GOTAS DE GENEROSIDADE XII

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Ouvi de uma dama da elite: “tem assaltantes no meio gospel atacando-nos. Muitos líderes se aproximam de nós, que temos recursos, para nos extorquir”. E eu concordei. Há uma turma por aí usando a Bíblia como se fosse arma de alto calibre apontada para a cabeça da pobre vítima, sacando o que poder, em nome de Deus. Discorda? Prove o contrário.

Esse crime é antigo. Os profetas já denunciaram há muitos séculos: Comeis a gordura, vestis-vos da lã e degolais o cevado; mas não apascentais as ovelhas. Ezequiel 34:3. Os negócios da “fé” fervem no mundo da trapaça, enquanto levam os ingênuos à escravatura do medo. Muitos são enganados com a lábia dos larápios da religião e caem no mesmo golpe das velhas indulgências ou dos carnês recentes, cheios de promessas fantasiosas.

A questão é séria e seria bom analisarmos alguns aspectos deste problema. Como já foi dito em outra Migalha, Deus não precisa de dinheiro, mas nós precisamos ser tratados no quesito da generosidade. A árvore frutífera, sem frutos, deve ser arrancada. Uma vida que não se doa ou não dá nada a ninguém é uma biografia mofada de ganância, que precisa de um tratamento especial para não perecer sufocada pelos cuidados deste mundo.

A bênção do SENHOR enriquece, e, com ela, Ele não traz desgosto. Prov. 10:22. E aí! Quem foi abençoado pela graça plena, não pode sonegar aos carentes e aos projetos da Verdade algumas gotas das muitas que lhe foram dadas pela generosidade do Pai. Se eu for agraciado com a fartura de cima, nunca posso olvidar os menos favorecidos aqui em baixo. Dizia Peter Marshal, “A medida da vida não é a sua duração, mas a sua doação.”

A existência dos aproveitadores da boa fé, jamais poderá limitar a bênção da frutificação no Reino de Deus. Sou um abençoado para abençoar, para isso, careço de discernimento para o assunto. Não gostaria que os maus exemplos impedissem o meu bom prazer em ser um dos instrumentos magnânimos, num mundo onde a rede da malícia prevalece.

Essa é uma desculpa esfarrapada que já ouvi. – Não contribuo com a Igreja porque há um bando de bandidos assaltando dos púlpitos, empunhando a Bíblia. Ora, se isto é verdade, é também verdade que há um grupo de alcançados pela graça alcançando uma multidão de falidos espirituais e carentes de toda sorte, com a generosidade de quem não admite permanecer paralítico por causa do mau testemunho desses 171 da religião.

Alguém já disse: “a Multidão é um monstro que tem a soma de tudo dos homens, menos o discernimento”. Abba, não te peço o conhecimento dos filósofos, mas o discernimento dos sábios, para que eu não venha tornar-me imobilizado pela inércia, filha dos equívocos.

Como Mendigos da graça somos ainda aspirantes ao posto de lava-pés, contribuindo com esmolas liberais, a fim de financiar, com alegria, os projetos que têm o selo da Cruz sob o discernimento do Espírito.

No amor do Amado, o velho mendigo do vale estreito, Glenio.

Feridas que nunca saram

doente

Cura-me, SENHOR, e serei curado, salva-me, e serei salvo; porque tu és o meu louvor. Jeremias 17:14.

Do ponto de vista de Deus, quem vem primeiro no processo da salvação: o arrependimento ou o perdão? Esta é uma questão fundamental que tem, pelo menos, duas respostas correndo pelos corredores da investigação teológica.

Os estudiosos, de tendência humanista, acham que o perdão é fruto do arrependimento. Você precisa se arrepender primeiro, para que seja perdoado depois.

Neste caso, eles fazem do arrependimento uma espécie de penitência ou, melhor dizendo, uma moeda de troca. Se você fizer a sua parte, então Deus fará a dele. Você será perdoado, desde que se arrependa do seu pecado antes da concessão do perdão.

Esta é uma corrente muito apreciada pela meritocracia humana. As pessoas ‘nobres’ se veem participantes e diretamente responsáveis pelo perdão, com uma parcela notável de contrição pessoal, valorizando a consternação como se fosse sua contrapartida no negócio que envolve a salvação dos seus pecados.

Por outro lado, para os investigadores bíblicos que têm a graça como o pressuposto básico e essencial para a crença cristã, o arrependimento é consequência do perdão. Nós nos arrependemos porque fomos perdoados graciosamente por Deus.

