migalhas para mendigos 4 – santidade à moda da cebola

A santidade, para a grande maioria, é uma questão epidérmica. Tudo depende da casca. Se a aparência for boa, então, temos chance de negócio favorável. Ser santo para uma turma grande é aparentar-se piedosa. Vive-se como uma cebola mostrando só a pele.

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Há muita confusão nesse assunto da santidade cristã. Quantos crêem que precisam de um esforço hercúleo para tornarem-se santos, e daí poderem caminhar com o Senhor?

Todavia, “a santidade não é o caminho para Cristo; Cristo, sim, é o caminho reto para a santidade.”

Só a santidade de Cristo pode nos tornar santos. Santo não quer dizer um ser perfeito, impecável, mas alguém separado através de Cristo, por Cristo e para Cristo.

Leonardo Ravenhill disse: “O maior milagre que Deus pode fazer atualmente é tomar um homem impuro de um mundo sem santidade, torná-lo santo e colocá-lo de volta naquele mundo impuro, conservando-o santo.” Embora, a santidade seja a própria vida de Cristo vivendo no Cristão. Não se trata de ascetismo ou conduta estóica desenvolvida por nós.

Pare e pense! Não é a correção moral do ser humano que o habilita a andar na presença de Deus, mas é a vida santa de Cristo nele que o torna santo, sem qualquer esforço de sua parte, pois “santidade não é a laboriosa aquisição de virtude proveniente de fora, mas a própria expressão da vida de Cristo dentro de nós.” Não é pele humana; é cerne divino.

Aprecio deveras esse pensamento de Vance Havner:  “Deus nos salvou para nos tornar santos; não felizes. Muitas experiências podem não contribuir para nossa felicidade,mas tudo, na vida cristã, pode contribuir para nossa santidade.

Tenho dúvida dessa santidade sisuda. Desconfio também do tipo que cheira a suor. Fico sempre atento com a cara que parece chupar limão ou descascar cebola para mostrar que a caminhada cristã é difícil e pesada, além do que, tem prazer de exibir seu traje manchado de suor e mau cheiroso, expondo o seu esforço como moeda de conquista.

Não festejo esse tipo de santidade cheirando cecê. Eita! Prefiro aquela que tem perfume de churrasco, exalando holocausto. Para mim, o que vale de verdade é a santidade que vem da pessoa de Jesus Cristo vivendo em nossa ser. “O problema de muitos cristãos é que estão mais preocupados com sua doutrina da santidade do que com o fato de serem revestidos da beleza e da pureza de Cristo.” Que tragédia horrorosa desse humanismo!

Mas para sermos revestidos de Cristo precisamos ser despidos de Adão. A cebola só tem casca. Tira-se uma e surge outra. Tira-se a última e não tem nada. A aparência humana é, também, vazia e vadia, zomba de nossa existência. Tudo o que sobra é o surdo “aqui jaz”.

Mendiguinhos: santidade à moda da cebola não tem semente. Quem foi concebido à vida por Deus não faz do pecado uma prática. Como? A Semente de Deus está no seu ser, fazendo dele o que é.

No amor do Amado,

do velho mendigo do vale estreito, Glenio.

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migalhas para mendigos 3 – o blefe de um blefado

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Eu nunca joguei truco, mas já vi muita gente jogando. Tem jeito de ser um jogo muito animado. De quando em quando há uma gritaria, e alguém dá um berro: truco! E aí, neste caso, pode ser que alguém esteja blefando. Trucar, então, seria a esperteza do engano.

O mundo vive de aparência. A coisa mais valiosa neste cenário não é quanto se vale ou, se vale quanto pesa, mas, como se pousa. O sujeito se porta como se fosse o cara. É o teatro do faz de conta. Isto é muito interessante para a pessoa idealizada, que se nutre do seu impostor, isto é, do falso eu, construído no imaginário adoecido das sombras.

Entretanto, esse estilo imaginado é blefe de um blefado, no que diz respeito à vida no reino de Deus. Se for verdade que a graça plena seja o favor ao indigno, a honra aos ‘demeritados’, com certeza, nada se pode fazer para merecê-la.

É bizarro ver um mendigo querendo ser um fidalgo na festa de falidos. Essa postura de altivez cabe muito bem nas escolas de samba, onde a fantasia cobre a alma favelada, na expectativa de um momento de glória depois da apuração. No reino de Deus não há espaço para vanglória, nem lugar de pódio para quem foi aceito pelo amor incondicional.

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Esta proposta da graça plena fere todo sistema da meritocracia que se move através das correias dentadas nas engrenagens competitivas deste programa teomaníaco, tecido pela serpente no jardim do Éden, onde o ser humano quer se postar como se fosse Deus. Mas é ridículo ver um mendigo de fraque, querendo passar-se por Sua Majestade, o Rei.

