Conservando o meu nome e não negando a minha fé… 1

Ao anjo da igreja em Pérgamo escreve: Estas coisas diz aquele que tem a espada afiada de dois gumes: Apocalipse 2:12.

Esta é a terceira carta às igrejas da Ásia Menor, hoje, Turquia. Provavelmente, Pérgamo seja o terceiro período da história eclesiástica. Estamos examinando estas igrejas, além de suas características locais, levando em conta uma interpretação da filosofia histórica. Acreditamos que cada igreja do Apocalipses represente uma época determinada da história universal da igreja.

babel X Cross of Christ

Pérgamo quer dizer “torre alta” ou “inteiramente unido”, significando, neste caso, tal como se fosse casamento. De qualquer maneira, há aqui os dois sentidos correndo com sutileza por entre as linhas do texto. O sinal de elevação que se percebe no trono de Satanás e, o conceito da união de casamento, pela doutrina de Balaão, que vamos ver no decorrer do estudo.

Conheço o lugar em que habitas, onde está o trono de Satanás, e que conservas o meu nome e não negaste a minha fé, ainda nos dias de Antipas, minha testemunha, meu fiel, o qual foi morto entre vós, onde Satanás habita. Apocalipse 2:13. Será o humanismo uma pista para alturas? Satanás é o alpinista mais perspicaz do universo. O Evereste é fichinha para ele.

Em Pérgamo, na Grécia antiga, atual Bergama, na Turquia, havia um altar de mármore; uma magnífica estrutura dedicada a Zeus, a principal figura do panteão, que foi construída no século II a.C, e que, hoje, se encontra restaurada no Museu Pergamon em Berlim, na Alemanha. Havia também uma biblioteca que rivalizava-se com a de Alexandria, no Egito.

Essa biblioteca foi um dos principais acervos da ciência no mundo antigo. E por causa de sua projeção bem como da rivalidade com a de Alexandria, o Egito deixou de exportar papiro para a Grécia. Diante da crise, sem ter onde escrever seus livros, foi nesta cidade que começou-se a usar couro de cabra e de ovelha em lugar do papiro, daí o nome pergaminho.

Além do altar de Zeus e da biblioteca, havia um templo imponente a Esculápio, o deus curador da medicina, que tem como símbolo a serpente e ainda o primeiro templo da Grécia antiga dedicado a um César, neste caso, César Augusto, o modelo da governabilidade da ordem romana.

O promontório onde estava construída a cidade exibia os traços de exaltação, tanto em seus altares aos deuses pagãos, como no culto à pessoa do Imperador. A ciência e a magia da serpente, ali adoradas, apontavam para o escorregão do Éden. O zumbido de Zeus, o sibilo da Serpente, a influência da biblioteca e o culto altivo ao Kaiser são indícios claros do trono de Satanás em Pérgamo.

A proposta da serpente, no Jardim, foi tornar o ser humano como Deus, levando-o a revel por meio do cardápio proibido. Usando o conhecimento do bem e do mal e promovendo o culto à personalidade, assistimos ao espetáculo mais trágico do governo luciferiano no seio de uma humanidade sedenta por glorificação, mérito e pódio. Todos os elementos da queda se fazem bem presentes nesse endereço na terra dos pergaminhos marcados pela vaidade.

Foi nesse cenário sinuoso, encima do rastro suntuoso da cobra, que essa igreja manteve-se firme à sua identidade em Cristo. Diante do trono de Satanás, Jesus diz à liderança dessa igreja, mesmo sob o perigo dos altares: conservas o meu nome e não negaste a minha fé. Vemos a igreja de Pérgamo como uma cristã autêntica, identificada pelo nome do Cristo, subsistindo pela  em Cristo, dada pelo próprio Cristo. Veja: não negaste a minha fé.

Temos que entender: a fé não é um talento natural. Ninguém nasce portando fé quando vem a este mundo. Todos nós somos incrédulos por descendência adâmica. Se alguém estiver crendo, temos que admitir que houve um milagre nesta pessoa. A fé é um dom de Deus e nunca um predicado do velho Adão. Se a fé fosse nossa, a salvação jamais seria pela graça somente, uma vez que a nossa fé daria a sua contrapartida, sujeita à vanglória.