Segundo esta turma graciosa, é a bondade de Deus que nos concede o arrependimento. Ou desprezas a riqueza da sua bondade, e tolerância, e longanimidade, ignorando que a bondade de Deus é que te conduz ao arrependimento? Romanos 2:4.

Estes crentes no evangelho da graça plena percebem que o perdão é uma ação graciosa e incondicional de Deus, que antecede todas as reações espirituais humanas, e acaba, no final das contas, constrangendo o pecador a se arrepender por pura gratidão. O perdão gracioso gera sempre um arrependimento grato.

Como disse Alice Clay, “nada neste mundo vil e em ruínas ostenta a suave marca do Filho de Deus tanto quanto o perdão”. Foi nesse juízo que Alexandre Pope concluiu: “errar é humano – perdoar é divino”; logo, a anistia libera a culpa e gera arrependimento.

Ora, se não mereço e sou absolvido da culpa pelo sacrifício de Cristo em meu favor, então, só tenho que considerar este amor furioso e apaixonado como a causa capaz de me convencer da minha rebeldia, concedendo-me o arrependimento, graciosamente.

Esta posição me cativa ao extremo, pois vejo sempre em minha vida uma incapacidade total de corresponder ao favor imerecido. Por falar nisso, quero ressaltar aqui e agora: favor merecido me cheira a comércio, negociata, troca ou até mesmo, a favorecimento movido por admiração. Há, neste caso, algumas vantagens rolando pela esteira.

Se a obra de Deus for realmente pela graça plena, como creio que é, então, o perdão antecederá, obrigatoriamente, ao arrependimento. Sendo assim, somos perdoados imerecidamente e nos arrependemos do pecado por misericórdia e graça de Deus.

Portanto, se fomos perdoados graciosamente pela graça do Pai, temos também neste formato gracioso o modelo existencial do nosso perdão. “Quem de graça foi perdoado, pela mesma graça perdoa”. No reino espiritual é comum a genética do Pai se manifestar essencialmente na conduta do filho.

Aliás, podemos dizer, espiritualmente falando: “tal pai, tal filho”. Ou; os que não perdoam são filhos do Diabo, que, como cobra, sempre cobra e de contínuo se vinga. Enquanto isso, os filhos de Abba estão permanentemente dispostos a perdoar pela operação eficaz do Espírito Santo, tal como o seu Pai.

Todos os que foram perdoados pela graça, foram ao mesmo tempo, transformados em instrumentos vivos de perdão. Suportai- vos uns aos outros, perdoai- vos mutuamente, caso alguém tenha motivo de queixa contra outrem. Assim como o Senhor vos perdoou, assim também perdoai vós. Colossenses 3:13.

Ninguém vive neste mundo sem trombadas, contusões e feridas; por outro lado, nenhum cristão verdadeiro permanece com a ferida sangrando. Não podemos evitar as lesões, embora possamos, pela graça do nosso Pai, perdoar os agressores.

“Não é possível haver saúde mental e espiritual sem que haja perdão verdadeiro e total”. Diante desta frase, alguém me perguntou: o perdão implica no convívio com o agressor? Não, necessariamente. O perdão implica, sim, na absolvição do agressor, para que o próprio agredido não se torne uma ferida que nunca sare.

Mas isto, não significa uma convivência obrigatória com aquela pessoa que o feriu. Não há compulsão para quem se tornou livre pelo amor incondicional de Deus.

Perdoar é um imperativo da salvação e uma expressão categórica do amor liberto de regras, que nos salvaguarda de qualquer conduta determinada pelo dever. Uma vez libertos da tirania do ego, pela nossa morte e ressurreição com Cristo, ganhamos a condição de vivermos fora de comportamentos predeterminados e esperados por legalistas de plantão, a fim de manifestarmos a vida de Cristo, como o padrão de nosso viver.

Aquele que perdoa, motivado pela vida de Cristo em seu ser, pode conviver com o seu agressor, se isto for para a glória do Pai; bem como, viver distante, longe, fora do seu relacionamento, se também for para a mesma glória do Pai.

A questão básica agora, não é o nosso bem estar em si mesmo, mas a glória daquele que nos libertou de qualquer camisa de força. A norma que conduz a conduta cristã sempre será: Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus. 1 Coríntios 10:31.

O pecado nos destituiu da glória de Deus, porém a salvação nos converteu para o centro desta glória Divina. Nós não vivemos mais para a nossa própria glória, uma vez que fomos regenerados para glorificar Aquele que nos aceitou integralmente pela sua graça.

