espírito da cruz 7 – orgulhoso de ser humilde

Ser um crucificado com Cristo é viver sob os efeitos do espírito da cruz. Pois é: isto quer dizer que, não basta confessar com os lábios, é preciso levar nos lombos a cruz como estilo de vida. O espírito da cruz encarna a condição de um crucificado.

Não estou falando de uma perfeição na conduta, mas da perfeita condução na vida espiritual dos sinais dos cravos. Há muitos de nós que falam um discurso adequado, embora desdigam tudo com o modo de viver. A boca fala certo e a vida desmancha tudo.

Quero, porém, reiterar: não estou me referindo a uma vida sem jaça ou sem um defeito ou problema, mas a uma vida sem jactância, com a altivez, no madeiro.

O espírito da cruz, antes de promover em nós, uma vida santa, promove a vida quebrantada, pois santidade sem quebrantamento é pura arrogância. Nada pode ser mais falso do que um santo empinado ou emproado. Santificação sem quebrantamento é uma contradição de termos, tanto como dizer que um pecador é humilde de espírito.

Subindo-ou-descendo

Muitas pessoas pensam que estão quebrantadas, quando estão apenas sob o manto roto da aparência, fingindo pobreza ou baixa estima para chamar a atenção do seu modo de viver, mantido para impressionar a turma da arquibancada. Nós precisamos mais do que traços de humildade, precisamos de um quebrantamento no pó e na cinza.

O Deus de cócoras, como o escravo de terceira categoria, é o modelo autêntico deste tipo de humilhação que expressa quebrantamento. E aqui, não basta demonstrar ter uma mente humilde, é preciso ser um ente quebrantado. O espírito da cruz tem que agir no íntimo e levar o sujeito a sujeitar-se a ser humilhado com desprendimento e festa.

Jesus disse com total precisão: qualquer, pois, que a si mesmo se exaltar, será humilhado; e qualquer que a si mesmo se humilhar, será exaltado. Mateus 23.12. Agora, a questão: como posso me humilhar sem sentir-me orgulhoso de ser humilde? Este é o xis do problema: o quebrantamento genuíno, que o espírito da cruz deve promover.

Um pregador eloquente e estudioso subiu ao púlpito como um pavão, cheio de si, sabendo que havia se preparado convenientemente, todavia, o seu sermão foi trágico. De cabeça baixa, sem disfarçar a humilhação, passou próximo de um velho crente que o ajudou com essas palavras: “se você subisse como desceu, teria descido como subiu”.

Não quero apenas, em minha vida, o discurso da cruz, eu quero a encarnação do seu curso. A grande mensagem do Evangelho é o Verbo encarnado que foi ao Calvário para me salvar de mim mesmo e a sua perfeita atualização é a minha crucificação diária levando o morrer de Jesus em meu modo de viver.

Mendigos, não fomos chamados ao pódio a fim de sermos condecorados, mas ao porão para limpar os pés dos falidos como nós.

No amor do Amado,
do velho mendigo do vale estreito, Glenio.

espírito da cruz 6 – no cemitério não há sindicato

O conceito de ressurreição com Cristo é mais facilmente aceito pela maioria da gente que transita pela igreja, do que o tema anterior da nossa co-crucificação com Ele. É mais agradável admitir o ganho de uma nova vida do que a perda da nossa antiga.

O ser humano não gosta de pensar no fim de si mesmo. Sair do controle é um baque para o velho Adão. É preferível admitir uma soma que permita o convívio do velho com o novo do que subtrair Adão para manter só Cristo. Mas, não há a menor alternativa, pois a vida cristã não se trata de uma composição, e sim, de uma substituição.

Contudo, para compreendermos isto, é necessário percebermos que nossa co-morte é algo feito para nós e nunca algo que fazemos em nosso favor. Cremos que tudo foi feito por Cristo, cabendo a nós receber seus benefícios como um dom da graça.