Antipas, a testemunha fiel, foi um exemplo de fé e coragem, enfrentando o modelo altivo do humanismo soberbo, a ponto de perder a sua vida no ninho da serpente. O martírio deste cristão revela uma postura firme de oposição ao culto voltado ao personalismo, tão em voga na época, como nos tempos de Laodicéia, ou seja, na era da pós-modernidade.

Satanás se nutre da poeira em redemoinho, isto é, do pó elevado às alturas. Explicando: se a Serpente só come pó, então esse pó que lhe dá energia é o desejo da auto-latria do ser humano em exaltação aos píncaros da glória; é a divinização da criatura que se vê na dimensão do Criador. Isto é o que podemos descrever como sendo o trono de Satanás no coração da raça humana.

O extermínio de Antipas é o primeiro registro de um cristão asiático martirizado pela fé e um grão de trigo que tem rendido muitos frutos. Pouco sabemos sobre ele, mas, muitos na história têm sido animados por seu exemplo. É preferível ser um dilacerado pelas feras e ferido pelas armas a se armar de honras pessoais no culto da vanglória humanista.

Essa igreja, porém, tinha alguns senões em seus bastidores: Tenho, todavia, contra ti algumas coisas, pois que tens aí os que sustentam a doutrina de Balaão, o qual ensinava a Balaque a armar ciladas diante dos filhos de Israel para comerem coisas sacrificadas aos ídolos e praticarem a prostituição. Apocalipse 2:14.

Se a presunção de excelência conduzia ao trono de Satanás, a doutrina de Balaão levava à idolatria e promovia a mistura entre o santo e o profano. Aqui temos a conspiração pelos laços do casamento misturado. Não podendo amaldiçoar a quem Deus já abençoou, o profeta inoculou a idéia idólatra da prostituição espiritual, através do casamento com as moabitas.

Sociedade entre os filhos Deus e os filhos do maligno nunca deu certo. Não há comunhão entre luz e trevas. O trigo e o joio não são a mesma coisa. Por mais semelhantes que sejam, o Cristianismo não flerta com o humanismo. Não há menor compatibilidade entre eles.

Satanás é o técnico dos humanistas. Jesus Cristo é a vida dos cristãos. O humanismo exalta o ser humano para fazê-lo auto-suficiente nos altares do mérito, enquanto o Cristianismo verdadeiro humilha Deus numa cruz, a fim de torná-lo solidário com a humanidade, na plena libertação do ensimesmamento da raça adâmica. Aqui vemos duas realidades absolutamente contrárias e irreconciliáveis.

Cristianismo e humanismo não jogam frescobol. Não dançam juntos e não fazem acordo. “No Cristianismo, a soberania do Deus triúno é o ponto de partida, e este Deus fala através de sua Palavra infalível. No humanismo, a soberania do homem e do Estado é o ponto de partida, e é a palavra dos homens da elite e da ciência que deve ser ouvida”.

O Cristianismo, ao valorizar o ser humano, precisa crucificar os membros do humanismo. Por outro lado, o humanismo ao deificar o homem, anula o valor da cruz de Cristo. Os dois jamais participam juntos do mesmo banquete. Não há qualquer confraternização entre eles.

Leon Tolstoi dizia com um bom e vivo sotaque de fé cristã: “O cristianismo, no seu verdadeiro significado, destrói o Estado.” E eu apenas concluo na minha total insignificância: o humanismo, em sua loucura e em sua paixão desenfreada, destrona e dispensa a Trindade de seus projetos.

Segundo Judas, provavelmente o irmão do Senhor, este processo humanista tem três mentores principais de trágicas consequências, mas… Ai deles! Porque prosseguiram pelo caminho de Caim, e, movidos de ganância, se precipitaram no erro de Balaão, e pereceram na revolta de Corá. Judas 1:11. A perseguição, o erro por ganância e a revolta. (Caím, Balaão e Corá).