Nenhum cristão é compelido a perdoar. Não há perdão a fórceps e ninguém é forçado a indultar. Na verdade, todo cristão foi gerado pelo Pai, para perdoar como o Pai. Se eu não perdoar de fato, primeiramente, estou assegurando que não sou filho de Deus; depois, me torno um prisioneiro de profunda amargura, e as minhas feridas nunca saram.

Alguns dizem que já perdoaram, mas não conseguem esquecer. Quero apenas lembrar a estes que assim pensam: esquecer como ausência de memória, talvez só por Alzheimer. Podemos rememorar os fatos, o que não podemos é lembrá-los com azedume. Precisamos, antes de tudo, ser desintoxicados da reminiscência amargurada.

O problema real não se encontra na lembrança em si mesma, mas na lambança fermentada pelos sentimentos purulentos da infecção do individualismo. O ego ferido costuma se transformar numa pústula segregando o pus da arrogância fétida, que contamina todos que estiverem por perto. A alma dolorida é malcheirosa; supura e dá asco.

Sem o perdão custeado pela graça de Cristo de modo irrestrito e unilateral, as feridas nunca saram e o seu contágio pela baba que escorre da boca que geme, acaba infectando a família, os conhecidos e até os que se propunham a ser amigos, que aos poucos, vão saindo de fininho para não ficarem contaminados e aleijados.

O perdão é imprescindível para a boa saúde. Conversei com um amigo, alcançado agora pela graça depois de uma traição familiar, que me contou: “a pior coisa que fiz foi falar mal da minha ex-esposa após a nossa separação sofrida”. Enquanto ele mantinha a dor da infidelidade como álibi do seu vitimismo, desabafava a peçonha da amargura e se contorcia em desgosto na tentativa de expiar a sua vingança.

Quando, pela graça de Deus, ele pode liberar o perdão, as coisas mudaram. Vejo agora na sua vida um sopro de amor que só pode vir do trono do Pai. A pessoa que não perdoa vive, aqui, num inferno, infernizando os outros e sem esperança de alcançar o céu.

Só o perdão pode sarar as feridas abertas. Apenas o perdão total pode conceder o verdadeiro arrependimento. Então, alguém me pergunta se Deus perdoou a todos em Cristo. – Sim, com certeza, o perdão de Deus é ecumênico. Ela continua a indagar: por que, pois, as pessoas que foram perdoadas, não se arrependem todas?

Esta é uma tese teológica que também traz, pelo menos, duas respostas modelares. Alguns dizem que é uma questão da eleição divina. Se a pessoa é eleita por Deus, então ela se arrependerá. Outros sustentam que isto depende só da vontade do sujeito.

Acredito que há um mistério no assunto que envolve as duas partes. Não creio na eleição fatalista que escolhe alguém para a perdição, embora creia na eleição em Cristo para a salvação, que implica na decisão responsável daquele que foi vivificado pelo poder da pregação da Palavra de Cristo. Urge um milagre de vivificação antes da conversão.

O mysterium fidei ou o enigma da fé ainda continua sem um esclarecimento por se tratar de um assunto não revelado: As coisas encobertas pertencem ao SENHOR, nosso Deus, porém as reveladas nos pertencem, a nós e a nossos filhos, para sempre, para que cumpramos todas as palavras desta lei. Deuteronômio 29:29 .

Aliás, o que se sabe de verdade é que um perdoado, que não se considera arrogantemente como se fosse Deus, arrepende-se; e, arrependido de fato, perdoa e fica curado.

Glênio.

NÃO TEMAS O QUE TENS DE SOFRER

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Ao mensageiro da igreja em Esmirna escreve: Estas coisas diz o primeiro e o último, que esteve morto e tornou a viver: Apocalipse 2:8.

É bem provável que essa igreja fale do segundo período da história eclesiástica. Se a igreja de Éfeso for a era apostólica, Esmirna será o tempo das vis torturas do Império Romano. E o seu nome está vinculado à mirra, uma planta amarga que aponta para as experiências de seus seus sofrimentos amargosos, que vão, mais ou menos, até o IV séc.

Os cristãos legítimos foram sempre sacos de pancada no cenário das perseguições e tudo indica que não há alternativa na vida cristã autêntica: Ora, todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos. 2 Timóteo 3:12. Por quê? Talvez porque a graça ofenda frontalmente ao mérito, a santidade agrida à hipocrisia e o amor incondicional à troca de favores. O real é que a perseguição persegue os santos.

