. Para tanto é necessário  que a minha vontade seja conquistada pela vontade de Deus. Se a minha vontade não for vencida pela vontade divina, não haverá qualquer significado na minha

A cruz de Cristo precisa crucificar o desejo da minha vontade soberba obediência, a ponto do meu querer egoísta poder querer sobretudo o querer de Deus. Quando eu quiser tudo o que for da vontade de Deus, então a minha vontade se contentará com a vontade d’Ele, de tal maneira, que a minha alegria será fazer de boa vontade a Sua vontade.

Obedecer de má vontade é tirania. Obedecer voluntariamente é um milagre da graça que me faz querer de boa vontade fazer a vontade de Deus. “É só pela graça divina que o homem pode obedecer à lei de Deus,” com sua vontade disposta a obedecer.

Precisamos compreender o que bem disse R. B. Kuiper: “Antes de serem atos do homem, fé e obediência são dons de Deus.” E, eu acrescento a essa lista, também, o arrependimento. O homem natural não é dotado de fé, nem será capaz de arrepender-se por si mesmo e muito menos de obedecer a Deus, de quem ele se esconde e foge.

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Alguém disse que a obediência é o lado positivo do arrependimento. E qual é o negativo? Virar as costas para o pecado. Outro disse que o arrependimento pode ser visto como a confirmação da fé autêntica, enquanto essa é uma dádiva da eleição graciosa. Eu gosto de pensar que os três: fé, arrependimento e obediência são dons eternos dados na eternidade pelo Pai aos Seus filhos e requeridos na história deles.

Na vida espiritual nós não temos nada, se do céu não nos for dado. Assim, a fé, o arrependimento e a obediência são dádivas na vida daqueles que foram convocados de modo decisivo pela graça irresistível do Pai, crucificados juntamente com Cristo e guiados pelo poder do Espírito Santo. Estes atributos não são naturais de Adão.

Dito isto, podemos afirmar, categoricamente, que a rebeldia e insubmissão são contrárias ao espírito da cruz. As ovelhas de Cristo estão marcadas com cravos nas suas orelhas e nas patas: o que ouvem, obedecem. Aquelas que obedecem voluntária, livre e  sinceramente dedicam-se para obedecer totalmente, vivendo em comunidade.

Mendigos! Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns; antes,  admoestemo-nos; o Dia se aproxima (Hb 10:25). Obediência não é a essência, mas é uma evidência do relacionamento correto com Deus.

No amor do Amado,
do velho mendigo do vale estreito, Glenio.