Além da mistura encontramos ainda o mesmo balaio de gatos que apareceu no primeiro período da história da igreja, em Éfeso. Outrossim, também tu tens os que da mesma forma sustentam a doutrina dos nicolaítas. Apocalipse 2:15.

Talvez aqui em Pérgamo, nesse casamento infeliz do humanismo com esse cristianismo imaturo, tenha sido o local onde os enfezados nicolaítas ganharam, ainda mais, o gás para se desenvolverem como o cancro do clericalismo asfixiante dessa religiosidade humanista.

Os nicolaítas são os controladores do povo. Nunca foram lavadores de pés, como Jesus, antes, são dominadores do rebanho e caçadores de tronos. Vivem por aí tosando a lã das ovelhas; bebendo o leite dos cordeiros; comendo a carne e a gordura das cevadas, mas nunca curam as feridas; foi assim que o profeta Ezequiel os descreveu. É um grupo mui antigo, mas continua vivo e ativo nos dias atuais.

Essa igreja representa um período confuso da história, que começa com as atrapalhadas clássicas do imperador Constantino, ano 313, e vai até ao surgimento do catolicismo em seu modelo romano, com o Papa Leão I (Magno) – de 440 a 461. Nessa época assistimos ao casamento misto entre o babilonismo e a “fé” cristã conspurcada pelos altares idólatras com imagens e imagináveis glorificações.

Agora chegamos, nesta carta, ao convite firme da mudança de mentalidade e a uma ameaça parecida com a do anjo, no episódio de Balaão: Portanto, arrepende-te; e, se não, venho a ti sem demora e contra eles pelejarei com a espada da minha boca. Apocalipse 2:16. Tanto os humanistas camuflados de santos como os controladores profissionais vestidos de mantos sagrados precisam emendar-se de coração, sentindo pesar pelos seus pecados no seio da igreja.

Jesus exorta ao arrependimento, mostrando sua disposição de extirpar, com a espada afiada que sai da sua boca, a presunção dos idólatras; a arrogância dos adoradores no culto ao personalismo; a trama da turma que mistura o sagrado com o secular; além dos dominadores sufocantes do seu rebanho. O assunto é bem sério e o caráter é urgente.

Quem tiver juízo e também ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: Ao vencedor, dar-lhe-ei do maná escondido, bem como lhe darei uma pedrinha branca, e sobre essa pedrinha escrito um nome novo, o qual ninguém conhece, exceto aquele que o recebe. Apocalipse 2:17. Aqui não vemos uma sociedade secreta, mas um segredo revelado.

Sem a eleição do Pai não há vivificação pelo Filho; sem a vivificação do Filho não há a conversão pelo Espírito; sem a conversão por meio do Espírito não há o banquete para o insurgente na casa do Amor incondicional da Trindade.

Fica claro que o maná que satisfaz a fome da alma ávida de sentido, bem como o registro de nascimento no cartório do céu, dando identidade à nova criatura, só serão viáveis àqueles que, mediante a graça plena, os receberam por decisão moral de um ser responsável, convencido pelo Espírito Santo.

O período de Pérgamo foi a época marcante de semeadura da confusão lenta e sutil rumo à fortaleza de Anu, sob os auspícios tenebrosos da filosofia babilônica. Foi o casamento misto da igreja com o humanismo aspirando aos altares da idolatria, embora, nessa igreja altiva, houvesse quem se mantivesse firme ao nome de Cristo e não negasse a fé dada por Cristo.

Esse tempo cruel do culto à personalidade e do governo da casta meritocrata do clericalismo, além de ser uma era imponente de prostituição eclesiástica, foi a maior tragédia na história da igreja. Mas, graças à Trindade, mesmo nesse período ensombrado, houve suficiente graça, como sempre, para promover a substituição da vida adâmica pela vida de Cristo. Glória ao Soberano Senhor. Aleluia. Amém.

O velho mendigo, Glenio.