Essa carta começa com a identificação de Cristo como a causa primeira e o fim de tudo, bem como, Aquele que tendo passado pelo vale da sombra da morte, se apresenta no momento como O que vive para sempre. Isto também é hostil aos “donos” do mundo.

O vexame em Esmirna vem daqueles que se declaram povo de Deus, mas fazem parte da vetusta conspiração da Babilônia. O Senhor explica o caso: Conheço a tua tribulação, a tua pobreza (mas tu és rico) e a blasfêmia dos que a si mesmos se declaram judeus e não são, sendo, antes, sinagoga de Satanás. Apocalipse 2:9.

Essas tribulações decorrem do estilo de Sua Alteza, o mendigo. Dessa gente pobre, mas nobre e rica de valores espirituais; vem da inveja de Caim contra Abel; surge da soberba que jamais pode concordar com a aceitação imerecida, além das calúnias tramadas pelos ardilosos membros das academias religiosas, que visam a aprovação dos altos executivos formados nas “sinagogas” implantadas por esse modelo sufocante.

Tais “sinagogas” foram as escolas projetadas pela religião humanista após o cativeiro do povo judeu na Babilônia. Antes deste período não se conhecia nenhum sistema de ensino judaico tão legalista, cruel e controlador. Quanta gente tem sofrido com o peso pesado da conduta externa extraída pelas tradições, ritos, regras, usos e costumes?

Por outro lado, é bom lembrar ainda que foi Jesus quem declarou ser Satanás o técnico do time que joga em favor dos homens e nunca se envolveu com as coisas de Deus. Se o iluminismo humanista estiver no comando, então o cristianismo verdadeiro estará na peia.

Os maiores perseguidores da autêntica igreja de Cristo sempre foram os falsos irmãos que se infiltram no seio da igreja como se cristãos fossem, e alguns dos maiores crimes contra a humanidade foram executados pela falsa igreja. Acredito que um cristão genuíno possa até se defender em certas circunstâncias, nunca caçar ou perseguir alguém.

O cristianismo não é humanista. O humanismo se baseia no homem como a medida de todas as coisas. Propala a centralidade do ser humano e a sua glorificação na base rígida da meritocracia. O cristianismo, embora seja essencialmente humano e nunca aja com desumanidade, o seu eixo é o amor incondicional de Abba em favor dos indignos.

Isto é uma afronta ao valor do desempenho do sujeito, por isso, essa raiva louca da religião humanista contra a aceitação imerecida do indigente miserável no banquete Real. A turma que quer ter o controle não suporta os mendigos transitando no palácio do Rei.

Durante o período da igreja de Esmirna, os cristãos foram açoitados com as mais cruéis perseguições. Foi a essa igreja que o Senhor sussurrou criteriosamente: Não temas as coisas que tens de sofrer. Eis que o diabo está para lançar em prisão alguns dentre vós, para serdes postos à prova, e tereis tribulação de dez dias. Sê fiel até a morte, e dar-te-ei a coroa da vida. Apocalipse 2:10.

Está claro no texto que o diabo é o mentor das tribulações, mas os executores foram os Césares, (Kaiser – no grego é Senhor). Este título para os cristãos era exclusivo de Deus e o único ser humano que poderia recebê-lo seria Jesus Cristo, pois, tendo passado pela morte na cruz, encontrava-se, agora, ressuscitado numa dimensão além da terceira.

O cultura humanista ou o plano da serpente propõe divinizar o ser humano em geral, e em especial, o governante mundial. César, neste caso, é visto como deus e digno de toda adoração dos seus súditos. Quem não o adorasse seria perseguido e executado.

Por entender que o único Kaiser é Jesus, a igreja, nessa época, foi punida com castigos severos e encurralada nas catacumbas, vivendo escondida, enquanto se fortalecia na graça do Pai. Nesse endereço do submundo ela teve o seu apogeu de identidade cristã. Nunca o seu odre foi tão adequado como neste contexto de torturas e tormentos.

Jesus, aqui, estava animando a Sua igreja diante das atrocidades que haveria de passar, bem como, mostrando as etapas de sofrimento que ela enfrentaria durante dez estágios de aflições. A história eclesiástica registra, de fato, que estes fatos assim aconteceram.

