espírito da cruz 3 – pobre, sozinho e morto.

“O cristianismo tem um segredo desconhecido pelos comunistas ou capitalistas… como morrer para o eu. Este segredo torna-nos invencíveis,” propõe W. E. Sangster.
Quem pode vencer um morto? O espírito da cruz anula o poder da cobrança. Não é possível matar quem já morreu. Há na história uma história de um cristão nobre de Roma que foi levado à presença do imperador da época, para que negasse a sua fé em Cristo.
O César, arrogante, o constrange:
-se você não negar a sua fé, eu mando confiscar todos os seus bens. Você ficará pobre e miserável. Não terá mais nada…
– Nada? Eu não possuo coisa alguma neste mundo. Como ficarei sem nada? Eu não entendo esse tipo de argumentação. Sou apenas um mordomo.
O imperador, irado, disse:
– Então, eu o mando para uma ilha deserta.
– Como assim? Em qualquer lugar que estiver, estarei na presença de Deus. Nunca estarei solitário. Não existe solidão para quem vive em intimidade com Deus.
Irritado, bravo e fora de si, o imperador se destempera e vai à loucura:
– Eu o mato; eu o mando à arena para ser comido pelos leões.
– Morte? O que é isso? Como se pode matar quem já morreu com Cristo?

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Esse é o segredo da invencibilidade. Quem pode roubar àquele que não é dono de coisa alguma? Quem pode desterrar e manter em um lugar isolado quem vive alegre na companhia da Trindade? E quem pode matar quem já foi crucificado com Cristo?
J. Blanchard disse: “Morrer para nosso conforto, nossas ambições e nossos planos faz parte da própria essência do cristianismo”. Isso é o espírito da cruz. Não se trata de uma doutrina, apenas, mas, de um estilo de vida: a mortificação da natureza terrena por aquele que teve o seu velho homem assassinado juntamente com Cristo.
O filho de Deus mortifica-se porque o seu velho homem já foi crucificado com Cristo; ele faz morrer a sua natureza terrena. O legalista tenta mortificar-se para poder apaziguar a sua consciência diante de Deus, a fim de ter de que se gloriar.
Dou valor esse pensamento de C. H. Spurgeon, quando falava aos seus alunos no seminário: “Preparem-se, meus jovens amigos, para se tornarem cada vez mais fracos; preparem-se para mergulhar a níveis cada vez mais baixos de auto-estima; preparem-se para a auto-aniquilação – e orem para que Deus apresse este processo”.
Não basta termos uma pregação correta sobre a obra da cruz, é preciso que nós tenhamos, bem definido, o espírito da cruz agindo em nós. Mendiguinhos, olhe o que diz Josif Ton a esse respeito: “Quando você coloca a sua vida no altar, quando se prontifica e aceita morrer, você se torna invencível. Não tem mais nada a perder.” Aqui reside o fato concreto da invencibilidade.

No amor do Amado,
do velho mendigo do vale estreito, Glenio.

espírito da cruz 2 – não basta acreditar

No mundo da carne, a vida antecede a morte. No âmbito da vida cristã, a morte precede a vida. Se alguém nascer nesse planeta, terá que morrer um dia. A vida da carne, por causa do pecado, encontra-se destinada a morrer. Ninguém nasce para viver, embora todos vivam aqui para morrer. Além do que, sem a morte da carnalidade, não haverá vida espiritual, por isso o espírito da cruz vem antes da criação do universo.

Quando Deus esvaziou-se, assumindo a natureza humana, veio a este mundo na condição de alguém sujeito ao espírito da cruz. Ele não veio para viver a vida humana, mas, para crucificar a natureza do pecado, infestada na raça de Adão. Se, ao nascermos, neste mundo, estamos destinados à morte, por causa do pecado, ao morrermos na cruz com Cristo, estaremos designados à vida eterna por meio da ressurreição de Cristo.

A obra da salvação do ser humano encontra-se circunscrita no âmbito da morte do pecador juntamente com Cristo. Mas não basta acreditar que morremos com Cristo, é preciso crer que continuamos mortos para o pecado e que Cristo é a nossa vida.

Jesus viveu na terra sob os efeitos da cruz eterna. Ele não fazia o que queria, mas queria o que já tinha sido determinado antes da fundação do mundo no Conselho da Trindade Divina. Jesus viveu 100% pela fé na dependência do Pai e do Espírito Santo.

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A cruz não é apenas um tribunal de execução, ela é uma via de conduta. Todos que foram crucificados com Cristo precisam viver sob os efeitos permanentes da morte na cruz, para o pecado, levando sempre no seu corpo, a mortificação do Senhor Jesus, a fim de que a Sua vida se manifeste no modo de viver de cada um que nEle crê.

Na experiência de Jesus, o espírito da cruz antecedia à cruz do Calvário. Sua vida era de renúncia e de abnegação. O espírito da cruz em nossa experiência procede e vem de nossa morte juntamente com Cristo, todavia, se expressa, no dia a dia, como o nosso estilo de vida, na qualidade de filhos de Deus.