A SUFICIÊNICA DE CRISTO SUPRINDO A DEFICIÊNCIA HUMANA

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Então, ele me disse: A minha graça te basta, (ou é suficiente) porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo. 2 Coríntios 12:9

Saulo, o perseguidor da Igreja, o religioso implacável, foi transformado em um filho de Aba e servo de Jesus Cristo. Paulo, o filho-servo convertido, passou pela escola do deserto, sendo preparado pelo Espírito Santo para a obra do apostolado cristão. Tornou-se um baluarte da pregação do evangelho e fez uma viagem particular à estância celestial, se no corpo ou fora deste, ele não tem noção, mas sabe que esteve num ambiente denominado terceiro céu. Foi uma realidade incomum.

Lá, Paulo, o apóstolo gracioso, ouviu coisas indizíveis para qualquer mortal e, ao regressar como alguém fora de série, estava em perigo. Talvez, ele seja a única pessoa que tenha tido este privilégio. Mas, agora, o perigo rondava a sua alma. Ser especial é encontrar-se tendente à presunção. Ninguém pode ser único em matéria de distinção, sem cair no risco da vanglória.

A obra prima do pecado é nos perpetrar no nível dos condecorados, com uma boa opinião de nós mesmos. Por isso, o Pai precisava entrar neste assunto perigoso. Foi aí que Aba enviou um mensageiro de Satanás para desmontar a altanaria deste super astronauta. O Manual do Fabricante já prescrevia: A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito, a queda. Provérbios 16:18.

Não há nada no coração do ser humano que mais se contraponha ao Espírito de Deus do que a ostentação da glória pessoal. Desconstruir uma posição privilegiada foi uma tarefa divina aos cuidados de um mensageiro maligno. O projeto era de Deus, mas o desconstrutor foi Satanás.

O Soberano Deus pode usar qualquer uma das suas criaturas, mesmo as mais rebeldes e malignas, para a execução de qualquer um dos seus propósitos em benefício dos seus filhos. O Senhor é tão poderoso que até mesmo os seus inimigos mais ferrenhos, quando são ordenados, o obedecem sem controverter. Neste Universo não há dois soberanos coexistindo ao mesmo tempo. Não existem dois Deuses, um do bem e outro do mal. Elohim, o Deus Triúno, é o único Criador e todos os outros seres criados são apenas criaturas.

O apóstolo Paulo corria grande risco de ensoberbecer-se com a grandeza das revelações. Então, o Senhor lhe designou um espinho na carne para abatê-lo. Era um representante de Satanás, mas quem havia dado a ordem para o mister foi o próprio Senhor. Paulo carecia de esvaziamento.

O orgulho é a principal plataforma do inferno para o lançamento do pecado, enquanto a humildade é o manto que reveste os filhos de Deus. O Diabo não tinha nenhum interesse em desensoberbecer o enfatuado viajante dos páramos celestiais. Na verdade, a sua intenção era mantê-lo elevado e cheio de si mesmo. Quem queria quebrantá-lo era o Pai, por isso a sua estratégia articulada para a desocupação deste inquilino sorrateiro. Cuidado com a invisibilidade do orgulho.

O pecado nos tornou teomaníacos. Somos uma raça aspirante ao trono de Deus. Mesmo os santos sofrem deste mal do altar. Queremos ser vistos como santos. Gostamos de ser reconhecidos como crentes maduros e evoluídos. Temos prazer em contar aos outros das nossas aventuras espirituais exitosas e apelamos para a platéia aprovar o modelo de nossa santidade.

Graças ao Pai por sua intervenção. O filho de Aba precisa ser exaurido de sua presunção humanista. Os sofrimentos aparecem aqui como instrumentos cirúrgicos para o enfraquecimento de nossa humanidade prepotente. Enquanto no esporte os atletas tomam anabolizantes para super fortalecer os músculos, na vida espiritual, o Pai envia espinhos satânicos para nos fazer fracos. Astheneia é a palavra grega que nos habilita à dependência divina. Ela é a instituição do fracasso.

No reino de Deus, a impotência é o verdadeiro caminho da graça para a superpotência espiritual. Quanto mais eu decrescer em fraqueza, isto é, quanto mais astênico eu estiver em minha alma, mais serei dependente do Todo-Poderoso e, neste caso, ao chegar à total impotência, me tornaria potentíssimo, através da onipotência divina. Paulo sabia do valor desta lição, ao dizer: tudo posso naquele que me fortalece. Filipenses 4:13. No reino de Deus, quando estou débil, então sou feito pujante. Quanto mais impotente em mim mesmo, mais encouraçado pelo poder do alto.