“As dez grandes perseguições podem ser relacionadas desta forma: (a) Sob Nero: 64-68 d. C. (b) Sob Dominiciano: 68-96 d. C. (c) Sob Trajano: 104-117 d. C. (d) Sob Aurélio: 161-180 d. C. (e) Sob Severo: 200-211 d. C. (f) Sob Máximo: 235-237 d. C. (g) Sob Décio: 250-253 d. C. (h) Sob Valeriano: 257-260 d. C. (i) Sob Aureliano: 270-275 d. C. (j) Sob Diocleciano: 303-312 d. C. Durante esse tempo, a matança de cristãos foi tremenda”.

Foi um tempo de prova. Surgiu uma enxurrada de literatura apócrifa gerando confusão, e, portanto, essa foi uma época importante para a confirmação do Cânon bíblico e para que se lançassem os fundamentos doutrinários da suficiência de Cristo na experiência de todo aquele que viesse a crer por meio das Sagradas Escrituras. Nunca houve um período em que a igreja tenha sido tão atacada pelo humanismo como este. (Veja o gnosticismo).

Mas foi nessa época que o Senhor prometeu a coroa da vida a todos aqueles que fossem fieis até a morte; ou seja, quem já morreu com Cristo na cruz não vende a sua alforria por nada deste mundo. Não é possível alguém ser liberto de verdade e voltar para a prisão. A morte não mata quem já morreu em Cristo. Ela é apenas o passaporte para a vida eterna.

Deparamos no texto, fiel até a morte, com a prova dos nove que seleciona os escolhidos. Quem for do Senhor fica firme até o fim. Quem não for, desiste diante das soveladas. Esta prova aprova apenas os escolhidos que suportaram a dor até o final.

A prova da fidelidade significa, verdadeiramente, que aquele que recebeu a fé que lhe foi doada por Jesus, permanece firme somente pela graça do Senhor que lhe sustenta. Não se trata de um predicado do velho homem, mas de um atributo da graça concedido aos filhos de Deus. Não é um talento de Adão, mas um dom Divino aos Seus santos.

A fidelidade cristã não é em si mesma um mérito humano, mas a manifestação da graça do Pai na vida de Seus filhos, uma vez que: Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade. Filipenses 2:13.

Há dois vetores inexplicáveis na construção da verdadeira experiência cristã. De um lado, a soberania de Deus, do outro lado, a responsabilidade humana. Talvez a Confissão de Westminster dê uma pista para aquietar um pouco a nossa ânsia por respostas prontas.

Veja a proposta: “Desde toda a eternidade, Deus, pelo muito sábio e santo conselho da sua própria vontade, ordenou livre e inalteravelmente tudo quanto acontece, porém de modo que nem Deus é o autor do pecado, nem violentada é a vontade da criatura, nem é tirada a liberdade ou contingência das causas secundárias, antes estabelecidas”.

Desde que Deus seja a causa primaria e a criatura contigente em sua volição esteja sob os efeitos das causas secundárias, então, nem Deus em si mesmo é o autor do pecado, nem a criatura é um boneco marinete nas mãos do Soberano.

Por isso, podemos mostrar com equilíbrio o exemplo de Policarpo, um dos discípulos do apóstolo João, escolhido pela graça, quando passou por essa prova de fidelidade como o pastor da igreja de Esmirna, no inicio do II séc. Ele foi queimado vivo, em praça pública, depois de ser exortado a negar a sua fé. Mas tanto o imperativo para ser fiel, como a sua obediência estavam atreladas ao governo Divino, em sua vida.

Como não fora possível desfazer o chamado eficaz, não foi factível fazê-lo retroceder de sua convicção, mesmo sob as ameaças sádicas que culminaram com as chamas cruéis da fogueira ardente, uma vez que Policarpo havia livremente se submetido aos desígnios supremos do conselho da vontade soberana da Trindade.

A carta termina: Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: O vencedor de nenhum modo sofrerá dano da segunda morte. Apocalipse 2:11. Isto significa que, para ouvir, é preciso ter ouvidos dados pelo Senhor, capazes de ouvir. Sem a vivificação do espírito, promovida pela Palavra de Deus, não há vida espiritual e, consequentemente, não há a menor capacidade para o exercício da fé e do arrependimento.

Esmirna fala da Causa não causada; da Origem de tudo e da Finalidade para tudo. Estas coisas diz o primeiro e o último. Também trata da responsabilidade dos escolhidos pela maravilhosa graça. Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida. Tanto a soberania de Deus com a responsabilidade humana se conjugam de modo eficaz na pessoa de nosso Senhor Jesus Cristo, em quem os crentes foram incluídos desde a eternidade. Amém.