Para mim, o sinal que evidencia a autenticidade do novo nascimento, se é que há um, não é tanto a confissão de que fomos crucificados com Cristo, ainda que isto seja fundamental, mas é o espírito da cruz agindo em nosso mondo de ser.

Richard Baxter dizia: “A cruz precisa ser carregada; não temos liberdade de passar por cima dela ou de evitá-la.” Mas, não confunda carregar a cruz com levar suas cargas. Os fardos são pesos da existência humano, a cruz é o fim dos direitos humanos. Quem já tomou a sua cruz não busca o seu currículo sob a visibilidade pública.

Se o espírito da cruz não agir em nós através da obra da cruz feita por Cristo, ninguém segue a Cristo de verdade. A pregação ortodoxa da cruz não garante o espírito da cruz, mas este, sustenta aquela.

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.

espírito da cruz 1 – sem qualquer glamour

Não vivo preocupado com a pregação correta, ainda que isso seja essencial. O que me chama a atenção, antes de tudo, é o espírito da cruz esculpido no caráter do mensageiro que se diz crucificado. O pregador da cruz deve trazer os sinais da cruz.

Se o meu ego não estiver crucificado com Cristo, de algum modo, irei botar as mangas de fora, quer no palco, quer nos bastidores. Quando o eu não estiver de fato crucificado, buscarei, de alguma maneira a esgueirar-me por entre a multidão, a fim de ser reconhecido. Um eu bem disfarçado, como se estivesse mortinho, é bem mais perigoso do que qualquer ego arrogante do mercado. Do ponto de vista do perfeito discernimento espiritual, é preferível um ego vivinho da Silva, sem máscara, do que um, fingindo-se de morto, mas vivaldino, querendo levar vantagens na pista.

A simples doutrina da Co-morte com Cristo tem produzido um bando tagarela de papagaios de gaiola que declaram-se crucificados, porém vivem como se fossem carcarás que “pegam, matam e comem”. O discurso dessa gente é corretíssimo e legal, mas o curso da vida é torto e cheia de artimanhas. É preciso cautela.

A vida espiritual autêntica não busca a visibilidade pública, uma vez que vive diante do trono para publicar as virtudes dAquele que a chamou das trevas para a sua maravilhosa luz. Quem foi realmente crucificado com Cristo não se preocupa com a sua imagem perante a platéia, mas com a glória do Cordeiro imolado. Mathew Henry dizia que “a primeira lição da escola de Cristo é a abnegação”.

O espírito da cruz não se exibe, pois tem como missão anunciar Cristo crucificado,

sem qualquer necessidade de ser visto, pessoalmente. É um espírito sem glamour.

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Alguém já disse que negar coisas a si mesmo é bem diferente de negar-se a si mesmo diante de coisas que lhe fazem digno e das pessoas que podem dar-lhe boa dose de prestígio. Assim, nada é mais aviltante para o ego do que o seu anonimato.

O espírito da cruz tira o crucificado do palco e o põe no sepulcro. Como dizia  G. B. Cheever “À medida que o homem morre para o eu, ele cresce em vida diante de Deus.” Quando o ego some, Cristo assume a vida dos filhos da ressurreição.

Uma irmã sussurrou-me: não confio naquele pregador. – Por que? – Tudo o que ele fala é certo, mas o seu estilo é político, além do que, esnobe. Ele tem a doutrina correta, mas uma ambição desmedida, no sotaque. Ainda que ele fale sobre a obra da cruz, a sua fala denuncia, no fundo, o seu desejo de pódio. O seu espírito é mais de trono do que de cruz. O comentário é pertinente e precisa de atenção especial.

Concordo com A. W. Tozer que “há uma doce teologia do coração que só se aprende na escola da renúncia.

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.

migalhas para mendigos 12 – prostrado em adoração por causa da fé

Não sei quem disse, mas é bem dito: “Qualquer pessoa pode contar as sementes de uma maçã, mas só Deus pode contar as maçãs que brotarão de uma semente.” A onisciência é dificílima de compreensão, mas um Deus que seja previsível deve ser desprezado.

Vocês, por acaso, já viram algo que se compare à graça generosa de Deus ou à sua mais profunda sabedoria? É algo acima da nossa compreensão, que jamais entenderemos. Há alguém que possa explicar Deus? Alguém inteligente o bastante para lhe dizer o que fazer? Alguém que tenha feito a ele um grande favor ou a quem Deus tenha pedido um conselho? Tudo dele procede; Tudo acontece por intermédio dele; Tudo termina nele. Glória para sempre! Louvor para sempre! Amém. Amém. Amém. Romanos 11:33-36 (Bíblia “A Mensagem”)

É constrangedor o fato de saber que Deus nunca pode ser surpreendido, mas, ao mesmo tempo, é um descanso para aqueles que creem na imutabilidade Divina. Saber que Deus é o mesmo de eternidade a eternidade e que não pode ser tratado como mero reformador de móveis usados é, igualmente, assustador e consolador.

