gotas de generosidade XV

drops_09_by_tienod

Estou agora na varanda da casa de uma propriedade no sul do Piauí. Esta é uma época cruel de seca brava e o cinza toma conta da região verdosa de outra estação. A beleza outrora da temporada das chuvas some por encanto na secura das árvores. Quase tudo fica aparentemente sem vida. Aos olhos superficiais vive-se aqui num mundo morto.

Eu nasci neste rincão seco e isolado do Brasil, que nem sei se é Brasil e tão pouco Piauí, já que continua sempre esquecido dos políticos de todos os matizes. Embora, para mim, esse é o velho Paraíso perdido, uma lembrança simbólica do Éden.

Segundo a arqueóloga francesa radicada no Brasil, Niède Guidon, a primeira fogueira da história do homem se deu bem aqui no Piauí. Com este pano de fundo arqueológico sou tendencioso para denominá-lo de meu Paraíso, pois é assim que o vejo.

Um amigo que o visitou no auge do estio, me sussurrou com ironia: – como você pode denominar esse torrão morto de Paraíso?  Mal sabe ele dos milagres dos céus. Deus, o Todo-Poderoso, todo ano, esconde a beleza do sertão como o manto cinzento das matas secas. Isto não é um truque de mágico, é apenas uma habilidade soberana do Criador.

Quando vêm as primeiras águas, porém, o cenário muda repentinamente, e, de um dia pro outro, aquele panorama triste da morte se reveste com a verdura da ressurreição. É algo de beleza indescritível. A vida exuberante toma conta da natureza e o Paraíso oculto eclode em esplendor, gerando abundância no mapa.

O sertão sofrido é muito generoso.

A vida que nasce da morte é generosa. Todo cristão legítimo também é produto da tumba vazia e da vida abundante da ressurreição. Não há filhos de Deus em tons cinzas; eles são como o Fênix que ressurge das cinzas, recobertos da vida plena que vence a morte, por isso mesmo, são a espécie da generosidade. Filho de Deus mesquinho é improvável.

O sertão com certeza floresce depois das primeiras águas. Bem-aventurado o homem cuja força está em ti, em cujo coração se encontram os caminhos aplanados, o qual, passando pelo vale árido, faz dele um manancial; de bênçãos o cobre a primeira chuva. Salmos 84:5-6. O vale árido ou vale de Baca é o vale das lágrimas que regam as dores que vão às portas da aurora onde a esperança faz a sua morada cada manhã. A primeira chuva da ressurreição é a causa de uma vida plena de amor, esbanjando generosidade.

A geografia desta região árida é uma boa metáfora para a interpretação da vida cristã em sua realidade espiritual. Antes éramos secos e improdutivos, mas quando foi crucificado o nosso velho Adão com Cristo, ganhamos na madrugada do primeiro dia da nova semana da redenção a vida generosa capaz de fazer desses indigentes miseráveis, os mendigos mais generosos com o porte de Sua Alteza, no Reino da graça. Vale a pena experimentar este tipo de biografia.

Do velho mendigo do vale estreito, Glenio.

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