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GOTAS DE GENEROSIDADE XI.

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Velho mendigo, me ajuda nessa trajetória – foi o que me sinalizou a mendiguinha. E ela foi logo na veia. – Você tem falado muito de generosidade e eu quero desprender-me dessa minha clausura em compartilhar das bênçãos que caem na minha mesa. Como eu posso fazer e onde eu devo fazer? Há tantos aproveitadores no caminho e fico sem saber.

De fato, esta é uma questão importante. Não podemos ser indiferentes, mas também, não devemos agir indiscriminadamente. Critério é um atributo de quem precisa ser criterioso. Se eu não sei quem está por trás daquela obra, nem quais são os objetivos que governam a organização, então, devo levantar os dados. Creio que sou responsável por toda missão que ajudo manter. Ao colocar “fé” na farsa sou culpado tanto quanto os seus promotores.

Ser generoso não significa contribuir com qualquer evento que se me apresenta bonito na passarela. Volto a dizer: sou colaborador e cúmplice de tudo o que não estiver dentro dos sãos propósitos de Deus. A minha participação nunca será neutra.

Apesar de Deus não precisar de coisa alguma e, consequentemente, não necessitar das nossas contribuições, o alvo está sempre voltado às pessoas que Deus ama. Por isso, é preciso avaliar a causa e os casos em que essa missão estiver envolvida.

O primeiro requisito para uma análise é a eternidade. A minha generosidade está atrelada à salvação eterna de uma pessoa? Acredito, como Jesus, que o maior investimento neste mundo está na salvação de uma alma. Pois que aproveitará o homem se ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou que dará o homem em troca da sua alma? Mateus 16:26.

O seu investimento generoso contempla àqueles que estão labutando em prol da plena libertação das pessoa em sua dimensão eterna? Mas, por favor não me venha com certos argumentos: “eles também pregam a Bíblia. Muitos até falam em nome de Jesus”. Lembre-se, porém, que o Senhor Jesus disse a esse respeito: nunca os conheci.

Um segundo item é a necessidade. Precisamos enxergar os carentes de verdade. Estou falando aqui dos indigentes sem bolsa, dos órfãos sem suporte, das viuvas sem pensão e dos estrangeiros sem abrigo. São as classes enumeradas nas Escrituras como legítimas beneficiárias da generosidade. Não me tragam, nesta lista, os mendigos profissionais nem essa gente apadrinhada por política que compra voto e veta a dignidade do trabalhador.

Normalmente, aqueles que nunca se importam com os que não têm nenhuma importância no âmbito econômico, são exatamente os fariseus, religiosos de plantão, ou os políticos sujos que usam os pobres para, de alguma forma, levarem vantagens pessoais, fazendo da generosidade de outros uma plataforma para se locupletarem em suas ambições.

Como mendigos da graça somos movidos pelo Espírito para sermos parte da solução dos sofrimentos alheios e nunca parte deles.

No amor do Amado, do velho mendigo, GP.

Os Efeitos Eficientes da Cruz

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Quanto ao mais, ninguém me moleste; porque eu trago no corpo as marcas de Jesus. Gálatas 6:17

Todos os seres humanos trazem do berço o sinal de Adão, isto é, a presunção de serem como Deus. Essa rebeldia adâmica é denominada de teomania, porque reflete o desejo de independência de Deus, tentando converter a criatura como se fosse o Criador. Nossa história é assinalada pela aspiração ao trono e todos os descendentes da conspiração da serpente vivem serpenteando nas escadas em busca dos lugares altos.

A raça humana sofre da síndrome de altar. Há uma epidemia generalizada de grandeza fomentando a glória do pináculo. O alpinismo da notoriedade e a ascendência aos postos de comando são metas que estimulam uma laia governada pelos desejos mais ardentes de elevação, tecendo no jogo do poder uma teia viscosa de política sórdida, que garanta um jirau na caça ao auge da posição.

Ninguém neste mundo está imune ao veneno da cobra. A teomania é percebida até mesmo na sujidade da pirraça. O cantador de viola dizia em seus versos de pé quebrado: “Eu sou maior do que Deus. Maior do que Deus eu sou. Eu sou maior no pecar. Porque Deus nunca pecou”. Para ele era atraente ultrapassar a Deus nem que fosse à vileza.