A Escola do esvaziamento passa também pelo júbilo na lição da húbris, outra palavra helênica que Paulo usou no seu texto e que significa: insulto, injúria, repreensões, dano ou incômodo. É uma contradição total você ter prazer nos ultrajes, mas esta é a tônica do seu aprendizado. Pelo que sinto prazer nas fraquezasnas injúrias,nas necessidades, nas perseguições, nas angústias, por amor de Cristo.Porque, quando sou fraco, então, é que sou forte. 2 Coríntios 12:10.

Suportar a afronta sem execrar o ultrajante é uma das matérias básicas para a desconstrução da nossa altivez. O modelo é Cristo e a competência é a sua Vida incriada, agindo em nós, administrada pelo Espírito Santo, pois ele, (Cristo) quando ultrajado, não revidava com ultraje; quando maltratado, não fazia ameaças, mas entregava-se àquele que julga retamente. 1 Pedro 2:23.

A graça de Deus é Cristo, e a graça de Deus, em Jesus Cristo, nos é suficiente. Se Cristo é tudo e em todos, ele é a suficiência divina suprindo a deficiência humana. Toda a suficiência onipotente de Deus encontra-se provendo, em Cristo, toda aanagke, ou necessidade humana.

Fazer festa diante da carência é uma atitude imprevista na prole de Adão. Se Paulo sentia prazer diante da indigência ou penúria, no seu dia a dia, temos que admitir que se trate de outra espécie de ser humano. Ainda que o cristão faça parte da humanidade, ele não é mais um humanista arrogante e calculista. O seu egoísmo foi pregado na cruz com Cristo e ele agora vive numa dimensão da abastança da Vida não criada do próprio Cristo ressurreto, no seu interior.

Uma das coisas que me impressiona na vida cristã é a capacidade de suportar as adversidades. Isto só vem confirmar que estamos diante de outra realidade. Saulo, antes de sua conversão, foi um perseguidor implacável dos cristãos. Depois do seu novo nascimento, Paulo foi um perseguido e sentia alegria em suas diogmos ou perseguições. Aqui não se trata de um masoquista que sente prazer no seu sofrimento, mas de alguém que tem prazer pela causa do seu sofrimento.

Os cristãos sempre viram nas perseguições um motivo de júbilo por estarem envolvidos em uma causa que tem um valor eterno. Foi Jesus quem disse: Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus. Mateus 5:10. Que felicidade mais curiosa!

É estranha, mas real. Quem é mais inocente do que Cristo? Quem foi mais perseguido até agora do que ele, neste mundo? E, se Cristo vive em nós, não há alternativa. Ora, todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos. 2 Timóteo 3:12. Está claro que não há vida piedosa sem perseguição, mas também não haverá uma vida realmente piedosa sem o contentamento em Cristo. É impossível Cristo ser a nossa Vida e não sermos bem-aventurados.

A última palavra usada pelo velho apóstolo para definir o método de sua educação espiritual avançada foi stenochoria, que deve ser traduzida por angústia. O desenvolvimento espiritual não nos isenta da participação das agonias em nosso íntimo. É na crise dolorosa que a alma se apega à suficiência de Cristo. Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada? Romanos 8:35.

Não existe crescimento na Vida espiritual ou evolução em santidade sem estas cinco lições especiais. O poder de Deus só se aperfeiçoa na fraqueza. Tudo isto, todavia, por amor de Cristo.

John Owen afirmava no século XVII: “não teremos nenhum poder de Deus, a não ser que sejamos convencidos de que não temos nenhum poder em nós mesmos”.Aquele que é totalmente fraco tem toda a chance de depender da onipotência divina. Quem é perfeitamente deficiente traz a garantia de ser suprido pela suficiência de Cristo.

O aprimoramento da fraqueza passa por estas quatro etapas. Quando injuriado não revidar com insultos. Quando estiver passando necessidade não chamar a atenção dos outros, mas confiar somente em quem pode prover suas carências. Quando forperseguido por causa do evangelho nunca se defender, ainda que possa explicar os fatos que estão movendo o acossamento.