Os filhos de Deus creem que o seu velho homem foi crucificado com Cristo, por isso, levam em seu viver diário o morrer de Jesus como expressão de sua fé numa obra já consumada, gerando paz com Deus; enquanto os legalistas se mortificam para, de algum modo, apaziguarem a Deus por seus esforços e terem, assim, de que se gloriar.

João Nascimento

O espírito da cruz nos mantém em estado de dependência plena na suficiência de Cristo, tanto no sentido de nossa redenção como de nosso progresso. Tudo, na fé em Cristo, é totalmente pela graça e nada que não seja de graça tem valor no Reino de Deus. Contudo, não confunda a graça plena de Cristo com a indolência de gente indisposta.

Achar que podemos fazer alguma coisa na vida cristã sem a total dependência da graça é desconhecer o espírito da cruz. Cuidado Mendiguinhos: “O orgulho, no sentido religioso, é a atitude de autonomia, de autodeterminação e de independência de Deus.

Assim, só uma pessoa fraca, na vida cristã, pode ser de fato forte. É a astenia plena ou a fraqueza total mediante a morte com Cristo, que promove a dependência real na suficiência de Jesus Cristo ressuscitado. Não há cristianismo autêntico sem a morte do velho Adão que nos comandava. É preciso tirar o tirano para Cristo viver em nós.

O verdadeiro arrependimento começa na humilhação do coração e termina na transformação da vida. Por outro lado, uma vida transformada é uma vivência humilde em perfeita humilhação diante de Deus e dos homens. O cristão que foi transformado dos pés à cabeça, não somente se humilha, como também não faz caso de ser humilhado.

Um cadáver vestido ou desnudo não se envergonha. Mortos não se defendem de qualquer tipo de injúria. Nos cemitérios não há sindicatos. Se já morremos com Cristo, por que ainda nos defendemos quando somos acusados ou vilipendiados? Meus amados mendigos, nós carecemos de um exame necrológico. Morremos ou é apenas um ataque cataléptico? Onde está o atestado de óbito?

No amor do Amado,
do velho mendigo do vale estreito, Glenio.

espírito da cruz 5 – turbulência a bordo

Hoje estou enfrentando uma forte tentação. Toda tentação é humana e ataca especialmente os filhos de Deus. A vida de Jesus antes de ser anunciada a sua filiação de modo claro como o Filho de Deus é pouco conhecida. Nada se sabe de sua luta pessoal e de suas tentações. Mas, logo que o Pai proclamou: este é o meu Filho Amado em quem tenho todo o meu prazer, o inferno investiu contra Ele com uma fúria atroz.

Jesus não venceu o Diabo com sua força pessoal, mas com a fé sustentada pelo Pai mediante a Palavra inspirada pelo Espírito Santo. Ele viveu aqui num estado de total dependência do Pai. Jesus, o homem histórico, não se valeu de Sua natureza Divina para sustentar os conflitos de Sua natureza terrena. Viveu aqui no espírito da cruz.

Cristo, a segunda pessoa da Trindade, esvaziou-se de Sua glória ao tornar-se o Jesus histórico. Cristo era 100% Deus, embora vivesse por aqui 100% como homem. Jesus não foi um homem garantido pela natureza Divina, mesmo que Cristo nunca tenha se ausentado de sua história. Era a vida de um homem que confiava em Deus.

O homem de Nazaré viveu totalmente pela fé, por isso, Ele foi denominado de o Autor e o Consumador da fé. Ele viveu o tempo todo como homem sob o espírito da cruz, isto é, renunciando a Sua vontade humana e dependendo completamente do Pai.

O princípio da cruz é um modo de ser de auto-esvaziamento e, ao mesmo tempo, de total dependência do alto. Jesus renunciava Sua vontade humana enquanto se nutria da vontade de Seu Abba. Negava-se a si mesmo para gozar da aceitação do Pai.

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Alguém disse: “os tesouros no céu são armazenados somente na proporção em que são renunciados os tesouros na terra.” Negar-nos a nós mesmos, por todo tempo de nossa existência, não é nada comparado com a aprovação da Trindade, de eternidade a eternidade. Ser aceito com um amor incondicional nos habilita a renunciar aquilo que é apenas circunstancial e provisório. O espírito da cruz desconsidera o perecível.