Há três coisas que detesto comer: rim, cérebro e coração fingido. Como tenho larga tendência à hipocrisia, não consigo me relacionar bem com quem truca no jogo da vida. Foi Martinho Lutero quem disse: “o cerne da religião jaz em seus pronomes pessoais“, e, digamos: o cerne do evangelho é a ausência desses pronomes na primeira pessoa, por causa da pessoa principal em que o Seu nome está sobre todo nome, Cristo Jesus.

Se estou crucificado com Cristo, não sou eu quem vive, mas é Cristo quem vive em mim. Neste caso, não sou eu quem ajo, é Cristo quem me usa. Neste caso, nada mais me importa, pois toda importância reside n’Aquele que age através de mim.

Quando o ego não foi de fato crucificado com Cristo, sempre vai aparecer, ainda que seja nas entrelinhas, como o ator principal do teatro. O eu é insinuante até mesmo no que diz respeito à sua renúncia. Eu quero ser apreciado; não importa se nos bastidores.

Adrian Rogers disse: “há grande diferença entre negar coisas a si mesmo e negar-se a si mesmo”. É impossível ao ego negar-se. É preciso de cruz no cruel. Porém no reino da graça plena ninguém precisa fingir ser o que não é, uma vez que os aceitos são aceitos e amados assim são, nunca como se idealizam ser. Mendiguinhos, é perda de tempo trucar diante do trono da graça.

 

No amor do Amado do velho mendigo do Vale Estreito, Glenio.

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migalhas para mendigos 2 – evitando a cruz

De todas as drogas que já ouvi falar, nada se compara com Ego. No passado diziam que LSD era o máximo. Depois vieram drogas mais excitantes como o Êxtase e o Craque que têm poderes de escravização bem maiores. Contudo, tudo isso é fichinha diante do Ego.

O que você quer dizer com isso? Indagou-me alguém, quando comentava sobre o tema. Que draga de droga é essa, que nunca ouvi falar? Ego? Só rindo…

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Essa é a droga mais perigosa. O Ego é a droga das drogas. É a excitação dos vícios, ao extremo. Aquele que se torna auto drogado ou drogado por si mesmo, jamais se percebe um viciado e nunca se considera dependente. Mas é impossível libertar o egoísta, senão pela morte do seu Ego. Ninguém consegue desintoxicar a egolatria ensimesmada.

O viciado em si mesmo, se enche de si, até tratando do seu esvaziamento. Ele se estima  enquanto se desestima. Ao falar do seu fracasso, faz charme dele como um sucesso.

O drogadito de egoísmo se enxerga superior aos outros e, ao mesmo tempo, nutre o seu vício da opinião alheia. Incha-se de si mesmo e ainda precisa viver do conceito dos outros co-dependentes do mesmo vício. Nesse parasitismo suga sua identidade ébria de si, a fim de manter-se no cenário invejoso com o mínimo de energia lhe abastecendo.

A inveja consome o egoísta, embora, simultaneamente, o alimente. Admira quem o supera e, no mesmo instante, o detesta. O aplaude na platéia, todavia, pelos bastidores, o critica.

-Espelho, espelho meu, quem tem uma imagem mais distinta do que Eu?

Drogadição de Ego é irrecuperável por qualquer metodologia científica. Aqui, só a morte, e, que não seja por suicídio, pois, neste caso, o tal Ego ainda teria chance de se orgulhar de ter dado uma saída honrosa para o seu beco sem saída. O Ego é deveras incorrigível.

Eu, para ser liberto de mim, preciso morrer para mim mesmo e, essa morte tem que ser solidária e nunca solitária. Só a minha morte compartilhada com Cristo pode me libertar de meus trejeitos de altivez. Eu preciso ser assassinado com Cristo para não incorrer na presunção gnóstica de que posso me salvar pelo minha auto-aniquilação.

Acredito que Watchman Nee esteja certo: Que significa para mim estar crucificado? Penso que a resposta resume-se magistralmente nas palavras com as quais a multidão referiu-se a Jesus: ‘Fora com ele‘!

Não vejo alternativa: ou estou crucificado com Cristo, ou ninguém consegue me libertar do meu vício de auto valorizar-me.

Vamos tentar entender: quando a Trindade coloca a nossa vida egoísta na cruz com Cristo, e quando nós recebemos a nossa morte juntamente com Ele, então nos tornamos de fato invencíveis. Neste caso, não temos mais nada a perder, nem coisa alguma a ganhar, uma vez que Cristo será tudo em nós. Se Ele for tudo, eu nada serei. Onde estará agora o vício irrecuperável? 

 

No amor do Amado do velho mendigo do Vale Estreito, Glenio.

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