Entretanto, Paulo se apresentou aos gálatas como alguém que carregava em seu corpo as marcas de Jesus. Para ele havia algo mais significativo do que a estimativa do pódio. Ele podia até subir numa plataforma, desde que a glória fosse conferida apenas ao Senhor. Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém! Romanos 11:36.

As evidências da cruz veem assinaladas pelo esvaziamento do ego. Uma pessoa que foi salva de verdade por Jesus, significa que ela foi salva de si mesma. Aquele que se estima não tem a menor estimativa do que é a salvação, uma vez que ela liberta a pessoa de si mesma. E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou.2 Coríntios 5:15.

A morte solidária de Cristo com o pecador tem como finalidade principal alforriar o escravo de si mesmo, a fim de levá-lo a viver para Deus. O pecado nos fez sujeitos a um déspota insuportável, o nosso próprio egoísmo. Ninguém é mais insatisfeito do que o ególatra, e ninguém pode ser mais contente do aquele que foi emancipado de si mesmo através do sacrifício de Cristo. Porque nenhum de nós vive para si mesmo, nem morre para si. Romanos 14:7.

Cristo nos levou a morrer juntamente com ele para que nós possamos nos renunciar a nós mesmos. Sem o desapego de nosso egotismo não haverá verdadeira vida espiritual. O ego está contaminado de teomania arrogante e não consegue se desapreciar, vivendo sempre em busca de aplausos e reconhecimento. Somos uma raça inchada e iludida com a obesidade de nossa presunção.

A renúncia de nós mesmos é sempre um resultado da consciência de nossa real imprestabilidade pecaminosa. Enquanto acharmos que somos importantes e dignos de aprovação nós teremos muita dificuldade de nos desestimar, por isso mesmo a abdicação de nossa nobreza é um milagre da morte com Cristo.

A mentalidade atual da psicologia promove acima de tudo a nossa auto-estima como a base do bem-estar emocional. Mas Jesus sustenta a necessidade fundamental da abnegação como o alicerce do seu discipulado. Dizia a todos: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23. Não há cristianismo autêntico sem estes quatro princípios essenciais.

Primeiro, a liberdade corajosa. Se alguém quer vir após mim. Ainda que ninguém venha a Cristo porque queira, ninguém poderá vir a ele se não o quiser. A vontade humana corrompida pelo pecado não quer a Cristo, mas o Espírito Santo mediante a loucura da pregação da Palavra convence o rebelde a querer aquele que ele não queria. Ninguém crê porque quer crer, além do mais ninguém é obrigado a crer. Mas quem crê, só crê porque foi persuadido voluntariamente a crer com o milagre da fé.

Segundo, a autonegação. A si mesmo se negue. Não há fé cristã sem a demissão de nós mesmos. A sala do trono não pode ser ocupada por dois regentes. Se Cristo é o rei, então o ego tem que se afastar. Não se trata de mera resignação, mas de abdicação do mando. Porque, se vivemos, para o Senhor vivemos; se morremos, para o Senhor morremos. Quer, pois, vivamos ou morramos, somos do Senhor. Romanos 14:8.

Terceiro, a atualização da morte. Dia a dia tome a sua cruz. A experiência cristã começa com a pena de morte do pecador juntamente com Cristo e continua com a sua reedição diariamente. A cruz não é um simples instrumento de tortura, mas uma sentença de extermínio que precisa de regularidade. O tempo de validade da cruz é agora, por isso é imperiosa a sua reciclagem a cada instante, trazendo sempre por toda parte a mortificação do Senhor Jesus no nosso corpo, para que a vida de Jesus se manifeste também em nossos corpos. 2 Coríntios 4:10.

Quarto, a caminhada persistente. E siga-me. Jesus não está convidando alguém para um passeio no Parque nem para uma exibição numa passarela. Ele ordena ao discípulo a segui-lo. No cristianismo, ninguém recebe um mapa de viagem e uma bússola para a orientação, deixando que cada um faça o seu próprio trajeto. A viagem do cristão obedece ao roteiro do guia. E Jesus é o único Guia. Siga-me tem implicações com a atualização da morte, com a autonegação e com a liberdade corajosa que define o perfil daquele que verdadeiramente recebeu a Cristo como Senhor da sua história.