Quem foi aceito pelo Deus eterno pode dispensar muito bem a aprovação de meros mortais. O espírito da cruz leva em consideração os tesouros eternos. Foi assim com Moisés, no Egito, que vendo as riquezas eternas toma suas decisões, preferindo ser maltratado junto com o povo de Deus a usufruir prazeres transitórios do pecado.

Minhas tentações são profundas e reais. Sou fraco e incapaz de vencê-las, todavia tenho como apólice Alguém que me segura. Porque não temos sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; antes, foi ele tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado. Mendiguinhos, se forem feitos do mesmo barro que eu, não se aflijam durante a turbulência do voo, pois o Piloto, além de ser o melhor Capitão é a Aeronave.

No amor do Amado,
do velho mendigo do vale estreito, Glenio.

espírito da cruz 4 – palco ou porão?

É importante a ortodoxia. A teologia torta é responsável pela deformação de um bando de gente que se diz cristã, mas é uma turma falsificada. Sem a boa forja teológica não se forma um caráter cristão autêntico. A doutrina correta é fundamental para a fé.

Todavia, não basta alguém ser ortodoxo, é preciso ser crucificado. Ter uma boa mensagem na ponta da língua é maravilhoso, embora muitos preguem em cima da risca da verdade, todavia, ainda podem se perder eternamente. Jesus disse que há muita gente pregando certo e fazendo muitas coisas em Seu nome, mas Ele não conhece esse povo.

Imprescindível é a mensagem ortodoxa, mas precisamos mais ainda do espírito da cruz, isto é, de alguém que morreu com Cristo e vive apenas pela vida de Cristo.

Volto a chover no molhado: é preciso ter uma mensagem certa, sim; mas, ainda assim, nunca reivindicar os direitos humanos pra si mesmo. O espírito da cruz jamais virá em busca dos holofotes, mas da iluminação do Altíssimo. Não procurará um palco para se exibir, mas um porão para se ocultar das massas, enquanto se prostra diante da Trindade.

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O crucificado pode ser usado pelo Soberano, todavia nunca usará a soberania do Senhor para levar vantagens pessoais. Aquele que carrega em si os sinais dos cravos não vai se postar como um usurpador da glória que pertence apenas ao Cordeiro.

O espírito da cruz destrona o ego da alma que pretende se valorizar e, valoriza a adoração ao Cordeiro que se humilhou para nos alcançar. Não há lugar para uma alma gorda na sala do banquete. Ninguém que se valoriza pode adorar. Austin Phelps dizia em sua meditação: “na mais elevada devoção, perdemos a consciência de nós mesmos.”

O mundo vive de exibição, o cristão do esvaziamento de si mesmo. No mundo adora-se em altar e pódio e pode-se exaltar os ídolos. No cristianismo, o espírito da cruz rechaça qualquer idolatria, fazendo morrer o ego e os seus divertimentos. Nós até temos a possibilidade, por exemplo, de apreciar o futebol, desde que fora de nossos corações.

Todo ser que respira louva ao Senhor, mas só os filho de Deus podem adorar o Redentor. O louvor é o reconhecimento da criatura diante da grandeza do Criador, porém, a adoração é o reconhecimento dos filhos do Altíssimo acerca da maravilha do Seu amor. E, neste caso, não há adoração misturada com a idolatria. Deus e ídolos se repelem.

Como esportista, foi triste ver a Alemanha dá aquele chocolate no Brasil. Mas, como brasileiro e cristão, tive que reconhecer a importância dessa surra. O futebol é um ídolo que precisa ser destronado, especialmente daqueles que se declaram filhos de Aba.

Meus caros mendigos, o espírito da cruz exclui de sua agenda qualquer tipo de idolatria que lhe toma o tempo e as afeições. Como diz o apóstolo: Filhinhos, guardai-vos dos ídolos. 1 João 5:21.

No amor do Amado,
do velho mendigo do vale estreito, Glenio.