Por fim, quando estiver passando pelos vales sombrios da angústia, lembre-se que o Senhor também cruzou estes vales, tornando-se, em tudo, a nossa suficiência. Agora saiba que, em tudo somos atribulados, porém não angustiados; perplexos, porém não desanimados; perseguidos, porém não desamparados; abatidos, porém não destruídos; levando sempre no corpo o morrer de Jesus, para que também a sua vida se manifeste em nosso corpo. 2 Coríntios 4:8-10.

Glenio.

GOTAS DE GENEROSIDADE XIII

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Na última Migalha, abordamos a questão do discernimento ante o descaramento da turma que anda à mão armada com a Bíblia, extorquindo os incautos. Falamos da velhice desse crime e da sua universalidade. Vimos que é coisa antiga e que engloba todos os sistemas das religiões em geral. Por isso, precisamos discernir quem é quem nesse imbróglio.

 
Se Deus tem aseidade, isto é, se Ele não precisa de coisa alguma, por que, eu, que tenho muitas necessidades, devo contribuir para a obra de Deus? Como uma pessoa carente de recursos é convocada a colaborar com a obra de alguém que de nada precisa?

 
Mas, quem disse que a minha cooperação visa ajudar a Deus? Quem teve essa idéia? Na verdade, quando eu participo nesse mister, é porque Deus, graciosamente, está agindo em meu íntimo para poder ampliar as dimensões de minha alma raquítica. Ele não precisa de coisa alguma, embora eu precise ser dilatado em meu coração com o Seu amor.

 
Amy Carmichael foi uma pessoa miúda e enferma, um toco de gente; viveu doente como uma missionária por toda a sua vida, na Índia, sem murmuração, expandindo com alegria o seu odre em generosidade. Ela fundou um orfanato para cuidar das crianças carentes e dedicou toda a sua existência sofrida em favor dos menos favorecidos.

 
Sua história é interessante. Todos, em sua casa, tinham olhos azuis, mas Amy, o sétimo bebê da família Carmichael, nasceu com os seus castanhos. Um dia, como criança, fez uma oração pedindo a Papai do céu para tornar os seu olhos azuis. Quando acordou pela manhã, foi logo ao espelho. E que cor estavam os seus olhos? Castanhos.

 
Bem cedo, Amy aprendeu que Deus nem sempre responde como a gente pede. Mas, ela também aprendeu que Ele faz muito mais do que a gente pensa. Deus usou a menina de olhos castanhos, que ficou frustrada com a sua oração não respondida e por ser franzina, frágil e enferma, para ter uma visão azul do mundo, com olhos castanhos.

 
No Reino de Deus a morte é anterior a vida e a divisão expande a visão. A semente morre primeiro para depois renascer, e aí recebe o calor do sol, a umidade da chuva, a seiva da terra, o sopro dos ventos, a seca, as bênçãos e as tormentas, para, então, poder devolver ao semeador os grãos, as espigas e os frutos. A morte para o ego é uma vida abnegada.

 
Fomos crucificados com Cristo, a fim de termos a vida em expansão generosa e sermos instrumentos de bênção no mundo das misérias. Francisco de Assis dizia: “é dando que se recebe”. Seria tão bom se déssemos amor! Mas não confunda amor com posse.

 
Mendiguinhos: só para afinar as ideias com a ironia de Oscar Wilde. “Dar bons conselhos – as pessoas gostam de dar o que mais necessitam. Considero isto a mais profunda generosidade”. Já que precisamos sair da teoria para a prática, olhe ao seu lado e veja quem está na mira. No amor do Amado.

 

 

Do velho mendigo do vale estreito. GP.

MOVIDOS PELA GRAÇA OPERANTE

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Então ela falou aos serventes: Fazei tudo o que ele vos mandar. João 2:5.