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Um pensamento que me tem ajudado nesses últimos anos é o de Gerald Coates, que diz: “Deus nunca esteve decepcionado com você, pois Ele jamais teve ilusões a seu respeito“. Se eu não estiver fora do alcance de Suas mãos protetoras é porque nunca estive fora do alcance de Seus olhos previdentes. Se Deus me tem alcançado na história é porque Ele já me havia projetado na eternidade. Minha história com Deus não é casual ou provisória.

O pecado não foi um acidente, nem a redenção é um remendo. Porém não foi Deus quem promoveu o pecado, nem a salvação foi vista depois da queda. Mas, preciso de atenção – há casca de banana na estrada: “Ou Deus é soberano e a eleição, uma expressão de sua vontade, ou o homem é soberano e a eleição é uma expressão da presciência de Deus.”

Vejo agora que eu não fui salvo porque Deus já sabia que eu iria crer, porque nesse caso, Sua soberania dependeria da minha fé. Na verdade, eu fui salvo porque Deus me deu fé para crer. Se eu vivia no pecado, vivia na antítese da fé. O pecador é um incrédulo e a fé é um dom de Deus. Nenhum incrédulo pode crer se antes não for convencido do pecado.

As Escrituras falam do mistério da fé. Não vi ainda a explicação plausível desse mistério. Sei que ela vem pelo ouvir da Palavra de Deus. Sei ainda que é um dom da graça. E sei também que Jesus é o Seu autor e executivo. Mas, por que a fé não é de todos?

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Fico aqui com Benjamim B. Warfield: “A maravilha das maravilhas não é que Deus, em seu infinito amor, não tenha eleito toda esta raça culpada para a salvação, mas, sim, que ele elegeu alguns dos membros dela.” Isto é espantoso e ao mesmo tempo admirável.

Mendiguinhos, prostro-me maravilhado. Como pode Deus escolher-me a mim, o pior dos pecadores? Só adoração!

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.

migalhas para mendigos 11 – o amor de Deus não é permissivo

Eu estive lendo algo de Donald Barnhouse, e ele disse: “O amor de Deus não é uma bondade natural permissiva como muitos imaginam e, por isso, o arrastam na lama; é rigidamente justiça e por esse motivo Cristo morreu.” Mas Cristo é justo e amoroso.

Por que quem Cristo morreu? Por gente de barro, quebrada, enlameada e suja.  Morreu em favor de quem a Trindade elegeu na eternidade, mas caiu; por isso, teve que justificar na cruz e dar vida a essa gente morta em pecados, chamando, daí, eficazmente ao dom do arrependimento e da fé na suficiência do Cordeiro imolado na cruz.

A cruz é o trono em que a Divindade consegue conciliar o amor e a justiça, sem banalizar o primeiro, usando de tirania com a segunda. O amor e a justiça se congraçam tão bem no sacrifício do Cordeiro, que a Trindade é capaz de ser perfeitamente amorosa com o pior pecador, embora não seja indiferente ou condescendente com o pecado.

A Trindade amou o mundo antes que o mundo existisse. Ela continua amando a todos os Seus do mundo, mesmo depois que todos se tornaram imundos por causa da lama do pecado. A Trindade não perdeu o controle do mundo em razão do húmus sujo.

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O Deus Triúno não deixará de amar os Seus imundos que estão neste mundo de poeira e lodo, atolados no pecado. Mas o amor de Deus não é uma permissão para que vivamos enlameados. Ser salvo e achar que é normal viver na lama, é um absurdo. O bebê pode sujar as suas fraldas, mas não pode viver com as suas fraldas sujas.

Porque Deus nos ama como pecadores, isto não significa que devemos viver chafurdados no lodaçal. O filho de nome “pródigo” pode ir até ao chiqueiro e tentar comer lavagem, todavia, teve chance de cima de cair em si e voltar-se para a casa do Pai.

A Trindade tem todo poder de libertar, amorosamente, o imundo, levando Cristo a morrer por ele, e, ao mesmo tempo, fazer com que esse imundo morra para o mundo, na mesma cruz com Ele, para, em seguida, fazê-lo viver em santidade. Aqui o amor toma o lugar do réu na cruz, mas a justiça exige que o réu seja incluído no mesmo sacrifício.

Se Cristo morreu pelo pecador, como propõe o amor gracioso da Trindade, e o pecador foi unido a Cristo, como determina a justiça Divina, então, não são sustentáveis as propostas que, em nome do amor de Deus, possamos viver comendo a lavagem deste mundo imundo naturalmente. Não é da natureza dos filhos de Abba essa dieta de porco.

Tornar o amor da Trindade o patrocínio de murmuração e imoralidade é sujeira própria daquele que não conhece nem o amor, nem a justiça. Mendiguinhos, precisamos crer que os nossos maiores pecados são minúsculos diante do infinito poder da justiça de Cristo, porém, nossa insignificância é maiúscula perante seu amor eterno e incondicional ao libertar-nos de toda sujeira.

Do velho mendigo do vale estreito,

Glenio.