Os efeitos eficientes da cruz definem uma marcha sem mochila e sem murmuração. O discípulo do Cordeiro não tem permissão de abrir a sua boca para reclamar das condições da viagem, muito menos para propalar os seus direitos, uma vez que Jesus nunca prometeu boa vida na estrada, nem fez propaganda enganosa para alguém levá-lo ao Procom Celestial. Talvez por isso Teresa de Ávila tenha suspeitado: “Senhor, se é assim que tratas os teus amigos, não é de admirar que tu tenhas tão poucos”.

As marcas de Jesus que o apóstolo Paulo se refere são as marcas de uma vida estigmatizada pelas sequelas da cruz. Nenhum peregrino da via crúcis tem licença de se defender ou autorização para se promover. A passeata dos discípulos do Cordeiro é silenciosa diante da plateia humana e exultante perante o trono da graça. Eles se calam ante seus feitos pessoais, enquanto cantam exultantes ao Cordeiro que já apagou todos os seus defeitos com o sangue imaculado.

Os santos não reivindicam tributos, tampouco fazem crítica ao tratamento que o Pai determinou para sua jornada. Eles têm uma ótica bem diferente do estrabismo que caracteriza os descendentes de Adão. Veja como o velho viageiro enxergava o horizonte: Porque para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós. Romanos 8:18.

Enquanto estivermos andando nesse caminho não há promessa de vida fácil. Jesus não garantiu sucesso no percurso, pelo contrario, ele foi enfático com as lutas, todavia apelou para que seus discípulos fossem bem humorados. Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem, e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vós. Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós. Mateus 5:11-12.

A estrada é complicada, mas o hotel é uma constelação de estrelas quando chegar ao fim da viagem. A recompensa no evangelho é um assunto para o fim. No reino de Deus ninguém recebe propina para promover os projetos. O prêmio é sempre no final. Não temas as coisas que tens de sofrer. Eis que o diabo está para lançar em prisão alguns dentre vós, para serdes postos à prova, e tereis tribulação de dez dias. Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida. Apocalipse 2:10.

Se os efeitos da cruz removem de nós os direitos pessoais, eles também retiram de nós a tendência de nos comparar com os outros. Quando Jesus revelou a Pedro que teria uma morte atroz para glorificá-lo, ele apontou para João querendo saber o que ocorreria ao discípulo amado. Respondeu-lhe Jesus: Se eu quero que ele permaneça até que eu venha, que te importa? Quanto a ti, segue-me. João 21:22.

Ainda que todos sejam escolhidos e aceitos pela graça, isso não significa uma uniformização nos ministérios. A soberania divina tem o direito de escolher um vaso para honra e outro para a desonra e não há isonomia nas suas decisões. Ora, numa grande casa não há somente utensílios de ouro e de prata; há também de madeira e de barro. Alguns, para honra; outros, porém, para desonra. 2 Timóteo 2:20.

A escolha de Deus é soberana e ninguém tem autoridade para controverter os seus propósitos. Por outro lado ninguém pode desfazer aquilo que Deus faz em nossas vidas. Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus?! Porventura, pode o objeto perguntar a quem o fez: Por que me fizeste assim? Romanos 9:20.

Quando o Pai escolhe um vaso para um lugar de destaque, ninguém tem o direito de discutir essa decisão. E quando ele convoca alguém para uma missão penosa, ninguém precisa ter pena desse missionário. A única alternativa que o verdadeiro discípulo tem é a que Jesus disse a Pedro: Quanto a ti, segue-me.

Na casa de Abba não há lugar para competições pessoais ou confrontos particulares. Os seus filhos têm as marcas do seu Filho Jesus, por isso mesmo o julgamento na família se pauta pela vontade soberana do Pai. Quem és tu que julgas o servo alheio? Para o seu próprio senhor está em pé ou cai; mas estará em pé, porque o Senhor é poderoso para o suster. Romanos 14:4.

Quero arrematar esse ponto com as palavras de Paulo quando iniciamos a meditação: Quanto ao mais, ninguém me moleste; porque eu trago no corpo as marcas de Jesus. As principais características do caráter de Jesus são vistas nesta sua afirmação: Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma. Mateus 11:29.

A única canga em que nós estivemos juntos com Jesus foi lá na cruz. Naquela ocasião ele morreu a nossa morte e na sua ressurreição nós ganhamos a sua vida a fim de podermos andar em mansidão e humildade de coração. A mansidão fala do nosso desapego com relação às posses, enquanto a humildade aponta para a desestima de nós mesmos em razão de sermos apenas pó. Se ainda temos apego a esses dois vetores, precisamos de mais luz para a revelação dos efeitos eficientes da cruz em nossas vidas.

Glênio.