Muita gente, na igreja, que ouve falar da graça plena supõe que essa vida graciosa é uma existência de profunda inércia. Muitos acreditam que a obra da graça remove qualquer esforço do homem, e sustentam uma indolência paralisante para garantir a autenticidade
da operação divina. Para essa gente, viver pela graça significa viver sem qualquer realização por parte do próprio homem. Alguém que queria se esquivar de sua responsabilidade pessoal, bradou certa vez: “Estou vivendo pela graça e não devo fazer nada”.

Parece que há um equívoco aqui. Sabemos que a religião é uma estrutura humana de muitas atividades, mantendo sempre as pessoas ocupadas com excesso de ativismo para demonstrar o seu papel diante da divindade, e por isso, muitos pensam que é preciso fugir completamente de qualquer tipo de diligência que possa caracterizar esforço humano. Se religião é tudo aquilo que o homem faz para tentar alcançar a Deus com os seus méritos, logo, o evangelho não comporta qualquer atuação humana que corresponda algum valor pessoal para a aceitação do pecador diante de Deus.

É verdade que toda ação humana para conquistar o favor de Deus é um oficio religioso desnecessário, mas isso não significa que a vida cristã seja uma inação permanente. Fomos salvos pela graça, mas não somos salvos para a estagnação. No reino de Deus não há pensionistas, aposentados ou inativos. Ninguém foi salvo pelas suas obras, contudo, ninguém que é salvo vive sem manifestar as boas obras que caracterizam essa vida da salvação. Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus; não vem das obras, para que ninguém se glorie. Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que
andássemos nelas. Efésios 2:8-10
.

Por meio das Escrituras fica claro que a salvação é uma obra unilateral da graça de Deus em favor do pecador, porém o viver cristão é uma operação graciosa bilateral que implica na atividade humana em obediência voluntária ao Senhor Jesus Cristo. Maria diz aos serventes:Fazei tudo o que ele vos disser. Aqui está a base da presteza evangélica e o fundamento de qualquer atividade no reino de Deus. O cristão não é um empresário autônomo que patrocina o seu empreendimento por conta própria, mas é um operário padrão que executa voluntariamente com alegria aquilo que lhe foi determinado pelo seu Senhor.

Os servos obedientes de Jesus Cristo não são escravos obrigados a um trabalho forçado, nem empregados suarentos dependentes de salário, que executam suas tarefas por interesses econômicos ou movidos pelas ambições do poder. No reino de Deus não há lugar para desempregados, contudo não há trabalhador constrangido pelas imposições do dever, nem pela pressão do medo ou pelos interesses injustificáveis do egoísmo humano. Todos os servos de Cristo exercem seus serviços com liberdade e nobreza, pois a motivação de qualquer atividade é a gratidão de um coração plenamente aceito pela graça de Deus.

O serviço cristão autêntico visa sobretudo a glória de Deus e não o sucesso dos homens ou o progresso das estruturas. Há uma grande confusão quando não discernimos a pessoa de Deus da obra de Deus. Muitas vezes investimos nossos talentos na construção dos sistemas que representam a obra de Deus, sem perceber que deixamos o próprio Deus de lado. O nosso serviço como filhos de Deus não pode ficar desligado da pessoa sublime de Deus. Portanto, quer comais, quer bebais, ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus. 1Coríntios 10:31.

O que está em jogo na tarefa cristã não é o êxito maravilhoso da obra divina, mas a glória dedicada ao próprio Deus. Se a glória não pertence somente a Deus, então estamos envolvidos num seqüestro grave e de proporções eternas.

O cristão verdadeiro é um trabalhador gracioso que executa sua missão com um espírito prazenteiro. Trabalho obrigado é uma tortura insuportável. Qualquer pessoa que cumpre uma tarefa sob o comando do mero dever, sob o domínio do medo ou sob os impulsos dos interesses, acaba realizando um trabalho descontente e cheio de reclamações. Há muita gente reivindicando atenção especial ou reclamando direitos, como expressão do seu desgosto pessoal. A censura e o queixume sempre refletem o azedume da alma contrariada. Por isso a Bíblia diz: Fazei tudo sem murmuração nem contenda, para que vos torneis irrepreensíveis e sinceros, filhos de Deus inculpáveis no meio de uma geração pervertida e corrupta, na qual resplandeceis como luzeiros no mundo. Filipenses 2:14-15.

No centro desse labor gracioso do evangelho está o amor como a mola mestra que impulsiona todo o projeto criativo da vida cristã. A menos que o amor seja o motivo da causa evangélica, todo esforço não passa de um artifício mecânico destituído de significado eterno. Sabemos que as vigas estruturais da sustentação espiritual se apoiam nos três pilares básicos da experiência cristã: fé, esperança e amor, mas só o amor é eterno. Faltando o amor na labuta, o processo vira rotina, a ação converte-se em fadiga e o ideal transforma-se em lamúrias. O que de fato enobrece a tarefa é o amor que está intercalado em cada momento da ação. Todos os vossos atos sejam feitos com amor. 1Coríntios 16:14.

O cristão legítimo é aquele que faz tudo o que o Senhor lhe ordena. É aquele que faz tudo para a glória de Deus, sem lamentação nem conflito, acionado pelo amor. O mundo mede a grandeza de um homem pela quantidade de pessoas que o servem, enquanto no evangelho a nobreza de um servo é medida pela maneira agradável como ele serve a muitos. Se não há satisfação no serviço, não há significado na missão. Uma das maiores alegrias que o servo de Cristo pode ter aqui na terra é ter a consciência de que tudo o que ele faz é para a glória de Deus, e que por isso, nada pode roubar o seu momento de adoração.

O serviço cristão está sempre vinculado com a pessoa do Senhor. A prática do evangelho fica determinada pela relação pessoal que o servo tem com o seu Senhor, uma vez que o alvo do serviço cristão é o próprio Senhor Jesus Cristo. Nenhum cristão genuíno se preocupa em servir aos homens. Na verdade, o serviço do cristão que está voltado para o mundo é um serviço do cristão dirigido a Cristo. Quando um servo de Cristo está realizando uma missão em favor dos homens, os seus olhos estão voltados para a pessoa de Cristo. Tudo o que fizerdes, fazei-o de todo o coração, como para o Senhor, e não para os homens, cientes que recebereis do Senhor a recompensa da herança. A Cristo, o Senhor, é que estais servindo. Colossenses 3:23-24.

Muita gente se sente ofendida por causa da indiferença dos outros e por causa dos maus tratos que recebem quando estão de bom grado servindo aquelas pessoas. Nós frequentemente ficamos melindrados com a falta de atenção, com as críticas e tantos outros expedientes descaridosos, porque focalizamos as pessoas erradas. Precisamos olhar para a pessoa certa uma vez que o nosso serviço está relacionado fundamentalmente com o Senhor Jesus Cristo. Se for Jesus que estamos servindo, ninguém pode nos aborrecer quando nos trata com indiferença.

Finalmente, todo o nosso serviço tem uma rubrica universal. O serviço de um cristão é o serviço de Cristo. Não estamos servindo em nosso nome, pois tudo o que fazemos tem a marca de Cristo. E tudo o que fizerdes, seja em palavra, seja em ação, fazei-o em nome do Senhor Jesus Cristo, dando por ele graças a Deus Pai. Colossenses 3:17. Aqui está uma das revelações mais impressionantes da Bíblia: a identificação de Cristo com o pecador e a identificação do salvo com Cristo.

Quando Cristo morreu na cruz em nosso favor, ele nos levou a morrer juntamente com ele, para nos fazer participantes da sua morte. Quando Cristo ressuscitou dos mortos, ele nos ressuscitou juntamente com ele, para que nós fôssemos testemunhas de sua vida. Logo, tudo o que fazemos como cristãos no mundo, fazemos em nome de Jesus Cristo, pois a sua vida em nós abona a certeza de que não vivemos mais para a glória deste mundo, uma vez que ele vive em nós, para a glória de Deus Pai.

Aqui está a súmula da praxe cristã: Façamos tudo quanto o Senhor nos disser para a glória de Deus, sem reclamações nem disputas, inspirados pelo amor supremo. Façamos tudo, de todo o coração, para o Senhor, e não para os homens. Façamos tudo em nome do Senhor Jesus Cristo, dando glória ao nosso Deus e Pai. Amém.

Glenio